STEPHEN KING

 ESPERA DE UM MILAGRE


The Green Mile

Ttulo original: THE GREEN MILE

Foto da capa: (r) ADS Tom Hanks no filme  espera de Um Milagre de Frank Darabont
Copyright (r) 1996 by Stephen King Ilustraes (c) Mark Geyer 1996 Impresso e encadernado para Crculo de Leitores por Tilgrfica, S. A. Lugar do Bairro Ferreiros,
Braga em Maio de 2000 Nmero de edio: 4837 Depsito legal nmero 150 036/00 ISBN 972-42-2244-6 INTRODUO Eu sofro de ciclos de insnia - um facto que no surpreender
as pessoas que leram as crnicas das aventuras de Ralph Roberts; em consequncia disso, tento ter sempre  mo uma histria que possa ler nessas noites em que o 
sono se recusa a vir ao meu encontro. Enquanto estou deitado na escurido, conto a mim mesmo essas histrias, escrevendo-as na minha mente, tal como se as estivesse 
a passar a papel numa mquina de escrever, ou para o ecr de um computador atravs de um processador de texto;
 acontece com frequncia regressar atrs para alterar algumas palavras, acrescentando pensamentos ou eliminando oraes, ou at elaborando os dilogos. Todas as 
noites recomeo este processo desde o incio, adiantando sempre um pouco mais antes de sucumbir ao sono. Geralmente, por volta da quinta ou sexta noite, j tenho 
memorizados alguns trechos completos de prosa.  muito provvel que este hbito possa parecer um pouco irracional, mas  certo  que me acalma o esprito... e, como 
forma de matar o tempo, podem crer que leva a palma, e com grande vantagem, a contar carneiros. Em ltima anlise, estas histrias acabam por sofrer um certo desgaste, 
 semelhana de um livro que se l repetidamente. ("Deita-o fora e compra um outro novo, Stephen", diria a minha me por vezes, lanando um olhar irritado para o 
livro aos quadradinhos, ou livro de bolso, que to da minha preferncia eram. "Esse j foi lido at ter ficado aos boc
 ados.") Nessas alturas, chega a hora de procurar um outro e, durante os meus ataques de falta de sono, tenho esperanas de que ao fim de pouco tempo me ocorra uma 
nova histria, uma vez que as horas em que no se consegue conciliar o sono so extremamente alongadas. 5 Por volta de 1992 ou 1993, eu andava a elaborar uma histria 
de nome "Aquilo Que Nos Desperta o Olhar." O tema era um homem que se encontrava no corredor da morte - um indivduo de raa negra e de constituio gigantesca - 
o qual comeou a adquirir o gosto pelos truques de prestidigitao,  medida que a data da sua execuo se aproximava. A histria seria narrada na primeira pessoa 
por um velho prisioneiro de confiana, cuja funo era percorrer os corredores dos blocos de celas empurrando um carrinho cheio de livros, vendendo tambm cigarros, 
novidades e vrios outros artigos, tais como tnico para o cabelo e pequenos avies feitos de papel encerado. No fim da his
 tria, exactamente antes da execuo, eu queria que o gigantesco recluso, Luke Coffey, se fizesse desaparecer a si prprio. Era uma boa ideia, no obstante a histria 
no estar a agradar-me. Tentei moldla de cem maneiras diversas, pelo menos foi o que me pareceu na altura, embora continuasse a no resultar como eu pretendia. 
Dei ao narrador um rato de estimao que costumava acompanh-lo no carrinho, convencido de que talvez aquilo contribusse positivamente para o desenrolar do enredo, 
mas tal no aconteceu. A melhor parte da narrativa era a abertura: "Isto aconteceu em 1932, quando a penitenciria estadual ainda se situava em Evans Notch... bem 
como,  claro, a cadeira elctrica - a que os reclusos chamavam "Velha Fasca"." Na minha opinio, aquele trecho possua o efeito desejado; no entanto, nada do resto 
resultava como eu queria. Finalmente, acabei por me descartar de Luke Coffey, assim como das suas moedas que desapareciam como
 que por magia, a favor de uma fbula acerca de um planeta onde as pessoas, por qualquer razo desconhecida, se transformavam em canibais sempre que chovia... Continuo 
a gostar dessa; portanto, nada de dizer mal, esto a perceber?

Foi ento que, mais ou menos um ano e meio depois, me voltou a ocorrer a ideia do corredor da morte, mas desta feita com uma abordagem totalmente diversa: suponha-se, 
pensei, que o tipo gigantesco era uma espcie de curandeiro, em vez de ser um aspirante a prestidigitador, um atoleimado que havia sido condenado por assassnios 
que no s no poderia ter cometido, como tambm tentara reverter... Conclu que essa histria era boa de mais para ser imaginada antes do adormecer, embora a tivesse 
iniciado na escurido, ressuscitando o pargrafo de abertura, citando-o quase 6 palavra por palavra, enquanto em pensamento ia estruturando o primeiro captulo, 
antes de comear a escrever o texto. O narrador transformou-se num guarda do corredor da morte, em vez de ser um recluso de confiana, enquanto Luke Coffey se tornou 
John Coffey (no que eu tirava o chapu a William Faulkner, cuja figura de Cristo  Joe Christmas), enquanto o rato se transformava em..
 . pois bem, Mister Jingles. Desde o princpio que eu sabia que se tratava de uma boa histria, embora fosse um texto tremendamente difcil de escrever. Na altura, 
havia outros trabalhos na minha vida que me pareciam ser mais fceis de abordar - a mini-srie para a televiso baseada no livro Shining era uma delas - pelo que 
 espera de Um Milagre - The Green Mile se mantinha numa fase muito pouco consistente. Sentiame como se estivesse a dar origem a um mundo quase a partir do nada, 
uma vez que os meus conhecimentos em relao  vida no corredor da morte eram quase nulos, com relao ao perodo da Grande Depresso no Sul.  claro que o trabalho 
de pesquisa poderia remediar esse tipo de lacuna; no entanto, eu tinha a impresso de que esse trabalho de pesquisa poderia vir a aniquilar a frgil sensao de 
espanto que eu descobrira na minha histria - uma parte de mim mesmo estava bem ciente, desde o incio, que aquilo que eu desejava era
  o mito e no a realidade. Por conseguinte, segui em frente, compilando palavras na esperana de que me surgisse um elemento renovador, uma qualquer manifestao 
inspiradora, uma espcie de milagre sob a forma de um mero lugar-comum. Esse milagre chegou sob a forma de um fax enviado por Ralph Vicinanza, o meu agente literrio 
no estrangeiro, o qual falara com um editor britnico a respeito de publicaes em fascculos, que Charles Dickens utilizara havia um sculo. Ralph indagara - da 
maneira desinteressada de quem no espera que a sua ideia venha a concretizar-se - quais as probabilidades, caso eu estivesse interessado em tentar essa modalidade 
de publicao.  p, dei um salto de alegria perante aquela possibilidade. Compreendi de imediato que, se desse o meu acordo a um projecto dessa natureza, seria 
forado a terminar  espera de Um Milagre - The Green Mile. Assim, sentindo-me na pele de um soldado romano a lanar fogo a uma ponte so
 bre o Rubico, telefonei ao Ralph e pedi-lhe que concretizasse o negcio. Ele assim fez, e o resto j  do vosso conhecimento. John Coffey, Paul Edgecombe, "Brutos 
Howell, 7 Percy Wetmore... estas personagens assenhorearam-se do texto e deram forma  narrativa. Aconteceu tudo de uma maneira absolutamente inesperada.  espera 
de Um Milagre - The Green Mile teve junto do pblico uma aceitao mgica que eu jamais esperara que viesse a ter; na realidade, tinha mesmo a impresso de que poderia 
muito bem vir a revelar-se um desastre em termos comerciais. A reaco por parte dos leitores foi extraordinria e, desta feita, at mesmo a maioria dos crticos 
literrios aproveitou a boleia. Estou convencido de que devo muito da aceitao popular que o livro mereceu s inteligentes sugestes que a minha mulher fez, enquanto 
grande parte do seu sucesso comercial se deve ao trabalho esforado levado a cabo pelos, funcionrios da Dutton Signet
 em prol deste volume. No obstante estes contributos, a experincia em si mesma pertence-me inteiramente. Escrevi como se fosse um tresloucado, tentando acompanhar 
o ritmo alucinante da progra mao editorial, ao mesmo tempo que me esforava por estruturar o livro de forma a que cada fascculo possusse o seu prprio pequeno 
clmax, esperando que tudo

acabasse por enquadrar-se e sabendo de antemo que seria crucificado se tal no viesse a acontecer. Houve uma ou duas ocasies em que perguntei a mim prprio se 
Charles Dickens teria sentido a mesma coisa, esperanado de que as questes levantadas pelo enredo encontrassem as respostas em si mesmas; suponho que ele deve ter 
passado pela mesma coisa. Felizmente para ele, Deus concedeu ao velho Charles um pouco mais no departamento do talento. Recordo-me que me ocorreu por uma ou duas 
vezes que deveria estar a conspurcar o espao em meu redor com os anacronismos mais ultrajantes, mas veio a verificarse que estes eram inacreditavelmente escassos. 
At mesmo o pequeno segmento de "livro aos quadradinhos picantes" onde surgem Popeye e Olvia Palito veio a provar ser um filo de ouro: na sequncia da publicao 
da Parte Seis, houve algum que me enviou uma fotocpia desse livro aos quadradinhos, que foi publicado por volta de 1927. Numa sequncia memor
vel, Wimpy est a espancar Olvia enquanto ao mesmo tempo come um hambrguer. Por Deus!, no existe nada como a imaginao humana, no  verdade? No seguimento 
da publicao triunfante de  espera de 8 Um Milagre - The Green Mile, verificou-se um grande nmero de discusses acerca de como - ou se - deveria ser compilado 
num s volume completo. A publicao em fascculos era para mim um ponto bastante delicado, o mesmo acontecendo em relao a alguns leitores, uma vez que o preo 
era demasiado elevado para um livro de bolso; cerca de dezanove dlares pelos seis fascculos (consideravelmente menos se adquirido numa discount bookshop). Por 
esse motivo, a soluo de o conjunto ser comercializado numa caixa nunca me pareceu ser a melhor. Este volume, um livro de capa mole a um preo mais mdico, talvez 
seja a soluo ideal. Portanto, aqui est a maior parte do texto tal como foi editado pela primeira vez (alterei o mome
 nto em que Percy Wetmore, imobilizado num colete-de-foras, ergue a mo para limpar o suor do rosto). Num futuro prximo, gostaria de poder rev-lo completamente, 
transform-lo no romance que neste formato no consegue ser em toda a acepo da palavra, voltando a public-lo. At que essa ocasio se me depare, esta  a nica 
alternativa. Sinto-me satisfeito por ter havido tantos leitores a quem esta obra agradou. E querem saber uma coisa? Afinal veio a transformar-se numa bela histria 
para ler antes de adormecer. STEPHEN KING Bangor, Maine 6 de Fevereiro de 1997 PREFCIO: UMA CARTA 27 de Outubro de 1995 Caro Leitor Constante, A vida  um negcio 
deveras caprichoso. A histria que tem incio neste pequeno livro existe nos moldes presentes por causa de uma observao ocasional feita por um agente de bens imobilirios 
que nunca conheci. Isso aconteceu h um ano em Long Island. Ralph Vicinanza, um amigo de h muito e meu associado
 de negcios (em essncia, a sua actividade  comercializar no estrangeiro os direitos relativos a livros e histrias), tinha acabado de alugar uma casa nessa localidade. 
O agente da imobiliria comentou que a propriedade "parecia ter sido tirada de uma histria de Charles Dickens". Aquela observao continuava gravada nos pensamentos 
de Ralph quando deu as boas-vindas ao primeiro convidado que recebeu, o editor britnico Malcolm Edwards. Repetiu o comentrio a Edwards e ambos encetaram uma conversa 
trivial acerca de Dickens. Edwards mencionou que este escritor tinha publicado muitos dos seus romances em fascculos, quer inseridos em suplementos de revistas, 
quer por si prprios sob a forma de pequenos livros populares (publicaes de dimenses mais pequenas do que o livro habitual, os quais sempre me mereceram grande 
apreo pela intimidade e cordialidade que inspiram). Alguns desses romances, acrescentou Edwards, eram escritos e revistos quase
  na data da publicao; ao que tudo indica, Charles Dickens era um romancista a quem os prazos estipulados no assustavam por a alm.

Os contos de Dickens em fascculos eram imensamente populares; de facto, eram to populares que um deles desencadeou uma tragdia em Baltimore. Um vasto nmero de 
admiradores de Dickens apinhou-se numa doca, bem junto  linha de gua; em antecipao  chegada do navio ingls que transportava a bordo o fascculo final de A 
Loja de Antiguidades. De acordo com o que a histria nos diz, vrios dos potenciais leitores foram empurrados para a gua, tendo-se afogado. No me parece que tanto 
Ralph como Malcolm desejassem que qualquer pessoa se afogasse, mas tal no os impediu de sentirem uma certa curiosidade quanto ao que poderia vir a acontecer, caso 
se experimentasse a publicao de obras em fascculos nos nossos dias. Na ocasio, nenhum deles se apercebeu de imediato que isso j fora feito (na realidade, no 
existe nada de novo sob o Sol), pelo menos em duas circunstncias. Tom Wolfe publicou a primeira edio do seu romance A Fog
 ueira das vaidades na revista Rolling Stone, e Michael McDowell (The Amulet, Gilded Needles, The Elementals e o argumento cinematogrfico Beetlejuice - Os Fantasmas 
Divertem-se) publicou um romance com o ttulo Blackwater em fascculos de capa mole. Esse romance - uma histria de horror sobre uma famlia do Sul com a desagradvel 
caracterstica familiar de se transformarem em aligatores - no foi o melhor da safra de McDowell, o que em qualquer dos casos no impediu que a Avon Books tivesse 
obtido um grande xito. Mais ainda, os dois homens comearam a especular sobre o que poderia acontecer se um escritor de fico popular tentasse publicar na nossa 
poca um romance em fascculos, sob a forma de pequenos livros de bolso - livros de capa mole de dimenses reduzidas ao preo de uma libra ou duas na Gr-Bretanha, 
ou talvez por quatro dlares nos Estados Unidos (onde a maior parte dos livros de bolso, presentemente,  comercializada ao pr
 eo de seis dlares e noventa e nove cntimos ou sete e noventa e nove). Algum como Stephen King poderia embarcar numa experincia interessante como essa, disse 
Malcolm e, a partir da, a conversa enveredou por tpicos diferentes. Ralph, at certo ponto, esqueceu-se daquela ideia, embora esta tivesse voltado a ocorrer-lhe 
no Outono de 1995, aquando do seu regresso da Feira do Livro de Frankfurt, um certame internacional onde todos os dias surgem oportunidades de negcio para agentes 
literrios estrangeiros como Ralph. Juntamente com outros assuntos, a maior parte dos quais me 12 receu automaticamente a minha recusa, abordou a ideia da edio 
desses pequenos fascculos. r1o entanto, esta ltima questo no teve uma recusa automtica; ao contrrio da sugesto de uma entrevista na Playboy japonesa ou uma 
digresso com todas as despesas pagas pelas repblicas do Bltico, esta acendeu uma centelha na minha imaginao. No me tenh
 o na conta de um Dickens da era moderna - se tal pessoa existe, provavelmente ela ser John Irving ou Salman Rushdie - contudo, sempre gostei de histrias narradas 
em episdios.  uma .forma literria com que deparei pela primeira vez no Saturday Evening Post e que me agradou, porque o final de cada episdio tinha o efeito 
de quase tornar o leitor num participante, em paralelo com o escritor: tinha-se pela frente toda uma semana em que se poderia tentar imaginar o desenrolar da aco. 
Alm disso, uma pessoa lia e experimentava essas histrias com maior intensidade, pelo menos era essa a impresso que eu tinha, porque eram racionadas. Era impossvel 
ler sofregamente, ainda que fosse isso o que se pretendesse (e se o enredo fosse bom, era o que se faria). No entanto, melhor do que tudo, em minha casa elas eram 
frequentemente lidas em voz alta - numa determinada noite seria o meu irmo David, no dia seguinte a leitura caberia a mim prprio, a minha m
e lia na terceira noite, aps o que a leitura seria retomada pelo meu irmo. Era uma ocasio rara em que podamos desfrutar em conjunto de uma obra literria, tal 
como desfrutvamos dos filmes a que assistamos e dos programas de televiso (Rawhide, Bonanza, Route 6, que costumvamos ver; era um acontecimento que tinha lugar 
em famlia. S anos mais tarde  que vim a descobrir que os romances de Dickens haviam constitudo

acontecimentos partilhados pelas famlias da sua poca, quase da mesma maneira, com a diferena de que essas pessoas agonizavam  beira das lareiras pela sorte de 
Pip, Oliver e David Copperfield ao longo de vrios anos em vez de um par de meses (nem as sries mais alongadas do Post ultrapassavam muito mais do que oito fascculos). 
Havia ainda um outro aspecto que me agradava bastante relativamente a esta ideia; um incentivo que eu desconfiava que s os escritores de romances de suspense, ou 
de histrias fantasmagricas,  que poderiam apreciar em toda a sua amplitude: numa histria publicada em fascculos, o escritor 13 consegue ter uma ascendncia 
sobre o leitor que no tem em nenhuma outra forma literria: colocando o assunto de uma forma bastante simples, Leitor Constante, -lhe impossvel folhear umas pginas 
para a frente, a fim de ver como  que a histria acaba. Ainda me recordo de uma ocasio em que entrei na nossa sala de e
 star, teria eu uns doze anos, e vi a minha me sentada na sua cadeira de baloio preferida, a espreitar as pginas finais de um livro de bolso da Agatha Christie, 
enquanto o dedo marcava a pgina onde ela ia, e que seria  volta da nmero cinquenta. Fiquei estarrecido e disse-lho (no se esqueam que nessa altura eu tinha 
doze anos, uma fase da vida em que os rapazes comeam a compreender vagamente que sabem tudo), dando-lhe a entender que o facto de se ler o final de um romance de 
mistrio antes de se chegar l era a mesma coisa que comer o recheio dos bolos com creme e depois deitar fora o resto do bolo. A minha me soltou aquela sua maravilhosa 
gargalhada em que no se detectava o mnimo constrangimento, dizendo-me que talvez fosse assim, mas que, por vezes, no era capaz de resistir a essa tentao. A 
cedncia perante as tentaes era um conceito que eu podia compreender facilmente; apesar de s ter doze anos, j o fizera muita
 s vezes. Ora, aqui est finalmente uma cura divertida para essa tentao. At o ltimo fascculo chegar s livrarias, ningum saber como  que o enredo de  espera 
de Um Milagre - The Green Mile terminar... e, muito possivelmente, eu tambm no. Embora no houvesse maneira de ele o ter sabido antecipadamente, Ralph Vicinanza 
abordou o assunto de um romance em fascculos numa altura em que, para mim, era o mo mento perfeito em termos psicolgicos. J h algum tempo que eu andava a acalentar 
uma ideia para uma histria relativa a um assunto que sempre desconfiara que acabaria por abordar: a cadeira elctrica. A Velha Fasca fascinava-me desde que vira 
o meu primeiro filme com James Cagney, e as primeiras narrativas que li sobre o corredor da morte (num livro cujo ttulo era Twenty Thousand Years in Sing Sing, 
escrito por Lewis E. Lawes) excitaram a faceta mais sombria da minha imaginao. Qual seria a sensao, perguntava
  eu a mim mesmo, de percorrer aqueles ltimos quarenta metros at  cadeira elctrica, sabendo antecipadamente que a morte nos esperava? O que se sentiria ao desempenhar 
o papel do homem cuja misso era prender o condenado com correias  cadeira... ou accionar a alavanca do quadro elctrico? O que  que aquela espcie de tarefa exigiria 
de um indivduo? Ainda mais sinistro, o que  que poderia acrescentar a uma pessoa? De uma maneira que se resumia sempre a algumas tentativas exploratrias, eu tinha 
experimentado estas noes bsicas numa srie de trabalhos ao longo dos ltimos vinte ou trinta anos. J escrevera um romance de xito cuja aco de ~inha mais 
corria na priso (Os Condenados de Shawshank), ou menos chegado  concluso de que, provavelmente, aquela seria a minha nica incurso nesse tema quando esta ideia 
comeou a tomar corpo na minha mente. Havia vrios aspectos neste assunto que me agradavam, mas nada
 mais que a voz essencialmente decente do narrador, honesto, discreto talvez um pouco assombrado, ele  o narrador ao estilo de Stephen King, se  que tal coisa 
alguma vez existiu. Nesta conformidade, lancei-me ao trabalho, comeando e parando. A maior parte do segundo captulo foi escrito durante uma espera forada, devido 
 chuva, no Parque Fenway! Quando Ralph me telefonou, eu j tinha preenchido um bloco de apontamentos com pginas manuscritas de  espera de Um Milagre - The Green 
Mile, e compreendi que

estivera a estruturar um romance, quando deveria ter gasto o meu tempo a arrumar a minha mesa de trabalho, para poder trabalhar na reviso de um livro que j tinha 
escrito, Desperation. No ponto em que j me encontrava em relao  Mile, habitualmente s existem duas escolhas: pr a obra de lado (para muito provavelmente nunca 
mais lhe pegar) ou remeter tudo o mais para segundo plano e prosseguir, dando forma ao enredo. Foi ento que Ralph sugeriu uma terceira alternativa possvel: uma 
narrativa que poderia ser escrita da mesma maneira que viria a ser lida - em fascculos. Tambm me agradava o aspecto deveras arriscado que envolvia aquela tarefa: 
no cumpras os compromissos assumidos, e de repente ters um milho de leitores que clamaro em simultneo, e aos uivos, pelo teu sangue. Ningum tem melhor conhecimento 
desta particularidade do que eu prprio, a no ser o meu secretrio, Juliann Eugley; todas as semanas recebemos dezenas de
 cartas encolerizadas que exigem o novo livro do ciclo de Dark Tower (pacincia, seguidores de Roland; mais ou menos outro ano e a vossa espera chegar ao fim, prometo-vos). 
Uma dessas cartas vinha acompanhada por uma polaride que mostrava um ursinho de peluche acorrentado, com uma mensagem 14 15 escrita em letras recortadas de cabealhos 
de jornais, assim como de capas de revistas: PUBLIQUE O PRXIMO LIVRO DA DARK TOWER IMEDIATAMENTE OU O URSO MORRE, dizia essa mensagem. Pendurei-a no meu gabinete 
para recordar a mim mesmo tanto a responsabilidade que assumira, como o facto maravilhoso de ter pessoas que efectivamente se interessavam - um pouco - pelas criaturas 
que eram fruto da imaginao do escritor. Seja como for, decidi publicar  espera de Um Milagre - The Green Mile numa srie de pequenos fascculos de capa mole, 
ao estilo do sculo xix, e s espero que me escre vam e me digam: (a) se gostaram da histria e (b) se vos agradou o sistema de pu
 blicao, pouco utilizado mas bastante divertido. No h dvida que deu energia  passagem a papel da narrativa, embora de momento (um fim de dia chuvoso de Outubro 
de 1995) ela esteja longe de estar concluda, apesar de j se encontrar na forma de rascunho e o fim do enredo continua um pouco em dvida. Mas isso faz parte do 
empolgamento de toda a histria. Nesta fase,  como se me encontrasse a conduzir por entre um manto espesso de nevoeiro, com o acelerador a fundo. Acima de tudo, 
gostaria de vos dizer que, embora possam obter desta leitura apenas metade do prazer que eu senti ao escrev-la, no nos teremos sado nada mal. Apreciem esta histria... 
e porque no l-la em voz alta na companhia de um amigo? Ainda que no haja outro motivo, encurtar o perodo de espera at que o prximo fascculo seja posto  
venda na vossa banca de jornais ou livraria. Entretanto, espero que vivam com cuidado e que sejam generosos uns para com
  os outros. SETPHEN KING Parte Um AS DUAS RAPARIGAS MORTAS 1 Isto aconteceu em 1932, quando a penitenciria estadual ainda se situava em Cold Mountain... Bem como, 
 claro, a cadeira elctrica. Os reclusos costumavam dizer piadas aerca da cadeira, da forma que as pessoas tm por hbito troar sempre daquilo que lhes incute 
medo, sem que consigam afastar-se dessas mesmas coisas. Chamavam-lhe "Velha Fasca" ou "Grande Fritadeira". Diziam piadas relativas  conta da electricidade, e como 
o director Moores iria cozinhar o seu peru do jantar do Dia de Aco de Graas desse Outono, uma vez que a mulher, Melinda, se encontrava demasiado doente para poder 
cozinhar. No entanto, para os que-eram realmente obrigados a sentar-se nessa cadeira, o humor desaparecia rapidamente da situao. Durante o perodo de tempo que 
passei em Cold Mountain, tive oportunidade de assistir a setegta e oito execues (este  um nmero em relao ao qual nunca me
 senti confundido; recordar-me-ei dele at mesmo no meu leito de morte) e tenho a impresso de que; para a mairia

desses homens, a verdade do que estava a acontecer-lhes penetrava finalmente nas suas mentes no momento em que sentiam os tornozelos a serem presos ao carvalho slido 
das pernas da Velha Fasca. Era nessa altura que se instalava a percepo (que se podia ler nos seus olhos e que se traduzia numa expresso de frio desalento) de 
que as prprias pernas haviam chegado ao termo da sua carreira. O fluxo sanguneo continuava a deslizar pelos seus organismos, os msculos continuavam fortes; no 
entanto, estavam acabados, jamais voltariam a percorrer outro quilmetro pelo campo, to-pouco voltariam a ter a oportunidade de danar com uma rapariga 19 num baile 
no celeiro. Os clientes da Velha Fasca tomavam conhecimento das suas mortes dos artelhos para cima. Havia um saco de seda negra que lhes cobria a cabea, depois 
de terem concludo os seus derradeiros comentrios incoerentes e em grande parte desarticulados. Em princpio, aquilo era em seu beneficio;
  eu sempre estive convencido de que na realidade se destinava a ns, para nos impedir de presenciar a pavorosa vaga de terror que se espelhava nos seus olhos quando 
percebiam que estavam prestes a morrer com os joelhos dobrados. Em Cold Mountain no existia um corredor da morte, apenas o Bloco E, distanciado dos outros quatro 
e tendo mais ou menos um quarto do seu tamanho, construdo em tijolo em vez de madeira, com um telhado horrvel de metal na sua cor natural, que durante o sol do 
Vero cintilava como se fosse um globo ocular em delrio. No interior, havia seis celas, trs de cada lado de um amplo corredor central; cada uma delas tinha quase 
o dobro do tamanho das celas existentes nos outros quatro blocos. Tambm eram ocupadas por um nico recluso. Umas acomodaes fantsticas, levando em considerao 
que se tratava de uma priso (especialmente durante a dcada de 30); todavia, os prisioneiros t-las-iam trocado de bom grado por qualquer
  cela nos outros quatro blocos. Acreditem em mim, eles no teriam mostrado a mnima hesitao. Nunca houve um nico perodo durante todos os anos que ocupei o lugar 
de superintendente de bloco celular em que essas seis celas estivessem ocupadas ao mesmo tempo - gra as a Deus pelos pequenos favores. Quatro era o nmero mximo, 
negros e brancos  mistura (em Cold Mountain no se verificava qualquer tipo de segregao racial entre os mortos-vivos); aquele lugar era um pequeno pedao do inferno. 
Um destes reclusos era uma mulher, a Beverly McCall. Era to negra como o s de espadas e de uma beleza to grande como o pecado que nunca temos a coragem de cometer. 
Suportara seis anos de espancamentos por parte do marido, embora no estivesse disposta a aguentar a sua traio por um s dia que fosse. Na noite em que descobriu 
que ele a enganava, fez uma espera ao infeliz Lester McCall, conhecido pelos amigos (e, presumivelmente, pela sua aman
 te de durao extremamente curta) pelo nome de Cutter, tendo-se colocado ao cimo das escadas que davam acesso ao apartamento por cima da barbearia do marido. Esperou 
at ele ter o sobretudo meio 20

despido e deixou cair as suas entranhas infiis nos sapatos de duas tonalidades que ele usava. Serviu-se de uma das navalhas do prprio Cutter para o esquartejar. 
Duas noites antes do seu encontro marcado com a Velha Fasca, chamou-me  sua cela para me dizer que fora visitada em sonhos pelo seu pai espiritual africano. Este 
dera-lhe instrues para que se libertasse do seu nome de escrava, a fim de morrer com o seu apelido de mulher livre, Matuomi. Foi esse o seu pedido, que a sua sentena 
de morte fosse lida com o nome de Beverly Matuomi. Imagino que o seu pai espiritual no lhe tenha atribudo um nome prprio, ou pelo menos um que ela pudesse identificar. 
Eu disse-lhe que sim, que no haveria qualquer problema em satisfazer o seu pedido. Uma das coisas que aqueles anos em que trabalhei como mando-chefe me ensinaram 
foi nunca recusar o pedido de um condenado, a menos que a isso fosse absolutamente forado. No caso de Beverly Matuomi, tal no fez
  a mnima diferena, fosse de que maneira fosse.

O governador do estado telefonou no dia seguinte, por volta das trs da tarde, comunicando que a pena havia sido comutada para priso perptua, a ser cumprida nas 
instalaes penais para mulheres de Grassy Valley - todas penais e sem pnis, como costumvamos dizer nessa poca. Deixem-me que vos confesse que fiquei bastante 
satisfeito por ver o traseiro arredondado da Bex seguir para a esquerda, em vez de para a direita, quando ela se apresentou junto da minha mesa de trabalho. Mais 
ou menos trinta e cinco anos mais tarde - tinham de ser pelo menos trs dcadas e meia - li esse nome na pgina do jornal onde eram publicados os anncios de bito, 
por baixo da fotografia de uma senhora de raa negra, de faces magras e com uma nuvem de cabelo encanecido, que usava uns culos com armaes de osso. Era a Beverly. 
Tinha passado os ltimos dez anos da sua vida em liberdade, de acordo com o que o bito dizia, e conseguira salvar a biblioteca da peq
 uena cidade de Raines Falls quase sem ajuda. Tambm ensinara catequese aos domingos, tendo sido muito acarinhada naquela cidade dos confins do mundo. BIBLIOTECRIA 
MORRE DE ATAQUE CARDACO, rezava o cabealho, e abaixo deste, num tipo mais pequeno, como se tivesse sido um pensamento que ocorrera no ltimo minuto: Cumpriu pena 
durante mais de vinte anos por homicdio. S os olhos, grandes e cintilantes por detrs dos culos com armaes de osso,  21 que eram os mesmos. Os olhos de uma 
mulher que at mesmo aos setenta anos no hesitaria em retirar uma navalha do lquido desinfectante azul, caso a necessidade lhe parecesse premente. Sabemos como 
so os assassinos, ainda que acabem a sua vida como velhinhas que ocupam a posio de bibliotecrias em pequenas cidades meio adormecidas. Pelo menos temos a obrigao 
de saber, quando passmos tanto tempo a vigiar homicidas, tal como eu prprio. S houve uma ocasio em que questionei a
  natureza das minhas funes. Estou convencido de que foi isso que me levou a escrever esta narrativa. O amplo corredor no centro do Bloco E tinha o cho revestido 
a linleo, da tonalidade de limas velhas; assim, o que nas outras prises se chamava "ltima Milha", na de Cold Mountain era conhecido por "Milha Verde". Calculo 
que teria a extenso de sessenta passos de sul a norte, desde um extremo ao outro. Ao fundo situava-se a cela do isolamento. Na extremidade do topo havia uma espcie 
de entroncamento. Uma viragem  esquerda significava a vida - isto , no caso de se apelidar de vida aquilo que se passava no ptio, onde o sol incidia, inclemente, 
enquanto se faziam os exerccios fisicos; grande nmero dos reclusos vivia ali ao longo de muitos anos, sem que se lhes detectassem quaisquer efeitos secundrios 
aparentes. Ladres e piromanacos, criminosos que haviam incorrido em ofensas sexuais, todos eles falavam entre si do que tinham a falar,
 davam as suas caminhadas e procediam s suas pequenas transaces. No entanto, uma viragem  direita e tudo era inteiramente diferente. Em primeiro lugar, ia-se 
ao meu gabinete (onde a alcatifa tambm era esverdeada, uma coisa que eu pensava constantemente em alterar, mas que por qualquer razo acabei sempre por nunca fazer), 
tendo a pessoa em questo de se apresentar em frente da minha secretria, a qual era flanqueada pela bandeira americana  esquerda e pela bandeira do estado  direita. 
Na parede mais afastada existiam duas portas. Uma dava acesso a uns pequenos lavabos que eram utilizados por mim e pelos guardas prisionais do Bloco E (por vezes, 
at mesmo o director Moores se servia daquela casa de banho); a outra abria para uma espcie de sala de arrecadao. Era para ali que se acabava por ir, no caso 
de se ter de percorrer a Milha Verde. Tratava-se de uma porta pequena - sempre que eu a transpunha era obrigado a baixar a cabea, e o John
  Coffey foi forado a sentar-se para poder transp-la. Tinha-se acesso 22 a um pequeno patamar, descendo-se depois trs degraus em cimento at a um cho de madeira. 
Era uma sala esqulida e sem aquecimento que tinha um telhado de metal, exactamente igual ao do bloco que lhe ficava adjacente. Durante o Inverno, fazia ali frio 
suficiente para se poder observar a respirao a

condensar-se, mas era sufocante ao longo do Vero. Durante a execuo do Elmer Manfred - o que estou em crer ocorreu em Julho ou Agosto de 1930 - tivemos nove testemunhas 
que desfaleceram. No lado esquerdo da arrecadao - uma vez mais - existia a vida. Ferramentas (todas presas ~em estruturas cobertas por correntes, como se fossem 
carabinas em vez de ps e picaretas), artigos secos, sacos de sementes que na Primavera eram semeadas nos jardins da penitenciria, caixas de papel higinico, grades 
com materiais para a serralharia da pnso... at mesmo sacos de cal para marcar as linhas do campo de basquetebol e de futebol - os condenados costumavam jogar naquilo 
que era conhecido por "Pastagem", e as tardes de Outono eram ansiosamente aguardadas em Cold Mountain.  direita - uma vez mais - a morte. A prpria Velha Fasca 
instalada num estrado de tbuas no canto sudeste da arrecadao, com as suas pernas de carvalho slido, braos largos tamb=E
 9m de carvalho que haviam absorvido o suor aterrorizado de muitos homens durante os derradeiros minutos das suas vidas, e o capacete d metal, o qual habitualmente 
se encontrava pendurado nas costas da cadeira de uma forma a dar nas vistas, qual capacete de rob num livro de banda desenhada do Buck Rogers. Dele saa um cabo 
elctrico, que passava atravs de um orifcio circular recortado num bloco de cimento da parede, que se encontrava por detrs da cadeira. Ao lado havia um balde 
de zinco galvanizado. Caso se olhasse para o seu interior, ver-se-ia um crculo de esponja cortado exactamente  medida para poder acomodar o capacete de metal. 
Antes de uma execuo, era mergulhado em salmoura, para que a passagem da corrente directa, atravs do cabo elctrico e da esponja, se fizesse nas melhores condies 
e entrasse no crebro do condenado. 2 1932 foi o ano do John Coffey. Os pormenores poderiam ser encontrados nos jornais, onde continuariam para
  algum interessado poder consult-los - algum que tivesse mais

23 energia do que um homem j muito envelhecido que definhava no fim da vida, num lar da Jrgia para a terceira idade. Recordo-me bem de que esse Outono foi de muito 
calor; extremamente quente. Um ms de Outubro que mais se assemelhara a Agosto, e a mulher do director, Melinda, esteve internada durante algum tempo no hospital 
de Indianola. Tambm foi nesse Outono que tive a maior infeco urinria da minha vida; no foi to grave que me obrigasse a ser tambm hospitalizado, embora quase 
suficientemente grave para que eu desejasse a morte de cada vez que tinha de verter guas. Foi o Outono do Delacroix, o pequeno franci calvo que tinha um rato, 
aquele que costumava aparecer no Vero e que fazia aquele truque engraado com o carretel. Mas, acima de tudo, aquele foi o Outono em que o John Coffey deu entrada 
no Bloco E, tendo sido condenado  morte pelo crime de estupro e assassnio das gmeas Detterick. Durante cada um dos turnos havia quatro o
 u cinco guardas no bloco, apesar de muitos deles serem temporrios. O Dean Stanton, o Harry Terwilliger e o Brutus Howell (os homens chamavam-lhe "Brutal", mas 
isso no passava de uma simples brincadeira, ele no faria mala uma mosca, salvo se a isso fosse forado, a despeito da sua constituio fsica) j esto todos mortos, 
o mesmo acontecendo com o Percy Wetmore, o qual, efectivamente, era brutal.., e estpido. A presena do Percy no Bloco E no tinha qualquer razo de ser, pois era 
um local onde um carcter malvolo se mostrava intil e por vezes perigoso; porm, como ele tinha laos familiares por afinidade com o director, fora autorizado 
a trabalhar ali. Foi o Percy Wetmore quem conduziu o Coffey at ao bloco soltando o supostamente tradicional grito de "Homem morto a caminhar! Homem morto a caminhar, 
a passar por aqui!" O tempo continuava a estar to quente quanto as dobradias das portas do inferno, fosse ele Outubro ou no
 . A porta que dava acesso ao ptio onde tinham lugar os exerccios fsi

cos abriu-se, deixando entrar uma torrente de grande luminosidade, acompanhada do maior homem que alguma vez me foi dado ver, com a excepo de alguns tipos que 
jogam basquetebol e que se vem no televisor que temos no "Centro Recreativo" desta casa para cabeudos atoleimados, onde eu acabei por vir parar. Estava preso com 
correntes que lhe manietavam os braos junto ao peito do tamanho de um barril de gua; tinha grilhetas nos tornozelos, arrastando uma corrente que as unia e a qual 
produzia o som de uma cascata de moedas, enquanto era arrastada pelo corredor de linleo cor de lima que existia entre as celas. O Percy Wetmore mantinha-se num 
dos lados do homem, e no outro o escanzelado minorca do HaiTy Terwilliger; pareciam crianas a caminhar junto de um urso que acabara de ser capturado. At o Brutus 
Howell dava a impresso de ser um garoto junto do Coffey, e no esqueamos que o Brutal media quase dois metros e era igualmente entroncado, um jogador
 de futebol norte-americano que jogava ao ataque, o qual ganhara uma bolsa para poder jogar pela Universidade Estadual da Luisiana, at que chumbou e foi obrigado 
a regressar a casa, de volta aos sulcos da terra. O John Coffey era um indivduo de raa negra, tal como o era a maior parte dos homens que passavam algum tempo 
no Bloco E antes de serem executados ao colo da Velha Fasca, e tinha mais de dois metros. No entanto, no era to esguio como os tipos do basquetebol que apareciam 
na televiso - era largo de ombros e possua um trax portentoso, vendo-se os msculos fortes por todo o corpo. Tinham-lhe dado o maior par de calas de ganga que 
havia em armazm, embora a bainha lhe desse pelo meio da barriga das pernas entroncadas e cheias de cicatrizes. A camisa mantinha-se aberta at abaixo do peito, 
enquanto as mangas acabavam algures nos antebraos. Numa das suas mos enormes trazia um bon, o que at era melhor; caso estivesse colocado na
  sua cabea calva, que mais parecia uma bola de mogno luzidio, ter-se-ia assemelhado ao bon que os macacos dos tocadores de realejo costumavam usar, com a nica 
diferena que seria azul em vez de vermelho. Parecia capaz de rebentar as correntes que o manietavam com tanta facilidade como qualquer pessoa poderia rasgar as 
fitas de um presente de Natal; todavia, quando se olhava para o seu rosto, sabia-se que no faria nada que se assemelhasse a isso. No tinha uma expresso lorpa 
- embora essa fosse a opinio que o Percy havia formado; no foi preciso muito tempo para o Percy ter comeado a chamar-lhe mentecapto - mas dava a impresso de 
que se sentia perdido. Continuava a olhar em seu redor como se tentasse compreender onde  que se encontrava. Talvez mesmo para descobrir quem ele prprio era. O 
meu primeiro pensamento foi de que ele se parecia com um Sanso negro.:. com a diferena de que seria depois de Dalila lhe ter rapado a 24 25 cabea c
 om a sua pequena mo infiel, tendo-lhe extorquido todo o gosto pela vida. - Homem morto a caminhar! - troava a voz do Percy, arrastando o homem de aspecto ursino 
pela algema que lhe rodeava o pulso, como se acreditasse realmente que tinha po der para o deslocar, ainda que o Coffey decidisse que no desejava fazer mais qualquer 
movimento de sua livre vontade. O Harry no fez o mnimo comentrio, embora exibisse uma expresso de constrangimento. - Homem morto... - J chega dessa conversa 
- atalhei eu da cela que fora destinada ao Coffey; aguardava sentado em cima da sua tarimba.  claro que eu fora avisado da sua chegada, estava ali para lhe dar 
as boas-vindas e me responsabilizar por ele, mas no tinha a mais pequena noo do seu tamanho at o ver. O Percy brindou-me com um olhar que dizia que todos ns 
sabamos que eu era um idiota (excepto, como  evidente, o mentecapto gigantesco, o qual s sabia violar e assassinar rapariguinhas), mas no
  disse nada. Os trs detiveram-se do lado de fora da porta da cela, que se mantinha aberta em cima das calhas por onde corria. Acenei para o Harry que me perguntou:

- Tem a certeza de que quer ficar ali dentro com ele, chefe? - No haviam sido muitas as vezes em que eu tivera oportunidade de ver o Harry dar mostras de nervosismo; 
ele mantivera-se firmemente ao meu lado aquando dos tumultos que tinham ocorrido havia seis ou sete anos, sem nunca ter vacilado, at mesmo quando comearam a circular 
rumores de que alguns dos amotinados possuam armas... Todavia, naquele momento, no conseguia ocultar o nervosismo que o invadia. - Tencionas criar-me problemas, 
matulo? - perguntei, continuando sentado  beira da tarimba e tentando no deixar transparecer o quanto me sentia um desgraado: a nfeco urinria que mencionei 
anteriormente ainda no tinha atingido a gravidade que mais tarde veio a ter, mas deixem que vos diga que no era nenhum piquenique na praia. O Coffey abanou lentamente 
a cabea - uma vez para a esquerda e outra para a direita, parando em seguida ao meio. Logo que os seus olhos me encontraram nu
 nca mais voltaram a largar-me. O Harry segurava numa pequena prancha de madeira,  qual estavam presos os impressos referentes  admisso do Coffey. 26 - Entrega-lhe 
os papis - ordenei eu ao Harry. - Coloca-os na mo dele. O Harry fez como eu o havia instrudo. O gigantesco rafeiro aceitou a papelada como se fosse um sonmbulo. 
-- Agora entrega-mos, matulo - acrescentei, e o Coffey obedeceu, com as correntes a chocalharem e a arrastarem. Para transpor a porta da cela, foi obrigado a vergar 
a cabea. Com o olhar percorri-o de alto a baixo, para poder abarcar toda a sua estatura, certificando-me de que no se tratava de uma iluso de ptica. Era real: 
um pouco acima de dois metros de altura. O peso que fora indicado rondava os cento e quarenta quilogramas, mas acho que era apenas uma estimativa; deveria pesar 
uns cento e sessenta quilos. Por baixo do espao reservado s cicatrizes e demais marcas de identificao, via-se uma palavra em letras
 de imprensa, na escrita laboriosa do Magnusson, o antigo prisioneiro de confiana que trabalhava nos registos: Numerosas. Ergui o olhar. O Coffey tinha-se deslocado 
um pouco para um dos lados, o que me permitia ver o Harry de p do outro lado do corredor, em frente da cela do Delacroix - este era o nosso nico encarcerado no 
Bloco E, na altura em que o Coffey chegou. O Del era um homem esguio com uma acentuada calvcie, exibindo a expresso preocupada de um contabilista que sabia que 
o desfalque que cometera seria descoberto dentro em pouco. O rato que ele domesticara encontrava-se sobre um dos seus ombros. O Percy Wetmore mantinha-se encostado 
 ombreira da cela que acabara de ser atribuda ao John Coffey. Empunhava o basto de nogueira que retirara de uma espcie de coldre feito de encomenda onde costumava 
mant-lo, batendo-o contra a palma da mo como um homem que tem um brinquedo e anseia poder utiliz-lo. De sbito foi-me impossvel suportar
 a sua presena ali. Talvez isso se devesse ao calor to anormal para aquela poca do ano, talvez  infeco urinria que me provocava um ardor nas virilhas, e tornava 
insuportvel a comicho por baixo da roupa interior de flanela, talvez ao facto de eu saber que o estado me havia enviado um homem de raa negra,  beira da idiotice, 
para que eu o executasse, e que o Percy estava desejoso por poder trabalh-lo um pouco antes que tal viesse a acontecer. Provavelmente, eram todas estas coisas. 
Fosse o que fosse, deixei de me preocupar com as . ligaes polticas do Percy durante algum tempo.

27 -Percy - disse. - Esto a mudar de casa na enferma ria. - O Bill Dodge est encarregado dessa tarefa... - Eu sei - acrescentei. - Mas vai dar-lhe uma ajuda. - 
Isso no faz parte das minhas funes - retorquiu o Percy, renitente. - Este gigaparvalhado  que faz.

- O Percy utilizava este termo para troar com os grandes; uma combinao de gigante e aparvalhado. Invejava os homens de estatura elevada e entroncados. No era 
escanzelado como, por exemplo, o Harry Terwilliger, mas era atarracado. Um tipo que se assemelhava a uma espcie de galo de capoeira, o gnero que gostava de provocar 
brigas, muito em especial quando as coisas no poderiam deixar de lhe correr de feio. E vaidoso no que dizia respeito ao cabelo. Mal conseguia manter as mos afastadas 
da cabeleira. - Nesse caso, j fizeste o que tinhas a fazer - acrescentei. - Vai j para a enfermaria. O beio inferior esboou um trejeito de amuo. O Bill Dodge 
e os seus homens estavam a mudar caixas e pilhas de lenis, at mesmo as camas; toda a enfermaria iria ser insta lada num novo edificio situado na ala ocidental 
da priso. Trabalho esforado que implicava carregar coisas pesadas. O Percy Wetmore no queria ter nada a ver com aquele gn
 ero de tarefas. - Eles j tm todos os homens de que necessitam - insistiu. - Nesse caso, vai at l e faz de chefe - repliquei, erguendo a voz. Reparei que o Harry 
se retraa, embora eu no tivesse prestado ateno a isso. Se o governador do estado or denasse ao director Moores que me despedisse por eu ter feito ondas onde 
no devia, quem  que o Hal Moores colocaria no meu lugar? O Percy? Isso teria muitssima piada. - Francamente, Percy, no me interessa o que possas fazer, desde 
que saias daqui durante algum tempo. Por breves instantes, pensei que ele iria defender a sua posio, provocando problemas a srio, com o Coffey a assistir a tudo 
aquilo, como se fosse o maior relgio parado do mundo. O Percy, porm, optou por guardar o seu brinquedo na espcie de coldre feito por encomenda - que dava expresso 
a toda a sua arrogncia - tendo comeado a percorrer o corredor num passo pesado. No me recordo de qual era o guarda que esta
 va de servio  mesa do corredor nesse fim de tarde - calculei que seria um dos temporrios - mas o certo  que o Percy no deveria ter gostado muito da expresso 
no seu rosto, pois disse numa voz rosnada quando passou pelo homem: - Tira esse sorriso estpido da tua cara de merda ou sou eu quem o far por ti. - Ouviu-se um 
entrechocar de chaves, uma momentnea vaga de luminosidade veio do ptio de recreio, e depois o Percy Wetmore desapareceu, pelo menos de momento. O rato do Delacroix 
correu de um ombro ao outro do pequeno franci, com as cerdas dos bigodes a fremirem. - Est sossegado, Mister Jingles -= disse o Delacroix, ao que o rato se deteve 
no seu ombro esquerdo, como se tivesse compreendido o que lhe fora dito. Deixa-te estar quieto e sossegado. - No sotaque cajun' do Delacroix, as palavras adquiriam 
a entoao extica de um estrangeirismo. - Vai descansar, Del - disse eu de forma sucinta. - Vai-te deitar. Este assunto tambm no t
 e diz respeito. Ele fez como lhe disse. Tinha violado e morto uma rapariga e deixara o corpo atrs do prdio onde ela vivia, depois de o ter regado com querosene 
e de lhe ter chegado fogo na esperana de conseguir eliminar as provas incriminatrias do seu crime. O fogo acabou por se propagar at ao prprio edifcio, envolvendo-o 
em chamas, e morreram mais seis pessoas, entre as quais duas crianas. Aquele era o nico crime que havia cometido, no passando agora de um homem de maneiras brandas 
com um rosto preocupado, uma coroa calva e uns cabelos compridos que lhe chegavam ao colarinho da camisa. Dentro de pouco tempo, iria sentar-se na Velha Fasca, 
e esta poria fim aos seus dias... No entanto, o que o levara a cometer aquele crime pavoroso j desaparecera e agora encontrava-se estendido em cima da sua tarimba, 
permitindo que o seu pequeno companheiro lhe corresse pelas mos enquanto soltava pequenos guinchos. De certa forma, aquilo era o pior de t
 udo: a Velha Fasca nunca incinerava o que se encontrava dentro deles, e as drogas com que os injectam hoje em dia no conseguem adormecer isso. Desocupa-se o corpo, 
a alma salta para dentro de qualquer outra pessoa, deixando-nos a ns a tarefa de matar as cascas secas que, de qualquer forma, no esto realmente vivas.

~ Nome que se d aos descendentes dos colonizadores franceses do estado da Luisiana. (N. da T.) 28 29 Concentrei a minha ateno no homem gigantesco. - Se eu deixar 
que o Harry te liberte dessas correntes, prometes portar-te bem? Ele acenou afirmativamente. Um gesto que era como o seu abanar de cabea: para baixo, para cima, 
de volta ao centro. Os seus olhos estranhos fitavam-me. Neles reflectia-se uma espcie de paz, mas no o gnero em que eu tivesse a certeza de poder confiar. Com 
o dedo dobrado indiquei ao Harry que se aproximasse, o que ele fez, passando a soltar as correntes. No mostrou o mais pequeno receio, at mesmo quando se ajoelhou 
entre as pernas do Coffey, grossas como troncos, a fim de abrir as grilhetas que lhe prendiam os artelhos, o que at certo ponto me tranquilizou. Fora a presena 
do Percy que enervara o Harry, e eu confiava nos instintos deste ltimo. Confiava nos instintos de todos os meus homens no Bloco E, excepto nos do Perc
 y. Tenho sempre um pequeno discurso para os recm-chegados ao bloco; todavia, senti-me a hesitar perante o Coffey: parecia-me to anormal, e no apenas no tamanho. 
Quando o Harry retrocedeu (o Coffey havia permanecido imobilizado durante toda a cerimnia da abertura das grilhetas e correntes, numa postura to plcida como a 
de um per chero), soergui o olhar at ao novo homem que ficaria sob a minha responsabilidade, batendo na prancheta com o polegar. - Sabes falar, rapaz? - Sim senhor, 
chefe, sei - respondeu ele. A sua voz era grave e tranquila, com uma entoao ribombaste. Trouxe-me  mente o motor de um tractor acabado de ser afinado. No falava 
com a toada arrastada caracterstica das gentes do Sul; no entanto, reparei posteriormente que o seu discurso, de certa forma, era estruturado  maneira de falar 
do Sul. Como se ele fosse oriundo dessa zona, mas no fosse de l. No dava a impresso de ser iletrado, embora no parecesse ter e
 studos. Na forma de se expressar, assim como em muitas outras coisas, o homem era um mistrio. Acima de tudo, eram os seus olhos que me perturbavam - neles reflectia-se 
uma espcie de ausncia beatfica, como se se encontrasse muito distante daquele lugar. - Chamas-te John Coffey - continuei. - Sim senhor, chefe, tal como a bebida, 
com a diferena de que no se escreve da mesma maneira'. ~ Trocadilho intraduzvel: Coffey e coffee (caf) so homfonas. (N. da T.) . Isso quer dizer que s capaz 
de soletrar, no  verdade? Sabes ler e escrever? . S o meu nome, chefe - respondeu ele com grande serenidade. Suspirei e comecei a apresentar-lhe uma verso encurtada 
do meu discurso habitual. J tinha chegado  concluso de que o homem no iria causar quaisquer problemas. Nisso eu estava to certo quanto errado. - O meu nom 
 Paul Edgecombe - apresentei-me. - Sou o superintendente do Bloco E... o manda-chuva. Se pretenderes alguma coisa de
  mim, pergunta pelo meu nome. Se eu no estiver aqui, pede para falar com este outro homem, o Harry Terwilliger. Tambm poders perguntar por Mister Stanton ou 
Mister Howell. Compreendes o que estou a dizer? O Coffey fez um gesto afirmativo com a caba. - Quero ainda avisar-te de que no deves esperar obter aquilo que 
queres, a menos que ns decidamos que tens necessidade disso... Isto no  nenhum hotel. Continuas a perceber o que estou a dizer? Uma vez mais, ele acenou que sim. 
- Este lugar  muito tranquilo, matulo... no  como o resto da priso. Aqui s ests tu e o Delacroix. No sers obrigado a trabalhar; passars a maior parte do 
teu tempo sentado. O que te dar a oportunidade de poder meditar nas coisas. - Para a maioria deles, aquilo era demasiado tempo, mas no partilhei este

pensamento com o Coffey. - Quando tudo est em ordem, por vezes ligamos o rdio. Gostas de ouvir rdio? Ele acenou que sim, ainda que num trejeito de dvida, como 
se no tivesse a certeza daquilo que era um rdio. Mais tarde vim a descobrir que, at certo ponto, isso era verdade: o Coffey reconhecia as coisas quando voltava 
a v-las; porm, durante o espao de tempo em que estas no se encontravam. presentes, esquecia-as. Conhecia as personagens da srie Our Gal Sunday, embora a recordao 
que guardava da aco do ltimo episdio fosse bastante vaga. - Se te portares como deve ser, comers sempre a horas e nunca vers o interior da cela do isolamento 
ao fundo do corredor, nem sers obrigado a usar um desses casaces de lna que abotoam nas costas. Poders passar duas horas no ptio todas as tardes das quatro 
s seis, excepto aos sbados, quando o resto dos prisioneiros realiza os seus jogos de fute 30 31 bol. Se houver alg
 um que queira visitar-te, poders receber as tuas visitas nas tardes de domingo. Tens algum que queira ver-te, Coffey? - No tenho ningum, chefe - retorquiu 
ele, abanando a cabea. - Bem, nesse caso, o teu advogado - adiantei. - Acho que nunca mais vou v-lo - proferiu. - Ele foi-me emprestado. No me parece que seja 
capaz de descobrir o caminho at aqui, por entre estas montanhas. Olhei-o atentamente, a fim de descortinar se estaria a tentar brincar comigo, mas no foi essa 
a impresso com que fiquei. Diga-se de passagem que no tinha esperado nada de diferente. Os recursos ao tribunal no se destinavam a gente da igualha do John Coffey, 
pelo menos nesses tempos; eles tinham direito ao seu dia em tribunal, aps o que o mundo se esquecia da sua existncia, at as pessoas lerem no jornal que um determinado 
fulano havia consumido, por volta da meia-noite, um pouco de electricidade a mais. Contudo, a realidade era que um homem que tivesse mulh
 er, filhos ou amigos, e que aguardasse ansiosamente a sua visita aos domingos  tarde, era mais fcil de controlar, caso o controlo viesse a ser um problema. Naquele 
caso no seria essa a questo, o que era uma vantagem. Ele era to diabolicamente grande... Agitei-me um pouco em cima da tarimba, tendo chegado  concluso de que 
era possvel sentir-me um pouco mais confortvel nas partes baixas se me levantasse, o que fiz. Nu ma atitude respeitosa, o Coffey retrocedeu, afastando-se de mim 
e entrelaando as mos  frente do corpo. - O tempo que tiveres de passar aqui poder ser fcil ou dificl, matulo, tudo depender de ti. Estou aqui para te dizer 
que seria prefervel que facilitasses as coisas a todos, porque, no fim, tudo isto ir dar ao mesmo. Tratar-te-emos de forma adequada, de acordo com o que venhas 
a merecer. Tens algumas dvidas que queiras esclarecer? - Depois da hora de dormir costumam deixar alguma luz ligada? - perguntou
 ele de imediato, como se s tivesse aguardado por uma oportunidade para poder fazer aquela pergunta. Pestanejei, surpreendido. Todos os prisioneiros recm-chegados 
ao Bloco E j me haviam feito uma grande quantidade de perguntas estranhas - numa ocasio at me tinham perguntado qual o tamanho das mamas da minha mulher - mas 
nunca ningum tinha abordado aquele assunto. O Coffey esboava um sorriso que reflectia um certo mal 32 -estar, como se soubesse que amos pensar que era um imbecil, 
embora lhe tivesse sido impossvel evitar aquela pergunta. -  porque s vezes sinto-me um pouco assustado na escurido - justificou ele. - Se estiver num lugar 
estranho. Olhei para ele - para o tamanho gigantesco daquele corpo - e senti-me estranhamente tocado. No sei se sabem, mas eles conseguem comover-nos; no os vamos 
no seu pior, a malhar o ferro dos seus horrores, quais demnios numa

forja. - Sim, isto por aqui  bastante iluminado durante toda a noite - tranquilizei-o eu. - Metade das luzes a todo o comprimento da Milha est sempre ligada, desde 
as nove horas at s cinco da manh. - Foi ento que me dei conta de que ele no faria a mnima ideia do que eu estava a falar... No deveria saber distinguir a 
Milha Verde do lodaal do Mississipi, por isso indiquei: - No corredor. Acenou com uma expresso de alvio. No tenho bem a certeza se ele sabia  que era um corredor; 
no entanto, podia ver as lmpadas de duzentos watts nas suas armaes de rede de arame. Ento, fiz algo que nunca fizera antes a nenhum prisioneiro: ofereci-lhe 
a minha mo. Ainda hoje no compreendo o que me levou quela atitude. Talvez tenha sido o facto de ele me ter feito a pergunta sobre as luzes. Garanto-vos que o 
meu gesto fez com que o Harry Terwilliger pestanejasse de perplexidade. O Coffey agarrou-me na mo com uma ternura surpreendente,
  tendo esta desaparecido quase completamente no interior da sua, e foi tudo. Eu tinha recebido outra mosca na minha teia de aranha mortfera. Estvamos despachados. 
Sa da cela. O Harry fez deslizar a porta na calha e fechou  chave as duas fechaduras. Durante um momento ou dois, o Coffey deixou-se ficar no mesmo lugar, como 
se estivesse indeciso quanto ao que fazer em seguida; depois, optou por se sentar em cima da tarimba, com as enormes mos entre os joelhos, a cabea vergada sobre 
o peito, como um homem que rezasse ou sofresse de um grande desgosto. Pouco depois, comeou a dizer qualquer coisa na sua estranha voz, onde se adivinhava um sotaque 
que era quase do Sul. Ouvi-o com toda a clareza e, embora no estivesse muito a par daquilo que ele fizera - no  necessrio que se tenha conhecimento das aces 
de um homem para poder aliment-lo e cuidar dele, at chegar a hora em que ter de pagar a sua dvida para com a sociedade senti-me perc
 orrido por um calafrio. 33 - No fui capaz de evitar, chefe - adiantou ele. - Tentei desfazer o que estava feito, mas j era demasiado tarde. 3 - Vais arranjar 
problemas com o Percy - advertiu-me o Harry quando comemos a percorrer o corredor at ao meu gabinete. O Dean Stanton, uma espcie de meu terceiro adjunto na cadeia 
de comando (na realidade, no tnhamos esse tipo de hierarquia, uma situao que o Percy Wetmore teria resolvido numa fraco de segundos), encontrava-se sentado 
por detrs da minha secretria, actualizando os processos, uma tarefa para a qual dava a impresso que eu nunca conseguia arranjar tempo. Quando entrmos, ele mal 
ergueu os olhos da papelada, limitandose a dar um pequeno empurro aos culos com a ponta do polegar, regressando de imediato aos papis. - Tenho tido problemas 
com esse palerma desde que ele aqui entrou - redargui cautelosamente, afastando as calas da regio . das virilhas com uma careta. Ouv
 iste o que ele gritou quando trouxe aquele gigante meio tolo c para baixo? - Era impossvel no ter ouvido - respondeu-me o Harry. - No sei se sabes, mas eu encontrava-me 
presente. - Eu estava na retrete e ouvi-o na perfeio - interveio o Dean. Chegou uma folha de papel mais para junto de si, ergueu-a contra a luz de forma a que 
eu pudesse ver bem o crculo de caf em cima das palavras dactilografadas e lanou-a para dentro do tabuleiro dos papis. - "Homem morto a caminhar." Deve ter lido 
isso numa dessas revistas de que ele tanto gosta. O que provavelmente fora o caso. O Percy Wetmore era um grande leitor da Argosy e da Stag, assim como da Men 's 
Adventure. Em cada uma dessas publicaes havia sempre uma histria passada na priso, ou pelo menos era a impresso com que se ficava, e o Percy costumava l-las 
com avidez, como um homem que se dedicasse a um trabalho de pesquisa. Parecia que tentava descobrir como  que deveria agir, e julga
 va que esse tipo de informao estaria contido naquelas revistas. O tipo comeara a trabalhar ali depois de termos acabado com o Anthony Ray, o assassino do machado, 
e ainda no participara verdadeiramente numa execuo, embora

j tivesse testemunhado uma delas do compartimento do quadro elctrico. -Ele tem conhecimentos - acrescentou o Harry. Gente influente. Vais ter de justificar porque 
correste com ele do bloco e de explicar ainda melhor porque  que esperaste que ele fizesse algum trabalho a srio. - Eu nunca esperei isso - repliquei, e era verdade... 
embora houvesse albergado algumas esperanas. O Bill Dodge no era dos que deixava um homem ficar ao p de si sem fazer nada, a olhar para quem trabalhava. - Neste 
momento estou mais interessado no matulo. Iremos ter alguns problemas com ele? O Harry sacudiu a cabea com grande determinao. - Ele esteve calado que nem um 
rato l no tribunal do municpio de Trapingus - adiantou o Dean. Retirou do nariz os pequenos culos sem aros e comeou a limpar as lentes com a ponta do colete. 
-  claro que ele estava manietado com mais correntes do que aquelas que o Scrooge viu no fantasma do Marley, mas se quisesse poderia te
 r comeado a dar pontaps a tudo o que tinha  sua frente. No sei se sabes a quem  que me estou a referir, meu amigo. - Sei muito bem - respondi, embora no soubesse. 
Mas acontece que detesto que o Dean Stanton me leve a melhor. - O homem  bem grandinho, no  verdade? continuou Dean. - De facto,  - concordei. - Monstruosamente 
grande. - O mais provvel  termos de ajustar a Velha Fasca para o programa do Superassado para poder dar cabo do coiro do homem. - No te preocupes com a Velha 
Fasca - redargui distraidamente. - Ela faz com que os grandes se transformem em pequeninos. O Dean apertou os lados do nariz, nas zonas onde se avistavam um par 
de manchas avermelhadas provocadas pelos culos. - Sim - disse ele com um acenar de cabea. - H alguma verdade no que acabaste de dizer. - Algum de vocs sabe de 
onde  que ele veio antes de ter aparecido em... Teflon? - perguntei. - Foi em Teflon, no  verdade? - Sim - anuiu o Dean.
 - Teflon, no municpio de Trapingus. Antes de ter aparecido por l e de ter feito aquilo que 34 35 fez, d a impresso que ningum sabe por onde  que andou. Imagino 
que andasse de um lado para o outro ao acaso. Talvez possas descobrir mais alguma coisa nos jornais da biblioteca da priso, se estiveres realmente interessado. 
O mais provvel  no os tirarem de l at  prxima semana. - O Dean exibiu um esgar sorridente. - No entanto,  possvel que tenhas de ouvir o teu amiguinho a 
gemer e a implicar no andar de cima. - Seja como for, talvez v dar s uma espreitadela - repliquei, e nessa mesma tarde foi exactamente o que fiz. A biblioteca 
da penitenciria situava-se nas traseiras do edifcio, rea que em breve estava destinada a transformar-se na oficina de reparao de automveis - pelo menos era 
isso o que havia sido planeado. Na minha opinio, seriam mais uns dinheiros no bolso de algum, mas o certo  que a Grande D
 epresso se tinha instalado entre ns, pelo que eu guardava as opinies para mim prprio - da mesma maneira que deveria ter ficado de boca calada em relao ao 
Percy, mas acontece que por vezes um homem no  capaz de refrear aquilo que tem a dizer. Na maior parte das vezes, a boca de um homem arranja-lhe mais complicaes 
do que o coiso alguma vez conseguiria causar-lhe. E em qualquer dos casos, o projecto da oficina nunca chegou a concretizar-se: na Primavera seguinte, as instalaes 
da penitenciria mudaramse para um local noventa e cinco quilmetros mais abaixo,  beira da estrada para Brighton. Calculei que isso se deveria a mais maquinaes 
nos bastidores. Mais uns dinheiros que iriam parar  algibeira de algum. Todavia, eu no tinha nada a ver com aquele assunto. A administrao ficara instalada num 
novo edifcio, na ala oriental do ptio; a enfermaria tambm ia ser transferida para outro lugar (para comear, quem f
 ora o grande labrego que ti

vera a ideia de instalar a enfermaria no primeiro piso? Aquilo era mais um dos mistrios da vida); a biblioteca continuava a manter-se parcialmente abastecida - 
no que alguma vez houvesse contido muito material de leitura - embora no se visse ningum por ali. O velho edifcio era uma espcie de caixa aquecida construda 
de sarrafos de madeira, encaixada entre os blocos A e B. As casas de banho destes ltimos situavam-se nas traseiras da biblioteca, e a pairava sempre um vago cheiro 
a urina, o que provavelmente seria a nica razo que poderia justificar a mudana de instalaes. A biblioteca tinha o traado de um "L", no sendo muito maior do 
que o meu gabinete. Procurei uma das ventoinhas, mas estas j haviam sido todas retiradas. Ali dentro a temperatura deveria rondar os trinta e oito graus; quando 
me sentei, senti nas virilhas um latejar provocado pelo calor. Como se fosse um dente inflamado. Sei que  uma comparao absurda, leva
 ndo em considerao a regio do corpo a que estou a referir-me, mas era a nica coisa que me ocorria para estabelecer uma comparao adequada. Aquela situao agravava-se 
bastante mais sempre que urinava ou depois de ter urinado, e acabara de fazer isso quando entrei naquele recinto. Ao fim e ao cabo, havia outro tipo na biblioteca 
- um antigo prisioneiro de confiana, um homem esqueltico, de nome Gbbons, que passava pelas brasas a um canto, tendo sobre as coxas um romance sobre o Oeste selvagem 
e a aba do chapu a cobrir-lhe os olhos. O calor parecia no o incomodar, o mesmo acontecendo em relao aos resmungos, sons de passos pesados e o praguejar ocasional 
que vinham da enfermaria no andar de cima (onde deviam estar pelo menos cinco graus mais quente, e eu esperava que o Percy estivesse a saborear tal facto). No incomodei 
o homem, tendo-me dirigido para a seco mais curta do "L,", onde se encontravam os jornais. Ocorreu-me que talvez t
 ivessem levado o mesmo caminho das ventoinhas, apesar do que o Dean dissera. Verifiquei que isso ainda no tinha acontecido. O assunto das gmeas Detterick era 
bastante fcil de encontrar; fora notcia de primeira pgina desde que as investigaes haviam tido incio, em Junho, at ao julgamento em fins de Agosto, entrando 
por Setembro adentro. Ao fim de pouco tempo, j eu me tinha esquecido do calor, dos passos que ecoavam vindos do andar de cima e do ressonar asmtico do velho Gibbons. 
O pensamento daquelas duas rapariguinhas de nove anos, muito ao estilo das gmeas Bobbsey' com os seus macios cabelos louros e sornsos irresistveis - relacionado 
com o negrume da figura entroncada do Coffey era desagradvel, mas impossvel de ignorar. Dado o tamanho do homem, era fcil imagin-lo a devor-las, qual gigante 
de uma fbula. O que ele fizera era ainda pior do ' Expresso utilizada para descrever duas pessoas que esto sempre juntas, e qu
 e fisionomicamente so parecidas, o mesmo acontecendo em relao s suas atitudes. (N. da T. ) 36 37 que isso, e tivera muita sorte por no ter sido linchado ali 
mesmo, na margem do rio. Isto , no caso de se considerar uma sorte o facto de ele estar  espera de percorrer a Milha Verde, para acabar por se sentar no regao 
da Velha Fasca. 4 O rei algodo fora deposto no Sul setenta anos antes de todas estas coisas terem acontecido, sem possibilidade de jamais voltar a ser rei, mas 
nesses anos da dcada de 30 havia atravessado uma pequena fase de revivalismo. Tinham deixado de existir plantaes de algodo, embora houvesse quarenta ou cinquenta 
quintas prsperas que se dedicavam ao plantio do algodo, na regio meridional do estado. Klaus Detterick era o proprietrio de uma delas. De acordo com os padres 
de sociedade que vigoravam nos anos 50, ele estaria apenas um furo acima do estado de pobreza; no obstante, segundo os valores que v
 igoravam nos anos 30, Detterick tinha uma vida desafogada, uma vez que costumava pagar em dinheiro a conta da mercearia no final de todos os meses, e poderia olhar 
bem de frente para o gerente do banco, caso se cruzasse com ele na rua. A casa da quinta era limpa e confortavelmente espaosa. Para alm do algodo, criava tambm 
umas quantas

galinhas e vacas. Ele e a mulher tinham tido trs filhos: Howard que deveria andar por volta dos doze anos e as gmeas, Cora e Kathe. Numa noite quente de Junho 
desse ano, as meninas pediram e obtiveram autorizao para dormir no alpendre lateral da casa, circundado por rede. Tanto para uma como para a outra aquilo era um 
grande acontecimento. A me deu-lhes um beijo de boas-noites muito prximo das nove da noite, quando os ltimos raios de luz estavam prestes a desaparecer no horizonte. 
Foi a ltima vez em que teve oportunidade de ver as filhas, at que estas foram colocadas nos respectivos caixes pelo cangalheiro, que entretanto reparara a maior 
parte das mutilaes infligidas nos seus corpos. Naquele tempo, as famlias rurais tinham por hbito deitr-se cedo - "assim que comeasse a fazer escuro debaixo 
da mesa", como a minha me dizia por vezes dormindo um sono profundo. O que foi certamente o caso em relao a Klaus, Marjorie e Howi
 e Detterick na noite em que as g 38 meas foram arrebatadas de sua casa. Sem dvida que Klaus teria sido despertado por Bowser, o velho co da famlia, arraado 
de collie, caso este houvesse ladrado, o que no se verificu. Nem nessa noite nem nunca mais. s primeiras horas da manh, Klaus j estava a p para ordenhar as 
vacas. O alpendre era num dos lados da casa, afastado da vacaria, no tendo sequer passado pela cabea de Klaus ir ver como  que estavam as meninas. O facto de 
Bowser no o ter acompanhado no era motivo para alarme. O co considerava que as galinhas e as. vacas eram seres desprezveis, pelo que habitualmente se escondia 
na sua casota, por detrs do celeiro, quando essas tarefas da quinta eram levadas a cabo, a menos que o chamassem... e s se isso fosse feito com toda a energia. 
Mais ou menos cinco minutos depois de o marido ter calado as botas na barraca que servia de arrecadao e de se ter dirigido num pass
 o determinado para a vacaria, Marjorie desceu at ao andar trreo. Comeou a preparar o caf e ps o toucinho defumado a frigir. A combinao daqueles aromas trouxe 
Howie do seu quarto, situado logo abaixo do beiral, mas continuava a no haver sinais da presena das raparigas que haviam dormido no alpendre. Marjorie disse ao 
filho que fosse cham-las, enquanto quebrava os ovos para dentro da gordura do toucinho. Klaus haveria de querer que as filhas fossem buscar os ovos acabados de 
pr, assim que houvessem terminado o pequeno-almoo. S que o pequeno-almoo no teve lugar em casa dos Detterick nessa manh. Howie regressou do alpendre com as 
faces lvidas e com os olhos, que at ento tinham estado inchados devido  sonolncia, completamente arregalados. - Elas desapareceram - anunciou o rapaz. Marjorie 
dirigiu-se para o alpendre, mostrando-se inicialmente mais irritada do que preocupada. Mais tarde disse que tinha suposto, isto ,
  se  que na altura supusera alguma coisa, que as filhas haviam decidido dar um passeio, a fim de colher flores  primeira luz do alvorecer. Ou isso ou qualquer 
outro disparate caracterstico das garotas daquela idade. Aps um rpido olhar compreendeu logo por que motivo  que o filho ficara to plido. Gritou por Klaus 
- berrou por ele - e Klaus veio a correr com as botas esbranquiadas por ter derramado em cima delas metade de um balde cheio de leite. Aquilo com que se

39 deparou no alpendre teria transformado em borracha os joelhos de qualquer pai, ainda que este fosse muito corajoso. Os cobertores em que as raparigas se haviam 
enrolado, quando a noite comeara a arrefecer, tinham sido arremessados para um canto. A porta de rede fora arrancada violentamente da dobradia superior e pendia 
suspensa da ombreira. Nas tbuas tanto do soalho do alpendre como dos degraus, para l da porta de rede danificada, viam-se vrias manchas de sangue.

Marjorie implorou ao marido que no fosse procurar as filhas sozinho, e que no levasse o filho caso se sentisse forado a procua-las, mas poderia muito bem ter 
poupado o flego. O homem foi buscar a carabina que se encontrava pendurada no barraco que servia de arrecadao, bem fora do alcance de mos pequenas, e entregou 
a Howie a de calibre 22, que tinha andado a guardar para lhe oferecer no seu aniversrio, o qual teria lugar em Julho. Em seguida, pai e filho puseram-se a caminho, 
sem prestar a mais pequena ateno aos gritos e ao choro da mulher, que queria saber o que ambos tencionavam fazer, no caso de depararem com um bando de maltrapilhos 
vadios, ou com um grupo de negros de maus ligados fugidos da quinta de Laduc. Neste aspecto, quero dizer-vos que me parece que os homens procederam acertadamente. 
O sangue j perdera a sua fluidez, embora ainda estivesse bastante viscoso, muito prximo da vermelhido que lhe era caracterstica, em ve
 z de ter adquirido a tonalidade acastanhada que costumava ter quando j se encontrava bem seco. O rapto das garotas no acontecera h muito tempo. Klaus deveria 
ter raciocinado que ainda seria possvel salvar as suas filhas e no tinha a mnima inteno de deixar escapar essa oportunidade. Nenhum deles conseguiu avistar 
qualquer rasto das garotas - ambos eram recolectores, no caadores, homens que costumavam ir para os bosques, atrs de guaxinins e veados na poca prpria, no 
porque o desejassem com muita veemncia, mas sim porque se tratava de uma coisa que se esperava deles. O terreno que circundava a casa estava numa confuso de terra 
espezinhada, cheio de trilhos confusos que no permitiam discernir fosse o que fosse. Deram a volta ao celeiro, tendo visto imediatamente por que motivo Bowser, 
um animal que mordia mal mas que ladrava bem, no dera o alarme. O seu corpo encontrava-se meio dentro e meio fora da casota, a qual fora constr
 uda com os restos das tbuas utilizadas na construo do celeiro (havia uma tabuleta onde esta 40 va escrita a palavra Bowser traada com grande perfeio sobre 
o arco da entrada na parte da frente - vi uma fotografia publicada num dos jornais), com a cabea quase tod torcida num ngulo de cento e oitenta graus. Teria sido 
necessrio um homem com uma fora extraordinria para poder fazer aquilo a um animal de to grande porte, dissera o promotor de justia, ao jri do julgamento de 
John Coffey... para em seguida fitar alongada e significativamente a figura portentosa do arguido, sentado por detrs da mesa do advogado de defesa, mantendo o olhar 
baixo e envergando um fato-macaco novinho em folha que o estado lhe havia oferecido e que por si s j era o prenncio da danao: Alm do co, Klaus e Howie haviam 
encontrado um bocado de salsicha cozinhada. De acordo com a teoria prevalecente - que no duvido ter tido bases slid
 as - Coffey tinha atrado o co por meio daquele petisco e depois,  medida que Bowser consumia a iguaria, lanara-lhe as mos  volta do pescoo, que quebrara 
com um gesto violento dos seus pulsos cheios de fora. Por detrs do celeiro ficava a pastagem norte de Detterick, onde naquele dia nenhuma das vacas iria pastar. 
O solo encontrava-se todo empapado com o orvalho da madrugada, e era atravessado na diagonal em direco a noroeste pelas pegadas de um homem, to ntidas como a 
luz do dia. At mesmo no seu estado de semi-histeria, Klaus Detterick hesitou inicialmente em seguir aquele rastro. No era com medo do homem ou dos homens que haviam 
levado as suas filhas; era, isso sim, o receio de seguir o caminho que o raptor tomara at sua casa... de haver possibilidade de se encaminhar exactamente na direco 
errada, numa altura em que todos os segundos poderiam ser de grande importncia. Howie resolveu esse dilema ao retirar um bocado de
 tecido de algodo amarelo de um arbusto situado precisamente no permetro da rea que circundava a casa. Quando se sentou no banco das testemunhas, algum mostrou 
a Klaus aquele mesmo bocado de tecido, e ele comeou a chorar ao identific-lo como um pedao dos cales com que a filha Kathe dormira. Cerca de vinte metros mais 
 frente desse lugar, pendurado no ramo saliente de um zimbro, fora encontrado um bocado de um tecido de um verde desbotado, que condizia com a camisa de noite que 
Cora usava quando dera um beijo de boas-noites  me e ao pai.

Os Detterick, pai e filho, prosseguiram num passo quase

41

de corrida, levando as armas empunhadas  frente,  maneira dos soldados quando atravessam um campo de batalha sob uma barragem de metralha cerrada. Se alguma coisa 
nesse dia me espanta  o facto de o rapaz, que corria desesperadamente atrs do pai (muitas vezes quase sendo deixado para trs), nunca ter cado, e disparado, inadvertidamente, 
uma bala contra as costas do pai. A quinta encontrava-se ligada  rede telefnica local - outro indicador para os vizinhos de que os Detterick eram uma famlia prspera, 
pelo menos de uma forma moderada, numa poca considerada economicamente desastrosa - pelo que Marjorie utilizou a central telefnica para ligar ao mximo nmero 
possvel de vizinhos que estivessem abrangidos pelo mesmo sistema, informando-os da tragdia que se abatera sobre a sua famlia como um relmpago que houvesse cruzado 
um cu desanuviado, sabendo de antemo que cada um dos telefonemas produziria uma reaco em cadeia, como
  seixos arremessados numa sucesso rpida sobre um charco de guas mansas. Por fim, ergueu o auscultador uma ltima vez, proferindo as palavras que eram quase uma 
marca registada nos primrdios da era das redes telefnicas da altura, pelo menos na regio sul do mundo rural: "Al, central, est algum em linha?" A central encontrava-se 
em linha, mas por breves instantes no disse coisa alguma; aquela mulher de mrito estava absolutamente aparvalhada. Por fim, l conseguiu articular alguma coisa. 
- Sim, minha senhora, Mistress Detterick, com certeza que estou em linha. Oh, meu bom e doce Jesus, neste momento estou a rezar para que as suas pequenitas se encontrem 
bem... - Sim, estou-lhe muito agradecida - interrompeu Marjorie. - Mas diga ao Senhor que espere o tempo suficiente para que me possa ligar ao xerife em Tefton, 
de acordo? O xerife do municpio de Trapingus era' um velho matreiro com o nariz de quem abusava do usque, com uma pana que m
 ais parecia uma selha de roupa e cabelos brancos to esparsos que se assemelhavam a cerdas para limpar cachimbos. Eu conhecia-o bastante bem; o homem fora vrias 
vezes a Cold Mountain visitar aqueles a quem chamava "os seus rapazes", quando estes se preparavam para entrar no grande alm. As testemunhas que assistiam s execues 
costuma 42 vam sentar-se nas mesmas cadeiras desdobrveis em que todos provavelmente j se sentaram numa ou duas ocasies, durante funerais ou ceias na igreja, ou 
ainda durante as sesses de bingo nas granjasl (de facto, nesses tempos, tnhamos o costume de pedir emprestadas as que utilizvamos  Granja Ligao Mstica Nmero 
44) e, de cada vez que o xerife Homer Cribus se sentava numa delas, eu estava sempre  espera de ouvir aquele estalar seco que anunciaria o colapso. Temia esse dia 
e ansiava simultaneamente por ele, mas foi um dia que nunca veio. No muito tempo depis - no poderia ser mais do que um Ve
 ro aps as garotas Detterick terem sido sequestradas - ele teve um ataque do corao no seu gabinete, aparentemente enquanto fornicava com uma rapariga de raa 
negra de dezassete anos, de nome Daphne Shurtleff. Houve muito falatrio por causa dessa ocorrncia, uma vez que ele tinha por hbito exibir-se sempre de forma proeminente 
na companhia da mulher e dos seus seis filhos por altura das eleies - esses eram os tempos em que, quando algum pretendia candidatar-se a fosse o que fosse, costumava 
dizer-se: "S baptista ou desaparece." Mas as pessoas adoram um hipcrita - reconhecem sempre os da sua raa e sabe sempre bem quando algum  apanhado com as calas 
na mo e de pau feito e esse algum no somos ns.

Para alm de ser um rematado hipcrita, ele era um incompetente, o tipo de fulano que se deixava fotografar enquanto fazia festas ao gato de alguma senhora, quando 
fora outra pessoa - o seu ajudante Rob McGee, por exemplo - quem na realidade quase partira uma clavcula ao subir  rvore para onde a bichana trepara e ao traz-la 
para baixo. McGee ouviu o arrazoado de Marjorie durante talvez dois minutos, depois interrompeu-a com quatro ou cinco perguntas - rpidas e incisivas, como se fosse 
um pugilista com experincia a desferir pequenos golpes sobre as faces do adversrio, o gnero de ataques que so to pequenos, mas to violentos, que o sangue comea 
a jorrar quase antes do impacte. Depois de ter obtido as respostas s suas perguntas, ele acrescentou: - Vou telefonar ao Bobo Marcham. Ele tem uns ces. A senhora 
deixe-se ficar sossegadinha onde est, Mistress Detterick. Se o seu homem e o seu rapaz regressarem, diga-lhes ' Associaes d
 e lavradores. (N. da T.)

43 que se deixem estar tambm sossegados. Pelo menos, tente que eles faam isso. Entretanto, o homem e o rapaz de Marjorie haviam continuado a seguir o trilho do 
sequestrador ao longo de quatro quilmetros e meio para noroeste; todavia, quando a pista saiu de terreno aberto, entrando no arvoredo cheio de pinhais, acabaram 
por perd-la. Ambos eram lavradores e no caadores, tal como j disse, e nessa altura j se tinham apercebido de que se encontravam na peugada de um animal. Ao 
longo do caminho haviam encontrado o top que condizia com os cales amarelos de Kathe, assim como um outro pedao da camisa de dormir de Cora. Ambos os artigos 
se encontravam empapados de sangue, e naquele momento nem Klaus nem Howie estavam com tanta pressa como no incio; nas suas esperanas j devia ter principiado a 
infiltrar-se uma certeza cheia de frialdade, comeando a descer tal como a gua fria o faz, afundando-se por ser mais pesada. Entraram no bosque  p
 rocura de vestgios, no encontraram nada, entraram numa segunda rea e tiveram um resultado idntico, e depois numa terceira zona. Desta feita depara ram com um 
leque de sangue derramado por cima de um amontoado de agulhas de pinheiro. Seguiram na direco que lhes parecia indicada durante algum tempo, depois recomearam 
a procurar ao acaso. Nessa altura j eram nove horas da manh; ambos comearam a ouvir atrs de si os gritos de homens e o latir de ces presos por trelas. Rob McGee 
conseguira organizar um corpo de guardas civis no mesmo espao de tempo que teria levado ao xerife Cribus terminar o seu primeiro caf adoado com brande; passados 
quinze minutos j tinham alcanado Klaus e Howie Detterick, os dois caminhando num passo desesperadamente cambaleante em redor do permetro do bosque. Pouco depois, 
os homens puseram-se de novo em movimento, com os ces de Bobo  frente. McGee permitiu que Klaus e Howie os acompanhassem - ainda
  que lhes tivesse dado ordem contrria, ambos teriam recusado voltar atrs, independentemente do quanto temessem o desfecho daquela perseguio, o que McGee teria 
compreendido; no entanto, forou-os a descarregarem as armas. Os outros haviam feito o mesmo, argumentara McGee; assim era mais seguro. O que no lhes disse (no 
que foi imitado por todos os outros) foi que os Detterick eram os nicos a quem havia sido pedido que retirassem as munies das espingar 44 das, entregando-as ao 
ajudante do xerife. Sem se aperceberem bem da situao e desejando apenas prosseguir at ao fim daquele pesadelo, pai e filho fizeram o que lhes foi dito. Quando 
Rob McGee conseguiu convencer os Detterick a

descarregarem as armas e a entregarem as munies, salvara provavelmente a desgraada vida de John Coffey. No parando de ganir, os ces presos pelas trelas arrastaram 
os homens durante trs quilmetros pelo solo coberto de pinhas, seguindo sempre pelo trilho em direco a noroeste. Em seguida, detiveram-se na margem do rio Trapingus, 
cujo leito  largo e de guas lentas naquele ponto, correndo para sudeste atravs de colinas baixas e arborizadas, onde famlias de nome Cray, Robinette e Duplissey 
continuavam a manufacturar os seus prprios mandolins e frequentemente cuspiam os seus prprios dentes apodrecidos, enquanto lavravam a terra; eram regies rurais 
bem para o interior, onde os homens conseguiam apanhar serpentes aos domingos de manh e deitar-se  noite em amplexos carnais com as prprias filhas. Eu conhecia 
as suas famlias; a maior parte deles contribua de tempos a tempos com uma refeio para a Velha Fasca. No extre
 mo mais afastado do rio, os homens do corpo de voluntrios podiam ver aquele sol de Junho reflectido nos carris de ao do ramal ferrovirio do Sul. Mais ou menos 
a quilmetro e meio para a direita, rio abaixo, havia um viaduto que atravessava o caminho em direco s minas de carvo de West Green. Foi ali que encontraram 
um trilho largo com o solo bastante revolvido entre as ervas e os arbustos baixos, um rasto to ensanguentado que muitos dos homens foram forados a correr para 
o arvoredo, aliviando-se dos pequenos-almoos que haviam ingerido. Tambm encontraram o resto da camisa de noite de Cora, que estava cada naquele caminho coberto 
de sangue derramado, e Howie, que at ento se tinha aguentado de forma admirvel, retrocedeu para junto do pai, prestes a desfalecer. E foi naquele lugar que os 
ces de Bobo Marcham tiveram o seu primeiro e nico desacordo do dia. Ao todo eam seis animais dois perdigueiros, dois malhados de negro e um
  par de terriers cruzados de aspecto feroz. Os dois ltimos queriam continuar em direco a noroeste, seguindo pelo Trapingus acima; os demais pretendiam seguir 
rumo a sudeste. Os seis enredaram-se nas suas prprias trelas e, embora os

45 jornais no tivessem feito qualquer meno a esse acontecimento, eu era capaz de imaginar o praguejar horrvel que deve ter sado da boca de Bobo, destinado aos 
animais, enquanto se servia das mos - certamente a parte mais bem-educada do seu corpo - para desenredar as trelas que os prendiam. Nos meus tempos tive oportunidade 
de conhecer alguns donos de ces de caa, e diz-me a experincia que, como classe, so todos muito parecidos. Bobo manteve-os com a trela curta, numa matilha ordeira, 
depois passou a camisa de dormir de Cora feita em farrapos por baixo do nariz dos animais, como se os estivesse a recordar do motivo que os havia levado quele lugar, 
num dia em que a temperatura atingiria certamente os trinta e dois graus por volta do meio-dia, e os insectos, em enxames, j descreviam crculos  volta das cabeas 
dos membros da milcia. Os ; ces de caa farejaram mais uma vez, decidiram votar todos no mesmo nmero e l foram em d
 ireco ao rio, seguindo para jusante a toda a velocidade. Ainda mal tinham passado dez minutos quando os homens detiveram a sua caminhada, dando-se conta de que 
ouviam algo mais alm dos latidos dos ces. Na realidade, era mais um uivar do que um ladrar ou rosnar, um som que co algum jamais havia emitido, nem sequer nas 
vascas da morte. ', Era um som que nenhum dos homens alguma vez ouvira ser articulado fosse pelo que fosse, embora todos eles soubessem, sem qualquer margem para 
dvida, que sara da boca de um homem. Foi o que eles disseram na altura, e eu acreditei piamente. Tenho a impresso de que tambm o teria reconhecido. J tive oportunidade 
de ouvir homens a gritarem daquela mesma maneira, quando iam a caminho da cadeira elctrica. No muitos quase todos os condenados se fecham em si mesmos e vo ora 
calados ora dizendo piadas, como se fossem ao piquenique da sua turma - mas uns quantos. Geralmente, aqueles que acreditam na existncia do
  inferno, sabendo de antemo que ele os aguarda no final da Milha Verde.

Uma vez mais, Bobo manteve os seus ces com as trelas curtas. Os animais eram valiosos e ele no tinha a mnima inteno de vir a perder qualquer deles por causa 
do psicopata que uivava e proferia um arrazoado sem nexo mais abaixo na margem do rio. Os homens carregaram as suas carabinas e comearam a fazer pontaria. Aquele 
uivar provocara-lhes calafrios de gelar as almas, fazendo com que a transpirao lhes 46 corresse pelas costas abaixo e se acumulasse nos sovacos, como se fosse 
gua gelada. Quando as pessoas se encontram numa situao apavorante como aquela necessitam de um dirigente, a fim de poder prosseguir; coube ao ajudante de xerife, 
McGee, chefi-los. Tomou a dianteira do grupo e comeou a caminhar num passo vigoroso (no obstante aquela aparente determinao, aposto que ele naquela altura no 
se sentiu l muito vigoroso), at chegar a um macio de amieiros que saam do bosque  sua direita, com o resto dos companheiros a
 seguir a cerca de cinco passos atrs de si, num andar que denotava um certo nervosismo. McGee parou uma s vez, para indicar por gestos ao homem de maior porte 
entre eles - Sam Hollis - que se mantivesse perto de Klaus Detterick. Do outro lado dos amieiros havia mais terreno aberto, que se estendia at ao incio do bosque 
 direita, enquanto  esquerda se avistava uma longa encosta suavemente ondulada, junto  margem do rio. Todos eles pararam onde se encontravam, como se houvessem 
sido fulminados por um raio. Estou convencido de que estariam dispostos a dar muito do que possuam para poder apagar o que tinham  frente dos olhos, e que nenhum 
deles jamais conseguiria esquecer... Era o gnero de pesadelo que paira para l dos factores e dos elementos que formam as vidas boas e comuns - as ceias na igreja, 
os passeios pelas veredas dos campos, o trabalho honesto, beijos de amor trocados na cama. Existe uma caveira em todos os homens, e deixem-me que vos d
 iga que existe uma caveira na vida de todos os homens. Nesse dia, aqueles homens viram-na - viram aquilo que por vezes esboa um esgar sinistro por detrs de um 
sorriso. Sentado na margem, envergando um fato-macaco desbotado e manchado de sangue, encontrava-se o homem mais corpulento que muitos deles alguma vez tiveram ocasio 
de ver - John Coffey. Os seus ps enormes de dedos achatados e largos estavam descalos.  volta da testa usava uma faixa de um vermelho desbotado, da mesma maneira 
que qualquer mulher do campo usaria um leno para ir  igreja. Os mosquitos que o rodeavam formavam uma nuvem escura. Aninhado em cada um dos seus braos estava 
o corpo de uma menina nua. Os cabelos louros das garotas, anelados e de uma tonalidade clara, como se fossem a penugem de algodo do campo, estavam colados s cabeas, 
empastados de sangue. O homem que as mantinha presas nos braos vociferava 47

contra o firmamento, como se fosse um vitelo aluado, com ~ faces de tez castanha erguidas e cheias de lgrimas; as suas feies surgiam contorcidas num esgar monstruoso 
de desgosto. A sua respirao era entrecortada, fazendo com que a caixa torcica se soerguesse, at se ver a tenso exercida nas fivelas das alas do fato-macaco; 
o homem sustinha a respira_ o, soltando-a juntamente com um daqueles uivos alongados que os outros haviam ouvido. Era muito frequente ler-se no jornal que "o assassino 
no mostrou qualquer remorso"; todavia, esse no era o caso naquela situao. John Coffey sentia-se despedaado pela aco que cometera... mas haveria de continuar 
a viver. Para as raparigas isso seria totalmente impossvel. Haviam sido esventradas. Ningum pareceu lembrar-se do perodo de tempo que ali permaneceram, observando 
o homem que continuava a uivar, o qual, por seu turno, fitava um comboio que passava na ou

tra margem do rio de vastas guas calmas e que se dirigia velozmente atravs dos carris na direco do viaduto que atravessava o rio. Tinham a sensao de que haviam 
estado a observar durante uma hora, ou talvez para todo o sempre, embora o comboio desse a impresso de no avanar, parecendo deter-se, bruscamente imobilizado, 
qual criana com uma birra; to-pouco o Sol se ocultou por detrs de uma nuvem, permitindo que aquela viso se apagasse dos seus olhos. Encontrava-se ali, perante 
eles, to verdadeira como a dentada de um co. O homem negro embalava-se para a frente e para trs. Kathe e Cora eram embaladas ao mesmo ritmo do seu corpo, como 
se fossem meras bonecas de trapos nos braos de um gigante. Os msculos manchados de sangue dos gigantescos braos desnudados do homem, flectidos e distendidos, 
flectidos e distendidos, flectidos e distendidos. Foi Klaus Detterick quem quebrou aquele silncio sinistro. Soltando gritos de dor, arr
 emessou-se contra o monstro que violara e assassinara as filhas. Sam Hollis sabia bem co mo cumprir a tarefa que lhe fora reservada, a tentou lev-la a cabo, embora 
no tivesse sido capaz. Era cerca de quinze centmetros mais alto do que Klaus, e o seu peso excedia o do outro em pelo menos trinta e cinco quilos, mas Klaus dava 
a impresso de quase ter a fora suficiente para se libertar dos seus braos, que o rodeavam. Klaus lanou-se atravs daquele terreno aberto, desferindo um violento 
pontap contra a cabea do Coffey. A sua bota de lavoura, manchada com o leite

48 seco que havia derramado e que j azedara por fora do calor, atingiu em cheio a fronte esquerda do Coffey, mas este pareceu no ter sentido o violento impacte. 
Limitou-se a permanecer sentado, enquanto chorava e se baloiava, olhando fixamente para a outra margem do rio; imagino que poderia muito bem ter feito parte da 
imagem de um sermo do dia de Pentecostes, o fiel seguidor da cruz, a olhar contemplativamente para a terra prometida... isto , no fora a presena dos dois cadveres. 
Foi necessria a fora de quatro homens para conseguir arrastar o lavrador histrico para longe de John Coffey, apesar de ele ter conseguido atingir este ltimo 
no sei bem quantas vezes antes de os esforos dos outros serem bem sucedidos. Nada do que estava a acontecer parecia despertar o mnimo interesse em Coffey, fosse 
de que maneira fosse; o homem limitava-se a observar ensimesmado a outra margem do rio, dando largas  mgoa que o dominava. Quanto a D
 etterick, todo o esprito de luta o abandonou quando por fim o afastaram do assassino - como se uma estranha corrente galvanizadora atravessasse o corpo do gigantesco 
homem negro (eu continuo a ter uma certa propenso para pensar em metforas ligadas  electricidade; vo ter de me desculpar esta minha faceta peculiar); quando 
o contacto que Detterick mantivera com essa fonte de energia foi finalmente interrompido, o seu corpo ficou flcido, como um homem que houvesse sido arremessado 
de um cabo elctrico descarnado. Ajoelhou-se com as pernas abertas na margem do rio, mantendo as faces ocultas pelas mos enquanto chorava convulsivamente. Howie 
juntou-se ao pai e ambos se abraaram testa contra testa. Dois dos homens mantinham-nos sob uma vigilncia apertada, ao mesmo tempo que o resto do grupo, de carabinas 
em punho, formava um crculo em redor do homem negro que no parava de se embalar e de gemer. Dava a impresso de ainda no se ter apercebido d
 a presena dos homens. McGee deu alguns passos em frente, apoiando o peso do corpo ora sobre um p ora sobre o outro durante algum tempo, at que se agachou. - 
Mister - disse ele numa voz tranquila que teve o condo de calar Coffey imediatamente. McGee olhou para uns olhos congestionados devido ao choro que

parecia no querer interromper-se, como se algum tivesse deixado uma torneira aberta dentro do homem. Aqueles olhos choravam, no entanto 49 pareciam intocados... 
distantes e serenos. Foram os olhos mais estranhos que tive oportunidade de ver em toda a minha vida. McGee tambm chegou a uma concluso bastante aproximada. "Como 
se fossem os olhos de um animal que nunca tivessem visto um homem", disse ele a um reprter de nome Hammersmith pouco antes do julgamento. - Mister, est a ouvir-me? 
- perguntou McGee. Devagar, Coffey acenou afirmativamente. Continuava a rodear com os braos as suas bonecas macabras, as quais mantinham o queixo sobre o peito, 
de forma a que os rostos no podiam ser vistos com clareza, um dos poucos actos de misericrdia que Deus achou por bem conceder naquele dia fatdico. - Tem algum 
nome? - acrescentou McGee. - John Coffey - respondeu o homem numa voz empastada e embargada pelas lgrimas. - Coffey como a bebida, com a diferena
 que no se escreve da mesma maneira. McGee acenou com a cabea e em seguida apontou com o polegar na direco do bolso no peito do fato-macaco de Coffey, que exibia 
uma forma saliente. McGee pensou que talvez contivesse uma arma - embora um homem do tamanho de Coffey no necessitasse de recorrer a uma arma para provocar danos 
considerveis, caso estivesse decidido a isso. - O que  que tens a dentro, John Coffey? Talvez uma bola? Uma pistola? - No, senhor - respondeu Coffey na sua voz 
entaramelada e com aqueles seus olhos estranhos, marejados de lgrimas e que reflectiam uma expresso agonizante, embora bem no fundo se mostrassem aberrantemente 
serenos, como se o verdadeiro John Coffey se encontrasse algures que no ali, fitando uma outra paisagem qualquer, onde as garotinhas assassinadas no fossem motivo 
de grande preocupao, olhos que nunca se desprenderam do ajudante de xerife, McGee. -  somente uma pequena merenda que trouxe comigo. -
  Oh, com que ento temos uma pequena merenda, no  verdade? - replicou McGee, ao que Coffey acenou que sim, dizendo "sim senhor" com os seus olhos arrasados de 
lgri mas, enquanto o ranho lhe escorria pelas narinas. - E onde  que um homem da tua igualha foi arranjar uma merenda, John Coffey? - acrescentou McGee, forando-se 
a manter a calma, embora j lhe tivesse chegado ao nariz o cheiro a ca 50 dver das duas garotas e pudesse ver as zonas ensanguentadas dos corpos a serem sobrevoadas 
e saboreadas pelas moscas. Afirmou mais tarde que a regio dos cadveres que mais o impressionara tinha sido os cabelos... e no se tratou apenas de uma declarao 
destinada aos jornais; era uma histria demasiado macabra para ser lida por famlias. No, eu obtive essa informao atravs do reprter que relatou o acontecimento, 
Mr. Hammersmith. Posteriormente falei com ele, porque, tempos mais tarde, o John Coffey transformou-se numa espcie de obse
 sso para mim. McGee disse a este Hammersmith que os cabelos louros das duas tinham deixado de ser louros. Haviam adquirido uma tonalidade castanhoavermelhada. 
O sangue escorrera-lhes da cabea pelas faces abaixo, qual trabalho de cabeleireira mal executado; no era preciso ser-se mdico para compreender que os seus frgeis 
crnios haviam sido esmagados um contra o outro, com a fora daqueles braos to poderosos. Possivelmente, as duas rapariguinhas teriam chorado. Provavelmente, ele 
teria tentado fazer com que elas se calassem. Com um pouco de sorte, aquilo teria acontecido antes dos estupros. Ao olhar para tal quadro, qualquer homem teria dificuldade 
em pensar com clareza, at mesmo um homem to determinado em levar a bom termo o seu trabalho como o ajudante de xerife, McGee. Um raciocnio pouco claro poderia 
dar origem a erros, talvez mesmo a mais derramamento de sangue. McGee respirou fundo e acalmou-se. Ou pelo menos tentou. - Pois bem, senhor,
 no me lembro bem... Macacos me mordam se me lembro - disse Coffey na sua voz embargada pelas lgrimas. - Mas o certo  que  uma pequena merenda... pouca coisa, 
parece-me que uma sandes e um pepino doce em picles.

- Sou bem capaz de ver com os meus prprios olhos, se no vires inconveniente retorquiu McGee. - Agora no te mexas, John Coffey. No te atrevas, rapaz, porque como 
podes ver ests soba mira de armas suficientes para fazerem com que desapareas da cintura para cima, caso decidas mexer nem que seja um s dedo. Coffey continuou 
a fitar o outro lado do rio, sem fazer qualquer movimento, enquanto McGee, suavemente, levou a mo ao interior da algibeira do peito do fato-macaco, de onde 'retirou 
qualquer coisa embrulhada em papel de jornal e atada

51 com um cordel. McGee desfez o n e abriu o papel, embora tivesse quase a certeza que encontraria aquilo que Coffey dissera, uma pequena merenda. Era composta 
por uma sanduche de toucinho fumado com rodelas de tomate e um doce com gelatina. Tambm havia picles embrulhados numa pgina com uma histria aos quadradinhos, 
que John Coffey jamais seria capaz de compreender. No se viam quaisquer salsichas. Bowser tinha comido todas as salsichas da pequena merenda com que John Coffey 
viera prevenido. McGee entregou a comida por cima do ombro a um dos homens que o tinham acompanhado, sem nunca despregar os olhos de Coffey. Agachado como se encontrava, 
no se pode ria dar ao luxo de qualquer distraco, nem que fosse por um segundo. A merenda, que entretanto fora de novo embrulhada e atada para maior segurana, 
acabou por ir parar s mos de Bobo Marcham, o qual a colocou dentro da mochila onde costumava guardar os petiscos para os seus ces (e no me es
 pantaria muito se tambm l guardasse algum isco para a pesca). Durante o julgamento, aquilo no foi apresentado como prova incriminatria - a justia naquela parte 
do mundo costumava ser clere, embora no o fosse ao ponto de permitir que uma sanduche, de toucinho fumado e tomate, estivesse em boas condies at essa data 
- o que no impediu que fossem apresentadas fotografias da mesma. - O que  que aconteceu por aqui, John Coffey? - perguntou McGee na sua voz veemente e sussurrante. 
- Queres contar-me o que  que se passou? Coffey comeou a dizer-lhe, assim como aos outros homens presentes, quase exactamente a mesma coisa que me disse a mim; 
aquelas palavras tambm foram as ltimas que o promotor de justia dirigiu ao jri, durante o julgamento de Coffey. - No consegui evitar o mal - afirmou John Coffey, 
enquanto continuava a manter nos braos os corpos nus das garotas violadas e assassinadas. Uma vez mais, as lgrimas come
 aram a jorrar-lhe pelas faces abaixo. - Tentei desfazer o que estava feito, mas j era demasiado tarde - acrescentou ele. - Rapaz, ests preso pelo crime de homicdio 
- anunciou McGee, aps o que escarrou para o rosto de Coffey. O jri retirou-se para deliberar durante quarenta e cinco minutos. Precisamente o espao de tempo suficiente 
para comerem a sua prpria pequena merenda. Pergunto a mim mesmo como  que puderam ter estmago para comer. 52 5 Acho que vocs sabem que no vim a tomar conhecimento 
de tudo isto numa tarde quente de Outubro, num espao que estava prestes a tornar-se a defunta biblioteca da priso, graas  leitura de uns quantos jornais antigos 
empilhados sobre um par de caixotes de laranjas Pomona; no entanto, fiquei a saber o suficiente para no conseguir conciliar o sono nessa noite. Quando a minha mulher 
se levantou da cama s duas da manh e deu comigo sentado  mesa da cozinha, a beber leitelho e a fumar cigarros
 Bugler enrolados em mortalhas por mim mesmo, perguntou-me o que  que me preocupava e eu respondi-lhe com uma das poucas mentiras que lhe disse durante o nosso 
j longo casamento. Disse-lhe que tinha tido outra discusso com o Percy Wetmore. Claro que isso correspondia 

verdade, mas no era a razo que me levava a estar acordado quela hora j avanada. Por via de regra, conseguia deixar sempre a imagem do Percy no escritrio. - 
Pois bem, esquece essa ovelha ranhosa e vem para a cama - aconselhou ela. Tenho uma coisa que te ajudar a dormir e podes servir-te dela  tua vontade. - Isso parece 
ser boa ideia, mas acho prefervel no o fazermos - retorqui. Tenho um pequeno problema com a minha canalizao urinria e no desejo pegarto. - Com que ento, a 
canalizao? - comentou ela, erguendo o sobrolho. - Calculo que te tenhas metido com a rapariga de esquina menos adequada da ltima vez que estiveste em Baton Rouge. 
- Eu nunca tinha ido a Baton Rouge nem nunca tocara sequer numa rapariga da rua, e ambos o sabamos. - No passa de uma vulgar infeco urinria - acrescentei. - 
A minha me costumava dizer que os rapazes costumam apanhar isto quando vertem guas numa altura em que o vento sopra do N
 orte. - Atua me tambm costumava fechar-se em casa todo o dia quando entornava sal comentou a minha mulher. =O doutor Sadler... - No, senhora - atalhei erguendo 
uma mo. - Ele vai querer que eu tome sulfamidas, o que far com que eu vomite por todos'os cantos do meu gabinete l para o fim da semana. Temos de dar  infeco 
o tempo necessrio para que passe 53 por si prpria, mas, entretanto, calculo que o melhor ser mantermo-nos afastados das brincadeiras. Ela beijou-me a testa mesmo 
acima da sobrancelha esquerda, o que tem o condo de me provocar sempre arrepios... tal como a Janice muito bem sabe. - Pobre querido. Como se esse horroroso do 
Percy Wetma re no fosse suficiente. No te demores em vir para a cama,; Assim fiz, mas no sem que antes tivesse sado para o alpendre das traseiras, a fim de aliviar 
a bexiga (depois de ter verificado a direco do vento com um polegar molhado, antes de urinar - aquilo que os nossos pais costu
 mam dizer-nos quando ainda somos pequenos s muito raramente ' ignorado, independentemente do quo disparatado possa parecer). Urinar ao ar livre  uma das alegrias 
de viver no campo que nunca foi devidamente abordada pelos poetas, embora nessa noite no tenha sido alegria nenhuma para mim; as guas que eu vertia queimavam-me 
como se fossem um fio de querosene em combusto. No entanto, tive a sensao de, que nessa tarde fora um pouco pior e tive a certeza de que fora pior dois ou trs 
dias antes. Albergava algumas esperanas de que talvez me encontrasse em vias de melhorar. Nunca uma esperana foi to mal fundamentada. Ningum me tinha informado 
de que por vezes um micrbio que se aloja nessa regio do nosso organismo, quente e hmida, poder levar um dia ou dois a descansar antes de investir de novo com 
toda a virulncia. Tivesse eu estado a par desse aspecto e ter-me-ia sentido deveras surpreendido. Mas teria ficado ainda' mais surpr
 eendido se soubesse que dentro de outros quinze ou vinte anos existiriam uns comprimidos que-eliminariam dos nosso organismo, num tempo recorde, essa espcie de 
infeces... e, embora esse medicamento pudesse incomodar-nos um pouco o estmago, ou soltar os nossos intestinos, era muito raro que nos fizesse vomitar da forma 
como os comprimidos de sulfamidas do Dr. Sadler faziam. Em 1932, pouco mais se podia fazer para alm de aguardar pacientemente e tentar ignorar aquela sensao de 
que algum derramara querosene no interior da nossa canalizao e lhe chegara um fsforo. Acabei de urinar e regressei ao quarto, tendo finalmente conseguido adormecer. 
Sonhei com rapariguinhas de sorrisos tmidos que tinham os cabelos empapados de sangue. 54 6 Na manh seguinte, deparei com um memorando escrito em papel amarelado 
em cima da minha secretria, onde me era pedido que passasse pelo gabinete do director logo que tal me fosse possvel. Sabia do que tratava
  aquela mensagem - naquele jogo existiam alguns regulamentos por escrever que nem por isso deixavam de ser muito importantes, e na vspera, durante algum tempo, 
eu no tinha jogado de acordo com eles, por conseguinte, adiei aquele assunto durante tanto tempo

quanto me foi possvel. Era como se tivesse de ir ao mdico por causa do problema com a minha canalizao, supunha eu. Sempre estive convencido de que este negcio 
do "pr cobro ao assunto o mais depressa possvel" se encontrava sobrevalorizado. Seja como for, no me apressei em comparecer no gabinete do director Moores; em 
vez disso, despi o casaco do meu uniforme de l, pendurei-o nas costas da minha cadeira e liguei a ventoinha que se encontrava a um canto do gabinete - estava outro 
dia de calor. Em seguida, sentei-me e comecei a ler o relatrio elaborado pelo Brutus Howell sobre os acontecimentos da noite anterior. Nele no havia nada que fosse 
causa para alarme. Depois de se ter deitado, o Delacroix tinha chorado durante algum tempo - o que ele fazia na maior parte das noites, mais por autocomiserao 
do que por lamentar as pessoas que havia assado em vida, tenho a certeza - e depois retirara Mister Jingles, o rato, da caixa de charutos onde o a
 nimal costumava dormir. Isso tinha acalmado Del, que dormira como um beb durante o resto da noite. O mais certo era Mister Jingles ter passado a noite sobre o 
estmago dele, com a cauda enroscada por cima das suas manpulas e os olhos sem pestanejarem. Era como se Deus houvesse decidido que o Delacroix tinha necessidade 
de um anjo-da-guarda, tendo decretado em toda a Sua sabedoria, que s um rato serviria para uma ratazana como o nosso amigo da Luisiana com tendncias homicidas. 
Nem tudo aquilo constava do relatrio do Brutal, como  evidente, mas eu prprio tinha feito suficientes turnos de noite para poder preencher as lacunas existentes 
entre as entrelinhas. Havia um pequeno apontamento que dizia respeito ao Coffey: "Ficou deitado acordado, de uma maneira geral sossegado,  possvel que tenha chora 
55 do um pouco. Tentei encetar uma conversa com ele, mas, de. pois de ter recebido algumas respostas resmungadas, decidi desistir. Talvez o Paul ou o Harry
  tenham melhor sorte do' que eu." "Encetar uma conversa" era efectivamente um dos pontos'; mais fulcrais da nossa misso. Nessa altura eu no o sabia, mas olhando 
para trs, graas  perspectiva vantajosa desta estranha idade avanada (acho que todas as pessoas de idade devem parecer um tanto estranhas aos olhos das pessoas 
que' so obrigadas a viver com elas), sei que assim era e conheo o motivo por que na altura no o compreendia - era demasiado grande, uma parte to fundamental 
para o nosso trabalho como a respirao para as nossas vidas. No era importante que os temporrios "encetassem uma conversa", embora isso fosse um factor vital 
tanto para mim como para o Harry, o Brutal e o Dean... razo por que o Percy Wetmore era um' desastre de tal dimenso. Os prisioneiros odiavam-no, os' guardas detestavamno... 
presumivelmente, toda a gente sen-~ tia averso pelo homem, excepo feita aos seus amigos polticos, ao prprio Percy, e ta
 lvez (mas apenas talvez)  sua me. Ele era como uma dose de arsnico branco que se polvilhasse por cima de um bolo de casamento, e estou convicto', que desde o 
incio ele soube que a sua presena significava desastre. O homem era um acidente  espera de se concretizar. Quanto a ns, teramos escarnecido da ideia de que 
agia-mos de forma mais til no como guardas de homens condenados  morte, mas sim como seus psiquiatras - hoje em' dia, parte de mim continua a sentir vontade de 
escarnecer' dessa ideia; no entanto, sabamos bem como  que haveramos de encetar esse gnero de conversa... e sem essa conversa os homens que teriam de se apresentar 
perante a Velha Fasca tinham o pssimo hbito de enlouquecerem. Tomei um apontamento no fundo do relatrio do Brutal, a fim de no me esquecer de ter uma conversa 
com o John Coffey - pelo menos, tentar - e depois passei para a men sagem do Curtis Anderson, o assistente principal do director da
 priso. Dizia que ele, o Anderson, aguardava uma ordem de DDE relativa ao Edward Delacrois (o Anderson escrevera erradamente o nome do homem, que, na realidade, 
era Eduard Delacroix) dentro de muito pouco tempo. DDE significava data de execuo e, de acordo com aquele apontamento, uma fonte bem informada dissera ao Curtis 
que o pequeno franci faria essa caminhada perto da Noite das Bruxas - vinte e sete de Outubro era o seu melhor palpite; os palpites do Curtis Anderson eram sempre 
muito bem

informados. Todavia, antes dessa data poderamos contar com a chegada de um novo residente, o qual dava pelo nome de William Wharton. "Ele  aquilo a que se gosta 
de chamar uma criana problemtica", escrevera o Curtis na sua escrita inclinada para a esquerda, que at certo ponto era presumida. "Doido varrido e orgulhoso de 
o ser. Durante o ltimo ano deambulou por todo o estado, tendo finalmente dado o grande passo. Assassinou trs pessoas durante um assalto, sendo uma delas uma grvida, 
e abateu uma quarta vtima durante a fuga. Um polcia de trnsito. S no acertou numa freira e num cego." Esbocei um sorriso ao ler aquilo. "O Wharton tem dezanove 
anos e na parte superior do antebrao tem tatuado Billy the Kid. Posso afianar que ser necessrio esbofete-lo uma ou duas vezes, mas  preciso ter cuidado quando 
isso acontecer. Este homem est-se nas tintas para o que lhe possa acontecer." A ltima observao fora sublinhada com d
 ois traos, depois ele terminara: "Tambm  possvel que venha a manter-se por aqui. Tem tentado recorrer da sentena e para alm disso,  menor." Um mido louco, 
que recorre da sentena, muito capaz de se manter por ali durante algum tempo. Oh, tudo aquilo soava que era uma maravilha. De sbito, tive a impresso de que o 
dia ficaria mais quente do que anteriormente, e vi que no poderia continuar a adiar a minha visita ao gabinete do director Moores. Durante o tempo em que exerci 
a profisso de guarda em Cold Mountain, trabalhei para trs directores; o Hal Moores foi o ltimo e o melhor deles todos. Concluso a que se poderia chegar ao fim 
de pouco tempo. Era um homem honesto e directo, que nem sequer possua a esperteza rudimentar do Curtis Anderson, embora estivesse munido da sabedoria poltica suficiente 
para lhe permitir manter o emprego durante aquele perodo difcil... e com integridade suficiente para o impedir de se deixar sed
 uzir por aquele jogo de interesses. Nunca ascenderia a uma posio mais elevada, mas isso parecia no o incomodar por a alm. Nessa altura, deveria andar pelos 
cinquenta e oito ou cinquenta e nove anos e tinha uma cara to parecida com o focinho de um co que o Bobo Marcham se teria sentido completamente  vontade com ele. 
Possua cabelos brancos, e as suas mos estavam sempre a tre 56 57mer devido a uma qualquer ameaa de paralisia, embora ele fosse um homem forte. No ano anterior, 
quando um dos prisioneiros se acercara agressivamente dele no ptio de recreio, empunhando o cabo de madeira de um p-de-cabra, Moores mantivera-se firme; agarrara 
vigorosamente no pulso do ru_ fio e torcera-o com tanta fora que o estalar dos ossos a que_ brarem-se se assemelhara ao som de galhos secos a arder numa fogueira. 
O agressor, tendo-se esquecido de todas as suas razes de queixa, vergara-se at ficar ajoelhado no solo enquanto gritava pela me. - E
 u no sou ela - dissera Moores na sua maneira culta de falar de homem oriundo do Sul -, mas, se o fosse, levantaria as saias e mijar-te-ia em cima atravs da regio 
do meu corpo que te viu nascer. Quando entrei no seu gabinete, ele fez meno de se levantar da cadeira, mas com um gesto indiquei-lhe que permanecesse onde estava. 
Sentei-me na cadeira em frente dele, do outro lado da secretria e comecei a perguntar pelo estado de' sade da mulher... s que nestas paragens as coisas no se' 
processam exactamente dessa maneira. - Como  que est a tua bonita rapariga? - perguntei,, como se a Melinda tivesse acabado de completar dezassete primaveras, 
em vez de sessenta e duas ou sessenta e trs. O meu interesse era bastante genuno - ela era uma mulher que eu prprio poderia ter amado e com quem podia ter casado 
se as linhas das nossas vidas se tivessem cruzado - e' no me incomodava muito desviar-lhe um pouco a ateno do assunto principal que m
 e havia levado ali. - Ela no tem passado muito bem, Paul - retrucou ele com um profundo suspiro. Nada bem, mesmo. - Mais dores de cabea?

- Esta semana s teve uma, mas foi a pior de todas... Forou-a a ficar estendida na cama durante a maior parte do dia, anteontem. E agora comeou a sentir uma inrcia 
na mo direita... - Ergueu a sua prpria mo direita cuja pele tinha manchas hepticas acastanhadas. Ambos pudemos observar o tremor no membro enodoado durante breves 
momentos, aps o que baixou a mo. Consegui perceber que ele teria dado tudo para no ser forado a dizer-me o que estava a dizer, e pela minha parte, eu teria procedido 
exactamente da mesma maneira para no ser forado a ouvir. As dores de cabea d Melinda tinham comeado na Primavera e, durante todo 58 aquele Vero, o mdico insistira 
que eram "enxaquecas provocadas pela tenso nervosa", o que poderia muito bem ter como causa a prxima aposentao do Hal. S que nenhum deles podia esperar que 
ele se reformasse, e a minha prpria mulher tinha-me dito que as enxaquecas no eram um incmodo que
 costumasse afligir as pessoas de idade, mas sim os mais novos; quando os seus sofredores alcanavam a idade da Melinda Moores, habitualmente sentiam-se melhor e 
no pior. E agora surgira-lhe aquela fraqueza na mo. Quanto a mim, nenhum daqueles sintomas indicava a existncia de tenso nervosa; eram, isso sim, indicadores 
do raio de um enfarte iminente. - O doutor Haverstrom quer que ela seja internada no hospital em Indianola continuou Moores. - Para ser submetida a alguns exames. 
Est a referir-se  a radiografias  cabea. Quem sabe o que mais. Ela anda assustada de morte acrescentou ele, fazendo uma pausa. Verdade seja dita, tambm eu tenho 
medo. - Sim, mas tens de te certificar que ela faz o que o mdico the disse repliquei. - No deves esperar. Se for alguma coisa que eles possam detectar atravs 
das radiografias,  possvel que se trate de algo que possam vir a curar. - Sim - concordou ele e em seguida, apenas por breves instantes, os n
 icos durante aquela parte da nossa conversa, tanto quanto me  dado recordar, o nosso olhar cruzou-se e manteve-se assim. Verificou-se aquela espcie de compreenso 
perfeita, nua e crua, entre ns dois, que no carece de quaisquer palavras. Sim, poderia ser um enfarte. Tambm poderia tratar-se de um cancro a desenvolver-se no 
seu crebro, e, caso fosse isso, as hipteses de os mdicos em Indianola poderem fazer alguma coisa eram bastante escassas, se no mesmo nulas. No se esqueam de 
que estvamos em 1932, quando uma doena relativamente simples como uma infeco do tracto urinrio ou era tratada com sulfamidas, at uma pessoa estar prestes a 
morrer de nuseas, ou deixava-se o doente sofrer esperando que o mal acabasse por desaparecer. - Estou te muito agradecido pelo teu cuidado, Paul. Mas agora falemos 
sobre o Percy Wetmore. Gemi e cobri os olhos. - Esta manh recebi um telefonema da capital do estado - comeou o director da pris
o numa voz neutra. - Tratou-se de uma conversa bastante irritada, tal como tenho a 59 certeza que sers capaz de imaginar. Paul, o governador est to casado que 
quase no est l, se  que ests a compreemder. E a mulher tem um irmo, que por sua vez tem um filho Esse filho  o Percy Wetmore. Ontem  noite, o Percy telefonou 
ao paizinho, o qual por seu turno ligou para a tia do Percy. Terei de continuar a explicar-te o resto desta situao: - No - respondi. - O Percy bufou. Tal como 
o mari quinhas da turma que conta  professora que viu dois colegas a apalparem-se no bengaleiro. - Sim - aquiesceu Moores -, a situao  mais ou menos essa. - 
Por acaso sabes o que  que aconteceu entre o Percy o Delacroix quando este chegou  priso? - perguntei. O Percy e o seu maldito basto de nogueira de estimao? 
- Sim, mas... - E sabes que por vezes ele tem o hbito de o fazer correr pelas barras das celas, sem que haja qualquer jus
 tificao:  um homem mau, alm de ser estpido, e no sei durante. quanto mais tempo conseguirei aguentar a sua presena. Ess  que  a verdade.

Havia cinco anos que nos conhecamos. Isso poder ser bastante tempo para dois homens que se do bem, especialmente quando parte das nossas funes  substituir 
a vida pe la morte. O que estou a dizer  que o Moores compreendia i bastante bem o que eu tentava dizer-lhe. No que eu estivesse pronto para me demitir; isso no 
aconteceria com a Grande Depresso ao virar da esquina, do lado de fora dos muros da penitenciria, qual criminoso perigoso, um criminoso que no poderia ser encarcerado, 
tal como acontecia aos homens que se encontravam sob a nossa responsabilidade. Havia homens mais capazes do que eu que eram obrigados a calcorrear as estradas, forados 
a valerem-se de tudo o que lhes aparecia pela frente. Eu fora bafejado pela sorte e encontrava-me bem ciente desse facto - com os filhos j crescidos e a hipoteca, 
da casa (que me parecera ser um bloco de mrmore de cem quilos) fora do meu peito havia j dois anos. Contudo, um homem tem de co
 mer, o mesmo acontecendo  sua mulher. Alm de que tnhamos o costume de enviar  nossa filha, e ao nosso genro, vinte dlares sempre que podamos dar-nos a esse 
luxo (o que por vezes acontecia at mesmo quando no tnhamos meios para isso, sempre que as cartas da Jane deixavam adivinhar uma situao particularmente desesperada). 
60 O marido era professor do ensino secundrio, mas estava desempregado. Em consequncia de tudo isto, no se desprezava um emprego certo como o meu... Sobretudo 
a sangue-frio, para ser mais concreto. Mas acontece que, nesse Outono, eu no sentia o sangue frio. A temperatura no exterior era anormalmente elevada para a estao 
do ano, para alm de que a infeco, que alastrava no interior do meu corpo, fazia subir ainda mais o termstato. E quando um homem se v metido numa situao daquelas, 
ora bem, por vezes acontece que o seu punho age sem que esteja em consonncia com o seu raciocnio. E, no ca
 so de se atingir, uma vez que seja, um homem que tem to bons conhecimentos como o Percy Wetmore,  possvel que continuemos a atac-lo insistentemente, uma vez 
que no existir retrocesso possvel. - V se consegues aguentar-te - continuou o Moores numa voz tranquila. - Foi para te dizer isto que te chamei ao meu gabinete. 
Fui informado de boa fonte, de facto pela mesma pessoa que me telefonou esta manh, que o Percy anda a ver se consegue arranjar um emprego no Briar, e tudo indica 
que o seu pedido de transferncia ser aceite. - O Bnar! - exclamei. Moores estava a referir-se ao Briar Ridge, um dos dois hospitais administrados pelo estado. 
- O que  que esse rapazelho anda a fazer? Uma digresso pelas instituies estatais? - Trata-se de um trabalho de carcter administrativo. O salrio  melhor e 
s ter de despachar papis, em vez de empurrar camas de hospital com o calor que faz. - O Moores brindou-me com um sorriso de esguelha.
  - Sabes, Paul, o mais certo era j te teres livrado dele se no o tivesses colocado no compartimento do quadro elctrico com o Van Hay, quando o Chefe foi desta 
para melhor. Durante alguns momentos, o que ele acabara de dizer pareceu-me to peculiar que eu no fazia a mnima ideia de onde. que pretendia chegar. Talvez eu 
no desejasse fazer a mais pequena ideia. - Em que outro lugar  que eu poderia t-lo posto? perguntei. - Jesus Cristo, ele mal sabe o que  que anda a fazer no 
bloco! Integr-lo na equipa que trata das execues... - No acabei o meu pensamento. Era impossvel. O potencial para a existncia de complicaes parecia no ter 
fim. - Apesar de tudo, seria uma atitude assisada da tua parte coloc-lo na linha da frente da execuo do Delacroix. Isto , no caso de desejares ver-te livre dele. 
61 Fiquei a olhar para o Moores com o queixo descado. Finalnente, consegui ergulo at  posio onde pertencia,
  de molde a poder continuar a falar. - O que  que ests para a a dizer? Que ele quer ter uma nova experincia de forma a poder cheirar bem os tomates estorricados 
do fulano? O Moores encolheu os ombros. Os seus olhos, que tinham mostrado uma expresso to suave enquanto falara da mulher, exibiam agora uma expresso empedernida. 
- Os tomates do Delacroix vo ser electrocutados, quer o Wetmore faa parte da equipa de execuo ou no - acrescentou ele. - Certo?

- Sim, mas ele poder lixar as coisas. De facto, Hal, o mais certo  ele vir a lixar as coisas. E em frente de trinta e tal testemunhas... entre elas, os reprteres 
que vm da Luisiana... - Tu e o Brutus Howell certificar-se-o de que ele no arranja qualquer complicao - acrescentou o Moores. - Mas se ainda assim isso vier 
a acontecer, ficar registado na~ sua folha de servio, onde permanecer at muito depois de os seus conhecimentos a nvel governamental terem desaparecido. Ests 
a compreender-me? Eu compreendia. Aquele aspecto nauseava-me e assustava-me, mas o certo era que percebia at muito bem. -  possvel que ele queira ficar por aqui 
at  execuo do Coffey, mas se tivermos um pouco de sorte, o Percy satisfar todas as suas necessidades mrbidas com o Delacroix. Assegura-te apenas de que o colocars 
na linha da frente dessa execuo. Eu j planeara recambiar, uma vez mais, o Percy para o compartimento do qu
 adro elctrico, que na altura se situava no tnel, aps o que ele seguiria ao lado da maca que levasse o Delacroix para a ambulncia estacionada do outro lado da 
priso. No entanto, naquela altura pus todos os planos para trs das costas, sem sequer pensar duas vezes. Indiquei ao Moores o meu acordo com um acenar de cabea. 
Tive a percepo de que aquilo se tratava de um risco que eu estava a assumir, mas isso no me incomodou. Se pudesse livrar-me da presena do Percy Wetmore, estaria 
at disposto a fazer ccegas no nariz do prprio diabo. Ele poderia fazer parte da equipa que trataria da execuo, poderia at ser ele a prender o capacete e olhar 
atravs da pequena janela de rede para di 62 zer ao Van Hay que accionasse a alavanca para a fase dois; por mim, poderia muito bem observar o pequeno franci a seguir 
no relampago que ele, Percy Wetmore, faria sair da lmpada mgica. Enfim, permitir que ele sentisse o seu pequeno empolgamen
 to macabro, se para ele isso se traduzisse no assassnio cometido com o beneplcito do estado. Que fosse trabalhar para o Briar Ridge, onde poderia ter o seu prprio 
gabinete com uma ventoinha que o arrefecesse. E se o tio por afinidade deixasse de exercer o cargo pblico para que fora investido durante as prximas eleies, 
e ele fosse obrigado a descobrir o que era trabalhar a srio neste velho mundo cheio de dificuldades que assava sob o sol escaldante, onde nem todos os tipos de 
maus (gados eram encarcerados atrs das grades, e onde por vezes levvamos na cabea, tanto melhor. - Muito bem - proferi eu por fim, levantando-me da cadeira. - 
P-lo-ei na linha da frente aquando da execuo do Delacroix. E entretanto, esforar-me-ei por manter a paz. - ptimo - replicou o Moores, que tambm se ps de p. 
- A propsito, como  que est o teu problema? - perguntou ele, apontando delicadamente para a regio das minhas virilhas. - D
 -me a impresso de que est um pouco melhor - respondi. - Pois bem, isso  excelente. - O Moores acompanhou-me at  porta. - E a respeito do Coffey, h alguma 
coisa de novo? Parece-te que ele venha a provocar algum problema? - No - redargui. - At agora ele tem-se mantido to calado como um galo morto.  um homem estranho... 
tem uns olhos esquisitos, mas  calado. Contudo, tencionamos manter-nos atentos ao seu comportamento. No te preocupes com esse assunto. -  claro que ests bem 
a par do que ele fez. - Com certeza - assenti. O Moores tinha-me acompanhado at ao gabinete que antecedia o seu onde a velha Miss Hannah matraqueava na sua mquina 
de escrever Underwood, como sempre havia feito desde que a ltima Idade do Gelo tinha chegado ao fim, ou pelo menos era o que dava a impresso. Sentia-me satisfeito 
por poder sair dali. Tudo resumido e concludo, senti que me tinha safado com muita facilidade daquela situao delicada. E era
  bastante agradvel saber que, ao fim e ao cabo, existia uma hiptese de conseguir sobreviver ao Percy. 63

- Diz  Melinda que lhe envio uma cesta cheia de carinho - disse eu. - E no te prepares para arranjar problemas. O mais provvel  chegar-se  concluso de que 
tudo no passa de meras enxaquecas. - Aposto que sim - retrucou o Moores e, sob os olhos adoentados, os seus lbios esboaram um sorriso. Aquela combinao fisionmica 
encontrava-se diabolicamente prxima do fantasmagrico. Quanto a mim, regressei ao Bloco E a fim de dar incio a outro dia de trabalho. Havia uma data de papelada 
que devia' ser lida e redigida. Cho que precisava de ser lavado, refei es que teriam de ser servidas, uma escala de trabalho a ser elaborada para a semana seguinte, 
enfim, uma centena de pormenores que necessitavam da minha ateno. Mas acima de tudo havia espera - na priso h sempre muito disso. Espera que o Eduard Delacroix 
comeasse a percorrer a Milha; Verde, espera que o William Wharton chegasse com o seu lbio contorcido, fazendo-se aco
 mpanhar da tatuagem de Billy the Kid, e, acima de tudo o mais, espera que o Percy Wetmore desaparecesse da minha vida de uma vez por todas. 7 O rato do Delacroix 
era um dos mistrios de Deus. Eu nunca tinha visto uma criatura daquelas no Bloco E antes daquele Vero, e nunca mais voltei a avistar outra depois daque le Outono, 
altura em que o Delacroix deixou a nossa companhia, numa noite abafada e de trovoada em Outubro deixou-a de uma forma to inqualificvel, que mal consigo forar-me 
a recordar essa ocasio. O Delacroix afirmara que havia domesticado aquele rato, que iniciou a sua vida entre ns com o nome de Steamboat Willy, mas eu estou realmente 
convencido de que as coisas se processaram na ordem inversa. O Dean Stanton era da mesma opinio, bem como o Brutal. Tanto um como o outro se encontravam presentes 
na noite em que o rato fez a sua primeira apario. - A criatura j est meio domesticada e  duas vezes mais esperta do que esse cajun que
 pensava ser o seu dono - dissera Brutal ento. O Dean e eu estvamos no meu gabinete, examinando a caixa com os ficheiros do ano transacto, a prepararmo-nos para 
64 escrever cartas de acompanhamento da situao s testemunhas de cinco execues, e outras cartas de acompanhamento das de acompanhamento enviadas anteriormente, 
relativas a outras seis execues que recuavam at 1929. Basicamente, pretendamos saber apenas uma coisa: sentiam-se essas pessoas satisfeitas com os nossos servios? 
Eu sei que isso pode parecer grotesco, mas de facto tratava-se de um assunto bastante importante. Na sua qualidade de contribuintes, aquelas pessoas eram os nossos 
clientes, embora tivessem caractersticas muito especiais. Um homem ou uma mulher que aparea na priso  meia-noite para poder assistir  morte de um ser humano 
tem de ter uma razo premente e muito especial para ali ir, uma necessidade bastante peculiar, e, se a execuo  um castigo ad
 equado, nesse caso essa necessidade ter de ser satisfeita. Eles tiveram um pesadelo. A finalidade das execues  mostrar-lhes que esse pesadelo chegou ao fim. 
Talvez as coisas funcionem realmente dessa maneira. Por vezes. - Ei! - chamou o Brutal do lado de fora da porta, onde se encontrava na secretria do guarda de servio 
situada ao fundo do corredor. - Ei, vocs dois! Venham at aqui fora! O Dean e eu trocmos um olhar de alarme, pensando que deveria ter acontecido alguma coisa ao 
ndio de Oklahoma (o nome dele era Arlen Bitterbuck, mas costumvamos chamar-lhe Chefe... ou, no caso do Harry Terwilliger, Chefe Queijo de Cabra, porque era a isso 
que o Harry afirmava que o Bitterbuck cheirava), ou ao tipo que apelidvamos de Presidente. Mas foi ento que o Brutal comeou a rir-se; corremos a saber o que estava 
a passar-se. Os risos no Bloco E eram quase to profanos como os risos no interior de uma igreja. O velho Pouca Terra, o prisioneiro de
 confiana que nesse tempo costumava empurrar o carrinho da comida, encontrava-se presente com o seu arsenal, e o Brutal j se tinha abastecido para a longa noite 
que teria pela frente - trs sanduches, dois refrigerantes e uns dois bolos. Tambm uma poro de salada de batata que o Pouca Terra devia ter fanado das cozinhas 
da priso, instalaes

que, supostamente, deveriam estar fora do seu alcance. O Brutal mantinha o livro de registos aberto  sua frente e, caso para grande admirao, ainda no derramara 
nada em cima das folhas. Como  evidente, tinha acabado de comear o seu turno. - O que  que se passa? - perguntou Dean. - O que  que foi?

65 - Ao fim e ao cabo, o corpo legislativo do estado dev~ ter aberto suficientemente os cordes  bolsa para este ano poder contratar outro guarda acrescentou o 
Brutal com uma gargalhada. - Olhem bem para ali. Apontou e ns avistmos o rato. Tambm comecei a rir-me, e o Dean juntou-se a ns. Era impossvel evitar que nos 
rssemos, uma vez que qualquer guarda que estivesse a fazer os seus quartos de ronda teria tido o mesmo aspecto daquele rato; um guarda peludo e nfimo que se assegurava 
de que! ningum tentava fugir ou suicidar-se. Dava uma pequena corrida ao longo da Milha Verde na nossa direco, aps o que rodava a cabea de um lado para o outro, 
como se passasse revista ao interior das celas. Em seguida, encetava outra corrida em frente. O facto de podermos ouvir o ressonar dos doi reclusos que na altura 
ocupavam aquele bloco, apesar dos gritos e os risos, tornava a situao ainda mais caricata e divertida. Tratava-se de um rato de plo
 castanho perfeitamente vul gar, excepto quanto  forma como parecia estar a investigar o interior das celas. Chegou mesmo ao ponto de entrar numa o _ duas, esgueirando-se 
habilmente por entre as barras inferiores, de uma maneira que faria inveja a muitos dos nossos prisioneiros, passados e presentes. Com a excepo de que, como era 
evidente, seria para fora que os reclusos haveriam sempre de querer fugir. O rato no entrou em nenhuma das celas que estavam ocupadas, tendo ido apenas s vazias. 
Finalmente, encontrava-se prestes a chegar ao stio onde nos encontrvamos. Fi quei sempre  espera que retrocedesse, mas no o fez. N mostrava sentir qualquer 
receio da nossa presena. - No  normal que um rato se abeire das pessoas desta forma - comentou o Dean com um certo nervosismo. - Talvez ele esteja raivoso. - 
Oh, meu bom Jesus! - retorquiu o Brutal com a boca cheia de po com carne de conserva. - Temos aqui o grande perito em ratos. O Homem dos Rat
 os. Ests a vlo a espumar aos cantos da boca, Homem dos Ratos? - Nem sequer sou capaz de ver a boca do bicho - resorquiu o Dean, provocando outra vaga de hilaridade. 
Eu tam bm no conseguia vislumbrar a boca da criatura, embora dis tinguisse as duas pequenas contas negras e cintilantes que eram os seus olhos, no me dando a 
impresso de estarem raivosos ou tresloucados. Pelo contrrio, exibiam uma expresso interessada e inteligente. Eu j tivera oportunidade de conduzir homens at 
 morte - homens que, supostamente, possuam uma alma imortal - que haviam exibido uma expresso mais estpida do que a daquele rato. Recomeou a percorrer velozmente 
a Milha Verde at um ponto apenas a cerca de noventa centmetros da mesa do guarda de servio... a qual no tinha nada de rebuscado, como podero imaginar, sendo 
apenas o gnero de secretria a que os professores costumavam sentar-se na escola secundria. Chegado a esse ponto, a criatur
 a deteve a sua corrida, enrolando a cauda  volta das patas, numa atitude to composta como a de uma velha senhora a ajeitar as saias. De repente, passou-me a vontade 
de rir, sentindo eu, inesperadamente, o meu corpo a ser percorrido at aos ossos por um calafrio glido. Gostaria de poder dizer que no sabia por que motivo  que 
tivera aquela sensao - ningum gosta de dar mostras de algo que nos pode ridicularizar aos olhos dos outros - mas  claro que sabia e, se  que posso dizer a verdade 
a respeito do resto, creio que tambm possa dizer a verdade sobre isto. Por breves instantes, imaginei como seria estar na pele daquele rato, deixando de ser um 
guarda prisional, mas apenas um outro criminoso que se encontrasse ali, na Milha Verde, acusado e condenado, mas ainda capaz de erguer o olhar corajosamente para 
aquela mesa, que

deveria parecer ter uma altura de vrios quilmetros (tal como o assento em que se encontra Deus no dia do juzo sem dvida parecer um dia a todos ns), fitando 
tambm os gigantes de casacos azuis e vozes profundas que se sentavam por detrs dela. Gigantes que disparavam contra os da sua prpria espcie, ou que os vergastavam 
com o cabo de vassouras, ou que lhes montavam armadilhas, armadilhas que partiam o dorso a qualquer um que rastejasse cautelosamente por cima da palavra VENCEDOR 
a fim de poder mordiscar o queijo sobre o pequeno prato de cobre. Junto da mesa do guarda de servio no se via qualquer vassoura, mas havia um balde com uma esfregona, 
estando esta dentro da parte com orifcios onde era torcida; eu j tinha cumprido a minha quota-parte de lavar o linleo verde do corredor e das seis selas pouco 
antes de me sentar com o Dean na companhia da caixa dos arquivos. Reparei que o Dean tinha inteno de agarrar na esfregona, cumprindo
  aquela parte da sua tarefa. Toquei-lhe no pulso quando os seus dedos se dirigiram para o cabo fino de madeira. 66 67 - Deixa estar - disse eu. Ele encolheu os 
ombros e retirou a mo da esfregona. Sentia que ele tinha tanta vontade de lavar o cho quanto eu prprio tivera. O Brutal separou um bocado do canto da sua sanduche 
de carne em conserva e manteve-o suspenso acima da parte da frente da mesa, delicadamente seguro entre dois dedos; O rato dava a impresso de erguer o olhar com 
um interesse ainda mais vivaz, como se soubesse exactamente o que era aquilo. Provavelmente sabia; eu avistava os seus bigodes a fremirem enquanto ele torcia o focinho. 
- Ei, Brutal, no! - exclamou o Dean, olhando para mim. - No o deixes fazer isso, Paul! Se comearmos a dar de comer a tipos desses  o mesmo que estendermos o 
tapete de boas-vindas para qualquer coisa que ande sobre quatro patas. - Eu s quero ver o que  que ele faz - disse o Brutal  guisa de justifica E7o. Como se 
fosse no interesse da cincia. Olhou para mim, eu era o chefe, at mesmo no que dizia respeito aos pequenos desvios da rotina, como aquele. Pensei no assunto e encolhi 
os ombros, como se no tivesse qualquer importncia. Mas a verdade era que eu tambm sentia curiosidade em ver o que  que o rato faria. Pois bem, como  evidente, 
comeu o que lhe deram. Ao fim e ao cabo, no devamos esquecer-nos de que nos encontrvamos no meio da Grande Depresso. Mas a forma como ele comeu fascinou-nos 
a todos. Aproximou-se do bocado de sanduche, comeou a farej-lo descrevendo um crculo em seu redor, sentou-se  sua frente como se fosse um co a fazer uma habilidade, 
foi-se a ele, e afastou o po para poder chegar  carne. Procedia com tanta deliberao e conhecimento como se fosse um homem a atacar um bom rosbife no seu restaurante 
preferido. Eu nunca tinha visto um animal comer daquela maneira, nem sequer um co bem ensinado.
  E durante todo o tempo em que esteve a comer, os seus olhos nunca se desprenderam de ns. - Das duas uma: ou se trata de um rato muito esperto ou est com uma 
fome dos diabos - comentou uma nova voz. Era o Bitterbuck. Tinha despertado entretanto e naquele mo mento encontrava-se junto s barras da sua cela, todo nu  excepo 
de uns cales largos no traseiro que lhe davam pelo meio da coxa. Entre os ns do indicador e do dedo mdio da mo direita tinha um cigarro que enrolara nume mortalha; 
68 os seus cabelos de um grisalho cor do ferro pendiam-lhe por cima dos ombros, outrora talvez musculosos, mas que agora comeavam a ficar flcidos, presos num par 
de tranas. - Conheces algum provrbio ndio sobre ratos, Chefe? - perguntou o Brutal, observando o rato que continuava a comer. Todos nos sentamos encantados com 
a maneira como ele segurava num pedao de carne de conserva, com as patas dianteiras, voltando-a de vez em quando para a examina
 r bem, como se admirasse e apreciasse o naco de alimento.

- No - respondeu o Bitterbuck - Em tempos conheci um bravo que possua um par de luvas daquilo que clamava ser de pele de rato, mas nunca acreditei nisso. Em seguida, 
o homem soltou uma gargalhada, como se tudo aquilo fosse uma piada, e afastou-se das barras de ferro. Ouvimos a tarimba a ranger; voltara a deitarse. Para o rato, 
aquilo pareceu ser o sinal de que estava na hora de se ir embora. Terminou o bocado de carne que segurava nas patas, farejou o que tinha ficado (na sua maior parte 
o po amarelado ensopado com mostarda) e olhou para trs, fitando-nos, como se no desejasse esquecer-se dos nossos rostos, caso voltssemos a encontrar-nos. Em 
seguida, deu meia volta e comeou a correr pelo mesmo caminho por onde viera; desta feita, no se deteve para inspeccionar qualquer das celas. A pressa com que ele 
se deslocava trouxe-me ao pensamento o Coelho Branco de Alice no Pas das Maravilhas, o que me fez sorrir. No parou junto da porta da cela do isolame
 nto, tendo desaparecido por baixo desta. Aquela sala tinha paredes almofadadas e destinava-se s pessoas cujos crebros haviam enfraquecido. Era ali que costumvamos 
guardar os materiais de limpeza, sempre que no necessitvamos de utilizar aquele espao para a finalidade a que se destinava, assim como alguns livros (na sua maioria 
da autoria de Clarance Mulford e sobre o velho Oeste, mas havia um - que s era emprestado em ocasies especiais - que contava uma histria profusamente ilustrada, 
na qual Popeye, Pluto e at mesmo Wimpy, os fanticos dos hambrgueres, tiravam  vez fornicar com a Olvia Palito). Tambm havia vrios materiais de desenho incluindo 
os lpis de cera a que, posteriormente, o Delacroix deu boa utilizao. No que ele j houvesse comeado a ser o nosso problema; no se esqueam de que isto se passou 
numa data anterior. Na cela do isolamento tambm havia um colete-deforas que ningum queria usar - br
 an 69 co, feito de lona reforada e pespontada, que tinha todos o botes, fechos e fivelas na parte de trs. Todos ns sabamoy como manietar uma criana problemtica, 
restringindo-a naquele colete  velocidade de um golpe sbito. No era muito frequente os reclusos tornarem-se violentos, mas, sempre que tal acontecia, meu amigo, 
no ficvamos  espera que a situa o viesse a melhorar por si prpria. O Brutal abriu a gaveta da secretria por cima do espao para as pernas, de onde retirou 
o livro volumoso encadernado a pele, em cuja capa estava escrita a palavra VISITANTES a letras folheadas a ouro. Habitualmente, aquele livro permanecia no interior 
da gaveta de um ms para o outro. Sempre que um prisioneiro recebia visitas - amenos que se tratasse de um advogado ou de um reverendo - costumava dirigir-se  sala 
adjacente ao refeitrio, que era especialmente reservada para esse efeito. Costumvamos chamar-lhe "a Arcada". No sei b
 em por que motivo. - O que raio pensas que ests a fazer? - perguntou Dean Stanton, espreitando por cima das lentes dos culos en quanto o Brutal abria o livro, 
folheando, numa atitude de grande formalidade, as pginas referentes aos anos anteriores onde estavam inscritos os nomes dos visitantes dos homens que naquele momento 
j tinham morrido. - Estou a obedecer ao Regulamento Nmero Dezanove --+. replicou o Brutal, chegando  pgina actual. Agarrou no lpis e lambeu a ponta, um hbito 
bastante desagradvel que el no conseguia perder, e preparou-se para comear a escrever.' O Regulamento 19 dizia muito simplesmente: "Todas as visitas que venham 
ao Bloco E tm de mostrar um passe amarelo, emitido pela administrao, devendo o seu nome ser registado sem falta nenhuma." - Passou-se do juzo - comentou o Dean, 
dirigindo-se a mim. - O rato no nos mostrou o passe, mas desta vez estou disposto a deixar passar essa lacuna - acrescentou o Brutal.;
  Deu outra lambidela extra  ponta do lpis para lhe trazer' sorte, e comeou a escrever 9h 49m por baixo da coluna intitulada HORA DE CHEGADA AO BLOCO. - Com certeza, 
e porque no? Provavelmente os manda-chuvas fazem excepes em relao aos ratos - adiantei eu. - Claro que fazem - concordou o Brutal.

Virou-se para ver as horas no relgio de parede que se encontrava por detrs da mesa e registou 10h 01m na coluna encimada pelo ttulo HORA DE SAIDA Do BLOCO. O 
espao mais alongado entre estas duas colunas tinha por ttulo NOME DO VISITANTE. Depois de ter pensado com uma expresso bastante concentrada durante uns momentos 
- plausivelmente para avaliar as suas limitadas capacidades de soletrar, uma vez que tenho a certeza de que a ideia j se havia formado na sua cabea - o Brutus 
Howell escreveu com todo o cuidado srE~reoar wmr,Y, nome que a maior parte das pessoas dessa poca costumava chamar ao Rato Mickey. Isso era por causa daquele primeiro 
desenho animado falado, onde ele revirava os olhos, batendo com as ancas em todo o lado, enquanto puxava pela corda do apito na cabina do timoneiro do barco a vapor. 
- Aqui est - disse o Brutal, fechando o livro com estrondo e voltando a coloclo no interior da gaveta -, tudo concludo e encerrado. Ri-me, mas
 o Dean, que no conseguia evitar uma expresso de seriedade em relao a tudo, ainda que soubesse que uma determinada coisa era uma Simples brincadeira, franzia 
o sobrolho irritado enquanto limpava furiosamente as lentes dos culos. - Se algum ler isso acabars por ter problemas. - Hesitou um pouco, acrescentando: - Se 
esse algum for pessoa errada... - Vacilou uma vez mais, olhando em seu redor da forma caracterstica dos curtos de vista, como se esperasse ver que as paredes tinham 
adquirido orelhas, antes de terminar a sua linha de raciocnio: - Algum como, por exemplo o Percy "Lambe-me-o-olho-do-cue-vai-para-o-paraso" Wetmore. - Hum... 
- resmungou o Brutal. - No dia em que o Percy Wetmore sentar o seu traseiro escanzelado aqui em baixo, a esta mesa ser o dia em que me demito. - No ters necessidade 
de chegar a esse ponto - atalhou o Dean. - Antes que isso acontea, sers despedido por escreveres palermices no livro dos visitantes, no
  caso de o Percy segredar ao ouvido certo as palavras adequadas. O que ele pode muito bem fazer. Sabes que  assim. O Brutal mostrou um semblante enfurecido, mas 
no proferiu qualquer palavra. Mais tarde, nessa mesma noite, cheguei  concluso de que ele tencionava apagar o que tinha escrito. Caso no o fizesse eu prprio 
trataria desse assunto. 70 71 Na noite seguinte, depois de ter primeiro levado o Bitter, buck e depois o Presidente at ao Bloco D, onde o nosso gr po tomava duche 
aps os prisioneiros comuns j estare" fechados para a noite, o Brutal perguntou-me se no deveria mos procurar o Steamboatlly na cela do isolamento. - Acho que 
sim - respondi. Ainda nos tnhamos divertido  custa do rato na noite anterior; todavia, eu sabia que se o Brutal e eu o descobrssemos na cela do isolamento, muito 
em particular se verificssemos que comeara a fazer um ninho, esburacando uma das paredes almofadadas, seramos forados a mat-lo. Era
  prefervel eliminar o batedor, independentemente do quo divertido ele pudesse ser, do que ser-se obrigado a viver com os colonizadores. E, como calculam,; nenhum 
de ns sentia grande relutncia em levar a cabo um.~ pequena matana de ratos. Ao fim e ao cabo, o estado pagava-nos para matarmos homens que no eram melhores do 
qu ratazanas. No entanto, no descobrimos o paradeiro do Steamboa. ~lly - o qual mais tarde viria a ser conhecido pelo nome de Mister Jingles - nessa noite; no 
se encontrava aninhado em, nenhuma das paredes acolchoadas, nem atrs de qualquer dos tarecos que levmos para o corredor. De facto, havia uma grande quantidade 
de tralha, mais do que eu esperara encontrar, uma vez que j h muito tempo no ramos obrigados a usar a cela do isolamento. Essa situao viria a alterar-se com 
o surgimento do William Wharton, mas, como  evidente, naquela altura no sabamos que assim seria. Que sorte a nossa! - Para onde  que
 ele ter ido? - perguntou o Brutal por fim, limpando o suor que se lhe tinha acumulado na nuca' com um grande leno azul. - No existem buracos nem fen

das... como se pode ver, mas... - Apontou para um ralo no cho. Por baixo da grade, atravs da qual o rato poderia ter escapado, havia uma rede apertada de ao, 
por onde nem sequer uma mosca conseguiria passar. - Como  que ele teria entrado? E como  que conseguiu sair? - No sei - repliquei. -Ele entrou para aqui, no 
 verdade? Quer dizer, ns; os trs vimos que assim foi. - Sim, atravs da fresta inferior da porta. Teve de se espremer um bocado, mas o certo  que conseguiu passar. 
-Meu Deus! - exclamou o Brutal... As palavras soavam de forma estranha vindas de um homem to corpulento. 72  uma grande sorte para ns que os prisioneiros no 
tenham poderes para ficar assim to pequenos, no achas? - Podes apostar que sim - redargui, percorrendo com o olhar as paredes de lona, o que fiz uma ltima vez 
 procura de um orifcio qualquer ou uma fenda, enfim, qualquer coisa. No avistei nada do gnero. Vamos embora, j vimos tudo. O
  Steamboat Willy brindou-nos de novo com a sua presena trs noites mais tarde, numa altura em que o Harry Terwilliger se encontrava de servio na mesa do corredor. 
O Percy tambm estava de servio, e perseguiu o rato que fugia pela Milha Verde, servindo-se da mesma esfregona que o Dean pensara em utilizar. O roedor esquivou-se 
do Percy com toda a facilidade, escapando-se pela fresta por baixo da porta da cela do isolamento; o animal saiu vencedor sem a mnima dificuldade. Praguejando em 
altos berros, o Percy abriu a porta fechada  chave, tendo removido de novo do interior toda a cangalhada que l se encontrava. A sua atitude era simultaneamente 
divertida e assustadora, de acordo com as palavras do Harry. O Percy jurava que haveria de encontrar o maldito do rato, aps o que lhe arrancaria impiedosamente 
a pequena cabea, mas, como  bvio, no teve oportunidade de o fazer. Todo transpirado e desalinhado, com a fralda da camisa da farda fora das cal
as nas costas, regressou  secretria trinta minutos mais tarde, afastando o cabelo dos olhos e dizendo ao Harry (o qual, durante a maior parte daquele rebulio, 
se tinha mantido calmamente sentado a ler) que estava decidido a colocar fita isoladora na parte inferior da porta; isso acabaria por resolver o problema do verme, 
declarou ele enfaticamente. - Aquilo que achares melhor, Percy - dissera o Harry, virando uma pgina do romance de cordel que estava a ler. Calculava que o Percy 
acabaria por se esquecer de tapar a fresta da porta, no que no se enganou. 8 Mais tarde nesse mesmo Inverno, muito depois de se terem passado todas estas coisas, 
o Brutal veio falar comigo numa bela noite em que s ns dois estvamos presentes, dado que o Bloco E se encontrava temporariamente vazio, pois 73 os outros guardas 
haviam sido destacados para outras fu" es, com carcter temporrio. Entretanto, o Percy j tinh ido para o Briar Ridge. - Anda c - disse-me
  o Brutal com uma voz estranha ~ constrangida que fez com que eu olhasse atentamente  sua volta. Eu acabara de sair de uma noite fria com granizo, e estava a sacudir 
os ombros do meu sobretudo antes de o pendu rar no bengaleiro. - Passa-se alguma coisa de anormal? - perguntei, sur preendido. - No - respondeu ele -, mas j descobri 
onde  que o Mister Jingles estava instalado. Quero dizer, quando ele apareceu pela primeira vez, antes de o Delacroix ter comeado a tratar dele. Ests interessado 
em ver? Claro que estava. Seguiu-o pela Milha Verde at  cela do isolamento. Toda a tralha que costumvamos guardar ali fora arrastada para o corredor; aparentemente, 
o Brutal tinha aproveitado a ausncia de trfego de clientes para proceder a algumas arrumaes. A porta mantinha-se aberta, o que me permitiu avistar no interior 
da cela o nosso balde com a esfregona. O cho, revestido com aquele mesmo linleo de umesverdeado doentio,  semelhana da p
 rpria Milha Verde, ainda no secara por completo. No meio da cela fora armada uma escada de mo, aquela que habitualmente era guardada na sala da arrecadao, 
e que, por acaso, tambm era

a que servia como ponto de paragem dos condenados pelo estado. Da parte de trs do escadote saa uma espcie de prateleira, junto ao topo, o tipo de superfcie que 
um trabalhador utilizaria para colocar a sua caixa de ferramentas, ou onde um" pintor poria as suas latas de tinta. Sobre ela via-se uma lanterna de bolso. O Brutal 
entregou-ma: - Sobe at ali. Tu s mais baixo do que eu, por isso vais ter de subir quase at ao cimo, mas eu seguro-te pelas pernas. - Tenho ccegas a em baixo 
- disse eu, comeando a , subir a escada de mo. - Especialmente na regio dos joelhos. - Eu tenho cuidado com isso. - ptimo - repliquei -, porque uma bacia quebrada 
 um preo demasiado elevado para descobrir as origens de um s rato. - Hem? 74 No faas caso. - Nessa altura, a minha cabea j se encontrava ao mesmo nvel da 
lmpada dentro de uma armadura no centro do tecto e eu sentia que o escadote estremecia um pouco sob o peso do meu corpo. Vind
 os do lado de fora, ouvia os gemidos do vento. - Presta ateno e segura-me bem. - Tenho-te bem seguro, no te preocupes. - O Brutal mantinha as minhas coxas firmemente 
agarradas e subi mais um dos degraus; agora, o cimo da minha cabea encontrava-se a menos de tenta centmetros do tecto, sendo-me possvel avistar as teias das aranhas 
mais empreendedoras nas funes das vigas do tecto. Fiz incidir o feixe de luz em redor, sem descortinar nada que valesse o risco que a minha pessoa corria naquele 
lugar. - No - disse o Brutal. - Ests a olhar para muito longe, Paul. Olha para a tua esquerda, para o ponto onde essas duas vigas se juntam. Ests a v-las? Uma 
delas est um bocado descolorida. - Estou a ver - afirmei. - Faz incidir a luz sobre a juno. Fiz como ele me dizia e deparei quase de imediato com o que o Brutal 
queria que eu visse. As duas vigas haviam sido unidas com cavilhas, meia dzia delas, tendo desaparecido uma que deixara um orif EDcio circular e escurecido, do 
tamanho de uma moeda de vinte e cinco cntimos. Olhei para aquilo e afivelei uma expresso de dvida, fitando o Brutal por cima do ombro. - De facto, era um rato 
pequeno - disse eu -, mas assim to pequeno?  p, no me parece. - Mas foi a que ele se escondeu - afirmou o Brutal, convicto. - Aposto o que quiseres. - No estou 
a ver como  que podes ter assim tanta certeza. - Inclina-te mais... no te preocupes, estou a segurar-te as pernas, e sopra. Fiz como ele me dizia, agarrando-me 
a uma das outras traves com a mo esquerda, sentindo-me um pouco mais equilibrado depois de me ter firmado bem. O vento que continuava a soprar l fora fez-se ouvir 
de novo; sentia no rosto o ar a sair daquele orificio. Conseguia cheirar a lufada agreste de uma noite de Inverno na linha limtrofe do Sul... juntamente com algo 
mais. O cheiro a hortel-pimenta. 75 No permitam que acontea alguma coisa ao Mister Jingles, ouvia eu a
  voz do Delacroix a dizer-me num timbre que se recusava a manter-se firme. Ouvia aquelas palavras ao mesmo tempo que sentia o calor do corpo do Mister Jingles, 
quando o francs mo passou para as mos, somente um mero rato, sem dvida que mais esperto do que os da maioria da espcie, mas que no deixava de ser um simples 
rato, independentemente de tudo o mais. No deixem que esse tipo malvado faa mal ao meu rato, dissera ele, e eu prometera-lho, tal como acabo sempre por lhes prometer 
tudo quando o fim se aproxima, na ocasio em que percorrer a Milha Verde{ deixara de ser um mito, ou uma mera probabilidade, passando a ser algo a que eles no podiam 
fugir. "Ponha esta carta no correio para o meu irmo que j no vejo h vinte anos." Eu prometia. "Diga quinze ave-marias pela minha alma." Eu prometia. "Deixe-me 
morrer com o meu nome espiritual e certifique-se de que

fica escrito na minha lpide." Eu prometia. Era a maneira de fazermos com que eles fossem sem criar grandes complicaes, a maneira de os vermos sentados na cadeira 
situada ao fundo da Milha Verde, mantendo intacta a sua sanidade mental. Era-me impossvel cumprir todas aquelas promessas, como  evidente, mas mantive a que tinha 
feito ao Delacroix. Quanto ao prprio franci, tinham surgido graves complicaes. O sujeito malvado tinha feito mal ao Delacroix, tinha-o magoado e muito. Oh, eu 
sei bem o que ele fez, sem dvida, contudo, ningum merecia aquilo que aconteceu ao Eduard Delacroix quando ele foi enlaado pelo abrao mortfero da Velha Fasca. 
Um cheiro a hortel-pimenta. E outra coisa mais. Algo que se encontrava bem no interior do orificio. Retirei uma caneta do bolso da minha camisa, servindo-me da 
mo direita e continuando a manter-me bem agarrado  viga com a esquerda; tinha deixado de me preocupar com a possibilidade de o Brutal,
  inadvertidamente, me fazer ccegas nos joelhos que to sensveis eram. Com uma s mo desenrosquei a tampa da caneta, e com a ponta arrastei qualquer coisa para 
fora do buraco. Era uma lasca nfima de madeira que havia sido tingida de um amarelo rutilante; comecei a ouvir a voz do Delacroix uma vez mais, desta feita com 
tanta clareza que o seu fantasma deve ter pairado naquela cela junto de ns - aquela onde o William Wharton passava tanto do seu tempo. Eh, vocs a!, disse a voz 
desta vez - a voz espantada e risonha de um homem que se esqueceu, pelo menos durante algum tempo, do lugar onde se encontra e daquilo que o aguarda. Venham ver 
o que  que o mister Jingles consegue fazer! Meu Deus! - sussurrei. Senti-me como se algum me houvesse cortado a respirao. - Descobriste outro, no  verdade? 
- perguntou o Brutal. - Eu descobri trs ou quatro - acrescentou ele. Desci pela escada de mo e fiz incidir a luz da lanterna sobre a palma da su
 a grande mo, que ele mantinha aberta. Sobre ela viam-se espalhadas vrias lascas de madeira, como se fossem um jogo de pauzinhos de elfos. Duas delas eram amarelas, 
iguais  que eu tinha encontrado. Tambm havia outra verde e uma vermelha. No haviam sido pintadas, mas sim coloridas, com os lpis de cera Crayola. - E esta, hem! 
- exclamei numa voz baixa e estremecida. - No querem l ver! So bocados de carretel, no  verdade? Mas porqu? Porqu aqui em cima? perguntei. - Quando eu era 
mais novo, no era to grande como sou agora - disse o Brutal. A maior parte do meu crescimento ocorreu entre os quinze e os dezassete anos. At essa idade, era 
quase um ano. Quando fui para a escola da primeira vez, senti-me to pequeno como se fosse... ora bem, to pequeno como um rato, calculo que se possa estabelecer 
essa comparao. Sentia-me quase a morrer de medo. Assim, sabes o que  que eu fiz? Abanei a cabea. L fora, ouviram-se de
 novo as rajadas de vento. Nos ngulos formados pelos barrotes, as teias de aranha estremeceram, fazendo oscilar os seus delicados fios, como se fossem renda esfarrapada. 
Eu jamais tinha estado num lugar que me provocasse uma sensao de assombrao to intensa, e foi precisamente nesse momento, enquanto ns dois olhvamos para os 
restos lascados do carretel que tantas complicaes havia causado, que a minha cabea comeou a ter a percepo daquilo que o meu corao compreendera, desde que 
o John Coffey percorrera a Milha Verde: eu no poderia continuar a exercer aquelas funes durante muito mais tempo. Com ou sem Grande Depresso, no seria capaz 
de observar muitos mais homens a entrar no meu gabinete, como se este fosse a antecmara da morte. At mesmo s mais um poderia vir a ser demasiado. - Pedi  minha 
me que me desse um dos seus lenos de assor - continuou o Brutal. - Por conseguinte, quando 76 77 sentia que es
 tava prestes a choramingar, sentindo-me muito pequeno, podia tirlo da algibeira e cheirar o seu perfume, o que tinha o efeito de fazer com que eu no me sentisse 
to mal.

- Ests a pensar... em qu? Que o rato roeu um bocado desse carretel colorido, com o fim de se recordar do Dela. croix? Que um rato... O Brutal soergueu o olhar. 
Por uns momentos fugazes pareceu-me ter visto lgrimas nos seus olhos, mas calculo que me deveria ter enganado quanto a isso. - Eu no estou a afirmar nada, Paul. 
Mas o certo  que as encontrei ali em cima e cheirou-me a hortel-pimenta, tal como a ti... Sabes que isso  verdade. E no sou capaz de continuar a fazer isto. 
Recuso-me a continuar a fazer isto. O facto de ser obrigado a ver outro homem sentado naquela cadeira ser o suficiente para dar cabo de mim. Na segunda-feira tenciono 
apresentar um pedido de transferncia para o Estabelecimento Correccional Juvenil. Se conseguir ser transferido antes da prxima execuo seria ptimo. Se tal no 
se verificar, demito-me e regresso  lavoura. - O que  que tu alguma vez amanhaste, para alm de pedras? - Isso no interessa para o c
 aso - respondeu o Brutal: - Eu sei que no redargui. - Parece-me que vou fazer a mesma coisa que tu. Olhou-me atentamente, assegurando-se de que eu no es tava 
a brincar com ele, e acenou com a cabea como se aquele assunto fosse uma coisa mais que decidida. Uma vez mais ouviram-se rajadas de vento suficientemente violentas 
para fazer ranger as traves do tecto; ambos olhmos para as paredes almofadadas, sentindo um certo mal-estar. Parece-me que por momentos conseguimos ouvir o William 
Wharton - e no o Billy the Kid, esse no, para ns sempre fora o Bill Selvagem desde o primeiro dia em que aparecera no bloco a gritar e a rir-se, dizendo-nos que 
iramos sentir-nos diabolicamente satisfeitos quando nos livrssemos dele, mas que nunca conseguiramos esquec-lo! Ele tivera toda a razo. Quanto quilo em que 
o Brutal e eu tnhamos concordado naquela noite, na cela do isolamento, as coisas vieram a desenrolar-se dessa forma. Era quase como se houvs
 semos proferido um juramento sagrado sobre aqueles pequenos pedaos de madeira colorida. Nenhum de ns voltou a participar numa execuo. O John Coffey foi o ltimo. 
78 PARTE DOIS O Rato na milha 1 O lar para a terceira idade onde ponho os ltimos pontos nos "is" e cruzo os ltimos "ts" chama-se Georgia Pines. Situa-se a menos 
de cem quilmetros de Atlanta, e a duzentos anos-luz do dia-a-dia da maior parte das pessoas - estou a referir-me s pessoas com menos de oitenta anos de idade. 
O leitor que est a ler este livro dever acautelar-se certificando-se duque no existe um lugar destes  sua espera num futuro prximo. No  que seja um stio 
cruel, pelo menos na maioria dos seus aspectos; temos televiso por cabo e a alimentao  boa (embora haja muito poucos alimentos que um homem possa mastigar), 
mas, de certa forma, tem tanto de antecmara da morte, sem tirar nem pr, como acontecia com o Bloco E, em Cold Mountain. , At=E
 9 h aqui um fulano que me traz  recordao a imagem do Percy Wetmore; este conseguiu arranjar o emprego na Milha Verde porque era parente, por afinidade, do governador 
do estado. Duvido muito que o sujeito que trabalha no lar seja da famlia de algum importante, embora isso no o impea de se comportar como se o fosse. Chama-se 
Brad Dolan. Passa o tempo a pentear o cabelo, tal como o Percy costumava fazer, e tem sempre alguma coisa para ler dentro do bolso traseiro das calas. No caso do 
Percy eram revistas, como por exemplo Argosy e Men's Adventure; no que diz respeito ao Brad so estes pequenos livros de bolso com o nome de Piadas Porcas e Anedotas 
Nojentas. Anda sempre a perguntar s pessoas porque  que o francs atravessou a rua, ou quantos polacos  que so precisos para enroscar uma lmpada, ou ainda quantos 
homens  que so necessrios para carregar um caixo num funeral em Harlem.  semelhana do Percy, o Brad  um si
 mplrio que est convencido de que nada  engra ado, a menos que possua uma conotao maldosa. 81

No outro dia, o Brad disse algo que me surpreendeu pela sua sagacidade, embora ele no me merea muito crdito por isso; at um relgio cujos ponteiros estejam parados 
est certo duas vezes por dia, tal como se costuma dizer. - Tens muita sorte por no teres essa tal doena de Alz-heimer, Paulie - foi o que ele me disse. Detesto 
que me tratem por esse nome, Paulie; porm, apesar do meu desagrado, ele continua a faz-lo; j desisti de lhe pedir que no o fizesse. Existem outras coisas, no 
so bem provrbios, que se apli cam ao Brad Dolan: "Pode levar-se um cavalo at  gua, mas no se pode obrig-lo a beber",  um desses dizeres " mais fcil levar 
um boi ao mouro que um ignorante  razo" era outro. Tambm se adequa muito  personalidade do Percy, pelo facto de no entrar nada naquela cabea. Quando fez o 
comentrio sobre a doena de Alzheimer, andava ele a lavar com uma esfregona o cho do solrio, onde e
 u me encontrava a rever as pginas que escrevera. J reu ni bastantes e estou em crer que iro existir muitas mais antes de eu dar a minha escrita por concluda. 
- Essa tal... Alzheimer, sabes o que realmente ? - perguntou-me ele. - No - respondi -, mas tenho a certeza de que vais esclarecer-me, Brad. -  a sida das pessoas 
de idade - disse ele, tendo desatado a rir-se, um riso seco e aos arranques, tal como costumava fazer depois de contar uma das suas piadas idiotas. No me ri; as 
palavras dele tinham-me tocado num nervo qualquer. No que eu sofra de Alzheimer; embora por aqui, no maravilhoso Georgia Pines, se tenha a oportunidade de ver muitos 
casos desses, limito-me a sofrer da falta de memria proverbial que costuma atacar as pessoas de idade avanada. Os problemas que se prendem com esse estado parecem 
estar mais relacionados com o quando do que com o qu. Ao rever aquilo que escrevi at ao momento ocorre-me que me recordo de tudo o que acon
 teceu em 1932;  a ordem sequencial dos acontecimentos que por vezes se confunde na minha cabea. Contudo, se eu tiver cuidado, estou convencido de que sou capaz 
de remediar essas lacunas. At certo ponto. O John Coffey deu entrada no Bloco E e na Milha Verde em Outubro desse mesmo ano, tendo sido condenado pelo assassnio 
das gmeas Detterick, que na altura tinham apenas no ve anos de idade. Esse  o meu principal ponto de referncia, 82 e se o mantiver sempre presente, poderei organizar 
cronologicamente tudo o mais, sem problemas de maior. O William Wharton, o Bill Selvagem chegou depois do Coffey; o Delacroix tinha chegado anteriormente. O mesmo 
aconteceu com o rato, aquele a que o Brutus Howell - Brutal para os amigos - chamava Steamboat Willy, enquanto o Delacroix acabou por lhe dar o nome de Mister Jingles. 
Fosse qual fosse o nome, o rato chegou primeiro, at mesmo primeiro que o Del ainda era Vero quando ele fez a sua primeira apario, numa alt
 ura em que tnhamos outros dois encarcerados na Milha Verde: o Chefe, Arlen Bitterbuck e o Presidente, Arthur Flanders. Aquele rato. O raio do rato. O Delacroix 
tinha paixo pelo bicho, mas era inegvel que o mesmo no se passava com o Percy Wetmore. O Percy odiara a criatura desde o primeiro momento. 2 Decorridos apenas 
trs dias aps o Percy ter corrido com ele da Milha Verde, o rato voltou a aparecer. O Dean Stanton e o Bill Dodge falavam de poltica... o que nessa poca signficava 
que o tema da conversa era Roosevelt e Hoover Herbert, no J. Edgar'. Ambos comiam bolachas de gua e sal Ritz de uma caixa que o Dean tinha comprado ao velho Pouca 
Terra havia mais ou menos uma hora. O Percy encontrava-se  porta do gabinete, enquanto praticava sacar rapidamente do basto que ele tanto adorava e ouvindo a conversa 
dos outros. Tinha-o retirado daquela espcie de coldre ridculo feito por medida que arramara no se sabia onde, fazendo-o rodopiar
 (ou a tentar faz-lo; na maior parte das suas tentativas t-lo-ia deixado cair, no fora a correia de couro que o prendia ao pulso) e voltando a met-lo dentro 
do coldre. Nessa noite, eu estava de folga, o

que no me impediu de receber um relatrio completo elaborado pelo Dean no fim do dia seguinte. O rato apareceu na Milha Verde, tal como anteriormente, Herbert Clark 
Hoover, 1874-1964, trigsimo primeiro presidente norteamericano. John Edgar Hoover, 1895-1972, criminologista norte-americano e director do FBI. (N. da T.) 83 numa 
corrida rpida e detendo-se de vez em quando para examinar as celas vazias. E l ia prosseguindo desta maneira, sem se sentir desencorajado, como se sempre tivesse 
sabido que aquela seria uma procura longa e estivesse firmemente decidido a no desistir. Desta feita, o Presidente encontrava-se acordado, junto das grades da porta 
da sua cela. Aquele tipo era especial: conseguia ter um aspecto garboso at mesmo com as roupas azuis dos prisioneiros. Bastava olhar para o seu aspecto para ficarmos 
a saber que no fora feito para a Velha Fasca, e tnhamos razo - menos de uma semana depois de o Percy ter corrido com o rato dali pela seg
 unda vez, a sentena do Presidente foi comutada para priso perptua, tendo-se ele reunido  populao prisional de delito comum. - Olhem! - exclamou ele. - Est 
aqui um rato! Mas que diabo de espelunca  esta? - Perguntou aquilo meio a rir-se, mas o Dean comentou que no deixava de manifestar uma espcie de indignao, como 
se at uma acusao de homicdio no houvesse sido suficiente para the abalar a postura cheia de nove horas. Ele fora o director regional de uma empresa de imobilirio 
chamada Mid-South Realty Associates, e julgara-se suficientemente esperto para conseguir sair impune do facto de ter arremessado o pai, j meio senil, pela janela 
de um terceiro andar e recebido o seguro de vida. Nessa avaliao ele enganara-se, mas talvez por muito pouco. - Cala a boca, meu mentecapto - invectivou o Percy, 
numa atitude que nele era quase automtica. Estava de olho no rato. Tinha voltado a guardar o basto no coldre e agarrara
 numa das suas revistas, mas atirara-a para cima da mesa do guarda de servio, sacando de novo do basto. Com gestos distrados, comeou a bater com ele contra o 
n dos dedos da mo esquerda. - Filho da puta! - exclamou o Bill Dodge. -  a primeira vez que vejo um rato por aqui. - Eh, at que ele  engraado - atalhou Dean. 
- Na parece ter medo nenhum de ns. - Como  que sabes isso? - H umas noites ele esteve aqui. O Percy tambm o viu. O Brutal chama-lhe Steamboat Willy. Ao ouvir 
aquilo, o Percy exibiu uma expresso desdenhosa, embora, pelo menos de momento, se tivesse abstido de fazer qualquer comentrio. Recomeara a bater mais rapidamente 
com o basto nas costas da mo. 84 . Vejam isto - acrescentou o Dean. - Da outra vez, ele chegou at  mesa. Quero ver se consegue fazer isso agora. E conseguiu, 
afastando-se bastante do Presidente quando passou junto dele, como se no lhe agradasse o cheiro do nosso nsonho parricida. Insp
 eccionou duas das celas desocupadas, chegou mesmo a dar uma corrida at uma das tarimbas que nem sequer tinha colcho, farejou-a e regressou  Milha Verde. O Percy 
manteve-se no mesmo lugar durante todo aquele tempo, batendo continuamente com o basto e sem falar, o que nele no era nada vulgar, desejando fazer com que o rato 
se arrependesse de ter voltado ali. Querendo ensinar-lhe uma lio. -  uma sorte vocs no terem de o sentar na Velha Fasca - comentou o Bill com ironia, interessado 
nas andanas do rato contra a sua prpria vontade. - Teriam uma grande trabalheira para conseguir prender as correias do capacete. O Percy continuava sem proferir 
uma nica palavra; contudo, em gestos muito lentos, firmou o basto entre os dedos, da mesma maneira que um homem agarraria num bom charuto. O rato deteve-se no 
mesmo lugar onde o fizera antes, a uma distncia de no mais de um metro da mesa do corredor, soerguendo 0 olhar para o Dean, como se f
 osse

um prisioneiro perante a barra de um tribunal. Durante breves instantes fitou o Bill, para logo voltar a concentrar a sua ateno no Dean. O Percy mal dava a impresso 
de se aperceber daquilo que acontecia em seu redor. -  um animalzinho cheio de coragem, sou obrigado a admiti-lo - acrescentou o Bill. Ergueu um pouco a voz: - 
Ei! Ei! Steamboat Willy! O rato retraiu-se ligeiramente enquanto as orelhas lhe fremiam, mas no fugiu nem sequer mostrou qualquer sinal de que o desejasse fazer. 
- Agora, olhem bem para isto - continuou o Dean, recordando-se da forma como o Brutal lhe tinha dado um naco de carne em conserva da sua sanduche. - No sei se 
ele se comportar da mesma maneira, mas... Quebrou ao meio uma das bolachas de gua e sal Ritz, tendo deixado cair um pedao em frente do rato. Durante um segundo 
ou dois o animal limitou-se a olhar para o bocado de bolacha de tom alaranjado, com os seus olhos vivazes de 85 um negro cintilante, enquanto os bigodes f
 ilamentados fremiam ao cheirar o petisco. Chegou-se mais  frente, agarrou-~ com as patas da frente, sentou-se e comeou a comer. - Que eu seja descascado e cozinhado! 
- exclamou o; Bill, perplexo. - Come com tantas maneiras como uma pessoa durante a ceia da igreja num sbado  noite! - Para mim parece-se mais com um negro a comer 
me hncia - comentou o Percy com mordacidade, embora nenhum dos outros guardas lhe tivesse prestado a mnima ateno. O que tambm aconteceu com o Chefe e com o; 
Presidente. O rato terminou o pedao de bolacha e continuo sentado, dando a impresso de se encontrar equilibrado soba_ a cauda enrolada em espiral, observando os 
gigantes com uniformes azuis. - Deixa-me experimentar - disse o Bill. Quebrou outr , bocado de bolacha de gua e sal, inclinou-se at  frente da; mesa e deixou-o 
cair cuidadosamente. O rato cheirou-o mas no lhe tocou. - Hum! - exclamou o Bill. - J deve estar de estmago cheio. - No me parece -
  contraps o Dean. - Ele sabe que tu s temporrio,  s isso. - Temporrio, ai ? Gosto disso! Estou aqui h quase; tanto tempo como o Harry Terwilliger! Talvez 
at h mais tempo do que ele! - Acalma-te, meu veterano, acalma-te - aconselhou a Dean com um esgar sorridente. - Mas v se eu tenho ou no razo. - Lanou outro 
pedao de bolacha por cima da secretria. Sem qualquer hesitao, o rato agarrou na bolacha, ten-` do recomeado a mastigar e continuando a ignorar por completo 
o contributo alimentar oferecido pelo Bill Dodge' Todavia, antes de ter podido dar uma ou duas trincadelas preliminares, o Percy lanou o basto contra o animal, 
arremessando-o como se fosse uma lana. O rato era um alvo pequeno e, por muito que custasse, a verdade tinha de ser dita - foi um lanamento traioeiramente certeiro, 
que poderia ter desfeito a cabea do Willy, se os reflexos da criatura no tivessem sido to apurados como o olfacto de
 um co. O rato esquivou-se - sim, tal e qual como um ser humano o teria feito - tendo deixado cair o bocado de bolacha. O pesado basto de nogueira passou por cima 
da sua cabea e espinha, suficientemente perto para os plos 86 se terem agitado (pelo menos, foi o que o Dean afirmou, pelo que me Imponho a transcrever, embora 
no tenha a certeza de acreditar realmente nisso), e foi embater no cho de linleo esverdeado, tendo feito ricochete contra as barras de uma cela vazia, O rato 
no se deixou ficar por ali, a fim de averiguar se se teria tratado de um simples engano; tendo-lhe ocorrido, aparentemente, um encontro muito importante noutro 
stio qualquer, deu meia volta e afastou-se disparado pelo corredor fora, seguindo em direco  cela do isolamento. O Percy rugiu de frustrao - sabia o quo perto 
estivera de atingir o animal e foi em sua perseguio. O Bill Dodge agarrou-o por um brao, muito provavelmente movido por um simples insti
 nto, mas o Percy afastou-se dele com um gesto brusco. Ainda assim, o Dean afirmou que, possivelmente, foi a reaco do Bill que salvou a vida do Steamboat Willy, 
apesar de ter sido por um triz. O Percy no s pretendia apanhar o rato, como tambm o queria esborrachar; ps-se a correr, dando uns saltos enormes e cheios de 
comicidade, como um veado,

pisando o cho com toda a fora com os pesados sapatos pretos de trabalho. O rato conseguiu evitar os dois ltimos saltos do Percy, correndo em ziguezague a toda 
a velocidade. Passou pela fresta inferior da porta, com um zurzir final da sua cauda cor-de-rosa, e... at mais ver, forasteiro - desapareceu. - Foda-se! - vociferou 
o Percy, batendo violentamente com a palma da mo contra a superficie da porta. Em seguida, comeou a procurar no seu molho de chaves aquela que lhe permitiria entrar 
na cela do isolamento, continuando assim a perseguir o rato. O Dean foi no seu encalo, caminhando em passos deliberadamente lentos, a fim de adquirir o controlo 
das suas emoes. Parte do seu ser desejava rir-se do Percy, disse-me ele mais tarde, enquanto outra parte s queria agarr-lo e sacudi-lo, encost-lo e imobiliz-lo 
contra a porta da cela do isolamento, para lhe poder dar uma carga de porrada. Como  evidente, a maior parte daquilo que ele sentia traduz
 ia-se numa grande perplexidade; as nossas funes no Bloco E, em grande parte, eram reduzir qualquer tumulto ao mnimo, e tumulto era praticamente o segundo nome 
do Percy Wetmore. Trabalhar com ele assemelhava-se muito  tarefa de tentar desactivar bombas com algum atrs de ns que, de vez em quando, batesse estridentemente 
com os dois pratos de um cmbalo. 87 Numa palavra, era uma situao deveras enervante. O Dean disse que conseguiu detectar esse nervosismo nos olhos do Arlen Bitterbuck... 
at mesmo na expresso do Presidente, embora este cavalheiro, regra geral, se comportasse de uma maneira to fria como um bloco de gelo. Mas havia algo mais. Em 
algum recanto da sua mente, o Dean j tinha comeado a aceitar o rato como se este fosse - bem, talvez no um amigo, mas sim como parte da vida no bloco. Isso tornava 
o comportamento do Percy, bem como aquilo que ele tentava fazer, muito pouco correcto. Levando mesmo em considerao que a sua
  raiva se dirigia contra um rato. O facto de o Percy jamais conseguir vir a compreender o motivo por que a sua aco era recriminvel revelava mais que sobejamente 
que ele no era a pessoa adequada para as funes que desempenhava. Na altura em que o Dean chegou ao fundo do corredor, j se tinha conseguido dominar, sabendo 
como  que deveria agir naquela situao. A nica coisa que o Percy era incapaz; de suportar, era fazer figura de idiota, e todos sabamos isso. - A merda do rato 
fugiu outra vez - comentou o Dean com um pequeno sorriso, tentando desanuviar o ambiente. O Percy lanou-lhe um olhar de poucos amigos, afastando o cabelo dos sobrolhos. 
- V l como  que falas, caixa-de-culos. Estou chateado. No tornes as coisas piores do que j esto. - Com que ento, hoje  outra vez dia de mudanas, no'  
verdade? - perguntou o Dean sem mostrar uma expresso risonha... embora se risse com os olhos. - Pois bem, desta vez,
  quando puseres tudo c fora, importas-te de passar a esfregona pelo cho? O Percy olhou para a porta. Fitou as suas chaves. Pensou em mais uma incurso, longa, 
quente e v por aquela cela de paredes acolchoadas, enquanto todos os outros se mantinham por perto a observ-lo... No que se inclua o Chefe e o Presidente. - Raios 
me partam se eu compreendo o que  que tem tanta piada - disse ele. No necessitamos de ratos nas celas... J temos vermes suficientes por aqui, sem que precisemos 
de lhes acrescentar a presena de ratos. - Tens toda a razo, Percy - retorquiu o Dean, erguendo as mos num gesto de apaziguamento. Por breves instantes, contou-me 
ele na noite seguinte, acreditou verdadeiramente que o Percy talvez se virasse contra ele. 88

Entretanto, o Bill Dodge aproximou-se numa atitude plcida e consegmu acalmar as coisas.

 Parece-me que deixaste cair isto - disse ele, entregando ao Percy o seu basto. - Uns dois centmetros mais abaixo e terias apanhado o mafarrico em cheio nos lombos. 
Ao ouvir aquelas palavras, o trax de Percy expandiu-se. - Sim, no foi um golpe muito mau - redarguiu ele e, com todo o cuidado, voltou a meter o estala-cabeas 
dentro do coldre de aspecto to disparatado. - No liceu, eu costumava jogar ao ataque. Metia muitos golos. - A srio? No sabia - retrucou o Bill, e o som respeitoso 
do seu timbre de voz (embora tivesse piscado o olho ao Dean quando o Percy virou costas) foi o suficiente para desactivar aquela situao acalorada. - Sim - insistiu 
o Percy. - Uma vez em Knoxville fiz um golo em cheio. Aqueles rapazes da cidade no sabiam o que  que lhes acontecera. Passei por dois. Podia ter sido um jogo perfeito, 
se o idiota do rbitro no tivesse estragado tudo. O Dean poderia ter deixado que a conversa morresse por ali, mas hierarquicamente
  ele era o superior do Percy e parte das suas funes era instruir; nessa poca antes do Coffey e antes do Delacroix - ele ainda pensava que o Percy poderia ser 
ensinado. Assim, estendeu a mo e agarrou no pulso do homem mais novo. - Deves pensar no comportamento que tiveste h pouco - admoestou o Dean. A sua inteno, afirmou 
ele mais tarde, era mostrar uma expresso sria sem que fosse de reprovao. Pelo menos, que no fosse demasiado reprovadora. S que com o Percy aquela abordagem 
no resultava. Ele nunca chegaria a aprender... mas ns acabaramos por ser forados a faz-lo. - Ouve bem, caixa-de-culos, eu sei muito bem o que  que estava 
a fazer... a tentar apanhar aquele rato! O que  que tu s? Cego ou qu? - Tambm me pregaste um grande susto, assim como ao Bill e queles - retorquiu o Dean, apontando 
na direco do Bitterbuck e do Flanders. - E ento? - perguntou o Percy, provocador, endireitando as costas. -
 Eles no esto em nenhum infantrio, caso ainda no tenhas reparado. Apesar de vocs os tratarem como se estivessem, grande parte do tempo. - 89 - Pois bem, a mim 
no me agrada nada sentir-me assustado - adiantou o Bill entre dentes - alm de que trabalho aqui, Wetmore, para o caso de ainda no teres reparado. Eu no sou um 
dos teus mentecaptos. O Percy lanou-lhe um olhar por entre as plpebras semicerradas, exibindo uma expresso onde se adivinhava uma certa insegurana. - E no os 
assustamos mais do que aquilo que  necessrio, porque eles j se encontram sob uma grande tenso - atai lhou o Dean. Continuava a manter um tom de voz baixo. Os 
homens que esto sob uma grande tenso podem ir-se abaixo. Causar danos a si prprios. Fazer mal aos outros. Por vezes, fazem com que fulanos como ns fiquem metidos 
em pro blemas. Ao ouvir aquilo, os lbios do Percy esboaram um trejeito. "Em problemas" era uma ideia que exercia um certo
 po der sobre ele. Provocar problemas no fazia mal. Ver-se metido neles  que no era nada bom. - O nosso trabalho  falar e no gritar - continuou Dean: - Um homem 
que berre com os prisioneiros  um homem que perdeu o controlo sobre as emoes. O Percy sabia quem  que tinha lavrado aquela escritura:; eu. O chefe. Entre o Percy 
Wetmore e o Paul Edgecombe n existia um grande amor, e no se esqueam de que ainda estvamos em pleno Vero - muito antes do incio das verdadeiras festividades. 
- Seria prefervel para ti - continuou o Dean num tom conciliatrio - comeares a encarar este lugar como uma espcie de unidade de cuidados intensivos de um hospital. 
 melhor no fazer muito barulho... - Eu penso nisto como se fosse um balde cheio de mija que serve para se afogar ratos - retorquiu o Percy -, e  tudo. Agora, 
se no te importas, larga-me o pulso. Soltou-se da mo do Dean, deslizou entre este e o Bill e comeou a andar p
 elo corredor num passo pesado, mantendo a cabea baixa. Passou um pouco rente de mais s grades da cela do Presidente - to rente que o Flanders poderia ter estendido 
o brao, tlo agarrado e ter-lhe dado umas cacetadas na cabea com o seu to amado basto, caso o Flanders fosse homem para isso.  claro que no era, mas talvez 
o Chefe

fosse. O Chefe, se lhe dessem essa oportunidade, teria muito bem sido capaz de dar uma tareia dessas ao Percy, apenas pa 90 ra lhe ensinar uma boa lio. Aquilo 
que o Dean me revelou acerca desse assunto, quando me contou a histria na noite seguinte, ficou gravado em mim desde essa altura, uma vez que veio a verificar-se 
ser uma espcie de profecia. - O Wetmore no compreende que no tem o mnimo poder sobre eles - dissera o Dean. - Que nada daquilo que faz contribui para piorar 
as coisas para eles, que eles s podem ser electrocutados uma vez. At ele meter isso na cabea, constituir um perigo no s para si prprio, como para todos os 
que se encontram aqui em baixo. Entretanto, o Percy dirigiu-se ao meu gabinete e deixou a porta bater atrs de si. - Olhem bem para isto! - exclamou o Bill Dodge. 
- No  que ele se porta como se tivesse um testculo gravemente infectado?! - E no sabes da missa nem a metade - retrucou o Dean. - Pois bem
 , vejamos as coisas pelo lado mais animador - continuou o Bill. Ele passava a vida a dizer s pessoas que elas deveriam olhar para as coisas pelo lado mais animador; 
at dava vontade de lhe assentar um murro em cheio no nariz de cada vez que aquelas palavras lhe saam da boca. - Do mal o menos; o teu rato que faz habilidades 
conseguiu fugir. - Sim, mas nunca mais voltaremos a pr-lhe a vista em cima - retorquiu o Dean. Estou em crer que o estupor do Percy Wetmore conseguiu assust-lo 
de uma vez por todas. 3 Aquela observao era lgica, mas errada. Logo no princpio da noite seguinte, o rato estava de volta, e por acaso isso coincidiu com a primeira 
noite das duas que o Percy Wetmore tinha de folga antes de passar para o turno da noite. O Steamboat Willy apareceu por volta das oito horas. Eu encontrava-me presente, 
o que me permitiu assistir ao seu reaparecimento; o Dean tambm l estava, o mesmo acontecendo com o Harry Terwilliger. O Harry encontrava-s
 e sentado  secretr~ia. Tecnicamente, eu deveria trabalhar durante o dia, mas tinha-me deixado ficar por ali durante uma hora a mais, para poder falar com o Chefe, 
cuja execuo se aproximava. Exterior-mente, o Bitterbuck apresentava uma atitude de estoi 91 cismo, de acordo com a tradio da sua tribo; contudo, eu, adivinhava 
o medo que crescia dentro de si, como se fosso uma flor envenenada. Por conseguinte, conversmos. Podemos falar com eles durante o dia, embora no fosse to agradvel 
devido aos gritos e conversas (para no mencionar ocasionais cenas de pugilato) que vinham do ptio,  mistura com o chonque-chonque-chonque da maquinaria da serralharia, 
o grito ocasional de um dos guardas, ordenando a algum que largasse uma picareta ou que agarrasse numa determinada enxada, ou ento: "Arrasta esse coiro at aqui, 
Harveyi"' Habitualmente, depois das quatro horas as coisas melhorava um pouco e depois das seis ainda era melhor. Das seis 
 s oit horas era o melhor perodo do dia. Depois disso, podamo ver os pensamentos profundos comearem a assenhorarem-se das suas mentes uma vez mais viam-se nos 
seus olhos;, quais sombras da tarde - nessa altura era prefervel parar,, Eles continuavam a ouvir o que lhes dizamos, mas as nossas palavras deixavam de fazer 
qualquer sentido. Depois das oito horas, eles preparavam-se para os quartos de ronda da noite, imaginando qual a sensao de terem o capacete bem preso na cabea 
e qual seria o cheiro do ar no interior do saco negro que acabava de ser enfiado por cima das faces transpi-~ radas. Contudo, eu apanhei o Chefe numa boa altura. 
Comeou a falar-me da sua primeira mulher e de como, em conjunto, os dois tinham construdo uma cabana de madeira em Montam. Aqueles haviam sido os dias mais felizes 
de toda a sua vida, de acordo com o que ele dizia. A gua era to pura e fria que uma pessoa sentia a boca cortada de cada vez que a bebia.

- Eh, Mister Edgecombe - disse ele. - Acha que se , um homem se arrepende sinceramente daquilo que fez de mal ainda pode regressar ao tempo em que ele foi mais feliz, 
ficando a viver a para sempre? Parece-lhe que talvez o paraso seja assim? - Tenho acreditado nisso - repliquei, sabendo que estava a dizer uma mentira e sem sentir 
o mnimo remorso por isso. Eu aprendera os assuntos da eternidade em cima do belo regao da minha me, e acredito naquilo que o Bom Livro diz a respeito dos assassinos: 
que para eles no existe vida eterna. Na minha opinio, vo direitinhos para o inferno, onde ficaro a arder no meio de um grande tormento, at que Deus, (malmente, 
faz sinal ao arcanjo Gabriel para que este a 92 sopre as Trombetas do Juzo Final. Quando isso acontece, eles apagam-se... e sentem-se provavelmente bastante satisfeitos 
com Isso. No entanto, eu nunca dei a entender ao Bitterbuck a mais nfima destas crenas, nem to-pouco a nenhum dos outros.
 Mas estou convencido que bem no seu corao eles o sabiam. "Onde est Abel, teu irmo? A voz do sangue dele clama da terra at Mim", disse Deus a Caim, mais ou 
menos nestas palavras, e duvido muito que as palavras tenham sido uma grande surpresa para essa chana problemtica em particular; aposto que Ele ouviu o sangue 
de Abel a gemer-Lhe da terra, com cada passo que dava. Quando o deixei, o Chefe sorria; talvez estivesse a pensar na sua cabana de madeira em Montam, na companhia 
da mulher de seios nus, deitada  luz das chamas da fogueira. Dentro em pouco, ele caminharia por entre um fogo mais ardente, disso eu no duvidava. Percorri o corredor, 
e o Dean ps-me a par da desavena que tivera lugar entre ele e o Percy na noite anterior. Estou em crer que ele se deixou ficar por ali s para poder falar comigo, 
por isso ouvi-o com toda a teno. Eu tinha por hbito ouvir com muita ateno sempre que o assunto se relacionava com o Percy, dado que
  estava cem por cento de acordo com o Dean - na minha opinio, o Percy era o gnero de homem que poderia vir a provocar graves complicaes, tanto a todos ns como 
a si prprio. Quando o Dean estava prestes a terminar a sua narrativa, o velho Pouca Terra aproximou-se com o seu carrinho vermelho, cheio de pequenas coisas para 
comer, o qual estava coberto por citaes da Bblia desenhadas  mo ("Pertencem-Me a vingana e as represlias..." Dt. 32:35, "... pedirei contas do vosso sarrGUE 
a todos os animais..." Gn. 9:5, assim como demais pensamentos alegres, prprios para levantar o moral), e vendeu-nos algumas sanduches e refrigerantes. O Dean procurava 
alguns trocadas nas algibeiras, enquanto dizia que nunca mais voltaramos a ver o Steamboat ~lly por ali, que o estuporado do Percy Wetmore tinha assustado o animal, 
obrigando-o a fugir para sempre, quando o velho Pouca Terra perguntou: _ O que  aquilo ali? Ambos olhmos e l estava o rat
 o do momento, em carne e osso, saltitando pelo meio da Milha Verde. Andava um pouco, detinha-se, olhava em volta com os seus olhinhos brilhantes e recomeava a 
sua corrida. 93 - Ei, rato! - chamou o Chefe, ao que a criatura parou. olhou para ele com os bigodes a fremir. Deixem-me que vos diga, era exactamente como se a 
maldita coisa soubesse que o tinham chamado. - Por acaso, s um desses guias espirituais? - perguntou o Bitterbuck, atirando um pequeno pedao de queijo, que retirara 
do seu prprio jantar, na direco do rato. Foi cair mesmo em frente do animal, mas o Steam_ boat willy mal lanou um olhar ao queijo, tendo retomado o seu caminho 
e continuado a percorrer a Milha Verde, enquanto ia espreitando para dentro das celas desocupadas. - Chefe Edgecombe! - chamou o Presidente. - Acha que esse pequeno 
estupor sabe que o Wetmore no est c? Por Deus, a mim parece-me que sim! Eu sentia mais ou menos a mesma coisa... mas no estava disposto a admitir
 isso em voz alta.

Entretanto, o Harry apareceu no corredor, a coar as calas da maneira que fazia sempre depois de ter passado alguns minutos refrescantes na retrete, e parou, de 
olhos esbugalhados. O Pouca Terra tambm olhava fixamente, com uma careta descada num trejeito que dava uma aparncia desagradvel  metade inferior do seu rosto, 
~lcido e desdentado. O rato parou naquele que se estava a tornar o seu lugar habitual, enrolou a cauda  volta das patas e ficou a olhar para ns. Uma vez mais, 
ocorreram-me as imagens que eu tinha visto de juzes a julgarem condenados desafortunados... e contudo, alguma vez teria existido um prisioneiro to pequeno e to 
destemido como aquele? No que ele fosse um encarcerado na verdadeira acepo da palavra, como  evidente;; tinha a liberdade de ir e vir como bem lhe apetecesse. 
E no entanto, aquela ideia recusava-se a abandonar-me a mente, e ocorreu-me de novo que quase todos ns nos sentiramos assim to pequen
 os, quando chegasse o dia de nos aproximar~{ mos do assento de onde Deus nos julgava, depois das nossas vidas terem chegado ao fim, mas que s um nmero muito restrito 
de pessoas poderia apresentar um ar to destemido. - Pois bem, nunca vi uma coisa destas - declarou o velho Pouca Terra. - Ali est ele sentado, to importante como 
o Rei da Caca. - Ainda no viste nada, Pouca Terra - retorquiu o Harry. - Olha para isto. Levou a mo ao bolso da camisa de onde retirou um biscoito de ma polvilhado 
com canela, em brulhado em papel encerado. Partiu uma extremidade e ati94 rou-a para o cho. Estava seca e endurecida e eu pensei que faria ricochete, passando pelo 
rato sem se deter, mas este estendeu uma pata num gesto to desinteressado, como um homem que se preparasse para apanhar uma mosca que voasse perto dele, dando uma 
palmada no pedao de biscoito, que se imobilizou. Todos nos rimos, de admirao e surpresa, numa exploso de gargalhadas que deve
 ria ter tido o efeito de fazer com que o rato fugisse desarvorado, mas este mal piscou um olho. Agarrou no bocado de biscoito seco, deu-lhe umas duas lambidelas 
e deixou-o cair no cho, olhando para ns como se dissesse: "Nada mau, que mais  que tm?" O Pouca Terra abriu o seu carrinho, tirou uma sanduche, desembrulhou-a 
e cortou um bocado de um enchido. - No te incomodes - disse-lhe o Dean. - O que  que queres dizer com isso? - perguntou o Pouca Terra. - No h um nico rato  
face da Terra que desdenhe uma rodela de enchido se conseguir deitar-lhe a pata. Tu ests mas  maluco! No entanto, eu sabia que o Dean tinha razo; via na expresso 
do Harry que este tambm sabia disso. Havia os temporrios e os permanentes. Fosse de que maneira fosse, aquele rato parecia dar-se conta da diferena. Era de loucos, 
mas era a verdade. O velho Pouca Terra arremessou-lhe a rodela de enchido e, a provar que tnhamos razo, o rato no quis ter n
 ada a ver com aquilo; cheirou uma vez e retrocedeu um passo. - Que eu seja o filho de uma grandessssima cadela! - exclamou o velho Pouca Terra, dando a impresso 
de se sentir ofendido. - D-me isso - disse-lhe eu, estendendo a mo. - O qu... a mesma coisa? - A mesma sanduche. Eu pago-ta. O Pouca Terra entregou-me o que 
lhe pedi. Ergui a fatia de cima do po, retirei outra rodela de enchido e deixei-a cair por cima da borda da frente da secretria do guarda de servio. De imediato, 
o rato avanou, agarrou na carne com as patas e comeou a comer. O enchido desapareceu antes de eu ter tempo de esfregar um olho. - Que eu seja amaldioado! - vociferou 
o Pouca Terra. - Inferno maldito! D-me isso! Arrancou-me a sanduche da mo, tirou um bocado bastante maior de carne - desta vez no foi s um bocadinho, 95

mas sim um bom naco - e deixou-a cair to perto do SteQm, boat Willy que o rato esteve prestes a us-la como chapu. Uma vez mais, o animal retrocedeu, cheirou a 
carne (com toda a certeza que nenhum rato  assim to tarado durante a Grande Depresso - pelo menos, no no nosso estado), e em seguida ergueu o olhar at ns. 
- V l, come! - incitou o Pouca Terra, dando a impresso de se sentir mais ofendido do que nunca. - O que  que se passa contigo? O Dean agarrou na sanduche e 
deixou cair um pedao do enchido - naquela altura, a cena j tinha atingido o carcter de uma estranha comunho. Sem hesitaes, o rato apanhou a carne e comeu-a 
imediatamente. Depois de ter terminado"~ voltou-se e comeou a percorrer o corredor at  cela do isolamento, parando a meio do caminho para espreitar para dentro 
de duas das celas desocupadas, e fez uma pequena digresso inquiridora a uma terceira. Uma vez mais, ocorreu-me a possibilidade de o
 animal andar  procura de algum; desta feita, afastei o pensamento da minha mente com maior lentido do que anteriormente. - No tenciono falar acerca deste assunto 
- disse o Harry Adivinhava-se que ele falava meio a srio meio a brincar. Em primeiro lugar, ningum se interessaria. E em segundo, ain da que fosse esse o caso, 
ningum acreditaria em mim. - Ele s comeu o que vocs lhe deram - comentou o Pouca Terra. Abanou a cabea num gesto de quem no conseguia acreditar naquilo, debruou-se 
sobre o carrinho e agar rou no que o rato tinha desdenhado, comeando a comer com a sua boca desdentada e a triturar o alimento com as gengivas at ao ponto de submisso. 
- Vamos l a saber, porque  que ele ter agido assim? - Tenho uma ideia melhor - interveio o Harry. - Como  que ele sabia que o Percy est de folga? - No sabia 
- repliquei. - O facto de esse rato ter aparecido hoje  noite no passa de uma mera coincidncia. S que,
 com o passar dos dias, cada vez se tornava mais dificil acreditar que um simples rato s desse a conhecer a sua presena quando o Percy se encontrava de folga, 
a trabalhar noutro turno, ou em funes numa outra zona da priso. Ns - o Harry, o Dean, o Brutal e eu prprio - chegmos  concluso de que o animal deveria conhecer 
a voz do Percy ou o seu cheiro. Cautelosamente, evitvamos discutir em de 96 masia o prprio rato - o prprio. Decidimos tacitamente que isso poderia contribuir 
para arruinar uma coisa que era muito espetral... e maravilhosa, em virtude da estranheza e delicadeza que a envolviam. Ao fim e ao cabo, o Willy escolhera_nos de 
uma maneira que, at mesmo agora, eu nunca consegui compreender.  possvel que o Harry tenha tido razo, quando disse que no valeria a pena partilhar aquilo com 
outras pessoas, no s porque elas no acreditariam, mas tambm porque no iriam demonstrar o mais pequeno interesse. 4 Foi ent E3o que chegou a data da execuo 
do Arlen Bitterbuck, o qual, na realidade, no era o chefe da sua tribo mas sim o primeiro dos ancios na Reserva de Washington, assim como membro do Conselho dos 
Cherokees. Sob o efeito do lcool ele tinha assassinado um homem - na verdade, ambos tinham estado embriagados. O Chefe esmagara a cabea do homem com um bloco de 
cimento. O pomo da discrdia entre os dois fora um par de botas. Portanto, em 17 de Julho daquele Vero chuvoso, o meu conselho de ancios determinou que a sua vida 
deveria ser extinta. As horas de visita, para a maior parte da populao prisional de Cold Mountain, eram to rgidas como vigas de ao, mas essa norma no se aplicava 
aos nossos rapazes do Bloco E. Assim, no dia 16, o Bitterbuck teve autorizao para se dirigir  espaosa sala adjacente ao refeitrio - a Arcada. Estava dividida 
exactamente a meio por uma rede de arame entrelaada com arame farpado. Era ali que o Chefe
  recebia a visita da sua segunda mulher, assim como alguns dos seus filhos que ainda falavam com ele. Chegara o momento do adeus.

Foi o Bill Dodge quem o levou quela sala, juntamente com dois dos outros temporrios. Ns tnhamos trabalho a fazer - uma hora para, pelo menos, dois ensaios. Trs, 
se consegussemos. O Percy no levantou muitos protestos por ter sido destacado para o compartimento do quadro elctrico com o Jack Van Hay, para a electrocusso 
de Bitterbuck; ainda estava demasiado verde para perceber se lhe tinha sido dado um bom lugar ou no. Aquilo que ele sabia era que dispunha de uma 97 pequena janela 
rectangular com rede de arame, atravs da qual poderia ver tudo, e, embora provavelmente ele no se importasse de estar a olhar para as costas da cadeira em vez 
de para a frente, continuaria a estar suficientemente prximo; para poder avistar as fascas a saltarem para todos os lados: Do lado de fora da janela, mesmo junto 
desta, havia um telefone negro sem manivela nem mostrador de nmeros. Esse telefone s servia para receber chamadas, as quais poderiam ser f
 eitas somente de um lugar: do gabinete do governador. Ao longo dos anos, vi uma srie de filmes sobre a vida prisional em que o telefone oficial comea a tocar 
no momento exacto em que se preparam para accionar a alavanca que; terminar com a vida de um desgraado qualquer inocente;; contudo, o nosso nunca tocou durante 
todos os anos em que trabalhei no Bloco E. Nos filmes, a salvao  barata. Assim como a inocncia. Pagam-se vinte e cinco cntimos e obtm-se exactamente aquilo 
que esse montante pode proporcionar-nos. A vida real custa mais e a maioria das respostas  bem diferente. L em baixo, no tnel, tnhamos um manequim de alfaiate 
que ocupava o lugar na ambulncia, enquanto o velho Pouca? Terra fazia o resto. Ao longo dos anos, no se sabia bem como, o Pouca Terra tinha vindo a ocupar o lugar 
do tradicional substituto do condenado, um lugar to respeitado  sua maneira como o do peru que far as honras da mesa da ceia: de Natal,
 quer se goste de peru ou no. A maior parte dos outros guardas da priso gostava dele, o homem falava com um sotaque engraado, o que os divertia - tambm era de 
origem francesa, embora fosse canadiano e no cajun, e possua uma maneira de falar muito peculiar que era suavizada pelos muitos anos de encarcerao no Sul. At 
mesmo o Brutal se divertia com o velho Pouca Terra. Mas eu no me inclua nesse nmero. Estava convencido que ele era, muito  sua maneira, uma verso mais envelhecida 
e diluda do Percy Wetmore, a espcie de homem que sentia grandes melindres em matar e cozinhar a sua prpria carne, mas que, ainda assim, adorava sentir o cheiro 
do churrasco. Estvamos todos presentes para o ensaio, tal como estaramos ali durante o acontecimento principal. O Brutos Hwell tinha sido o "designado", como costumvamos 
dizer, o" que significava que lhe caberia a tarefa de colocar o capacete, vigiar a linha telefnica do governador, cha
 mar o mdico que 98 estaria no seu lugar junto  parede, no caso de os servios deste virem a ser necessrios, e dar a ordem para o desenrolar dos eventos quando 
chegasse a hora. Se tudo corresse bem, no haveria elogios para ningum. Caso contrrio, o Brutal seria recriminado pelas testemunhas enquanto eu seria responsabilizado 
pelo director. Nenhum de ns reclamava desta situao; os protestos no nos teriam servido de nada. Muito simplesmente, o mundo continua a girar. Podemos aguentarnos 
e girar com ele, ou tentar fazer valer os nossos protestos, sendo imediatamente cuspidos desse .mundo. O Dean, o Harry Terwilliger e eu encaminhmo-nos para a cela 
do Chefe, a fim de dar incio ao primeiro ensaio; ainda no haviam passado trs minutos desde que o Bill e as suas tropas tinham escoltado o Bitterbuck do bloco 
at  Arcada. A porta da cela encontrava-se aberta e o velho Pouca Terra estava sentado na tarimba do Chefe, com os seus cabelos ralo
 s e encanecidos espetados em todas as direces. - O lenol est todo manchado com ndoas de se ter vindo - comentou o Pouca Terra. - Deve estar a tentar livrar-se 
disso tudo antes de vocs o estorricarem - acrescentou com um riso cacarejado.

- Cala a boca, Pouca Terra - ripostou o Dean. - Vamos l a fazer isto de uma forma sria. - De acordo - anuiu o Pouca Terra, compondo imediatamente as suas feies 
e adquirindo uma expresso de solenidade grandiosa. Todavia, os seus olhos mantinham-se brincalhes. O velho Pouca Terra nunca dava a impresso de estar to vivo 
como quando desempenhava o papel do morto. - Arlen Bitterbuck - comecei a dizer, dando alguns passos em frente -, na minha qualidade de funcionrio de justia e 
do estado, e por a adiante... venho munido de uma sentena, e bl-bl... execuo essa que ter lugar s vinte e Quatro horas do dia bl-bl... pelo que lhe peo 
que se levante. O Pouca Terra levantou-se da tarimba. - Estou a levantar-me, estou a levantar-me, estou a levantar-me - declarou ele repetidamente. - D meia volta 
- interveio o Dean e, quando o Pouca Terra se virou, comeou a examinar o topo da sua cabea coberta de caspa. No dia seguinte  E0 noite, a regio superior da cabea 
do Chefe seria escanhoada, e a verificao do Dean na altura teria a finalidade de ver se ele no precisaria de alguns retoques. Os cabelos mal rapados impediriam 
uma boa 99 condutibilidade de energia, dificultando todo o processo. Tudo aquilo que fazamos naquele momento pretendia facilitar as coisas. - Muito bem, Arlen, 
vamos embora - disse eu ao Pouca Terra, e todos samos da cela. - Estou a caminhar pelo corredor, estou a caminhar pelo corredor, estou a caminhar pelo corredor 
- repetiu o Pouca Terra. Pus-me  sua esquerda, e o Dean  sua direita. O Harry seguia directamente atrs dele. Chegados ao fim do corredor virmos  direita, afastando-nos 
da vida como ela era vivida no ptio do recreio, seguindo em direco  morte como era sofrida na sala da arrecadao. Prosseguimos para o meu gabinete, onde o Pouca 
Terra caiu de joelhos sem que fosse necessrio pedirlhe que o fizesse. Ele conhecia bem o
  argu_ mento daquela pea, extremamente bem, provavelmente melhor do que qualquer de ns. Deus era testemunha de que ele vivia naquele lugar h mais tempo do que 
ns. - Estou a rezar, estou a rezar, estou a rezar - acrescentou o Pouca Terra, erguendo as mos enodadas num gesto de orao. Assemelhavam-se quela famosa gravura 
que vocs' provavelmente conhecem, aquela que quer dizer: "O Senhor  . o meu pastor..." e assim por diante. - Quem  que o Bitterbuck arranjou? - perguntou o Harry. 
- No vamos permitir aqui a presena de um curaudefiro cherokee que lhe agarre na picha, pois no? - Na verdade... - Continuo a rezar, continuo a rezar, continuo 
na companhia de Jesus acrescentou o Pouca Terra, interrompendo-me. - Cala a boca, velho idiota ripostou o Dean. - Estou a rezar! - insistiu o Pouca Terra. - Nesse 
caso, reza para ti prprio. - O que  que est a atrasar-vos? - gritou a voz do Brutal vinda da sala da arrecadao. Tambm havia s
 ido esvaziada para nosso uso. Encontrvamo-nos de novo na zona da matana; isso era algo que quase se conseguia cheirar. - Aguenta os cavalos! - gritou-lhe o Harry. 
- Que raio, no sejas to impaciente! - A rezar - continuou o Pouca Terra, brindando-nos com o seu esgar sorridente, desagradvel e encovado. - A rezar para que 
me seja concedida pacincia, porra, apenas um pouco de pacincia. - Na verdade, o Bitterbuck  cristo... de acordo com o 100 que ele diz - continuei dirigindo-me 
aos outros. - Vai sentir-se satisfeito com aquele tipo baptista que aqui esteve por ocasio do Tillman Clark. Acho que o nome dele  Schuster. Eu tambm gosto dele. 
 rpido e no faz com que eles fiquem todos enervados. Pe-te de p, Pouca Terra. J rezaste que chegue para um dia.

- Estou a andar - disse ele. - Estou a andar outra vez, estou a andar outra vez, sim senhor, a caminhar pela Milha Verde. Baixo como ele era, ainda assim tinha de 
se encolher um pouco para conseguir transpor a porta, situada na parede mais afastada do meu gabinete. Ns tivemos de nos baixar ainda mais. Sempre que em presena 
de um verdadeiro condenado, este momento era deveras vulnervel; quando olhei para a plataforma onde se encontrava a Velha Fasca, tendo avistado o Brutal com a 
arma empunhada, acenei com uma expresso de satisfao. Estava tudo exactamente como devia estar. O Pouca Terra comeou a descer os degraus e parou. As cadeiras 
desdobrveis de madeira, cerca de quarenta, j se encontravam a postos nos seus lugares. O Bitterbuck atravessaria aquele espao at  plataforma, num ngulo que 
o manteria afastado dos espectadores, havendo mais seis guardas que reforariam a segurana para o que desse e viesse. O Bill Dodge  que seria o
  responsvel por esses. Nunca uma testemunha fora ameaada por um prisioneiro, apesar da situao de grande tenso... e era assim que eu tencionava manter as coisas. 
- Esto prontos, rapazes? - perguntou o Pouca Terra depois de termos reassumido a nossa formao original, ao fundo dos degraus que saam do meu gabinete. Acenei 
num gesto afirmativo e encaminhmo-nos para a plataforma. Acima de tudo, aquilo a que mais nos assemelhvamos, pensava eu muitas vezes era a um corpo de guarda de 
honra que se tinha esquecido da bandeira. - O que  que eu devo fazer? - perguntou o Percy por detrs da pequena janela com rede de arame, entre a sala da arrecadao 
e o compartimento do quadro elctrico. - Observa e aprende - respondi-lhe em voz alta. - E mantm as mos afastadas da tua salsicha - acrescentou o Harry num resmungo. 
No entanto, o Pouca Terra ouviu-o e soltou uma risada cacarejada. Escoltmo-lo at  plataforma, onde o Pouca Terra se vo
 ltou sem que ningum lhe dissesse para o fazer: o velho veterano em aco. - A sentar-me - anunciou ele -, a sentar-me, a sentar-me, a ocupar o assento no regao 
da Velha Fasca. Ajoelhei-me sobre o joelho direito em frente da sua perna direita, enquanto o Dean se ajoelhou sobre o joelho esquerdo em frente da sua perna esquerda. 
Era nesta altura que ns prprios estaramos na posio mais vulnervel, sujeitos a um ataque fsico, no caso de o homem condenado se passar dos carretos... o que, 
de quando em quando, acontecia. Ambos posicionmos o joelho dobrado ligeiramente para dentro, a fim de proteger a regio das virilhas. Deixmos descair o queixo 
para poder salvaguardar a zona da garganta. E, como  evidente, avanmos para prender os tornozelos do condenado, neutralizando desta forma e o mais depressa possvel 
qualquer situao de perigo. O Chefe usaria pantufas quando desse o seu derradeiro passeio, mas a frase "poderia ser muito
 pior, no serve de grande conforto a um homem com a laringe dilacerada. Ou j agora, a contorcer-se no cho com os tomates inchados do tamanho de um grande boio 
de vidro Mason, enquanto cerca de quarenta espectadores - muitos deles cavalheiros da imprensa - sentados naquelas cadeiras das granjas, observavam tudo com muita 
ateno. Prendemos os artelhos do velho Pouca Terra. A grilheta do lado do Dean era ligeiramente maior, uma vez que era aquela por onde passava a corrente. Quando, 
no dia seguinte  noite, o Bitterbuck se sentasse na cadeira, teria a barriga da perna esquerda rapada. Os ndios tm muito poucos plos no corpo, mas ns no queramos 
correr o mnimo risco. Enquanto prendamos os tornozelos do Pouca Terra, o Brutal manietou-lhe o pulso direito. Por seu lado, o Harry' avanou em passadas mansas, 
prendendo o esquerdo. Depois de terem terminado, este ltimo acenou ao Brutal que se dirigiu a Van Hay em voz alta. - Prossegue com a
 fase um! Ouvi o Percy a perguntar ao Jack Van Hay qual o significado daquilo (era difcil acreditar na escassez de conhecimentos que ele tinha, no pouco que apreendera 
desde que comeara a trabalhar no Bloco E), ao que se seguiu uma explicao sussurrada do Van Hay. Naquele momento, a expresso Prosseguir com a fase um no teria 
qualquer significado, mas, quando no dia seguinte a ouvisse da boca do Brutal, o Van Hay

102 rodaria o puxador que accionava o gerador da priso situado atrs do Bloco B. As testemunhas ouviriam o rudo ensurdecido do mecanismo em funcionamento, enquanto 
as luzes por toda a priso seriam mais intensas. Nos outros blocos, os prisioneiros observariam as luzes que emitiriam uma luminosidade invulgar, deduzindo que a 
execuo fora concluda, quando de facto aquilo indicava que estava apenas no incio. O Brutal contornou a cadeira de forma a que o Pouca Terra o pudesse ver. - 
Arlen Bitterbuck, o senhor foi condenado a morrer na cadeira elctrica, tendo a sentena sido lavrada por um jri formado pelos seus pares, e imposta por um juiz 
deste estado. Deus abenoe as pessoas deste estado. Tem alguma coisa a dizer antes de se dar cumprimento  sentena? - Sim - replicou o Pouca Terra com os olhos 
cintilantes e lbios unidos que esboavam um esgar desdentado pleno de felicidade. - Quero um jantar de galinha frita com molho em cima das batati
 nhas, quero cagar dentro do teu chapu e tenho de ter a Mae West sentada em cima da minha cara, porque sou um filho da puta cheio de teso. O Brutal tentou manter 
uma expresso empedernida, mas foi-lhe absolutamente impossvel. Lanou a cabea para trs e desatou a rir s gargalhadas. O Dean, que se encontrava na extremidade 
da plataforma, perdeu toda a compostura como se houvesse sido atingido por um projctil, com a cabea baixada entre os joelhos, a uivar como se fosse um coiote e 
com uma mo a tapar os sobrolhos, dando a impresso de que impedia os miolos de sarem do lugar onde deveriam manter-se. Por seu lado, o Harry batia com a cabea 
contra a parede, enquanto proferia ahah-ah como se tivesse um naco de comida entalado na garganta. At mesmo o Jack Van Hay, um homem que no era conhecido pelo 
seu sentido de humor, no conseguira conter o riso.  claro que a mim tambm me apeteceu rir, mas a custo consegui refrear essa vontade. Na
  noite seguinte tudo aquilo seria a srio e, no lugar onde o Pouca Terra estava sentado haveria um homem destinado a morrer. - Pra com isso, Brutal - disse eu. 
- Tu tambm, Dean. Harry. E pouca Terra, o prximo comentrio semelhante a esse que saia da tua boca ser o ltimo que fars. Ordenarei ao Van Hay que prossiga de 
facto com a fase dois. O Pouca Terra mimoseou-me com uma careta risonha, como se me dissesse: "Essa foi muito boa, chefe Edgecombe, 103 mesmo muito boa." Quando 
viu que no obtinha qualquer reaco da minha parte, lanou-me um olhar intrigado por entre as plpebras semicerradas. - O que  que se passa consigo? - perguntou 
ele. - O que disseste no tem graa nenhuma - retorqui.  isso que se passa comigo e, se no s suficientemente esperto para compreenderes isso, o melhor  manteres 
a pia fechada. - S que era engraado,  sua maneira muito especial, e suponho que fora isso o que realmente me enfurecera. Olhei
 minha volta e vi que o Brutal olhava fixamente para mim, continuando a sorrir um pouco. - Merda! - exclamei. - Estou a ficar demasiado velho para este trabalho. 
- No - retorquiu o Brutal. - Ests no teu melhor, Paul. Mas no estava e ele tambm no, pelo menos no que respeitava aquelas malditas tarefas, e ambos sabamos 
que assim era. Fosse como fosse, o importante era que o ataque de riso tinha passado. O que era bom, visto que a ltima coisa de que eu precisava era que algum 
se recordasse, na noite seguinte, do comentrio do chico-esperto do Pouca Terra, o que daria origem a mais risadas. Poder-se-ia dizer que isso seria absolutamente 
impossvel, um guarda que desatasse a rir s gargalhadas na altura em que escoltava um homem condenado, ao passar pela frente das testemunhas enquanto o conduzia 
 cadeira elctrica; porm, quando os homens se encontram sujeitos a uma grande tenso psicolgica, tudo pode acontecer. Caso se verificasse uma
  coisa dessas, as pessoas iriam falar do assunto durante pelo menos vinte anos.

- Tencionas ficar calado, Pouca Terra? - perguntei. Sim - respondeu ele; a expresso do seu rosto, que mantinha desviado, reflectia a da criana mais amuada do mundo. 
Fiz sinal ao Brutal, indicando-lhe que deveria prosseguir com o ensaio. Ele retirou o saco negro, que se encontrava pendurado no gancho de bronze nas costas da cadeira, 
e colocou-o na cabea do Pouca Terra, ajustando-o bem abaixo do queixo, o que abriu o orifcio em cima, na parte mais larga. Em seguida, o Brutal inclinou-se para 
a frente, agarrou na esponja molhada que retirou do balde, fez presso com um dedo sobre a esponja e lambeu a ponta do dedo. Concludo aquilo, voltou a colocar a 
esponja dentro do balde. No dia seguinte, no o faria. No dia seguinte, ajeit-la-ia dentro do capacete que se encontraria pendurado nas costas da cadeira. 104 No 
entanto, naquele dia no procederia assim; no havia necessidade de molhar a cabea do velho Pouca Terra. O capacete era de ao e, com aquelas
  estranhas correias suspensas dos dois lados, tinha a aparncia de uma espcie de capacete feito de plasticina. O Brutal colocou-o na cabea do velho Pouca Terra, 
ajustando-o por cima do orifcio recortado no saco negro. - Esto a pr-me o capacete, esto a pr-me o capacete, esto a pr-me o capacete - anunciou o Pouca Terra, 
cuja voz naquele momento soava abafada,. saindo-lhe a custo da garganta. As correias mantinham-lhe os maxilares quase cerrados, e desconfio que o Brutal as havia 
apertado um tudo-nada em excesso, mais do que aquilo que seria estritamente necessrio para um ensaio. Retrocedeu e olhou de frente para as cadeiras desocupadas. 
- Arlen Bitterbuck - anunciou ele -, a partir de agora a corrente elctrica atravessar o seu corpo at que o senhor esteja morto, de acordo com a lei deste estado. 
Que Deus tenha piedade da sua alma. O Brutal voltou-se para a pequena janela rectangular de rede de arame. - Prossigam com a fase dois. O velho
  Pouca Terra, talvez numa tentativa de retomar a anterior genialidade de cmico, comeou a estrebuchar e a espernear na cadeira, de uma maneira que quase nunca 
acontecia com os verdadeiros clientes da Velha Fasca. - Agora estou a estorricar! - gritou ele. - A estorricar! A estoricaarrr! Aaauuuu! Estou cozinhado como um 
peru! Reparei que o Dean e o Harry no observavam esta cena. Tinham voltado costas  Velha Fasca e fitavam um ponto para alm da sala da arrecadao vazia, nomeadamente 
a porta que dava acesso ao meu gabinete. - Macacos me mordam! - exclamou o Harry. - Uma das testemunhas chegou com um dia de antecedncia. Sentado na ombreira com 
a cauda cuidadosamente enrolada em redor das patas, observando tudo com os seus olhos negros e brilhantes como contas, encontrava-se o rato. 5 A execuo correu 
bem - se existia qualquer coisa naquele processo que pudesse ser considerada "boa" (uma proposio de que eu duvido veementemente) ento a exec
 uo 105 do Arlen Bitterbuck, ancio dos Cherokees de Washita, fora-o. As suas tranas no tinham ficado bem feitas - as mos haviam-lhe tremido tanto que no conseguira 
entranar o cabelo como deve ser - e a filha mais velha, uma mulher de trinta e poucos anos, tivera autorizao para as entranar como devia ser. Ela queria entrela-las 
com penas nas extremidades, as penas novas de um falco, o pssaro do pai, mas eu no pude permitir isso. Havia a possibilidade de pegarem fogo, comeando a arder. 
 claro que eu no lhe disse isso, limiteime a dizer-lhe que era contra os regulamentos. Ela no levantou qualquer objeco, tendo apenas inclinado a cabea e levado 
as mos  fronte, como mostra do seu desgosto e da sua reprovao. A mulher conduziu-se sempre com uma dignidade extraordinria, e, ao manter aquela compostura, 
prati= camente garantiu que o pai procederia da mesma maneira.

O Chefe deixou a sua cela sem qualquer objeco, sem tentar protelar a situao quando chegou o momento. Por vezes ramos obrigados a soltar os dedos dos homens 
que se agarravam s grades da cela - nos meus tempos, cheguei mesmo a quebrar um ou dois; nunca consegui esquecer-me do estalar abafado dos ossos quando isso acontecia; 
todavia, o Chefe no era um desses, graas a Deus. Caminhou determinantemente pela Milha Verde at ao meu gabinete, onde se deixou cair de joelhos para rezar com 
o Irmo Schuster, que tinha vindo da Igreja Baptista Luz Celestial no seu velho calhambeque. Schuster leu ao Chefe alguns salmos, e ele comeou a chorar quando o 
reverendo chegou quele que falava em deitar-se ao lado das guas tranquilas. No obstante isso, as coisas correram mais ou menos, no tendo havido histeria nem 
nada do gnero. Eu tinha a impresso de que ele estaria a pensar em guas tranquilas, to frias e to puras que nos davam a sensa
 o de cortar a boca de cada vez que as bebamos. Na verdade, eu gosto de os ver chorar um pouco. Quando eles no choram  que eu fico preocupado. Muitos deles no 
so capazes de se levantar sem ajuda depois de se terem ajoelhado; todavia o Chefe portou-se bem nesse departamento. De incio, vacilou um pouco, como se no soubesse 
o que estava a fazer, e o Dean estendeu-lhe uma mo, embora o Bitterbuck j tivesse sido capaz de se recompor sem auxlio, o que nos permitiu dar seguimento  sesso. 
Quase todas as cadeiras se encontravam ocupadas por pessoas que falavam entre si numa voz sussurrada, tal como 106 se costuma fazer quando se aguarda o incio de 
um casamento ou de um funeral. Essa foi a nica ocasio em que o Bitterbuck se deixou ir um pouco abaixo. No sei se foi por ter estado presente algum que o tenha 
perturbado em especial, ou o conjunto de toda aquela assistncia, mas o certo  que comecei a ouvir um gemer ensurdecido que come
ava a sair-lhe da garganta, e, de repente, o brao em que eu segurava adquiriu uma tenso muscular que no tivera antes. Pelo canto do olho, vi que o Harry Terwilliger 
se aproximava, a fim de cor= tar qualquer tentativa de recuo do Chefe, se de sbito este decidisse dificultar as coisas. Apertei com mais fora a mo que mantinha 
presa no cotovelo do Bitterbuck, tendo-lhe tocado com um dedo na regio interior do brao. - Calma, Chefe - disse-lhe eu pelo canto da boca sem mexer os lbios. 
- A nica coisa que ficar gravada na memria da maior parte desta gente  a forma como sares desta vida, portanto, d-lhes algo de bom... mostra-lhes como  que 
um washita se comporta. Ele lanou-me um olhar de revs e acenou com a cabea. Em seguida, agarrou numa das tranas que a filha havia entranado e deu-lhe um beijo. 
Olhei para o Brutal, que se mantinha na posio militar de descanso por detrs de uma cadeira, todo aprumado no seu
 melhor uniforme azul, com os botes do casaco bem polidos e a brilhar, e o chapu de pala perfeitamente posicionado na sua cabea avantajada. Fiz-lhe um ligeiro 
acenar de cabea, que ele retribuiu de imediato, avanando para ajudar o Bitterbuck a subir para a plataforma, caso a sua ajuda viesse a ser necessria. No foi. 
Decorreu menos de um minuto desde o momento em que o Bitterbuck se sentou na cadeira, at que o Brutal gritou "Prosseguir com a fase dois!", numa voz suave, falando 
por cima do ombro. As luzes voltaram a enfraquecer, embora por pouco tempo; nem se teria reparado nisso, caso no se esperasse que tal viesse a acontecer. O que 
significava que o Van Hay accionara o interruptor, que um engraadinho qualquer tinha etiquetado como "o SECADOR DE CABELO DA MABEL. Ouviu-se um zunir abafado vindo 
do capacete, e o Bitterbuck inclinou-se para a frente com um estremecimento, contra as fivelas e a correia estendida a toda a largura do seu peito. Junto  E0 parede, 
o mdico da priso observava sem deixar adivinhar qualquer expresso, mantendo os lbios to cerrados que a 107

sua boca se assemelhava a uma linha esbranquiada. No houve qualquer estrebuchar nem to-pouco espernear, tal como o velho Pouca Terra fizera durante o ensaio, 
s aquele forte estremecimento para a frente, das ancas para cima, como se sob o efeito de um poderoso orgasmo. A camisa azul do Chefe esticou-se toda junto dos 
botes, criando pequenos vincos que se assemelhavam a sorrisos de carne entre eles. E foi ento que surgiu o cheiro. Em si mesmo no era muito mau, embora se tornasse 
desagradvel devido ao que nele se encontrava implcito. Nunca fui capaz de descer at  cave da casa da minha neta, quando me levam at l, embora seja a que o 
seu filho, ainda pequeno, tem montada a linha do comboio que muito gostaria de partilhar com o av. Os comboios no me incomodam, tal como certamente tero adivinhado 
-  o transformador que no sou capaz de suportar. A maneira como zune e o cheiro que deita depois de ter aquecido. At mesmo depois
  de terem passado todos estes anos, aquele cheiro traz-me sempre  memria a imagem de Cold Mountain. O Van Hay deu-lhe trinta segundos e cortou a corrente. O mdico 
avanou, afastando-se do seu lugar para auscultar o corao com o estetoscpio. Naquele momento no se ouvia qualquer conversa entre as testemunhas. O mdico endireitou-se 
e olhou atravs do pequeno rectngulo de malha de rede. - Desorganizado - anunciou ele, fazendo um gesto giratrio com um dedo, como se desse  manivela. Tinha ouvido 
algumas pulsaes espordicas no peito do Bitterbuck, provavelmente to desprovidas de significado como as convulses finais de uma galinha a quem tivessem cortado 
a cabea, mas era prefervel no correr o mnimo risco. Ningum queria que ele, inesperadamente, se sentasse na maca quando ~ fosse a meio caminho do tnel, comeando 
a gritar que se sentia a arder. O Van Hay prosseguiu com a fase trs e, uma vez mais, i o corpo do Ch
 efe foi percorrido por um estremecimento que o impulsionou para a frente, agitando-se um pouco de um lado para o outro sob os efeitos da corrente elctrica. Desta 
feita, quando o mdico o auscultou de novo acenou com a cabea Estava tudo terminado. Uma vez mais tnhamos alcanado xito em destruir aquilo que no podamos criar. 
Algumas das pessoas entre a assistncia recomearam a conversar no mesmo tom de voz sussurrada; contudo, a maior parte dos pre 108 sentes mantinha-se de cabea baixa 
e com os olhos presos no cho, como se estivessem atordoados. Ou mesmo envergonhados. O Harry e o Dean surgiram com a padiola. Na realidade, era tarefa do Percy 
colocar-se numa das extremidades, mas ele no sabia disso e ningum se tinha dado ao trabalho de o informar O Chefe, que continuava a ter a cabea coberta pelo saco 
de seda negra, foi colocado sobre a padiola por mim e pelo Brutal, e conduzimo-lo atravs da porta que dava acesso ao tnel o mais de
 pressa possvel, sem que desatssemos a correr. O fumo - demasiado fumo - comeara a evolar-se do ori~cio no topo do saco, provocando um fedor insuportvel. -  
p! - gritou o Percy numa voz vacilante. - Que cheiro  esse? - Sai do meu caminho e mantm-te bem afastado - ripostou o Brutal, empurrando-o ao passar por ele para 
poder chegar  parede, onde estava montado um extintor. Era um dos antigos, que continha um produto qumico e que era necessrio bombear. Entretanto, o Dean havia 
retirado a espcie de capuz. No era to mau como poderia ter sido; a trana esquerda do Bitterbuck estava a fumegar, como se fosse um amontoado de folhas humedecidas. 
- Deixa essa coisa sossegada - disse eu ao Brutal. No desejava ter de limpar do rosto do velho um monte de substncias qumicas viscosas antes de o colocar na parte 
de trs da ambulncia. Comecei a bater na cabea do Chefe (durante todo o tempo, o Percy olhava para mim com os olhos esbuga
 lhados) at que o fumo se extinguiu. Em seguida, conduzimos o corpo pelos doze degraus de madeira que iam dar ao tnel. Aquele lugar era to frio e hmido como 
uma masmorra, ouvindo-se o som cavo de gua a gotejar. Do tecto estavam suspensas lmpadas protegidas por

quebra-luzes toscos de zinco - estes haviam sido feitos na oficina da priso as quais deixavam ver uma conduta de tijolo que passava a cerca de nove metros abaixo 
da auto-estrada. O tecto molhado tinha uma forma curva. De todas as vezes que eu era obrigado a passar por ali, sentia-me sempre como se fosse uma das personagens 
de uma das histrias de Edgar Allan Poe. Havia uma maca  nossa espera. Colocmos o corpo do Bitterbuck em cima dela e eu procedia uma ltima verificao, certificando-me 
de que o cabelo deixara de 109 arder. Aquela trana ficara bastante estorricada; lamentei ver que a pequena laada, que fora dada de maneira to astuta naquela regio 
da cabea, no passava agora de um amontoado enegrecido. O Percy esbofeteou uma das faces do homem morto O estrpito provocado pelas pancadas da sua mo sobressaltou-nos 
a todos. O Percy olhou em redor, fitandonos a todos com um sorriso matreiro nos lbios e olhos que cintilavam, Voltou a olha
 r para o Bitterbuck. -Adis, Chefe - disse ele. - Espero que o inferno seja suficientemente quente para ti. - No faas isso - atalhou o Brutal numa voz que soava 
cava e declamatria, no tnel onde a gua continuava a gotejar. - Ele j pagou a sua dvida para com a sociedade. Voltou a ter as suas contas em dia. Mantm as mos 
afastadas do seu corpo. - Ei, acaba com isso - retorquiu o Ferey, embora houvesse recuado, mostrando um certo mal-estar quando o Brutal comeou a encaminhar-se na 
sua direco, com a sombra que se erguia atrs de si como se fosse a sombra de um gorila na histria que fala da Rua Morgue. Mas em vez de agarrar no Percy, o Brutal 
agarrou na maca e comeou a empurrar o Arlen Bitterbuck com lentido, em direco ao fundo do tnel, onde a sua ltima boleia o aguardava estacionada na berma macia 
da autoestrada. As rodas de borracha dura da maca gemiam sobre as tbuas do soalho; a sua sombra, de contornos pouco nti
 dos, alongava-se contra a parede de tijolos. O Dean e o Harry agarraram no lenol que estava ao fundo da maca e cobriram o rosto do Chefe, que comeara j a adquirir 
a mscara cercea e descaracterizada comum s faces mortas, tanto dos inocentes como dos culpados. 6 Quando eu tinha dezoito anos, o meu tio Paul - o homem que me 
dera o nome morreu de um ataque cardaco. Os meus pais levaram-me a Chicago para o funeral, aprovei tando para visitar familiares do lado da famlia do meu pai, 
a maioria dos quais eu nunca tinha visto. Ficmos nessa cidade durante quase um ms. Sob certos aspectos, foi uma viagem agradvel, uma jornada necessria e empolgante, 
mas que de certa forma tambm se tornou horrvel. Bem vem, eu estava profundamente apaixonado pela jovem mulher que mais tarde haveria de ser a minha noivaa duas 
semanas depois de ter completado dezanove anos. Uma noite em que as saudades que sentia dela eram como chamas queimando-me descontroladam
 ente o corao e a cabea (oh sim, de acordo, e tambm os tomates), escrevi-lhe uma carta que parecia no ter fim - nela esvaziei todo meu corao, sem nunca voltar 
atrs para rever o que tinha escrito, porque receava que a cobardia me impedisse a mo de continuar. No parei de escrever, e quando uma voz no interior da minha 
cabea bradou que seria uma loucura enviar uma carta daquelas, uma vez que eu estava a pr a nu o meu corao perante ela, que o poderia agarrar com a sua mo, ignorei-a 
com a mesma atitude de desinteresse de uma criana pelas consequncias dos seus actos. Perguntei-me frequentemente se a Janice teria guardado essa carta, apesar 
de nunca ter sido capaz de reunir coragem suficiente para lhe fazer essa pergunta. O que eu sei com toda a certeza  que no a encontrei, quando examinei as suas 
coisas depois do seu funeral, o que, como  claro, por si s no tem qualquer significado. Suponho que nunca lhe cheguei a pe
 rguntar, porque receava descobrir que aquela epstola, cheia de ardor, tivera menos significado para ela do que para mim prprio. Era composta por quatro pginas 
e eu estava convencido de que jamais voltaria a escrever uma missiva to alongada como aquela, em toda a minha vida, e agora

olhem bem para isto. Toda esta escrita e o fim ainda no se encontra  vista. Se eu soubesse que esta narrativa se alongaria desta forma, possivelmente nunca a teria 
comeado. Nunca me tinha apercebido da quantidade de portas que o acto de escrever abre, como se a antiga caneta de tinta permanente do meu pai no fosse realmente 
uma caneta mas sim uma estranha variedade de chave-mestra. Muito provavelmente, o rato constitui o melhor exemplo daquilo que estou a tentar ilustrar. Steamboat 
Willy, Mister Jingles, o rato da Milha. At ter comeado a escrever, nunca tinha compreendido at que ponto  que ele (sim, ele) fora importante. Por exemplo, a 
forma como parecia procurar o Delacroix antes de este ter chegado  priso - no me parece que esse aspecto me tenha ocorrido alguma vez, pelo menos de forma consciente, 
at ter comeado a escrever e a relembrar as coisas. Calculo que aquilo que pretendo dizer  que no me apercebi do quanto teria de recuar
  no tempo para vos falar do John Coffey, ou durante quanto tempo  que teria de o deixar na sua cela, um homem to gigantesco que os seus ps no se limitavam a 
sair pelo fundo da tarimba; pendiam at ao cho. No quero que se esqueam dele, de acordo? Quero que o imaginem ali, erguendo o olhar at ao tecto da sua cela, 
vertendo as suas lgrimas em silncio ou colocando os braos . sobre as faces. Quero que o ouam, os seus suspiros trmulos' como um choro, os seus gemidos ocasionais 
trespassados de lgrimas. No eram sons de agonia e de lamento, como os , que por vezes ouvamos no Bloco E, gritos agudos com lascas de remorso; tal como os seus 
olhos lacrimosos, distanciavam-se da dor com que estvamos habituados a lidar. De certa forma - eu sei que isto pode parecer um disparate, claro que sei, mas no 
faz o mnimo sentido escrever uma coisa to extensa como esta se no pudermos expressar aquilo que temos no nosso corao - de
 certa forma era como se aquilo que ele sentia fosse pena de todo o mundo, algo demasiado, imenso para poder ser minimamente atenuado. Por vezes, eu sentava-me e 
conversava com ele, tal como costumava fazer com todos os outros - conversar era a nossa maior tarefa e a mais importante, como estou em crer que j vos disse - 
ten-; tendo confort-lo. No me parece que alguma vez tenha conseguido faz-lo, e parte do meu corao sentia-se satisfeito por ele sofrer. Sabem, eu sentia que 
ele merecia sofrer. Por vezes chegava mesmo a pensar em telefonar ao governador (ou dizer ao Percy que lhe telefonasse - que diabo, ele era o raio do tio do Percy 
e no meu), a fim de lhe pedir que adiasse a execuo. No deveramos pr-lhe fim agora, diria eu. ~~, Ele continua a sentir-se demasiado magoado, o seu acto ainda 
lhe morde em demasia, contorcendo-lhe as entranhas como um aguilho de ponta aguada. Peo a Vossa Excelncias que lhe conceda outros noventa dias.
  Deizai que ele inflija.a si prprio aquilo que ns no temos meios de lhe infligir.;  este John Coffey que eu tenho de manter num recanto da vossa mente, enquanto 
me ponho em dia at ao ponto onde comecei - este John Coffey deitado em cima da sua tarimba, este John Coffey que tinha medo do escuro, o que talvez se devesse a 
uma boa razo, porque ao abrigo da escurido no se encontrariam duas figuras de cabelos anelados e louros - que haviam deixado de ser rapariguinhas para se transformarem 
em harpias vingadoras - que estariam  sua espera. Este John Coffey de cujos olhos brotavam constantemente lgrimas, como sangue que nunca cessa de jorrar de uma 
chaga que jamais sara. 7

E assim o Chefe foi electrocutado e o Presidente caminhou - pelo menos, at ao Bloco C, que era o lar da maioria dos cento e cinquenta condenados a priso perptua 
de Cold Mountain. Para o Presidente, a priso perptua resumiu-se a doze anos. Ele acabou por morrer afogado na lavandaria da priso, em 1944. No na lavandaria 
da penitenciria de Cold Mountam. Esta encerrou os seus portes em 1933. No me parece que isso fosse de grande interesse para os encarcerados paredes so paredes, 
tal como os reclusos costumam dizer, e a Velha Fasca era

to mortfera na sua pequena cmara de morte de pedra como sempre o fora na sala de arrecadao de Cold Mountain. Quanto ao Presidente, algum lhe enfiou a cabea 
dentro de uma cuba cheia de fluidos de limpeza a seco, tendo-o mantido naquela posio. Quando os guardas o retiraram, o seu rosto tinha desaparecido quase por completo. 
Foram forados a identific-lo atravs das impresses digitais. Levando tudo em considerao, ele talvez tivesse ficado a ganhar com a Velha Fasca... mas nesse 
caso no teria gozado esses doze anos a mais, no  verdade? Todavia, duvido muito que ele tivesse levado isso em grande considerao durante mais ou menos o ltimo 
minuto da sua vida, quando os seus pulmes tentaram aprender a respirar Hexlite e lixvia. Nunca chegaram a apanhar quem lhe fez aquilo. Nessa altura j eu me tinha 
afastado do sistema prisional, mas o Harry Terwilliger escreveu a contar-me. "Ele teve a pena comutada, em grande pa
 rte por ser branco", escreveu ele, "mas no fim acabou porter o que merecia. Penso no assunto como se fosse uma execuo bastante adiada, cujo prazo finalmente expirou." 
Houve um perodo de tempo tranquilo para ns no Bloco ean depois de o Presidente ter sido transferido. O Harry e o Dean foram temporariamente destacados para outro 
servio, pelo que s ficmos durante algum tempo, eu, o Brutal e o Percy na Milha Verde. Na realidade era s o Brutal e eu, uma vez que o Percy era muito metido 
consigo mesmo. Deixem-me que vos diga que esse jovem era um autntico gnio em descobrir as coisas que no seria obrigado a fazer. E de vez em quando (mas s quando 
o Percy no se encontrava presente), os outros tipos costumavam aparecer, para aquilo a que o Harry gostava de chamar "uma bela conversa fiada". Em muitas destas 
ocasies, o rato tambm nos brindava com a sua presena. Ns alimentvamo-lo e ele sentava-se ali a' comer, to solene como Salom E3o, olhando-nos com os seus pequenos 
olhos negros que se assemelhavam a contas cintilantes. Aquelas foram algumas semanas boas, calmas e sem complicaes de maior, no obstante as lamentaes mais do 
que ocasionais do Percy, mas o certo  que todas as coisas boas tm um fim, e numa segunda-feira chuvosa em fins de Julho - j vos disse como o tempo se mantinha 
abafado e chuvoso nesse Vero? - dei comigo sentado na tarimba de uma cela aberta  espera do Eduard Delacroix. Surgiu inesperadamente. A porta que dava para o ptio 
do recreio abriu-se com estrondo, deixando entrar um jorro de luz, acompanhada por um entrechocar confuso de correntes, uma voz balbuciada e assustada que se exprimia 
em ingls e no francs dos Cajuns (um pato que os prisioneiros de Cold Mountain costumavam chamar da bayou) e os gritos do Brutal. - Ei! Pra com isso! Por amor 
de Deus! Pra com isso, Percy. Eu tinha estado meio adormecido no que passaria a ser a tarimba de D
 elacroix, o que no me impediu de me levantar de supeto, com o corao quase a querer saltar para fora do peito. Era muito raro acontecer um tumulto daquelas dimenses 
no Bloco E, isto , at ao aparecimento do Percy; ele trouxe-os consigo, qual cheiro nauseabundo. - Anda para a frente, meu franci maricas de merda! - gritava o 
Percy, ignorando por completo os protestos do Brutal. E ali estava ele a arrastar por um brao um sujeito que no era muito mais alto do que um pino de bowling. 
Com a outra mo, o Percy empunhava o basto. Tinha os lbios arre' ganhados, revelando os dentes num esgar de tenso; as suas faces estavam congestionadas, de um 
vermelho intenso. E, contudo, a sua aparncia no denotava uma grande unta" o. O Delacroix esforava-se por acompanhar o seu passo, mas como estava acorrentado 
com grilhetas, e independentemente da rapidez com que arrastasse os ps, o Percy continuava a pux-lo mais depressa. De um salto sa
 da cela a tempo de o apanhar quando se encontrava prestes a cair; e foi assim que o Del e eu ficmos a conhecer-nos. O Percy mantinha-se ameaadoramente junto 
dele com o basto empunhado; agarrei-o por um brao. O Brutal aproximou-se de ns a deitar os bofes pela boca, mostrando-se to chocado e estupefacto com aquela 
cena como eu prprio.

- No deixe que ele me bata mais, monsieur - tartamudeou Delacroix. - S'il vous plat, s'il vous plat! - Deixa-me ir a ele, deixa-me ir a ele! - gritou o Percy, 
lanando-se para a frente. Com o basto, comeou a espancar os ombros do Delacroix. Este ergueu os braos, enquanto berrava desalmadamente, e o basto zurziu-o de 
novo contra as mangas da camisa azul da priso. Nessa noite vi-o sem a camisa e verifiquei que aquele rapaz tinha o corpo cheio de ndoas negras. Ao ver aquilo senti-me 
encolerizado. Ele era um assassino, no uma pessoa por quem se nutrisse grande amizade, mas aquela no era a maneira como costumvamos proceder no Bloco E. Pelo 
menos, nunca o fizemos at o Percy ter aparecido. - Alto a! - vociferei. - Pra j com isso! Mas o que  que se passa aqui? Entretanto, tentava colocar-me entre 
o Percy e o Delacroix, mas os meus esforos no estavam a ter grandes resultados. O Percy continuava a fustigar com o basto, ora p
 or um dos meus lados, ora pelo outro. Mais cedo ou mais tarde, era inevitvel que ele me atingisse a mim, ao que se seguiria uma rixa, ali, no corredor, independentemente 
de quem eram os seus familiares. Eu seria incapaz de me conter e o mais certo seria o Brutal juntar-se a mim. Sabem, levando em considerao certos aspectos, quem 
me dera que o tivssemos feito. Era possvel que viessem a ser alteradas muitas das coisas que sucederam mais tarde. - Maricas de merda! Eu ensino-te a manter as 
mos afastadas de mim meu vadio asqueroso! Palavras que foram seguidas de mais pancadaria por parte do Percy. Naquele momento, o Delacroix j sangrava de uma orelha 
e no parava de berrar. Desisti de tentar proteg-lo e agarrei-o por um ombro empurrando-o para o interior da cela, onde caiu esparramado em cima da tarimba. O Percy 
contornou-me tendo-o aoitado uma ltima vez no traseiro poder-se-ia dizer que aquela agresso era para o caminho. Mas o Brutal agarrou-o
 - estou a referir-me ao Percy - pelos ombros e empurrou-o pelo corredor fora. Fiz deslizar a porta da cela sobre a calha at se ter fechado. Voltei-me para o Percy, 
o meu choque e estupefaco misturados com uma fria enorme. Naquela altura, j havia vrios meses que o Percy trabalhava ali, e era tempo suficiente para que j 
tivssemos chegado  concluso de que o afecto que nutramos por ele no era muito, mas aquela foi a primeira vez que compreendi at que ponto ele estava descontrolado. 
O Percy observava-me sem conseguir ocultar um certo receio - bem fundo do seu corao, o homem era um cobarde, disso eu nunca tivera dvida - embora confiasse que 
os seus' conhecimentos iriam proteg-lo. E estava certo. Desconfio que existem pessoas que no conseguem compreender por que razo as coisas se passavam assim, mesmo 
depois de tudo o que eu j disse; contudo, so pessoas que s conhecem a expresso Grande Depresso dos livros de hi
 stria. Caso tivessem vivido nessa poca, verificariam que essa fase foi muito mais do que um mero termo num livro, e, no caso de ter um emprego certo, meu irmo, 
qualquer homem estaria disposto a fazer quase tudo para poder manter esse emprego. Naquela altura, a cor do rosto do Percy tinha comeado a esmaecer um pouco, embora 
as suas faces ainda estivessem bastante coradas; os seus cabelos, luzidios de brilhantina e habitualmente penteados para trs, tinham-lhe descado para a testa. 
- Em nome de Cristo, o que  que foi todo este rebulio? - perguntei. - Eu nunca... mas, nunca tive um prisioneiro espancado no meu bloco! - O maricas insignificante 
tentou agarrar-me pelos tomates quando o tirei da carrinha - explicou o Percy. - Mereceu a tareia que lhe dei e devo acrescentar que voltaria a faz-lo de novo, 
nas mesmas circunstncias. Olhei para ele, demasiado embasbacado para poder dizer fosse o que fosse. Era incapaz de imaginar o homossexual mais rapace,
 ao de cima da terra verdejante de Deus, a proceder da forma como o Percy acabara de descrever. Por via de regra, nem o mais aberrante dos prisioneiros se sentia 
com disposio para quaisquer actividades sexuais, quando estava prestes a mudar-se para um apartamento de barras de ferro na Milha Verde.

Olhei para o Delacroix todo encolhido na sua tarimba, ainda de braos erguidos para proteger o rosto. Tinha algemas nos pulsos e grilhetas nos tornozelos. Voltei 
a concentrar a minha ateno no Percy. - Pe-te a andar daqui para fora - disse-lhe eu. - Mais tarde quero falar contigo. - Isto vai constar do teu relatrio? - 
perguntou ele num tom de voz truculento. - Porque, se for esse o caso, no sei se sabes que eu tambm posso apresentar um relatrio. Eu no queria elaborar relatrio 
nenhum; s desejava que ele desaparecesse da minha vista. O que no hesitei em lhe dizer. - O assunto est encerrado - conclu. Reparei que o Brutal olhava para 
mim com uma expresso de reprovao, mas ignorei-o. - Pe-te a mexer. Sai daqui para fora. Vai para os servios administrativos e diz-lhes que tens de ler cartas 
e ajudar na sala de expedio. - Com certeza - retorquiu ele; voltara a recuperar a sua compostura, ou melhor, aquela arrogncia de ta
 rado que passava por compostura. Correu os dedos pelo cabelo, afastando-o da testa - mos pequenas brancas e macias, como as de uma rapariga na adolescncia, pensar-se-ia 
- e aproximou-se da cela. Delacroix avistou-o, tendo-se encolhido ainda mais para trs na tarimba, a tartamudear numa mistura de ingls e francs desaguisado. - 
Ainda no acabei o assunto contigo, Pierre - anunciou ele, dando um salto ao sentir uma das enormes mos do Brutal em cima do ombro. - J acabaste, sim - declarou 
o Brutal. - Agora pe-te a caminho. Toca a andar daqui para fora. - No sei se sabes, mas no me assustas - redarguiu o Percy, desafiador. - Nem um bocadinho. - 
Os seus olhos fitaram-me. - O mesmo se aplica a ti. - Mas isso no era verdade. Esse receio reflectia-se nos seus olhos, com tanta clareza como a luz do dia o que 
o tornava ainda mais perigoso. Um tipo como o Percy nem sequer sabe o que tenciona fazer de um minuto para o outro, e de segundo para segundo. O q
 ue ele fez de imediato foi afastar-se de ns, comeando a percorrer o corredor num passo alongado e arrogante. Acabara de mostrar ao mundo o que acontecia quando 
um pequeno franci meio calvo e escanzelado tentava agarrar-lhe os tomates, por Deus, e preparava-se para abandonar o campo com uma atitude vitoriosa. Comecei a 
debitar o discurso de ocasio previamente preparado, mencionando a Delacroix a existncia dos programas de rdio Make Believe Ballroom e Our Gal Sunday, e ainda 
que o trataramos como deve ser, caso ele fizesse o mesmo em relao a ns. Aquela pequena homilia no foi exactamente um dos meus maiores triunfos. Ele chorou durante 
todo o tempo em que apresentei a minha dissertao, sentado, todo encolhido, ao fundo da tarimba, mantendo-se to afastado de mim quanto possvel sem acabar por 
se sumir no canto. De todas as vezes que eu me deslocava, o Delacroix retraa-se ainda mais; no me parece que ele tenha ouvido uma palavra em
  seis. O que provavelmente talvez tenha sido prefervel. Em qualquer dos casos, tenho a impresso de que aquele pequeno discurso no fazia muito sentido. Quinze 
minutos mais tarde, encontrava-me j de regresso  secretria do guarda de servio, atrs da qual estava sentado um Brutal Howell de aspecto perturbado, enquanto 
lambia a ponta do lpis que estava preso ao livro das visitas. - Por amor de Deus! Queres parar com isso antes que te envenenes? - perguntei. - Jesus Cristo Todo-Poderoso 
- replicou ele, largando o lpis. - Nunca mais quero assistir a outro rebulio destes quando um prisioneiro der entrada neste bloco. - O meu pai costumava dizer 
que as coisas aconteciam numa sequncia de trs repliquei. -Pois bem, s espero que o teu pai estivesse errado a respeito do assunto disse ele, mas  claro que o 
meu pai estava certo. Houvera um distrbio aquando da chegada do John Coffey, e, na altura em que o Bill Selvagem se juntou a ns, verific
 ou-se um autntico tumulto -  engraado, mas de facto as coisas parece que efectivamente surgem em sequncias de trs. A histria da nossa apresentao

ao Bill Selvagem, tudo o que rodeou a sua chegada  Milha, altura em que tentou cometer um assassnio,  algo que abordarei dentro em breve. - Que histria  essa 
de o Delacroix ter tentado agarrar-lhe os tomates? perguntei. - O homem tinha grilhetas nos artelhos - comeou  Brutal a explicar com uma expresso escarninha -, 
e o velho Percy comeou a pax-lo com demasiada fora, nada reais. O Delacroix tropeou e esteve quase a cair quando saiu da carrinha. Estendeu as mos para a frente, 
como qualquer outra pessoa teria feito ao sentir que estava prestes a cair, e uma delas roou pela parte da frente das calas do Percy. Tudo isso no passou de um 
simples acidente. - Achas que o Percy se apercebeu disso? - perguntei. - Ou talvez ele estivesse a servir-se disso como desculpa, porque lhe apetecia malhar um pouco 
no Delacroix? Para lhe mostrar quem  que manda aqui? - Sim - confirmou o Brutal com um lento acenar de cabea. - Acho que provavelm
 ente foi isso que se passou. - Nesse caso, temos de nos manter de olho nele - acrescentei, passando os dedos pelo cabelo. Como se o nosso trabalho j no fosse 
suficientemente difcil. - Meu Deus, como eu odeio isto. Como eu o odeio a ele. - Tambm eu. E queres saber que mais, Paul? No consigo compreend-lo. O homem est 
bem relacionado, sou capaz de compreender isso, mas por que motivo  que se serviria dos seus conhecimentos para arranjar um emprego na merda da Milha Verde? J 
agora, em qualquer outra das prises do estado? Porque no como paquete no senado do estado, ou para o lugar do tipo que trata das marcaes de agenda do vice-governador? 
Com certeza que a sua gente teria podido arranjar-lhe qualquer coisa melhor, se ele lhes tivesse pedido; portanto, porqu aqui? Sacudi a cabea. No sabia. Nessa 
poca havia muita coisa de que eu no tinha conhecimento. Suponho que ainda era muito ingnuo. 8 Depois disto, as coisas regressaram
 ao normal... pelo menos, durante algum tempo. No tribunal do municpio, o estado preparava-se para levar o John Coffey a julgamento. O xerife do municpio, Homer 
Cribus, andava borrado de medo com receio de que se formasse uma turba para linchar o homem, o que o levou a apressar um pouco os trmites da justia. Nada disso 
tinha o mnimo interesse para ns; no Bloco E ningum prestava muita ateno s notcias. A vida na Milha Verde era, de uma certa forma uma existncia passada numa 
sala  prova de som. De tempos a tempos, ouviam-se alguns rudos abafados que, muito provavelmente, seriam exploses no mundo que nos rodeava, mas isso era tudo. 
Eles no se apressaram em relao ao John Coffey; haviam de querer certificar-se bem de tudo o que se relacionasse com os seus actos, Houve duas ocasies em que 
o Percy decidiu implicar com o Delacroix. Da ltima vez chamei-o  parte e disse-lhe que fosse ao meu gabinete. No foi a minha primei
 ra reunio com o Percy em que abordmos o tema do seu comportamento, tal como no seria a ltima, mas esta teve origem naquilo que, provavelmente, seria a mais 
clara compreenso da ma_ neira de ser do homem. Possua o corao de um rapaz cruel, como algum que vai ao Jardim Zoolgico, no para poder observar os animais, 
mas sim para atirar-lhes pedras para as jaulas. - Mantm-te afastado dele, ests a ouvir? - ordenei eu. - Amenos que eu te d uma ordem especfica, quero que te 
mantenhas afastado dele. Com os dedos, o Percy penteou o cabelo para trs e acamou-o com as suas pequenas mos cheias de doura. O rapaz adorava tocar nos seus prprios 
cabelos. - Eu no estava a fazer-lhe nada - redarguiu ele. - Limitei-me a perguntar-lhe qual era a sensao de saber que se tinham queimado uns quantos bebs, mais 
nada. - O Percy olhou-me com uns olhos arredondados de espanto e cheios de candura. - Ou paras com isso ou terei de elaborar um
  relatrio quanto a esta situao ameacei-o.

- Faz todos os relatrios que muito bem te apetecer - replicou o Percy com uma gargalhada. - Em seguida, serei eu quem far os meus. Tal como te disse que faria 
quando ele veio para c. Veremos qual de ns  que se sai melhor. Inclinei-me para a frente com os dedos entrelaados em cima da secretria, tendo comeado a falar 
num tom de voz que esperava soasse como a de um amigo que se abria em confidncias. - O Brutus Howell no gosta muito de ti - disse. E quando o Brutal no gosta 
de uma pessoa, sabe-se que costuma apresentar os seus prprios relatrios. Ele no  grande coisa com a caneta e parece no ser capaz de parar de lamber a ponta 
daquele lpis, pelo que tem uma grande propenso para elaborar os seus relatrios com os punhos. No sei se ests a entender o significado das minhas palavras. 120 
O sorriso de complacncia do Percy esmoreceu. ._ O que  que ests a tentar dizer-me? - Eu no estou a tentar dizer coisa nenhuma
 . Acabei de o dizer, e no caso de contares a algum dos teus... amigos... esta conversa, direi que  tudo fruto da tua imaginao. - Olhei para ele de olhos bem 
abertos onde creio que se reflectia uma grande sinceridade. - Alm do mais, estou a tentar ser teu amigo, Percy. Costuma-se dizer que quem te avisa teu amigo . 
E para comear, por que motivo  que havias de te meter com o Delacroix? Ele nem sequer merece isso. Durante algum tempo, aquela tctica resultou. A paz reinava 
no bloco. Em duas ocasies consegui mesmo enviar o Percy juntamente com o Dean ou o Harry, quando chegou a vez de o Delacroix tomar um duche. Nessa noite, tnhamos 
ligado o rdio; o Delacroix j comeara a descontrair-se um pouco, tendo entrado na rotina restrita que vigorava no Bloco E, e o sossego instalou-se entre ns. Ento, 
houve uma noite em que o ouvi rir-se. O Harry Terwilliger era o guarda de servio e ao fim de pouco tempo ouvi-o tambm a rir-se. Levantei-me
 da cadeira e dirigi-me para a cela do Delacroix, a fim de descobrir que motivo  que ele teria para tanto riso. - Olhe, capito - disse ele quando me avistou. - 
Acabei de domesticar um rato. Era o Steamboat Wily. O rato encontrava-se dentro da cela do Delacroix. Mais ainda, estava sentado em cima do seu ombro, olhando para 
ns com toda a serenidade atravs das barras, com os seus pequenos olhos que se assemelhavam a contas negras cintilantes. Tinha a cauda enrolada  volta das patas, 
mostrandose completamente  vontade. Quanto ao Delacroix... Meus amigos, jamais se poderia adivinhar que era o mesmo homem que se sentara todo encolhido e a tremer 
ao fundo da sua tarimba ainda no havia uma semana. Apresentava o mesmo aspecto da minha filha numa manh de Natal, quando descia as escadas e deparava com os presentes. 
- Veja isto! - disse o Delacroix. O rato encontrava-se sentado no seu ombro direito e ele estendeu o brao esquerdo. O animal trepou at ao topo d
 a sua cabea, servindo-se do cabelo do homem (que era, pelo menos, suficientemente basto na nuca) para poder trepar. Em seguida, desceu aos saltos pelo outro lado 
com o Delacroix a tentar conter o riso, uma vez que a cauda lhe fazia ccegas na regio lateral do pescoo. O rato percorreu toda a extenso do brao at ao pulso, 
em seguida virou-se, e, a correr, regressou ao ombro esquerdo do Delacroix, onde, uma vez mais, enrolou a cauda em redor das patas. - Raios me partam! - exclamou 
o Harry, estupefacto. - Eu treinei-o para que fizesse isto - afirmou o Delacroix, todo orgulhoso. Pensei: Uma ova  que o fizeste, mas mantive a boca fechada. - 
O nome dele  Mister Jingles. - No me parece - retorquiu o Harry afavelmente. _  Steamboat Willy, como nos desenhos animados. Foi o chefe' Howell, quem lhe ps 
o nome. - E Mister Jingles - insistiu o Delacroix. A respeito de qualquer outro assunto, ele teria dito que a merda cheirava bem, caso quisssemos que
 ele o dissesse, mas no que dizia respeito ao nome do rato, mantinha-se inabalvel que nem uma rocha. - Foi ele que o segredou ao meu ouvido. Capito, pode arranjar-me 
uma caixa para ele? Pode arranjar-me uma caixa para o meu rato, para ele poder dormir aqui comigo? - A

sua voz adquiriu aquela entoao bajuladora que eu j ouvira mil vezes anteriormente. - Posso p-lo debaixo da minha tarimba e ele nunca incomodar nem um niquinho, 
nem um s. - O teu ingls melhora diabolicamente quando queres alguma coisa - repliquei, tentando ganhar tempo. - Oh, oh - murmurou Harry, dando-me uma pequena cotovelada. 
- Os problemas esto a chegar. O Percy, porm, no me parecia constituir qualquer pro-`` blema, pelo menos nessa noite. No passava os dedos pelos cabelos, nem brincava 
com o seu querido basto, chegando mesmo a ter o boto do colarinho da camisa do uniforme desabotoado. Foi a primeira vez que o vi com aquele aspecto, e fiquei surpreendido 
ao verificar a diferena que uma pequena alterao como aquela podia fazer. Mas, acima de tudo, o que me espantou mais foi a expresso do seu rosto. Nele reflectia-se 
uma certa tranquilidade. No se tratava de serenidade - duvido muito que o Percy Wetmore tivesse um nico
 osso sereno no seu corpo - era, sim, o aspecto de um homem que tem razes para poder esperar que lhe aconteam as coisas que deseja. Uma transformao bastante 
acentuada, vinda do jovem que eu ameaara com os punhos do Brutus Howell apenas h alguns dias. No entanto, o Delacroix no reparara nessa alterao; re 122 traiu-se 
todo contra a parede da sua cela, recolhendo os joelhos at ao peito. Os seus olhos davam a impresso de se arregalarem at terem ocupdo metade do seu rosto. O 
rato correu para a sua careca e ficou a sentado. No sei se ele se recordou de que tambm tinha razes para no confiar no Percy, mas no havia dvida de que dava 
a impresso de no se ter esquecido. Provavelmente farejava apenas o medo que emanava do pequeno franci, reagindo de acordo com essa percepo. - Ora muito bem 
- disse o Percy. - Parece que encontraste um amigo, Eddie. O Delacroix tentou responder - uma espcie de tom de desafio quant
 o ao que aconteceria ao Percy, caso o Percy fizesse mal ao seu novo camarada, foi o que calculei - mas da sua boca no saiu qualquer palavra. O seu lbio inferior 
tremeu um pouco, mas foi tudo. No cimo da sua cabea, o Mister Jingles no tremia. Continuava sentado, perfeitamente imobilizado, com as patas traseiras firmemente 
agarradas aos cabelos do Delacroix, enquanto as dianteiras se apoiavam no crnio calvo, fitando o Percy como se estivesse a avali-lo. Com a mesma atitude que uma 
pessoa teria ao avaliar um velho inimigo. - Aquele no  o mesmo rato que eu persegui? - perguntou o Percy, olhando para mim. - Aquele que mora na cela do isolamento? 
Acenei que sim. Eu tinha a impresso de que o Percy no tinha visto o recentemente baptizado Mister Jingles desde a ltima perseguio, e parecia no desejar persegui-lo 
naquele momento. - Sim,  o mesmo - confirmei. - Com a diferena de que ali o Delacroix diz que ele se chama Mister Jingles, e n=E
 3o Steamboat Willy. Afirma que o rato lhe segredou o nome ao ouvido. - A srio? - retorquiu o Percy. - As surpresas nunca cessam, pois no? - At certo ponto, eu 
estava  espera que ele sacasse do basto e que comeasse a bater com ele nas barras da cela para mostrar ao Delacroix quem mandava ali; tod avia, limitou-se a ficar 
no mesmo lugar, com as mos nas ilhargas enquanto olhava para o interior da cela. E, Por qualquer razo que no sou capaz de explicar por palavras, acrescentei: 
- Ah o Delacroix acabou de me pedir uma caixa, Percy. 123 Est convencido de que o rato dormir na caixa. Que conseguir mant-lo junto de si como um animal de estimao. 
_ Imprimi  minha voz uma entoao cheia de cepticismo, pressentindo, mais do que vendo, o Harry a olhar para mim, deveras surpreendido. - Qual  a tua opinio? 
- Acho que numa noite destas, muito provavelmente, o rato cagar-lhe- em cima do nariz enquanto ele estiver a dormir, e depois
  desatar a fugir - respondeu o Percy com uma expresso neutra -, mas calculo que ele ser o amigo de atalaia do franci. H umas noites vi no carrinho do Pouca 
Terra uma bela caixa de

charutos. No entanto, no sei se ele estar disposto a d-la a troco de nada; o mais certo  querer cinco cntimos por ela, talvez mesmo dez. Naquela altura arrisquei 
um olhar na direco do Harry e vi que este estava de boca aberta. Aquela no era exactamente a alterao que o Ebenezer Scrooge sofrera na manh do dia de Natal, 
depois de os fantasmas lhe terem aparecido, mas no se encontrava muito longe disso. O Percy inclinou-se mais na direco do Delacroix, colocando o rosto entre as 
barras da cela. O pequeno cajun encolheu-se ainda mais para trs. Juro por Deus que ele se teria fundido com aquela parede se tal fosse fisicamente possvel. ; - 
Tens cinco cntimos ou talvez mesmo dez para pagares essa caixa de charutos, meu grande mentecapto? - perguntou ele. - Tenho s quatro pence - respondeu o Delacroix. 
- Estou disposto a d-los por uma caixa, se for boa, s'il est bon. - Vou dizer-te o que  que vamos fazer - continuou o Percy. -
 Se esse velho libertino desdentado te vender a caixa de Coronas por quatro pence, trarei algum algodo da en- ` fermaria para a forrares. Teremos um verdadeiro 
Hilton para ratos, quando tivermos terminado - O Percy desviou o olhar na minha direco. Tenho de elaborar um relatrio sobre o quadro elctrico na execuo do 
Bitterbuck - continuou ele. - Tens alguma caneta no teu gabinete, Paul? - Na realidade, tenho - repliquei. - E tambm tenho impressos. Na gaveta de cima do lado 
esquerdo. - Pois bem, isso calha que nem ginjas - disse ele, afastando-se num andar folgazo. O Harry e eu entreolhmo-nos, admirados. - Achas que ele est doente? 
- perguntou o Harry. 124 Talvez o mdico lhe tenha dito que s lhe restavam trs meses de vida, no? Respondi-lhe que no fazia a mais pequena ideia do que estava 
a suceder com o Percy. O que nessa altura era verdade; aquela situao manteve-se durante algum tempo, mas com o passar das semanas vim a descob
 rir o que motivara a sua mudana de atitude. E, alguns anos mais tarde, travei uma conversa muito interessante com o Hal Moores,  mesa. Nessa altura j podamos 
falar com toda a liberdade, uma vez que ele se tinha aposentado e eu trabalhava no Estabelecimento Correccional Juvenil. Foi durante uma dessas refeies onde se 
bebe um pouco de mais e se come muito pouco, o que permite que as lnguas se soltem. O Hal contou-me que o Percy tinha ido ao seu gabinete para apresentar queixa 
contra mim e contra a vida na Milha Verde, de uma maneira geral. Isso acontecera logo a seguir  chegada do Delacroix ao bloco, e de o Brutal e eu termos impedido 
o Percy de espancar o prisioneiro quase at  morte. Aquilo que mais havia afectado o Percy fora o facto de eu lhe ter dito que sasse da minha vista. No lhe parecia 
que um homem que tinha laos familiares com o governador devesse ser obrigado a suportar aquele tipo afrontoso de conversa. Pois bem, o Moores empa
 tara o Percy tanto quanto lhe fora possvel, e quando se lhe tornou evidente que este estava na disposio de puxar alguns cordelinhos para que eu fosse oficialmente 
repreendido, acabando, no mnimo dos mnimos, por ser transferido para outro servio da penitenciria, ele, o Moores, levara o Percy ao seu gabinete e dissera-lhe 
que, se deixasse de fazer ondas, ele prprio lhe garantia que seria colocado na linha da frente aquando da execuo do Delacroix. o que, na realidade aconteceu. 
ficou mesmo ao lado da cadeira elctrica. Como sempre, eu seria o responsvel por todo o processo mas as testemunhas no teriam conhecimento desse aspecto; ~da perspectiva 
destas pareceria que Mr. Percy Wetmore  que era o mestre-de-cerimnias do cotilho. O Moores no lhe prometera mais do que aquilo que j havamos discutido, pelo 
que eu no tencionava apresentar a mnima objeco, embora o Percy no tivesse conhecimento disto. Concordou em desi
 stir das suas ameaas no sentido de que eu fosse transferido o que teve como resultado a melhoria do ambiente no Bloco E. Chegara mesmo ao ponto de concordar com 
que o Delacroix pudesse ficar com o seu antigo nemesis 125

como seu animal de estimao.  espantosa a forma com alguns homens so capazes de se modificar, depois de se lhes ter proporcionado o incentivo adequado; no caso 
do Percy, tudo o que o director Moores teve de lhe oferecer foi a oportunidade de tirar a vida a um pequeno franci calvo. 9 O Pouca Terra achou que quatro pence 
eram uma quantia irrisria por uma bela caixa de charutos Corona, no que provavelmente teria toda a razo - no interior da priso, as cai xas de charutos eram artigos 
deveras valiosos. Nelas poderia ser guardado um milhar de pequenos objectos diversos, o seu cheiro era agradvel, e havia ainda algo nelas que recordava aos nossos 
clientes o que era serem homens livres. Imagino que isto acontecesse porque, embora os cigarros fossem permitidos na priso, o mesmo no acontecia aos charutos. 
I O Dean Stanton, que entretanto j regressara ao bloco, depositou um cntimo no boio, exemplo que eu prprio segui. Dado que o Pouca Terra
  continuava a mostrar-se relutante, o Brutal decidiu trabalh-lo um pouco, comeando por lhe dizer que deveria sentir-se envergonhado com o seu comportamento, por 
ser assim to sovina, e prometendo-lhe que ele mesmo, Brutus Howell, haveria de entregar, pessoalmente, ao ,`, Pouca Terra a caixa que contivera Coronas logo no 
dia seguinte o da execuo do Delacroix. -  possvel que pudssemos discutir se seis cntimos so ou no suficientes se estivssemos a falar de vender essa caixa 
de charutos - acrescentou o Brutal -, mas tens de admitir que  um preo ptimo pelo seu aluguer. O Delacroix vai percorrer a Milha dentro de um ms, no mximo dos 
mximos, seis semanas. Repara bem, essa caixa estar de volta ao estrado inferior do teu carrinho quase antes mesmo de teres dado pela sua falta. - Talvez ele apanhe 
um juiz bonzinho que lhe conceda uma suspenso - retorquiu o Pouca Terra embora ele soubesse que isso no aconteceria e o Bruta
 l ~ soubesse que ele sabia. O velho Pouca Terra andava a empurrar o raio daquele carrinho cheio de citaes da Bblia por toda a Cold Mountain desde os primeiros 
dias dos servios postais da Pony Express, e 126 tinha muitas fontes a que recorrer... melhores do que as nossas, pensava eu na altura. Ele sabia bem que o Delacroix 
no tinha qualquer hiptese de apanhar um juiz de bom corao. Tudo o que lhe restava era o governador, o qual, regra geral, no tinha o hbito de mostrar clemncia 
para com os fulanos que haviam assado meia dzia de membros do seu crculo eleitoral. - Mesmo que ele no consiga uma suspenso, o rato h-de cagar-lhe a caixa toda 
at Outubro, talvez mesmo at ao Dia de Aco de Graas - argumentou o Pouca Terra, mas o Brutal apercebeu-se de que ele comeara,a vacilar. - Quem  que vai querer 
comprar uma caixa de charutos que um rato qualquer usou como retrete? - Que raio de argumento o teu! - ripostou o Brutal
 . - Essa  a coisa mais disparatada que alguma vez te ouvi dizer, Pouca Terra. Bate tudo o mais. Em primeiro lugar, o Delacroix haver de manter a caixa suficientemente 
limpa, para se poder comer dela... Da maneira como ele adora esse rato, se fosse necessrio at a lamberia para que se mantivesse sempre limpa. - Calma l com esse 
tipo de conversa - disse o Pouca Terra, nauseado, franzindo o nariz. - E em segundo lugar - continuou o Brutal -, a merda dos ratos no  uma coisa por a alm. 
So apenas umas caganitas duras, parece chumbo de atirar aos pardais. Sacode-se e sai tudo. No tem nada de especial. O velho Pouca Terra sabia que no lhe serviria 
de nada continuar com os protestos; j vivia na penitenciria h tempo suficiente para saber quando  que poderia seguir ao sabor da brisa, e quando  que era prefervel 
vergar-se perante o vendaval. Aquela situao no era propriamente um vendaval, mas ns, os de uniforme azul, gost=E
 1vamos do rato e agradava-nos o facto de o Delacroix poder ficar com o animal, o que no mnimo tornava aquela situao semelhante a borrasca. Por conseguinte, o 
Delacroix conseguiu a sua caixa e o Percy cumpriu a sua palavra - dois dias mais tarde, o fundo da caixa estava coberto por uma camada macia de algodo que ele trouxera 
da enfermaria. Foi o prprio Percy quem o entregou na cela; detectei o medo que se reflectiu nos olhos do Delacroix

quando estendeu a mo por entre as barras para o aceitar. Receava que o Percy lhe agarrasse a mo e lhe quebrasse os dedos. Eu tambm temia um pouco que isso pudesse 
acontecer, mas tal no se verificou. Aquela ocasio foi o mais prximo que alguma vez estive de gostar do Percy, mas. at mesmo naquelas cir127 cunstncias foi difcil 
ser-se enganado pela expresso de satisfao calculista que os seus olhos no ocultavam. O Delacroix tinha um animal de estimao; o Percy tambm conseguira um. 
O Delacroix manteria o seu, acariciando-o e mostrando amor por ele durante tanto tempo quanto lhe fosse possvel; por seu lado, o Percy aguardaria pacientemente 
(com tanta pacincia quanta um homem como ele poderia reunir), aps o que queimaria o seu animal, ainda vivo. - O Hilton dos ratos abriu as suas actividades - comentou 
o Harry, trocista. - A nica questo que se pe  esta: ser que o sacaninha o utilizar? Essa pergunta foi logo res
 pondida assim que o Delacroix apanhou o Mister Jingles, baixando-o com suavidade at ao interior da caixa. O rato aninhou-se no algodo branco, como se fosse o 
cachecol da tia Bea. A caixa passou a ser a sua casa desde ento at... bem, a seu tempo regressarei ao final da histria do Mister Jingles. As preocupaes do velho 
Pouca Terra, de que a caixa de charutos ficasse cheia de merda de rato, vieram a provar no ter qualquer fundamento. Eu nunca l vi uma nica caganita, e o Delacroix 
tambm afianava que isso era verdade... e que nunca encontrara quaisquer dejectos na sua cela. Bastante tempo depois, por volta da altura em que o Brutal me mostrou 
o orifcio na trave, e ambos descobrimos as lascas de madeira colorida, afastei uma cadeira que se encontrava no canto virado a leste da cela do isolamento, tendo 
deparado com um pequeno amontoado de caganitas de rato nesse lugar. Aquilo provava que o animal tinha ido sempre ao mesmo lugar para tratar da
 quele assunto, to afastado de ns quanto podia. E ainda outra coisa: nunca o vi a fazer chichi e, habitualmente, os ratos no conseguem manter a torneira fechada 
por mais de dois minutos seguidos, muito em especial quando esto a comer. Eu j vos disse, o raio daquela criatura era um dos mistrios de Deus. Mais ou menos uma 
semana depois de o Mister Jingles se ter instalado na sua caixa de charutos, o Delacroix chamou-me a mim e ao Brutal para irmos  sua cela ver uma coisa. Ele fa 
zia aquilo com tanta frequncia que chegava a ser incmodo - se Mister Jingles se rebolasse pelo cho e ficasse deitado de costas com as patas para cima, isso era 
a coisa mais engraada ao cimo da Terra, pelo menos para aquele meia-teca cajun - todavia, desta feita a habilidade que ele fazia era bastante finteressante. 128 
Aps a sua condenao, o Delacroix havia sido relegado pelo mundo para o esquecimento, mas tinha um familiar - uma velha tia solteirona, creio eu -
 que costumava escrever-lhe uma vez por semana. Tambm lhe enviara um saco enorme cheio de rebuados de hortel-pimenta. Pareciam-se com umas plulas gigantescas 
de uma tonalidade amarelada. O Delacroix no teve autorizao para ficar com todo o contedo do saco de uma s vez, como  natural - pesava dois quilos e meio e 
certamente que ele os teria devorado todos, at ter ido parar  enfermaria com dores de barriga.  semelhana de qualquer dos outros assassinos que tivramos na 
Milha, o Delacroix no possua a noo do que era a moderao. Costumvamos dar-lhe os rebuados aos seis de cada vez, e s se ele se lembrasse de os pedir. Quando 
chegmos  cela, o Mister Jingles encontrava-se em cima da tarimba, sentado ao lado do Delacroix, segurando com as patas um dos rebuados verdeamarelados enquanto 
o mordiscava, todo satisfeito da vida. O Delacroix sentia-se simplesmente enlevado ao ver aquilo - era o prottipo do piani
 sta clssico, assistindo  prtica das primeiras escalas do seu filho de cinco anos. Mas no me interpretem mal; aquilo era mesmo engraado, de morrer a rir. O 
rebuado tinha metade do tamanho do Mister Jingles, e a sua barriga branca j se mostrava distendida por causa da guloseima.

- Tira-lhe o rebuado, Eddie - disse o Brutal num misto de riso e de horror. Deus do cu, ele vai comer at rebentar. Mesmo daqui, sinto o cheiro a hortelpimenta. 
Quantos  que o deixaste comer? - Este  o segundo - respondeu o Delacroix, olhando com um certo nervosismo para a barriga do Mister Jingles. - Acha realmente que 
ele... sabe o que quero dizer... pode ficar com as entranhas rebentadas? -  possvel que sim - retorquiu o Brutal. Para o Delacroix aquela era uma fonte de autoridade 
suficiente. Estendeu a mo para o rebuado amarelo-esverdeado de menta, j meio comido. Eu estava  espera que o rato lhe desse uma mordidela mas o Mister Jingles 
cedeu a guloseima - pelo menos o que restava dela - com tanta humildade quanto era possvel. Olhei para o Brutal e este abanou ligeiramente a cabea; ele tambm 
no compreendia aquilo. Em seguida, o Mister Jingles instalou-se na sua caixa, deitando-se de lado numa postura exausta, o que fez com que
 ns os trs 129 desatssemos a rir. Depois disso, acostummo-nos a ver o rato sentado ao lado do Delacroix, segurando um rebuado que ia mordiscando com tantas 
maneiras como se fosse uma senhora de idade a tomar o seu ch das cinco; tanto um como o outro se encontravam envoltos no cheiro que mais tarde me chegou s narinas 
vindo do orifcio na trave do tecto - um cheiro meio amargo e meio adocicado caracterstico dos rebuados de hortel-pimenta. Existe ainda outra coisa que devo revelar-vos 
sobre o Mister Jingles antes de passar ao assunto da chegada do William Wharton, quando um autntico ciclone se abateu real mente sobre o Bloco E. Mais ou menos 
uma semana depois do incidente dos rebuados de menta - mais ou menos na altura em que ficmos convencidos de que Delacroix haveria de alimentar o seu animal de 
estimao at que este rebentasse - o pequeno franci chamou-me  sua cela. Naquele momento, encontrava-me sozinho, pois o Brutal fo
 ra ao comissariado tratar de um assunto qualquer, e, de acordo com os regulamentos, eu no devia aproximar-me de um prisioneiro em tais circunstncias. Contudo, 
uma vez que, num dos meus dias bons, eu teria podido alvejar o Delacroix com uma s mo  distncia de vinte metros, decidi no cumprir o regulamento, indo ver o 
que  que ele queria. - Veja isto, chefe Edgecombe - disse ele. - Vai ver o que  que o Mister Jingles consegue fazer. - Levou a mo atrs da caixa de charutos de 
onde retirou um pequeno carretel de madeira. - Onde  que arranjaste isso? - perguntei-lhe, embora calculasse que j sabia a resposta. S havia uma pessoa que lhe 
poderia ter dado aquilo. - Foi o velho Pouca Terra - respondeu o Delacroix. - Observe bem isto. Eu j tinha comeado a olhar, observando Mister Jingles na sua caixa, 
o qual se pusera de p com as patas dianteiras firmadas no bordo, mantendo os olhinhos negros fixos no carretel que Delacroix segurava entre
  o polegar e o indicador da mo direita. Senti a espinha percorrida por um pequeno arrepio estranho. Nunca tinha visto um simples rato tentar fazer qualquer coisa 
com tanta argcia - com tanta inteligncia. Na realidade, no estou em crer que o Mister Jingles fosse um visitante sobrenatural e, se por acaso vos dei essa impresso, 
lamento muito; no entanto, nunca duvidei de que a criatura fosse um gnio entre os da sua espcie. 130 O Delacroix inclinou-se para a frente, fazendo rolar o carretel 
que no tinha linhas pelo cho da sua cela. Deslizou facilmente, como se tivesse um par de rodas ligadas por um eixo, Veloz que nem um relmpago, o rato saiu da 
sua caixa e correu atrs do carretel, tal como um co que fosse no encalo de um pau. Dei largas  perplexidade que sentia, e o Delacroix esboou uma careta risonha. 
O carretel bateu contra a parede e ressaltou. Mister Jingles contornou-o, empurrando-o de volta  tarimba, alternando de um extremo
  ao outro do carretel, sempre que este parecia querer desviar-se da rota certa. Empurrou-o at ter chegado junto de um dos ps do Delacroix. Olhou para ele por 
breves momentos, como que a certificar-se de que o Delacroix no tinha mais tarefas imediatas que ele tivesse de levar a cabo (talvez uns quantos problemas aritmticos 
ou a

anlise de um texto em latim). Aparentemente satisfeito, o Mister Jingles regressou  sua caixa de charutos, voltando a instalar-se no seu interior. - Foste tu que 
lhe ensinaste essa habilidade - disse eu. - Sim senhor, chefe Edgecombe - admitiu o Delacroix, esboando,um sorriso abstracto. - De todas as vezes, ele foi busc-lo. 
 esperto que nem um raio, no acha? - E o carretel? - perguntei. - Como  que soubeste que tinhas de o arranjar para ele, Eddie? - Ele segredou-me ao ouvido que 
o desejava - respondeu o Delacroix com uma grande serenidade. - Da mesma maneira que sussurra o seu nome. O Delacroix mostrou a todos os outros tipos as habilidades 
do seu rato... isto , a todos com a excepo do Percy. Para o Delacroix no fazia a mnima diferena que tivesse sido este a sugerir a caixa de charutos e a arranjar 
o algodo para cobrir o fundo. O Delacroix assemelhava-se a alguns ces: d-selhes um nico pontap e eles jamais voltaro a con
 fiar no agressor, independentemente do quanto nos possamos mostrar agradveis para com eles. Neste momento, parece que ainda estou a ouvir a voz do Delacroix a 
gritar: Ei, vocs! Venham ver as habilidades que o Mister Jingles consegue fazer! E todos eles, com os seus uniformes azuis, iam em grupo at l abaixo - o Brutal, 
o Harry, o Dean e at mesmo o Bill Dodge. Tambm eles tinham mostrado o espanto adequado s circunstncias,  semelhana do que eu prprio fizera. Trs ou quatro 
dias depois de o Mister Jingles ter comeado a mostrar aquela habilidade com o carretel, o Harry Terwilliger passou revista aos materiais de arte que guardvamos 
na cela do isolamento, e encontrou os lpis de cera Crayola que entregou ao Delacroix com um sorriso que era quase de constrangimento. - Pensei que talvez gostasses 
de pintar esse carretel de diversas cores justificara ele. - Assim, o teu pequeno amigo poderia transformar-se numa espcie de rato do circo, ou
  algo parecido. - Um rato do circo! - exclamara o Delacroix, mostrando uma expresso de completa felicidade, mesmo de xtase. Suponho que se sentisse inteiramente 
feliz pela primeira vez em toda a sua desgraada vida. - Mas  isso exactamente o que ele ! Um rato de circo! Quando eu sair daqui, ele vai fazer com que eu fique 
rico, num circo! ~o ver se ele no vai fazer isso. Sem dvida que o Percy Wetmore teria chamado a ateno do Delacroix para o facto de que, quando chegasse a altura 
de este deixar Cold Mountain, seria levado numa ambuln cia que no precisava de ter as luzes nem a sirena ligadas, mas o Harry tinha demasiado bom senso para isso. 
Limitou-se a dizer ao Delacroix que colorisse o carretel tanto e to depressa quanto lhe fosse possvel, uma vez que teria de repor os lpis de cera no seu lugar 
logo depois do jantar. No h dvida de que o Del conseguiu colori-lo. Quando terminou a sua tarefa, uma das extremidades do carretel es
 tava pintada de amarelo e a outra de verde, enquanto a extenso no meio era de um vermelho de carro de bombeiros. Habitumonos a ouvir o Delacroix a dizer triunfalmente: 
Maintenant, m'sieurs et mesdames! Le cirque prsentement le mous'amusant et amazeant!' No era isto precisamente, mas chega para dar uma ideia do francs atabalhoado 
do Delacroix. Em seguida comeava a emitir um som que vinha bem do fundo da sua garganta - acho que supostamente representaria o rufar de um tambor - e lanava o 
carretel. Como um relmpago, o Mister Jingles ia atrs dele, quer trazendo-o de volta, empurrandoo com o focinho, quer servindo-se das patas. A segunda modalidade, 
penso eu, era de facto algo que ~ Num francs no muito correcto: "E agora, senhores e senhoras, o circo apresenta o rato divertido e espantoso." (N. da T.) 132 
qualquer pessoa teria pago para ver num circo. O Delacroix e o seu rato, este e o seu carretel garridamente colorido, eram o nosso divertimento
 principal, na poca em que o John Coffey passou a estar sob a nossa tutela e aos nossos cuidados; foi assim que as coisas permaneceram por algum tempo. Pouco depois, 
a minha infeco urinria, que se tinha mantido dormente durante algum tempo, voltou a atormentar-me, e foi tambm nessa altura que o William Wharton chegou, dando 
origem a uma situao absolutamente catica. 10

Na sua maior parte, as datas desapareceram da minha memria. Calculo que poderia ter pedido  minha neta, a Danielle, que verificasse algumas delas atravs dos arquivos 
dos jornais, mas qual seria o objectivo de uma coisa dessas? As datas mais importantes, como por exemplo o dia em que descemos at  cela do Delacroix e deparmos 
com o rato sentado em cima do seu ombro, ou o dia em que o William Wharton chegou ao bloco, no tendo morto o Dean Stanton por um triz, no teriam sido mencionadas 
na imprensa escrita. Talvez seja prefervel continuar nos mesmos moldes que tenho seguido at aqui; ao fim e ao cabo, calculo que as datas no tenham grande importncia, 
desde que uma pessoa seja capaz de se recordar dos acontecimentos que presenciou na sequncia adequada. Sei que nessa altura as coisas ficaram um tudo-nada apertadas. 
Quando os papis relativos  data da execuo do Delacroix foram finalmente enviados do gabinete do Curtis Anderson, senti-
 me perplexo ao verificar que o encontro do nosso amigo cajun com a Velha Fasca fora antecipado, em relao  data com que tnhamos contado, uma coisa rara at 
mesmo nesses dias em que no era preciso revolver metade dos cus e toda a Terra para executar um homem. Foi uma questo de dois dias, penso eu, de 25 a 27 de Outubro. 
No me obriguem a dizer-vos com exactido, mas sei que no ando muito longe dessa data. Recordo-me de ter pensado que o Pouca Terra poderia reaver a sua caixa de 
Coronas mais cedo do que esperara. Entretanto, o Wharton chegou ao nosso bloco mais tarde do que estava previsto. Por um motivo: o seu julgamento du 133 rara mais 
tempo do que aquilo que as fontes, habitualmente de toda a confiana, do Anderson pensaram que duraria (quando o assunto dizia respeito ao Bill Selvagem, nada era 
de confiana, haveramos ns de descobrir ao fim de pouco tempo, incluindo os nossos mtodos de controlo de prisioneiros, supostamente infa
 lveis). Ento, e depois de se ter chegado  concluso de que ele era culpado - pelo menos essa parte esteve de acordo com o argumento - foi levado para o Hospital 
Geral de Indianola a fim de ser submetido a alguns exames. Parece que fora acometido por um certo nmero de convulses durante o julgamento; por duas ocasies estas 
tinham sido suficientemente graves para o terem deitado por terra, onde ficou a estrebuchar e a bater com os ps contra o soalho. O defensor oficioso do Wharton 
afirmou que ele sofria de "ataques de epilepsia", tendo cometido os seus crimes quando se encontrava desarranjado do juzo; por seu lado, aacusao clamou que os 
seus ataques eram o estratagema de , um cobarde desesperado, que tentava salvar a prpria vida. Depois de ter observado em primeira mo os to famosos ; "ataques 
de epilepsia", o jri concluiu que estes no passavam de uma encenao. O juiz corroborou aquela opinio, mas ordenou que fossem levados
 a cabo uma srie de exames clnicos depois de o jri ter apresentado o seu veredicto. Deus saber por que motivo; talvez ele sentisse apenas curiosidade. O facto 
de o Wharton no ter fugido do hospital constitui , um verdadeiro mistrio (e a ironia de a mulher do director Moores, Melinda, se encontrar internada no mesmo hospital 
~, nessa altura no escapou  ateno de nenhum de ns), mas o certo  que no o fez. Suponho que o tenham mantido sempre rodeado de guardas e que ele ainda albergasse 
a esperana de vir a ser considerado inimputvel por causa da epilepsia, se  que tal  possvel. Isso, porm, no veio a verificar-se. Por seu lado, os mdicos 
no detectaram nada de anormal no seu crebro - pelo menos de natureza fisiolgica - e o Billy "the Kid" Whar" ton foi finalmente despachado para Cold Mountain. 
Isso dever ter acontecido por volta do dia 16 ou 18; as minhas recordaes dizem-me que o Wharton chegou mais ou
 menos duas semanas depois de John Coffey e uma semana ou dea dias antes de o Delacroix ter percorrido a Milha Verde. O dia em que o nosso novo psicopata se nos 
reuniu fo para mim um dia recheado de acontecimentos. Acordei s quatro horas da manh, sentindo as partes baixas a latejarem, e o pnis entupido e inchado. Antes 
mesmo de ter posto os ps no cho, compreendi que a infeco urinria no estava a melhorar como eu esperara. Tinha atravessado uma breve fase de melhoras, nada 
mais, e ela entretanto chegara ao fim.

Fui  latrina no exterior fazer o que tinha a fazer - isto aconteceu trs anos antes de termos instalado a nossa primeira retrete com descarga de gua - e ainda 
mal chegara  pilha de madeira  esquina da casa quando percebi que no conseguiria conter-me por mais tempo. Baixei as calas do pijama precisamente na altura em 
que a urina comeou a verter; esse fluxo foi acompanhado pelas dores mais excruciantes que sofri em toda a minha vida. Em 1956, tive uma pedra na vescula; sei que 
as pessoas costumam dizer que essa dor  a pior de todas, mas o certo  que essa pedra da vescula foi para mim como uma ligeira indisposio provocada por acidez 
no estmago, em comparao com o que sofri nessa altura. Os meus joelhos deram de si e ca pesadamente sobre eles, tendo rasgado o traseiro das calas do pijama 
ao abrir as pernas a fim de evitar perder o equilbrio e cair de cara em cima da poa do meu prprio mijo. Ainda assim, poderia ter ac
 abado por cair se no me tivesse agarrado com a mo esquerda a um tronco de lenha. No entanto, tudo aquilo poderia estar a acontecer na Austrlia ou at mesmo em 
outro planeta. Tudo o que me preenchia a mente eram as dores atrozes que pareciam querer consumir-me como o fogo. Sentia o baixo-ventre a arder, enquanto o meu pnis 
- um rgo de que eu me havia esquecido quase por completo, exceptuando as alturas em que me proporcionava o mais intenso prazer fsico que um homem poder sentir 
- me dava naquele momento a impresso de estar a derreter-se. Se baixasse o olhar, esperava ver sangue a jorrar da sua extremidade; contudo, o que vi pareceu-me 
ser um fluxo normal de urina. Agarrei-me  pilha de lenha com uma mo enquanto mantinha a outra sobre a boca, concentrando-me em mant-la cerrada. No queria assustar 
a minha mulher, despertando-a com um grito inesperado. Pareceu-me que haveria de mijar para sempre, mas finalmente o fluxo de urina cessou. Ne
 ssa altura, as dores j se haviam albergado bem no fundo do meu estmago, assim como nos testculos, dando a sensao de que mordiam como dentes ferrugentos. Durante 
bastante tempo -  possvel que se tenha alongado por um minuto - senti-me fi134 135 sicamente incapaz de endireitar o corpo. Por fim, as dores comearam a abrandar 
e foi com esforo que consegui pr-me na posio erecta. Olhei para a minha urina, que j tinha em_ papado o solo, perguntando a mim mesmo se algum Deus de perfeito 
juzo poderia dar origem a um mundo onde uma quantidade to insignificante de urina pudesse jorrar a extenso de dores to excruciantes. Pensei que iria dar parte 
de doente e que, apesar da relutncia que sentia, teria de consultar o Dr. Sadler. No desejava sofrer os efeitos nauseantes das cpsulas de sulfamidas dele, mas 
qualquer coisa seria prefervel a ter de me ajoelhar junto da pilha de lenha envidando todos os esforos para no gritar,
 enquanto a minha picha me informava que havia sido regada com querosene e posta a arder. Pouco depois, enquanto tomava algumas aspirinas na cozinha, ouvindo a Jan 
ressonar suavemente no nosso quarto, ocorreu-me que aquele era o dia em que o William Wharton deveria chegar ao bloco e que o Brutal no estaria presente, uma vez 
que a escala de servio o destacara para outra zona da priso, a fim de ajudar a mudar o que restava da biblioteca ` e da enfermaria para o novo edificio. Havia 
uma coisa acerca da qual eu no me sentia bem, apesar das dores que me atormentavam: deixar o Wharton apenas a cargo do Harry e do Dean. Ambos eram eficientes, mas 
o relatrio enviado pelo Curtis Anderson indicava que o William Wharton era verdadeiramente uma m rs. Ele escrevera: Este homem est-se nas tintas para o que lhe 
possa acontecer, frase que havia sublinhado para lhe dar mais nfase. Ao fim de algum tempo, as dores tinham abrandado um pouco, o que me permitiu pensar co
 m mais coerncia. Parecia-me que a melhor ideia seria sair mais cedo para a priso. Poderia chegar s seis, que era a hora a que o director Moores costumava chegar. 
Ele poderia voltar a destacar o Brutos Howell para o Bloco E durante o tempo suficiente para dar entrada ao Wharton, o que me permitiria efectuar a consulta ao Dr. 
Sadler que eu tinha vindo a adiar indefinidamente. Na realidade, Cold Mountain ficava-me em caminho.

Por duas vezes, durante o percurso de trinta e dois quilmetros at  penitenciria, senti-me assolado por uma enorme vontade de urinar. Nas duas ocasies pude encostar 
 berma, tratando desse problema, sem grande embarao para mim prprio (por uma razo, o movimento de trfego nas estradas 136 regionais quela hora da manh era 
quase inexistente). Nenhuma destas duas ejaculaes urinrias foi to dolorosa como a que me tinha feito ir abaixo dos joelhos a caminho da latrina em minha casa, 
mas em ambas as ocasies fui forado a agarrar-me ao fecho da porta do lado do passageiro do meu pequeno Ford descapotvel sentindo o suor a escorrer-me pelas faces 
ardentes abaixo. No havia dvida de que eu estava doente, muito doente. No entanto, l consegui chegar ao fim da viagem; tendo transposto o porto virado a sul, 
estacionei no meu lugar habitual e fui imediatamente falar com o director da priso. Nessa altura j eram quase seis ho
 ras. O gabinete de Miss Hannah encontrava-se vazio - ela no chegaria antes das sete, que era a hora das pessoas civilizadas chegarem - contudo, a luz do gabinete 
de Moores j se encontrava ligada; via-a atravs do vidro fosco e com nervuras. Bati num gesto mecnico, abrindo logo a porta. O Moores soergueu o olhar, surpreendido 
por ver algum quela hora matutina, e eu teria dado qualquer coisa para no o ter visto naquelas condies, com a expresso de quem havia sido apanhado de surpresa. 
O seu cabelo branco, habitualmente to bem penteado, estava naquela altura todo espetado e emaranhado; quando entrei no seu gabinete, tinha os dedos nos cabelos, 
arrepelando-os e puxando-os. Os seus olhos estavam extremamente congestionados, com a pele abaixo deles tumefacta e balofa. Os seus tremores eram os piores que eu 
lhe tinha visto; o aspecto era o de um homem que acabara de entrar no gabinete, depois de uma longa caminhada numa noite terrivelmente fria. - Hal
 , desculpa, volto mais tarde... - comecei a dizer. - No - replicou ele. Por favor, Paul. Entra. Entra e fecha a porta. Se alguma vez precisei da companhia de algum 
em toda a minha vida,  precisamente neste momento. Entra e fecha a porta. Fiz como ele me dizia, esquecendo-me das minhas prprias dores pela primeira vez desde 
que acordara nessa manh. -  um tumor no crebro - acrescentou Moores. - Descobriram-no nas radiografias. Na realidade, pareciam estar muito satisfeitos com as 
suas radiografias. Um deles at disse que eram as melhores radiografias que algum alguma vez tinha tirado, pelo menos at agora; acrescentaram ainda que vo public-la 
numa grande publicao mdica da Nova 137 Inglaterra. Disseram que era do tamanho de um limo e que se encontra bem entranhado no crebro, num stio onde no poderiam 
operar. Disseram tambm que ela estar morta por altura do Natal. Eu ainda no lhe disse nada. Por muito que pense, n
 o sei como  que hei-de dar-lhe uma notcia destas. Foi ento que comeou a chorar, um choro intenso e convulsivo que me provocou uma amlgama de pena e uma espcie 
de horror - quando um homem to reservado como o Hal Moores acaba por perder o controlo das suas emoes, isso assusta. Fiquei imobilizado por uns momentos, at 
que me aproximei dele e coloquei o meu brao em redor dos seus ombros. Moores abraou-me com ambos os braos; parecia um homem prestes a afogar-se e comeou a soluar 
contra o meu estmago; todas as reservas o tinham abandonado. Mais tarde, depois de ter conseguido recuperar a compostura, pediu-me desculpa. F-lo sem que o seu 
olhar tivesse ido ao encontro do meu, tal como qualquer homem faria ao aperceber-se de que procedera de forma confrangedora, to confrangedora que nunca poderia 
esquecer-se daquela situao. Um homem  muito capaz de vir a odiar o sujeito que o viu em circunstncias como aquelas. Mas eu es
 tava convencido de que o director Moores era uma pessoa que poderia ultrapassar isso; nunca me passou pela cabea tratar do assunto que ali me havia levado originalmente, 
uma vez que, quando sa do gabinete do Moores, encaminhei-me para o Bloco E; em vez de regressar ao meu automvel. Nessa altura, a aspirina j comeara a produzir 
o seu efeito, pelo que as dores que eu sentia na regio central do meu corpo se tinham reduzido a um fraco latejar.

Conclu que havia de conseguir chegar ao fim do dia, instalar o Wharton na sua cela, voltar a falar com o Hal Moores ainda nessa mesma tarde e dar parte de doente 
s no dia seguinte. O pior j passara, pensei, sem fazer a mais pequena ideia de que o pior de todas as desventuras desse dia ainda nem sequer tinha comeado. - 
Calculmos que ele ainda se encontrava sob o efeito dos tranquilizantes das anlises - disse o Dean no fim desse mesmo dia. A sua voz soava baixa e rouca, assemelhando-se 
mais a 138 um ladrar; no seu pescoo tinham comeado a aparecer umas equimoses de prpuraenegrecida. Eu compreendia que lhe devia custar bastante falar, e pensei 
em dizer-lhe que deixasse o assunto de lado, mas acontece que por vezes  mais difcil no abordar as questes. Cheguei  concluso que aquela era uma dessas ocasies, 
pelo que decidi manter a minha prpria boca fechada. - Todos pensmos que ele estava drogado, no  verdade? - insistiu o Dea
 n. O Harry Terwilliger acenou afirmativamente. At mesmo o Percy, sentado um pouco afastado de ns, formando o seu pequeno grupo amuado de uma s pessoa, tambm 
corroborou aquela verso com um gesto de cabea. O Brutal fitou-me, e por breves instantes os nossos olhares cruzaram-se. Tnhamos o mesmo pensamento, que as coisas 
aconteciam assim. Os dias decorriam dentro de toda a normalidade, mas cometia-se um s erro e pumba!, o firmamento abatia-se inexoravelmente sobre ns. Tinham calculado 
que o homem se encontrava sob o efeito de sedativos, o que era uma suposio bastante razovel, embora ningum houvesse inquirido se ele estava efectivamente drogado 
ou no. Pensei ter detectado algo mais no olhar do Brutal: o Harry e o Dean aprenderiam com o seu erro. Muito em especial o Dean, o qual poderia, facilmente, ter 
sido entregue j morto  famlia. Mas no o Percy. Talvez isso fosse impossvel com o Percy. Tudo o que este podia fazer era man
 ter-se sentado a um canto, amuado por estar outra vez atolado na merda. Ao todo eram sete, os que foram a Indianola para assumir a tutela de Bill "Selvagem" Wharton: 
o Harry, o Dean, o Percy, mais outros dois guardas que seguiam atrs (j me esqueci dos seus nomes, apesar de ter a certeza de que em tempos os conheci) e mais dois 
que seguiam  frente. Iam naquilo a que costumvamos chamar a diligncia - uma pequena camioneta Ford com painis de madeira que fora reforada com placas de ao, 
e equipada com o que devia ser vidro  prova de bala. Aquele veculo assemelhava-se a uma mistura de carrinha de distribuio de leite e carro blindado. ~ Harry 
Terwilliger, tecnicamente, era a pessoa responsvel por aquela expedio. Entregou toda a papelada ao xerife do municpio (no era o Homer Cribus, mas sim outro 
labrego eleito nos mesmos moldes imagino eu), o qual por seu turno entregou Mr. William Wharton, o arruaceiro extraordi139 naire, tal como
 diria o Delacroix. Antecipadamente, havia sido enviado um uniforme prisional de Cold Mountain, embora o xerife e os seus homens no se tivessem dado ao incmodo 
de dizerem ao Wharton que o usasse; deixaram essa tarefa para os nossos rapazes. O Wharton estava vestido com umas roupas de algodo do hospital e calava umas pantufas 
baratas de feltro quando o viram pela primeira vez no segundo pi_ so do hospital; era um indivduo escanzelado com um rosto de feies afiladas e faces cheias de 
borbulhas, possuidor de uma longa cabeleira loura e emaranhada. O seu traseiro tambm era estreito e estava coberto de borbulhas, podendo ser visto atravs da abertura 
daquela espcie de bata. Aquela fora a zona da sua anatomia que o Harry e os demais viram, uma vez que o Wharton se encontrava junto de uma janela, a observar o 
parque de estacionamento, quando eles entraram na enfermaria. O homem no se voltou, ficou no mesmo lugar a segurar os cortinados com uma das m
 os, silencioso como um boneco, enquanto o Harry implicava com o xerife do municpio por este ser demasiado preguioso para obrigar o Wharton a vestir o uniforme 
da priso, e o xenfe comeava a dissertar - tal como todos os funcionrios do municpio que eu

tive oportunidade de conhecer - sobre aquilo que fazia parte das suas funes e aquilo que no fazia. Quando o Harry se cansou desse aspecto da conversa (duvido 
que isso tenha levado muito tempo), ordenou ao Wharton que se virasse. O que este fez. O homem tinha o mesmo as pecto, disse-nos o Dean mais tarde na sua voz rouca 
e meio sufocada, dos milhares de labregos arruaceiros que haviam passado por Cold Mountain enquanto l trabalhmos. Caso se observasse bem essa aparncia, tudo nele 
se resumiria ao aspecto de um mentecapto de maus flgados. Por vezes tambm se vislumbrava neste tipo de fulanos uma certa cobardia quando se viam encostados  parede, 
mas, na maior parte das vezes, no passavam de arruaceiros maldosos. H gente que v nobreza em indivduos da laia do Billy Wharton; todavia, eu no me insiro nesse 
grupo. Caso se veja encurralada, qualquer ratazana tambm nos dar luta. O rosto daquele homem parecia no ter mais personalidade do que
  o seu traseiro cheio de acne, de acordo com o que o Dean nos disse. O seu maxilar inferior no era firme e o olhar mantinha-se distante, os ombros descados, as 
mos pendendo, flcidas, junto dos flancos. Tinha o aspecto de estar drogado com morfina, e parecia to aptico como todos os drogados que conhecamos. 140

Perante isto, o Percy fez um dos seus acenos de cabea carrancudos. - Veste isto - ordenou Harry, indicando o uniforme prisional aos ps da cama. J fora retirado 
do interior do saco de papel castanho em que viera, mas ningum lhe tocara mais; continuava dobrado tal como chegara da lavandaria da priso, juntamente com um par 
de cuecas de algodo branco que saam de uma das mangas da camisa, enquanto a espreitar do punho da outra se via um par de meias tambm brancas. O Wharton deu a 
impresso de querer obedecer ao que lhe fora dito, embora no tivesse conseguido fazer grandes progressos sem auxlio. L conseguiu vestir as cuecas, mas, quando 
chegou a vez das calas teimou, insistentemente, em enfiar as duas pernas pelo mesmo buraco. Por fim, o Dean resolveu dar-lhe uma ajuda, fazendo com que os ps do 
homem entrassem nos stios adequados para o efeito, e puxou-lhe as calas para cima, apertando-lhe a braguilha e abotoando-lhe o boto do cs
 . O Wharton limitou-se a ficar especado, sem sequer tentar fazer qualquer gesto para se vestir, ao ver que o Dean tratava daquela tarefa por si. Olhava absortamente 
para o outro lado da enfermaria, com as mos inertes, sem que houvesse ocorrido a nenhum dos guardas que ele estaria a maquinar alguma. No com a esperana de fugir 
(pelo menos estou convencido de que no era esse o caso), mas somente com a esperana de provocar o maior nmero de complicaes possvel quando a ocasio lhe parecesse 
ser a mais propcia. Os papis foram assinados. O William Wharton, que se havia transformado em propriedade do municpio aquando da sua priso, passara agora a ser 
propriedade do estado. Foi conduzido pelas escadas das traseiras, atravessando a cozinha do hospital, rodeado de uniformes azuis. Caminhava com a cabea baixa e 
as suas mos de dedos afuselados oscilavam flacidamente. Da primeira vez que o seu bon caiu, o Dean apanhou-o e voltou a colocar-l
 ho na cabea. Da segunda vez, colocou-lho simplesmente na algibeira de trs das calas. O Wharton teve outra oportunidade de criar problemas na Parte traseira da 
diligncia, na altura em que lhe colocavam as grilhetas, embora no o tivesse feito. Se por acaso possusse a faculdade de pensar (at mesmo agora, no estou certo 
se seria capaz e, em caso afirmativo, at que ponto), teria concludo que o espao era bastante confinado e o nmero de polcias demasiado elevado para conseguir 
provocar qualquer estardalhao minimamente satisfatrio. E assim se colocaram , as correntes, um conjunto de grilhetas  volta dos tornozelos e um outro - que veio 
a verificar-se ser demasiado longo - entre os pulsos. A viagem at Cold Mountain levou uma hora. Durante todo o percurso, o Wharton manteve-se sentado no banco lateral 
esquerdo, junto da cabina, com a cabea baixa e as mos

pendentes entre os joelhos. De vez em quando, trauteava um pouco, disse o Harry, e o Percy condescendeu em acrescentar que o mentecapto deixava que o cuspo lhe escorresse 
pela frouxa queixada inferior, uma gota de cada vez, at comear a formar uma pequena poa aos ps. Como se fosse um co num dia de Vero, a escorrer saliva da ponta 
da lngua. Entraram pelo porto virado a sul assim que chegaram  penitenciria; calculo que tenham passado pelo meu carro. O guarda, que se encontrava de servio 
na passagem a sul, fez correr os portes enormes entre o parque de estacionamento e o ptio de recreio, tendo permitido o acesso da diligncia. Naquela altura do 
dia, o ptio tinha pouco movimento, no havendo muitos homens no oxterior, e os que ali se encontravam tratavam do jardim. Deve ter sido na hora de descanso. Conduziram 
directamente para o Bloco E, onde se detiveram. O motorista abriu a porta do seu lado, dizendo-lhes que ia levar a diligncia
  para a oficina, a fim de mudar o leo, acrescentando que tinha sido um prazer trabalhar com eles. Os guardas suplementares seguiram no veculo, indo dois deles 
na parte de trs a comer mas; naquela altura, as portas estavam abertas sobre as calhas. Assim, s ficaram o Dean, o Harry e o Percy com o prisioneiro acorrentado. 
Deveria ter sido o suficiente, teria sido o suficiente, se eles no houvessem sido ludibriados pela ati tude atoleimada do campnio que continuava de cabea baixa 
enquanto avanava no piso de terra batida, com os artelhos e pulsos acorrentados. Fizeram-no caminhar os mais ou menos doze passos at  porta que dava acesso ao 
Bloco E, mantendo a formao habitual de quando escoltvamos qualquer prisioneiro atravs da Milha Verde. O Harry seguia  esquerda do Wharton, o Dean  direita 
e o Percy fechava o cortejo, de basto na mo. Ningum me disse isso, mas eu tenho a certeza que ele o desembainhara; o Percy tinha pa
 ixo por aquele basto de nogueira. Quanto a mim, eu estava sentado naquilo 142 que passaria a ser a casa do Wharton, at chegar o momento de ele se apresentar 
na chapa dos grelhados - a primeira cela  direita, quando nos dirigamos atravs do corredor para a cela do isolamento. Segurava nas mos a prancha de madeira com 
a documentao e pensava no meu pequeno discurso, ansiando por poder pr-me dali para fora. As dores que sentia nas virilhas tinham recomeado a intensificar-se, 
e tudo o que eu mais desejava era poder ir para o meu gabinete, onde aguardaria que passassem. O Dean avanou para abrir a porta .que estava fechada  chave. Seleccionou 
a chave do molho que tinha preso ao cinto e inseriu-a na ranhura da fechadura. Na altura em que o Dean fez girar a chave e puxou a maaneta, o Wharton regressou 
ao mundo dos vivos. Soltou um grito, um berro desarticulado - uma espcie de grito dos rebeldes - que imobilizou temporariamente o Harry, e ar
 rumou o Percy Wetmore durante todo aquele confronto. Ouvi aquele berro atravs da porta parcialmente aberta, no o tendo associado a nada de humano, pelo menos 
de princpio; pensei que um co qualquer conseguira entrar no ptio, e algum o magoara, que talvez algum prisioneiro de maus fgados o tivesse atingido com uma 
enxada. O Wharton ergueu os braos e deixou cair a corrente que unia as grilhetas que lhe envolviam os pulsos por cima da cabea do Dean, comeando a asfixi-lo. 
O Dean soltou um gri to estrangulado, cambaleando para a frente sob a fria luz elctrica do nosso pequeno mundo. O Wharton sentiu-se feliz por poder acompanhar os 
seus movimentos, tendo mesmo chegado a dar-lhe um empurro, enquanto durante todo esse tempo gritava e falava sem nexo, soltando gargalhadas. Tinha os braos dobrados, 
os punhos cerrados e erguidos at s orelhas do Dean, e puxava a corrente, mantendo-a to esticada quanto possvel, zurzindo-a para a frent
 e e para trs. O Harry atirou-se s costas do Wharton, agarrando com uma mo num punhado de cabelos louros e sebosos do nosso novo rapaz, e com a outra batendo 
com toda a fora numa das faces do Wharton. Tinha o seu prprio basto e uma pistola  ilharga, mas no meio de toda aquela confuso no lhe ocorreu sacar de qualquer 
destas armas. Podem crer que j passramos por problemas com outros

prisioneiros, mas nunca tnhamos deparado com um que nos houvesse apanhado to de surpresa como o Wharton. A manha do homem ultrapassava 143 toda a nossa experincia. 
Eu nunca tinha visto nada assim e nunca mais voltaria a ver. E ele era bastante forte. Toda a inrcia tinha desaparecido. Mais tarde, o Harry disse que tivera a 
sensao de saltar para um amontoado de molas de ao que haviam adquirido vida. O Wharton, que naquela altura j tinha entrado no bloco e estava prximo da mesa 
do guarda de servio, rodopiou para a esquerda, e arremessou o Harry. Este embateu contra a secretria, indo estatelar-se no cho. - Ennaaa, rapazes! - exclamou 
o Wharton com uma gargalhada. - Isto  que  uma festa de arromba, no acham?  ou no ? Continuando a gritar e a rir-se, o Wharton regressou para junto do Dean, 
a fim de continuar a asfixi-lo com a corrente que lhe prendia os punhos. E porque no? O Wharton sabia aquilo que todos ns sabamos
 : s o poderiam fritar uma vez. - Bate-lhe, Percy, bate-lhe! - gritava o Harry, esforando-se por conseguir prse de p. Mas o Percy continuou imvel, empunhando 
o seu basto de nogueira, com os olhos to arregalados como pratos de sopa. Qualquer pessoa teria dito que ali estava a oportunidade por que ele tanto ansiara, a 
hiptese de dar uma boa utilizao ao seu estala-cabeas; no entanto, o homem sentia-se demasiado confuso e amedrontado para poder agir. O prisioneiro no era nenhum 
pequeno franci aterrorizado, nem to-pouco um gigante negro, o qual mal sabia que se encontrava no interior do seu prprio corpo; era um demnio enraivecido. Sa 
da cela do Wharton deixando cair a prancheta com a papelada e sacando da minha calibre trinta e oito. Pela segunda vez naquele dia, esqueci-me por completo da infeco 
que tanto ardor me provocava na regio central do corpo. No duvidei da histria que os outros me contaram quanto  expres
 so vazia do rosto do Wharton, assim como dos seus olhos entorpecidos; contudo, esse no era o Wharton que eu tinha  minha frente. Aquilo que vi foi o rosto de 
um autntico animal - no uma criatura inteligente, mas sim repleta de manha... de maldade... e de satisfao. Sim. Ele estava a pr em prtica aquilo que tencionara 
fazer. O local e as circunstncias no tinham qualquer importncia. A outra coisa que vi foram as faces inchadas e avermelhadas do Dean Stanton. Ele estava 144 a 
morrer em frente dos meus olhos. O Wharton avistou a arma e posicionou o Dean na sua direco, de forma a que, quase de certeza, eu seria forado a alvejar um quando 
alvejasse o outro. Por cima do ombro do Dean, avistei um olho azul flamejante que me desafiava a disparar. Parte Trs

AS MOS DO COFFEY Revendo tudo aquilo que escrevi at agora, verifico que classifiquei Georgia Pines, onde vivo presentemente, como um lar para a terceira idade. 
Os fulanos que dirigem este estabelecimento no se sentiriam muito satisfeitos com essa descrio! De acordo com as brochuras que tm no vestbulo e que enviam aos 
clientes em perspectiva, trata-se de "um complexo de primeira categoria destinado s pessoas de idade". At tem um Centro Recreativo - de acordo com o que a brochura 
afirma. As pessoas que so foradas a viver aqui (a brochura no lhes chama "internos", embora eu por vezes o faa) limitam-se a chamar-lhe "sala da televiso". 
As pessoas consideram-me um tudo-nada distanciado, porque durante o dia no vou  sala da televiso, mas isso deve-se ao facto de no conseguir suportar os programas, 
e no as pessoas. Oprah, Ricki Lake, Carnie Wilson, Rolanda - o mundo est a desmoronar-se em redor dos nossos ouvidos, e tudo o q
 ue interessa a estes apresentadores  falar acerca de foder mulheres de saias curtas, e de homens que

tm sempre as camisas abertas. Pois bem, que raio - no julgues, no vs tu prprio ser julgado, diz a Bblia, por isso estou disposto a descer do meu estrado de 
orador improvisado. O que acontece  que se eu quisesse passar o meu tempo na companhia de gentalha que vive em caravanas, ter-me-ia mudado para o Parque de Caravanas 
Rodas Felizes, a cerca de trs quilmetros mais abaixo, para onde os carros-patrulha da polcia parecem estar sempre a acorrer nas noites de sexta-feira e sbado 
com as sirenas a soar estridentemente e as luzes azuis a funcionarem, intermitentes. A minha amiga especial, a Elaine Connelly, pensa da mesma maneira. A Elaine 
j tem oitenta anos  alta e magra, ainda tem a postura direita e o 149 olhar lmpido, muito inteligente e refinada. Caminha com muita lentido porque qualquer coisa 
no est bem com a sua bacia, e eu sei que a artrite que lhe afecta as mos lhe provoca um grande sofrimento, mas possui um lindo pesco E7o comprido - quase um colo 
de cisne - e belos cabelos compridos, que lhe caem at aos ombros sempre que ela os solta. Porm, o melhor de tudo  que ela no me considera um fulano peculiar 
nem reservado. Passamos muito tempo juntos, a Elaine e eu. Se eu no tivesse alcanado uma idade to gro tesca, suponho que me referiria a ela como a minha namorada. 
Ainda assim, o facto de ter uma amiga que considero muito especial somente isso - no  assim to mau, e, sob certos aspectos, chega at a ser prefervel. Uma grande 
quantidade dos problemas e dores do corao que existem entre namorados deixaram muito pura e simplesmente de existir dentro de ns. E, embora eu saiba que ningum, 
digamos, abaixo dos cinquenta, acreditaria nisto, por vezes as braseiras so melhores do que as fogueiras.  estranho mas  verdade. Por conseguinte, no vejo televiso 
durante o dia. Por vezes dou passeios; noutras ocasies dedico-me  leitura; mas na mai
 or parte do tempo, durante mais ou menos o ltimo ms, escrevo estas memrias instalado entre as plantas do solrio. Estou convencido de que existe mais oxignio 
nesse recinto, o que ajuda a memria que j est enfraquecida. Sem dvida que esta actividade ganha aos pontos qualquer programa bombstico de televiso, essa posso 
eu garantir-vos. No entanto, sempre que no consigo conciliar o sono, s vezes deso sorrateirmente at ao andar de baixo e ligo o televisor. Em Georgia Pines dispomos 
dos servios bsicos da televiso por cabo, o que significa que temos acesso ao canal de filmes americanos. Esse  o canal em que (para o caso de o leitor no desfrutar 
dos servios bsicos da televiso por cabo) a maior parte dos filmes  a preto e branco, e onde nenhuma das mulheres despe as suas roupas. Para um peido velho como 
eu, esse  um aspecto tranquilizador. Houve um bom nmero de noites em que me deixei adormecer em cima do
 sof de um verde horroroso, colocado em frente do televisor, enquanto Francis, a Mla Que Fala, tira uma vez mais do lume a frigideira do Donald O'Connor, ou o 
John Wayne corre com a escumalha, expulsando-a de Dodge, ou o Jimmy Cagney apelida algum de ratazana asquerosa e saca de uma arma. Vi alguns na companhia da minha 
mulher, a Janice (a 150 qual no era s a minha namorada, mas tambm a minha melhor amiga), e eles acalmam-me. O vesturio que as personagens usam, a maneira como 
andam e falam, at mesmo a msica da banda sonora - todas essas coisas contribuem para me acalmar. Suponho que me tragam  recordao os tempos em que eu era um 
homem que caminhava sobre a pele do mundo, em vez de ser uma relquia comida pelas traas que vai fenecendo num lar para a terceira idade, onde muitos dos residentes 
usam fraldas e cuecas de plstico. No entanto, no havia nada de tranquilizante naquilo que tive oportunidade de ver esta manh. Absolutament
 e nada. Em algumas ocasies, a Elaine junta-se a mim para as to famosas Sesses dos Pssaros Madrugadores, as quais tm incio s quatro da manh - ela no se 
abre muito sobre o assunto, mas eu sei que nessas alturas a artrite a faz sofrer atrozmente, e que as drogas que eles lhe do j no surtem grande efeito. Esta madrugada, 
quando ela desceu num passo deslizante, qual fantasma, envergando o seu roupo de turco branco, encontrou-me sentado no sof cheio de

altos e baixos, debruado sobre as canelas escanzeladas que costumavam ser as minhas pernas, agarrado aos joelhos, a fim de tentar pr cobro aos tremores que me 
percorriam o corpo, como se fossem um vento cortante. Sentia-me enregelado,  excepo da regio das virilhas que me dava a sensao de arder como se fosse o fantasma 
da infeco urinria que tanto havia atormentado a minha vida no Outono de 1932 - o Outono do John Coffey, do Percy Wetmore e do Mister Jingles, o rato amestrado. 
O Outono que tambm fora o do William Wharton. - Paul! - gritou a Elaine, dirigindo-se a mim num passo apressado... to apressado quanto os pregos enferrujados e 
a placa de massa de vidro na sua bacia lhe permitia. - Paul, o que  que se passa contigo? - No tarda nada, estarei bem - respondi-lhe, apesar de as minhas palavras 
no soarem muito convincentes... Saram-me da boca de forma pouco articulada, atravs de uns dentes que queriam bater uns nos outros. -
  D-me apenas um minuto ou dois e ficarei so que nem um pro. A Elaine sentou-se junto de mim, colocando um brao em redor dos meus ombros. - Tenho a certeza que 
sim - disse ela. - Mas o que  que te aconteceu? Por amor de Deus, Paul, parece que viste um fantasma. E vi, disse para comigo, sem me ter apercebido de que havia 
proferido aquelas palavras em voz alta, at que avistei os seus olhos arregalados. - No foi verdadeiramente isso - acrescentei, dando-lhe uma pancadinha na mo 
(suavemente - to suavemente!). - Mas durante um minuto, Elaine... Meu Deus! - Recordaste-te dos tempos em que eras um guarda da priso? - perguntou ela. Da poca 
sobre que tens vindo a escrever quando ests no solrio? Acenei-lhe afirmativamente. - Eu costumava trabalhar na nossa verso do Corredor da Morte... - afirmei. 
- Eu sei... - Com a diferena que lhe chamvamos a Milha Verde. Por causa do linleo que cobria o cho. No Outono de trinta e dois, recebemos
 um fulano... um selvagem... chamado William Wharton. Ele gostava de se considerar uma espcie de Billy the Kid, e chegou ao ponto de ter uma tatuagem no brao com 
esse nome. No passava de um rapazote, mas era bastante perigoso. Ainda me recordo daquilo que o Curtis Anderson, que nessa poca era o assistente do director, escreveu 
sobre ele. "Um doido varrido e orgulhoso de o ser. O Wharton tem dezanove anos de idade e, muito simplesmente est-se nas tintas para o que lhe possa acontecer." 
Ele sublinhou esta frase. O brao que at ento rodeara os meus ombros esfregava-me naquele momento as costas. Comeara a acalmar-me. Naquela altura, senti amor 
pela Elaine Connelly, e tinha podido cobrir-lhe as faces de beijos, tal como lhe disse. Talvez o devesse ter feito.  horrvel estar-se sozinho e atemorizado em 
qualquer idade, mas estou convencido de que  muito pior quando se  velho. No entanto, eu tinha outra coisa no pensamento, aquele peso de algo ant
 igo por concluir. - Seja como for - continuei -,tens razo... Tenho andado a escrevinhar sobre a chegada do Wharton ao bloco e como ele quase matou o Dean Stanton, 
um dos tipos com quem eu trabalhava nesses tempos. - Como  que ele foi capaz de fazer uma coisa dessas? perguntou a Elaine. - Por maldade e tambm por falta de 
cuidado - respondi sombriamente. - O Wharton forneceu a maldade e os guardas que o acompanhavam a falta de cuidado. O grande 152 erro foi a corrente que prendia 
os pulsos do Wharton... Era um tudo-nada demasiado comprida. Quando o Dean abriu a porta que dava acesso ao Bloco E, o Wharton encontrava-se atrs dele, com um guarda 
de cada lado, mas o Anderson tivera razo... muito simplesmente, o Billy Selvagem no se preocupava com essas coisas. Deixou cair a corrente que lhe prendia os pulsos 
por cima da cabea do Dean e comeou a asfixi-lo com ela. A Elaine estremeceu. - Ento, pus-me a matutar em tudo aquilo e no fui capaz de adormec
 er, e foi por isso que vim at c abaixo. Liguei para o canal dos filmes, pensando que tu talvez viesses at c abaixo, e assim poderamos ter um pequeno encontro... 
A Elaine riu-se, beijando-me a testa mesmo acima do sobrolho. Sempre que a Janice me beijava na fronte, eu era percorrido por um arrepio, e senti a mesma

coisa quando a Elai ne o fez naquela madrugada. Calculo que algumas coisas nunca se alterem. - ... e no ecr surgiu este filme antigo a preto e branco sobre os bandidos 
dos anos quarenta. Chama-se O Denunciante. Senti-me prestes a recomear a tremer, o que me levou a empregr todos os esforos para o evitar. - E com o Richard Widmark 
- acrescentei. - Parece-me que foi o seu grande primeiro papel. Nunca cheguei a v-lo com a Janice... Normalmente, prescindamos dos filmes de polcias e ladres, 
mas ainda me recordo de ter lido algures que o Widmark desempenhou um papel extraordinrio, interpretando a figura do malfeitor. Sem dvida que sim. No filme est 
muito plido... d a impresso de no andar mas sim de deslizar pela cena... est sempre a chamar "borra-botas" s pessoas... a falar sempre dos bufos... do quanto 
odeia os bufos... A despeito de todos os meus esforos, comeava a tremer de novo. No conseguia evit-lo. - Cabelos louro
 s - acrescentei num sussurro. - Cabelos louros escorridos. Fiquei a ver at  parte onde ele empurra uma velhota, que est sentada numa cadeira de rodas, pelas 
escadas abaixo mas depois desliguei o televisor. - Ele fez-te lembrar o Wharton? ~- Ele era o Wharton, at ao mais nfimo pormenor. ~- Paul... - comeou a Elaine 
a dizer, interrompendo-se. 153 Olhou para o ecr em branco do televisor (onde continuava a poder ver-se o nmero dez no canto superior, correspondente ao canal dos 
filmes), e voltou a concentrar a sua ateno em mim. - O qu? - perguntei. - O que  que ias a dizer, Elaine? - Pensei: Ela vai dizer-me que deveria deixar de escrever 
sobre este assunto. Que o melhor seria rasgar as pginas que j escrevi at agora, desistindo de tudo isso. - No permitas que isso te impea de continuar - foi 
o que ela me disse. Fiquei a olhar de boca aberta para a Elaine. - Fecha a boca, Paul... no v entrar alguma mosca. Desculpa.  que..
 . bem... - Tu pensaste que eu me preparava para te dizer o oposto, no  verdade? - Sim, de facto foi isso que pensei. Suavemente, agarrou-me nas mos (suavemente, 
to suavemente - com os seus longos e maravilhosos dedos enclavinhados, formando um amontoado de ns retorcidos) e incli nou-se para a frente, olhando fixamente 
para os meus olhos azuis com os seus cor de avel, com o esquerdo ligeiramente nublado devido  aglutinao de uma catarata. -  possvel que eu j seja demasiado 
velha e frgil para continuar a viver acrescentou a Elaine -, mas no sou velha de mais para ainda ter a faculdade de pensar. Na nossa idade, que significado  que 
tm umas quantas noites sem dormir? E j agora, o que  que h de mais no facto de vermos um velho fantasma na televiso? Vais dizer-me que foi o nico que j viste? 
Pensei no director da cadeia, o Moores, no Harry Terwilliger, no Brutus Howell; ocorreu-me a imagem da minha me, assim como
 a da Jan, a minha mulher, que morrera em Alabama. Sem dvida que eu tinha bastantes conhecimentos em matria de fantasmas. - No - concordei. - No foi o primeiro 
fantasma que vi. Mas, Elaine... foi um choque. Porque era ele, sem tirar nem pr. Ela beijou-me de novo e levantou-se, retraindo-se ao deslocar-se, fazendo presso 
com a palma da mo sobre as ancas, como se receasse que a bacia rebentasse atravs da pele, caso no tivesse cuidado. - Parece-me que mudei de ideias quanto  televiso 
acrescentou ela. - Tenho um comprimido guardado para um 154 dia... ou uma noite em que mais necessitasse dele. Acho que vou tom-lo e depois volto para a cama. Talvez 
devesses seguir o meu exemplo. - Sim - concordei. - Suponho que seja o que deveria fazer. - Durante um momento de loucura, pensei em sugerir que fssemos juntos 
para a mesma cama, mas ento

detectei o sofrimento surdo que se reflectia nos olhos da Elaine, e reconsiderei a minha ideia. Porque  possvel que ela tivesse anudo, apenas para me fazer a 
vontade. O que no me parecia ser muito aconselhvel. Deixmos a sala de televiso (no estou disposto a dignific-la com o outro nome, nem sequer por uma questo 
de ironia) lado a lado, eu a atrasar o meu passo pelo dela, que era lento e dolorosamente cauteloso. No interior do edifcio reinava o silncio, com a excepo dos 
gemidos de algum, apanhado .por um mau sonho, por detrs de uma qualquer porta cerrada. - Achas que conseguirs adormecer? - perguntou a Elaine. - Sim, parece-me 
que sim - respondi, embora soubesse de antemo que isso seria impossvel; fiquei deitado na cama at ao nascer do Sol, a pensar no filme O Denunciante. Em pensamento 
via o Rchard Widmark a rir-se de forma demente enquanto amarrava a senhora de idade  sua cadeira de rodas e a empurrava pelas e
 scadas abaixo. -  isto o que costumamos fazer aos bufos - dizia-lhe ele... E ento o seu rosto adquiria a expresso fisionmica do William Wharton, a que ele mostrara 
no dia em que tinha chegado ao Bloco E e  Milha Verde, o Wharton a rir-se  socapa tal como o Widmark, o Wharton a gritar: Isto  que  uma festa de arromba, no 
acham?  ou no ? No me dei ao ncmodo de descer para o pequeno-almoo, depois daquela noite; limitei-me a ir para o solrio, onde retomei a minha escrita. Fantasmas? 
Com certeza. Eu sei tudo o que h a saber sobre fantasmas. 2 - Ennaaa, rapazes! - exclamou o Wharton, rindo-se. Isto  que  uma festa de arromba, no acham?  ou 
no ? Continuando a gritar e a rir-se, o Wharton regressou para 155 junto do Dean, a fim de continuar a asfixi-lo com a corrente que lhe prendia os pulsos. E porque 
no? O Wharton sabia aquilo que o Dean, o Harry e o meu amigo Brutus Howell sabiam - que eles s poderia
 m fritar um homem uma vez. - Bate-lhe! - gritava o Harry Terwilliger. Continuava agarrado ao Wharton, tentando pr cobro quela situao antes que se adiantasse 
mais, mas o Wharton conseguira libertar-se dele, pelo que naquele momento o Harry tentava levantarse do cho. - Percy, bate-lhe! Todavia, o Percy continuava imvel, 
com o basto de nogueira numa das mos e os olhos to arregalados que nem pratos de sopa. Ele adorava o raio daquele basto, e qualquer pessoa teria dito que aquela 
era a sua grande oportunidade de o utilizar, a oportunidade por que ele ansiara desde o primeiro dia que chegara a Cold Mountain... mas agora que esta surgira, ele 
sentia-se demasiado atemorizado para a aproveitar. O prisioneiro no era nenhum pequeno franci aterrorizado, como o Delacroix, nem o gigantesco negro que mal sabia 
que se encontrava no interior do seu corpo, como o John Coffey; era um demmio enraivecido. Sa da cela do Wharton, deixando cair a prancheta
  com a papelada e sacando da minha calibre trinta e oito. Pela segunda vez naquele dia, esqueci-me por completo da infeco uri nria que tanto ardor me provocava 
na regio central do corpo. No duvidei da histria que os outros me contaram, quanto  expresso vazia do rosto do Wharton, assim como os seus olhos entorpecidos; 
contudo, esse no era o Wharton que eu tinha  minha frente. Aquilo que vi foi o rosto de um autntico animal no uma criatura inteligente, mas sim repleto de manha... 
de maldade... e de satisfao. Sim. Ele estava a pr em prtica aquilo que tencionara fazer. O local e as circunstncias no tinham qualquer importncia. A outra 
coisa que vi foram as faces inchadas e avermelhadas do Dean Stanton. Ele estava a morrer em frente dos meus olhos. O Wharton avistou a arma e posicionou o Dean na 
sua direco, de forma a que, quase de certeza, eu seria forado a alvejar um quando alvejasse o outro. Por cima do ombro do
 Dean, avistei um olho azul flamejante que me desafiava a disparar. O outro olho do Wharton encontrava-se oculto pelos cabelos do Dean. Por detrs deles avistei 
o Percy imobilizado numa atitude irresoluta, com o seu basto meio empunhado ao alto. E foi ento que, enchendo a ombreira da porta aberta

156 que dava para o ptio da priso, surgiu um milagre em carne e osso: o Brutus Howell. J tinham acabado de mudar o que restava do equipamento da enfermaria, pelo 
que ele tinha ido at ao bloco "para perguntar quem  que queria caf. Ele agiu sem um nico momento de hesitao - empurrou o Percy para o lado contra uma parede, 
com uma fora capaz de abalar tudo e todos, sacou do seu prprio basto e bateu na regio posterior da cabea do Wharton, utilizando toda a fora do seu musculado 
brao direito. Ouviu-se o som ensurdecido de uma pancada - um rudo que era quase cavo, como se no existisse qualquer espcie de crebro por baixo do crnio do 
Wharton - o que fez com que finalmente a corrente se soltasse em redor do pescoo do Dean. O Wharton foi-se abaixo como se fosse uma saca de farinha, o que permitiu 
ao Dean arrastar-se para longe daquela besta, a respirar com dificuldade e com a mo na garganta; os olhos pareciam querer sal
 tar-lhe das rbitas. Ajoelhei-me junto dele e ele abanou a cabea com violn cia. - Eu estou bem... - proferiu numa voz enrouquecida. - Tomem conta... dele! - Fez 
um gesto na direco do Wharton. - Fechem-no! Na cela! No me pareceu que ele precisasse de uma cela, depois da forma selvtica como o Brutal o tinha atingido; imaginei 
que aquilo de que ele necessitaria era de um caixo. No entanto, a sorte no nos bafejou. O Wharton tinha perdido os sentidos, mas encontrava-se muito longe de estar 
morto. Ficara esparramado de lado, com um brao estendido e as pontas dos dedos a tocarem no linleo da Milha Verde, os olhos fechados e a respirao lenta mas regular. 
No seu rosto via-se mesmo um sorriso beatfico, como se houvesse adormecido a ouvir a sua cano de embalar preferida. Do cabelo escorria um pequeno fio de sangue 
intensamente vermelho, manchando o colarinho da nova camisa do uniforme prisional. E era tudo. - Percy! - chamei. - D-me uma
  ajuda! Contudo, o interpelado no se mexeu, continuando encostado  parede, olhando fixamente para o vazio com olhos atordoados. No me parece que ele soubesse 
com exactido onde  que se encontrava. - Percy, raios te partam, agarra nele! S ento  que ele comeou a mexer-se e o Harry foi em seu auxlio. Ns os trs arrastmos 
o inconsciente Wharton 157 para a sua cela, enquanto o Brutal auxiliava o Dean a pr-se de p, suportando-o com toda a suavidade, como qualquer me teria feito a 
um filho; o Dean dobravase sobre si mesmo, tossindo para conseguir encher os pulmes de oxignio. A nossa nova criana problemtica no recobrou os sentidos durante 
quase trs horas, mas, quando tal aconteceu, no parecia ter sido afectado pela violenta pancada que o Brutal lhe desferira. Voltou a si da mesma maneira como se 
movimentara - com rapidez. Num dado momento, estava estendido em cima da tarimba, absolutamente morto para o mundo. No segu
 ndo imediato, encontrava-se levantado junto das grades da cela - silencioso que nem um rato - olhando-me com fixidez quando eu me encontrava sentado  mesa do guarda 
de servio, elaborando um relatrio acerca da ocorrncia. Quando finalmente pressentia presena de algum que me fitava, soergui o olhar e ali estava ele exibindo 
um esgar que revelava um conjunto de dentes deteriorados e enegrecidos, entre os quais j se viam vrios espaos. Senti um sobressalto ao avist-lo ali, naquela 
postura. Tentei ocultar a minha reaco, mas tenho a impresso de que no lhe passou despercebida. - Ei, lacaio - disse ele. - Da prxima vez calhar-te- a ti. E 
nessa altura no vou falhar. - Ol, Wharton - repliquei num tom to calmo quanto me era possvel. - Em vista das circunstncias, calculo que possamos dispensar o 
discurso e o comit de boas-vindas, no te parece? O seu esgar vacilou um tudo-nada. Aquela no era a resposta que ele tinha es
 perado e, muito provavelmente, no era a que eu teria dado noutras circunstncias. Mas algo tinha acontecido enquanto o Wharton se mantivera

inconsciente. Suponho que tenha sido uma das principais coisas que tenho tentado descrever-vos ao longo destas pginas. Agora vamos a ver se vocs acreditam. 3  
excepo de ter gritado numa ocasio ao Delacroix, o Percy manteve a boca fechada depois de todo aquele rebulio ter chegado ao fim. Isso era, possivelmente, resultado 
do choque e no de uma tentativa destinada a mostrar um certo 158 tacto - o Percy sabia tanto de tacto como eu das tribos mais primitivas de frica - mas essa atitude 
veio muito a calhar, fosse por que motivo fosse. Se tivesse comeado a lamentar-se quanto  forma como o Brutal o havia arremessado contra a parede, ou caso se interrogasse 
sobre a razo por que ningum lhe dissera que por vezes homens to maus como o Billy Selvagem acabavam por ir parar ao Bloco E, tenho a impresso que teramos optado 
por mat-lo. Isso ternos-ia permitido percorrer a Milha Verde em moldes totalmente diversos. O que no deixa de ser um
 a ideia engraada, se pensarmos bem. Desperdicei a minha grande oportunidade de agir como o James Cagney em Fria Sanguinria. Enfim, quando tivemos a certeza de 
que o Dean continuaria a respirar, e que no se encontrava prestes a perder os sentidos ali mesmo, o Harry e o Brutal levaram-no para a enfermaria. O Delacroix, 
que se mantivera num silncio absoluto durante toda aquela confuso (j tinha estado na priso muitas vezes, pelo que sabia quando era prudente manter a boca fechada 
e quando era relativamente seguro abri-la de novo), comeou a gritar, fazendo um grande alarido no corredor, enquanto o Harry e o Brutal levavam o Dean para fora. 
O Delacroix queria saber o que tinha acontecido. Pelo seu tom de voz, at se poderia pensar que os seus direitos constitucionais haviam sido violados. - Cala a boca, 
larilas! - berrou-lhe o Percy, to furioso que as veias em ambos os lados do pescoo ficaram salientes. Coloquei uma mo sobre o seu brao, sen
 tindo-o a tremer por baixo da camisa. Parte daquela atitude devia-se ao medo residual, como  evidente (de vez em quando, eu era forado a recordar a mim mesmo 
que parte do problema do Percy era o facto de ele ter apenas vinte e um anos, no sendo muito mais velho que o Wharton), mas estou convencido de que, em grande medida, 
aquilo era resultado da raiva. Ele odiava o Delacroix, no sei bem por que motivo, mas o certo  que era assim. - Vai ver se o director Moores ainda c est - disse 
eu ao Percy. - Se estiver, apresenta-lhe um relatrio verbal, bem completo, daquilo que sucedeu aqui. Dizlhe que amanh lhe entregarei um relatrio escrito, se conseguir 
elabor-lo. Percy inchou visivelmente por causa da responsabilidade de que eu estava a incumbi-lo; durante um ou dois momentos horrveis, pensei que ele ia fazer-me 
continncia. 159 - Sim, senhor. Assim farei. - Comea por dizer-lhe que a situao no Bloco E j est normalizada. Isto no
  se trata de uma histria, e o director no apreciar o facto de a arrastares, para criares mais expectativa. - No farei isso - replicou o Percy. - Muito bem. 
Vai-te embora. Encaminhou-se para a porta, mas pouco depois deteve-se, voltando atrs. A nica coisa que podamos esperar era que ele fizesse o oposto daquilo que 
queramos. Eu desejava desesperadamente que ele sasse dali, sentia as virilhas em fogo, e agora tudo indicava que ele no estava disposto a ir-se embora. - Ests 
bem, Paul? - perguntou ele. - Talvez estejas a ficar com febre. Ests a chocar alguma gripe? Digo isto porque tens as faces cobertas de suor. - Talvez esteja a chocar 
alguma, mas de uma maneira geral sinto-me bem afirmei. - Despacha-te, Percy, vai informar o director. Ele anuiu com um acenar de cabea e afastou-se - graas a Deus 
pelos pequenos favores. Assim que a porta se fechou, dirigi-me rapidamente para o meu gabinete. Deixar a

mesa do guarda de servio desocupada era contra os regulamentos mas naquela altura esse aspecto no me interessava rigorosamente nada. Sentia-me bastante mal - to 
mal como me sentira nessa manh. Consegui entrar no pequeno cubculo que servia de lavabo por detrs da mesa, e tirei o coiso para fora das calas antes que a urina 
comeasse a jorrar, mas esteve mesmo por um triz. Fui obrigado a tapar a boca com uma mo para abafar um grito quando o mijo comeou a jorrar, e com a outra agarrei-me 
ao bordo do lavatrio, sem ver o que fazia. No era como em minha casa, onde podia cair de joelhos e mijar at formar uma poa junto  pilha de lenha; se eu me pusesse 
de joelhos ali, a urina derramar-se-ia pelo cho todo. Com grandes dificuldades l consegui manter-me de p sem gritar, embora tanto uma coisa como a outra tivessem 
estado por pouco. Parecia que a minha urina estava cheia de nfimos estilhaos de vidro. O cheiro que se evolava da retr
 ete era desagradvel e pestilento, e vi uma substncia esbranquiada - calculo que se tratasse de pus - a flutuar  superfcie da gua. Retirei a toalha do toalheiro 
e limpei o rosto com ela. Suava profusamente; a transpirao jorrava dos poros. Olhei para o espelho de metal e avistei as faces congestionadas de um homem cheio 
de febre, o qual retribua o meu olhar. Trinta e oito e meio? Trinta e nove? Talvez fosse prefervel no saber. Voltei a colocar a toalha no seu lugar, accionei 
a descarga de gua e, num passo lento, atravessei o meu gabinete, dirigindo-me para a porta do bloco. Receava que o Bill Dodge, ou qualquer outra pessoa, pudesse 
ter aparecido, deparando com trs prisioneiros desacompanhdos, mas aquele espao encontrava-se vazio. O Wharton continuava inconsciente deitado em cima da sua tarimba, 
enquanto o Delacroix se remetera ao mutismo e o John Coffey nem sequer chegara a emitir um nico rudo, apercebi-me eu inesperadamente.
  Nem um pio. O que era preocupante. Comecei a percorrer a Milha, lanando um olhar para o interior da cela do Coffey, um pouco  espera de verificar que ele se 
tinha suicidado atravs de um dos dois meios mais comuns no Corredor da Morte - enforcar-se com as prprias calas ou dilacerar com os dentes os prprios pulsos. 
Veio a verificar-se que no sucedera nem uma coisa nem a outra. O Coffey limitara-se a continuar sentado na tarimba, com as mos pousadas sobre as coxas; o homem 
mais corpulento que eu alguma vez vira em toda a minha vida, olhava para mim com os seus estranhos olhos lacrimosos. - Capito? - chamou ele. 4 --- O que  que se 
passa, matulo? - perguntei. Preciso de falar consigo. .- Por a caso no estars tu a olhar para mim neste mesmo momento, John Coffey? No replicou quela pergunta, 
continuando a examinar-me com o seu olhar estranho e humedecido. - Num segundo, matulo - retorqui com um suspiro. Fixei a minha ateno no D
 elacroix, o qual se colocara junto das barras da sua cela. O Mister Jingles, o seu rato de estimao (o Delacroix no tinha o mnimo pejo em dizer-nos que havia 
ensinado o Mister Jingles a fazer habilidades, todavia, todos os que trabalhavam na Milha Verde achavam que o rato se amestrara a si mesmo), saltava desassossegadamente 
para l e para c, de uma das mos estendidas do Del para a outra, qual acrobata a dar saltos de plataformas acima do centro da arena. Os seus olhos estavam muito 
arredondados, e ti 160 nha as orelhas encostadas ao crnio acastanhado de linhas esguias. No me restava a mais pequena dvida de que o rato reagia em funo do 
nervosismo que o Delacroix sentia. Enquanto eu o observava, ele comeou a correr pelas calas do Delacroix, atravessando o cho da cela at ao carretel de cores 
garridas que se encontrava encostado a uma parede. Empurrou o carretel at prximo dos ps do Delacroix, fitando-o ansiosamente, sem que
  o pequeno cajun tivesse prestado ateno ao amigo, pelo menos naquela altura. - O que  que aconteceu, chefe? - perguntou ele. - Quem  que se magoou?

- Est tudo em ordem - respondi. - O nosso novo rapaz entrou com atitude de leo, mas agora est inconsciente e sossegado que nem um cordeirinho. Tudo est bem quando 
acaba bem. - Ainda no acabou - retorquiu o Delacroix, erguendo o olhar por cima da Milha, na direco da cela onde o Wharton continuava prostrado. - L'homme mauvais, 
c'est vrai!~ - Pois bem - disse-lhe eu. - No deixes que isso te deprima, Del. Ningum te vai obrigar a saltar  corda com ele no ptio. Vindo de trs, ouvi o som 
ranger de uma tarimba quando o Coffey se levantou. - Chefe Edgecombe! - chamou ele de novo. Desta feita, a entoao da sua voz denotava urgncia. - Preciso de falar 
consigo! Voltei-me para ele, pensado: "Muito bem, no existe qualquer problema, falar faz parte das minhas funes." Durante todo este tempo, envidava esforos para 
no tremer, uma vez que a febre me provocava arrepios de frio, como por vezes acontece. Excepto na regio das virilhas, q
 ue continuava a dar-me a sensao de ter sido golpeada, cheia com carves em brasa e depois cosida. - Nesse caso, diz o que tens a dizer, John Coffey - repliquei, 
tentando imprimir  voz um timbre ligeiro e calmo. Pela primeira vez desde que chegara ao Bloco E, o Coffey tinha o aspecto de quem se encontrava realmente ali, 
entre ns, de corpo e alma. O quase ininterrupto fio de lgrimas que lhe saa pelo canto dos olhos havia cessado, pelo menos de momento; eu apercebia-me de que ele 
via realmente aquilo para ~ Em francs no original: "O homem  mau,  verdade." (N. da T.) que olhava, Paul Edgecombe, o manda-chuva dos guardas do Bloco E, e no 
qualquer lugar para onde desejasse poder regressar, desfazendo a aco pavorosa que cometera. - No - disse ele. - Tem de vir aqui dentro. - Ora vamos l a ver, 
tu bem sabes que eu no posso fazer isso - redargui, continuando a manter um tom aligeirado -, pelo menos, neste preciso momento. Por agora encon
  tro-me sozinho aqui e tu pesas, no mnimo, cerca de uma tonelada e meia a mais do que eu. Esta tarde j tivemos rebulio de sobra. Por conseguinte, vamos ter de 
travar a nossa conversa atravs das grades, isto , se" tu no vires inconveniente nisso... - Por favor! - O Coffey apertava as barras com tanta fora que os ns 
dos dedos tinham empalidecido e as unhas estavam brancas. O seu rosto era a expresso do desnimo, vendo-se nos seus olhos uma necessidade premente que eu no conseguia 
compreender. Recordo-me de na altura ter pensado que talvez tivesse podido compreender se no me sentisse to adoentado; isso poderia ter-me proporcionado um meio 
de o ajudar atravs do resto dessa situao. Quando se sabe do que um homem necessita, conhece-se o homem. - Por favor, chefe Edgecombe! Tem de entrar na cela! Mas 
isto  a coisa mais disparatada que j ouvi, pensei, apercebendo-me de algo ainda mais insensato: eu estava disposto a aceder ao seu
 pedido. Tinha o molho de chaves fora do cinto, procurando entre elas as que abriam a cela do John Coffey. Ele teria podido agarrar em mim e ter-me quebrado em cima 
dos seus joelhos, como se eu fosse um mero galho, num dia em que eu me sentisse em boas condies de sade e, decididamente, aquele no era um desses dias. Fosse 
como fosse, encontrava-me prestes a faz-lo. Sozinho e tendo decorrido menos de meia hora depois da demonstrao grfica de at onde  que a estupidez e a falta 
de cuidado nos podem levar, quando se lida com assassinos condenados  morte, eu estava disposto a abrir a porta da cela daquele gigante negro, entrar e sentar-me 
junto dele. Se esse meu acto viesse a ser descoberto, poderia muito bem vir a perder o emprego, mesmo que ele no se comportasse de uma maneira tresloucada, mas, 
apesar de tudo, eu no ia hesitar. "Pra", disse eu a mim mesmo, "pra neste mesmo momento, Paul." Contudo, no o fiz. Inseri uma das chaves na r
 anhura da fechadura de cima e outra na de baixo e fiz deslizar a porta sobre a calha.

162 163 - Sabe, chefe, isso talvez no seja uma ideia muito boa - disse o Delacroix numa voz to enervada e efeminada que provavelmente, e noutras circunstncias, 
me teria feito rir. - Preocupa-te com os teus assuntos que eu preocupo-me com os meus - respondi-lhe sem olhar em redor. Mantinha os olhos fixos na figura do John 
Coffey, de uma forma to in tensa que se poderia dizer que estavam pregados no homem. Era como se eu houvesse sido hipnotizado. A minha voz soava aos meus prprios 
ouvidos como algo que tivesse vindo a ecoar atravs de um longo vale. Que diabo, talvez eu estivesse sob o efeito de hipnose. - Deita-te e descansa um pouco. - Cus, 
este lugar  de loucos - comentou o Delacroix numa voz tremida. - Mister Jingles, quem me dera que eles me fritassem para acabar de uma vez por todas com este assunto! 
Entrei na cela do Coffey. Quando comecei a avanar, ele afastou-se. Quando j se encontrava de costas contra a sua tarimba - tocando-lhe com a bar
 riga das pernas, isto d-vos a medida da altura do homem - sentou-se em cima do colcho. Os seus olhos no se desprendiam de mim; indicou-me o lugar na tarimba 
junto de si. Sentei-me onde ele me indicara, e o Coffey colocou o seu brao em redor dos meus ombros, como se nos encontrssemos no cinema e eu fosse a sua namorada. 
- O que  que pretendes, John Coffey? - perguntei, continuando a fitar-lhe os olhos... Aqueles olhos to serenos e to entristecidos. - S quero conseguir evitar 
o mal - replicou ele. Suspirou como um homem que se v perante uma tarefa que no lhe apetece muito levar a cabo; em seguida, baixou a mo at  minha regio entre 
pernas, sobre o osso que fica mais ou menos trinta centmetros abaixo do umbigo. - Eh! - gritei. - Tira j o raio da tua mo... Nessa altura senti um impacte violento 
a atravessar-me o corpo, um golpe enorme sem dor que no consegui identificar. Fui sacudido por um solavanco em cima da tarimba que
 fez com que as minhas costas se curvassem; aquilo trouxe-me  mente a imagem do velho Pouca Terra a gritar que estava a ser frito, estava a ser frito, era um peru 
cozinhado. No senti calor nem a passagem de corrente elctrica, mas por breves instantes fiquei com a impresso de que as cores tinham saltado para fora de tudo, 
como se o mundo, de uma maneira 164 qualquer, houvesse sido espremido. Conseguia distinguir todos os poros na pele do rosto do John Coffey, assim como todos os vasos 
sanguneos que lhe atravessavam os olhos de expresso assombrada; via ainda um pequeno arranho no seu queixo que j comeara a sarar. Compreendi que os meus dedos 
eram ganchos, enclavinhando-se no vcuo, e que os meus ps batiam contra o cho da cela do John Coffey. Em seguida, terminou tudo. O mesmo aconteceu  minha infeco 
urinria. Tanto o ardor como aquele latejar atroz, que tantas dores me causavam, tinham desaparecido das mi nhas virilhas, tal como a f
 ebre que me afligira a cabea. Continuava a sentir a transpirao que aquilo fizera aflorar  minha pele, conseguindo cheirar o mal que me atormentara, mas que 
sem dvida alguma desaparecera. - O que  que se passa? - perguntou o Delacroix numa voz esganiada. Eu tinha a impresso de que a sua voz vinha de muito longe, 
mas quando o John Coffey se inclinou para a frente, interrompendo o contacto visual que mantivera comigo at ento, de sbito, a voz do pequeno cajun tornou-se clara. 
Era como se algum houvesse retirado bolas de algodo, ou um par de tampes, das minhas orelhas. O que  que ele lhe est a fazer, chefe? No lhe dei resposta. O 
Coffey continuava debruado para a frente, com o rosto contorcido e a garganta que parecia querer rebentar. Os olhos estavam esbugalhados. Tinha a aparncia de um 
homem com um osso de galinha atravessado na garganta. - John! - gritei. Comecei a dar-lhe palmadas nas costas; no me ocorreu outra cois
 a para fazer. - John, o que  que aconteceu contigo?

Ele estremeceu por baixo da minha mo e emitiu um som engasgado, que deixava adivinhar nsias de vmito. A sua boca abriu-se, da mesma forma que os cavalos, por 
vezes, abrem as suas, a fim de permitir a entrada do freio - relutantemente e com os lbios arreganhados para trs, revelando os dentes, numa espcie de esgar desesperado. 
Pouco depois, os seus dentes tambm se entreabriram e ele soltou uma nuvem de insectos negros pequenssimos, os quais se assemelhavam a mosquitos ou a moscas. Esvoaavam 
furiosamente entre os seus joelhos, mas logo depois ficaram brancos e desapareceram. 165 De repente, senti que todas as foras abandonavam a parte do meio do meu 
corpo. Era como se os msculos naquela regio se tivessem transformado em gua. Deixeime descair contra a superfcie da parede de pedra da cela do Coffey. Recordo-me 
de ter pensado no nome do Salvador - Cristo Cristo, Cristo, repetindo-o vezes sem conta - e tambm me lembro de que me ocorreu qu
 e a febre me fizera entrar em delrio. E foi tudo. Nessa altura, dei-me conta de que o Delacroix gritava por ajuda; anunciava ao mundo que o John Coffey estava 
a matar-me, com toda a fora dos seus pulmes. O Coffey encontrava-se debruado sobre mim, sem dvida, mas apenas para se certificar de que eu estava bem. - Cala 
a boca, Del - ripostei, levantando-me da tarimba. Fiquei  espera que as dores me dilacerassem as entranhas, mas tal no aconteceu. Sentia-me muito melhor. De verdade. 
Embora tivesse uma ligeira tontura, esta desapareceu antes mesmo de eu ter estendido a mo para me agarrar s barras da porta da cela do Coffey, a fim de me equilibrar. 
- Estou muitssimo bem. - Saia j da - disse o Delacroix numa voz que parecia a de uma velhota nervosa a dizer a uma criana que descesse de uma macieira. - No 
deveria ter entrado na cela sem haver mais um guarda no bloco. Olhei para o John Coffey, que continuava sentado na tarimba, tendo colocado a
 s suas mos enormes sobre os joelhos grossos que nem troncos. O John Coffey retribuiu-me o olhar. Foi obrigado a inclinar a cabea um pouco para cima, mas no muito. 
- O que  que tu fizeste, matulo? - perguntei em voz baixa. - O que  que me fizeste? - Consegui evitar o mal - respondeu ele. - Consegui evitar o mal, no  verdade? 
- Sim, suponho que sim, mas como? Como  que conseguiste evitar o mal? Abanou a cabea - para a direita, esquerda e de volta ao centro, onde se imobilizou. No sabia 
como  que tinha evitado o mal (como  que havia curado o mal); o seu rosto plcido sugeria que se estava nas tintas - tal como eu me estaria nas tintas acerca da 
mecnica de uma corrida se fosse  frente durante os ltimos cinquenta metros dos trs quilmetros da corrida do 4 de Julho. Ainda pensei em lhe perguntar como  
166 que tinha descoberto que eu estava doente, s que eu sabia antecipadamente que teria como resposta outro sacudir de ca
 bea. Li algures uma frase de que nunca me esqueci, qualquer coisa sobre "um enigma envolto num mistrio". Era isso mesmo o que o John Coffey era, e suponho que 
ele s conseguia dormir  noite porque no se interessava por nada. O Percy costumava apelid-lo de mentecapto, o que era um termo cruel, mas que no se encontrava 
muito longe da verdade. O nosso matulo conhecia o seu nome, sabendo que no se escrevia da mesma forma que a bebida, e isso era mais ou menos tudo o que lhe interessava 
saber. Como que a dar mais nfase a essa realidade, abanou de novo a cabea daquela maneira to deliberada e estendeu-se em cima da tarimba com as mos entrelaadas 
por baixo da bochecha esquerda, como se esta fosse uma almofada, mantendo o rosto virado para a parede. As suas pernas estavam suspensas do fundo do colcho, desde 
as canelas at aos ps, mas isso nunca pareceu incomod-lo. A parte de trs da camisa estava arrepanhada para cima, o que me pe
 rmitia avistar as cicatrizes que se entrecruzavam na sua pele. Abandonei a cela, fechei-a  chave e olhei para o Delacroix, que se encontrava agarrado s grades, 
olhando-me com uma expresso de ansiedade. Talvez at mesmo com um certo

receio. O Mister Jingles estava empoleirado em cima do ombro, com os seus bigodes finos que fremiam como se fossem filamentos. - O que  que aquele escarumba lhe 
fez? - perguntou o Delacroix. - Foi bruxedo? - Falava com aquele sotaque cajun que lhe era peculiar. - No sei de que  que ests para a a falar, Del. - O diabo 
 que no sabe! Olhe bem para si! Todo mudado! Chefe, at est a andar de uma maneira diferente! De facto,  provvel que eu caminhasse de maneira diferente. Tinha 
uma sensao maravilhosa de calma nas minhas virilhas, um sentimento de paz to extraordinrio que quase se lhe poderia chamar xtase algum que tenha sentido dores 
atrozes, e que depois recuperou, sabe perfeitamente o que quero dizer. - Est tudo bem, Del - insisti. - O John Coffey teve um pesadelo e nada mais. - Ele  um homem 
de bruxarias! - afirmou o Delacroix com toda a veemncia. Acima do seu lbio superior haviam - 167 -se agrupado vrias gotcu
 las de suor. No conseguira ver muita coisa, somente o suficiente para o assustar de morte. - Ele  um homem de vodu! - acrescentou. - O que  que te leva a dizer 
isso? O Delacroix estendeu a mo e agarrou no rato. Com a palma da mo em forma de concha levou-o  face. Da algibeira retirou um fragmento de qualquer coisa amarelada 
um daqueles rebuados de hortel-pimenta. Estendeu-o para o rato, mas este inicialmente ignorou a guloseima, preferindo esticar o pescoo na direco do homem, cheirando 
o seu bafo da mesma maneira que uma pessoa poderia cheirar um ramo de flores. Os seus pequenos olhos, semelhantes a contas negras e brilhantes, cerraram-se quase 
por completo, numa expresso que se igualava a um sentimento de xtase. O Delacroix beijou-lhe o focinho, o que o rato permitiu. Em seguida agarrou no bocado de 
rebuado, comeando a mordisc-lo. O Delacroix ficou a observar o bicho durante mais algum tempo, aps o que olhou para mim. De cho
 fre, percebi tudo. - O rato contou-te - disse eu. - Estou certo? - Oui. - Tal como te segredou o seu nome - acrescentei. - Oui - murmurou-me ao ouvido. - Deita-te, 
Del - continuei. - Descansa um pouco. Todos esses segredos devem cansar-te muito. O Delacroix acrescentou mais qualquer coisa - acusou-me de no acreditar no que 
ele me dizia, suponho eu. Uma vez mais, tive a impresso de que a sua voz vinha de muito longe. E quando regressei  mesa do guarda de servio, mal tinha a sensao 
de estar a caminhar - era mais como se flutuasse, ou talvez mesmo nem sequer me deslocasse, com as celas a passarem por mim em ambos os lados, adereos de filmes 
e rodas escondidas. Comecei a sentar-me de maneira normal, mas a meio dos meus movimentos, senti os joelhos a desfalecerem e deixei-me cair em cima da almofada azul 
que o Harry trouxera de casa no ano anterior, instalando-me sobre o assento da cadeira. Imagino que se a cadeira no tivesse estado ali, teria cado redo
 ndamente no cho. Deixei-me ficar sentado, sentindo aquele nada nas partes ntimas, onde ainda no havia dez minutos tinha lavrado o incndio de uma floresta. Eu 
consegui evitar o mal, no  verdade?, dissera o John Coffey, e isso era verdade no que dizia respeito ao meu corpo. No entanto, em relao  minha paz de esprito 
o assunto era outro. Isso ele no havia evitado nem um pouquinho. O meu olhar pousou no amontoado de impressos debaixo do cinzeiro de zinco que tnhamos num dos 
cantos da mesa. Escritas em maisculas ao cimo estavam as palavras RELA TRIO DO BLOCO, e abaixo, mais ou menos a meio da folha, havia um espao em branco com o 
cabealho Relatrio de Todas as Ocorrncias Anormais. No relatrio que elaboraria naquela noite, servir-me-ia desse mesmo espao para descrever a chegada do William 
Wharton ao bloco, cheia de cor e de aco. Mas suponhamos que eu tambm relatava o que me acontecera na cela do John Coffey? Obser
 vei-me a mim

prprio a agarrar no lpis - aquele cuja ponta o Brutal lambia constantemente afim de escrever uma nica palavra em letras maisculas: MILAGRE. Certamente que isso 
teria imensa graa, mas em vez de sorrir, fiquei de repente com a certeza de que iria chorar. Cobri o rosto com as mos, com as palmas contra a boca para poder abafar 
os soluos - no queria assustar o Del outra vez, exactamente na altura em que ele comeara a acalmar-se - mas os soluos de choro no me saram da garganta. Tambm 
no me assomaram lgrimas aos olhos. Ao fim de alguns momentos, baixei as mos, pousando-as sobre o tampo da mesa, onde as entrelacei. No sabia o que  que estava 
a sentir; o nico pensamento claro que tinha na cabea era o desejo de que ningum aparecesse no bloco at eu ter recuperado um pouco o domnio sobre mim prprio. 
Receava aquilo que eles pudessem ler na minha expresso. Agarrei num dos impressos intitulados "Relatrio do Bloco"
 . Tencionava aguardar at me ter acalmado um pouco mais para comear a descrever como  que a minha ltima criana problemtica estivera quase a estrangular o Dean 
Stanton, mas entretanto poderia iniciar o preenchimento do resto de toda aquela treta. Pensei que a minha letra talvez ficasse esquisita - tremida - mas verifiquei 
que me saa quase como de costume. Cerca de cinco minutos depois de ter comeado, pousei o lpis e dirigi-me para os lavabos adjacentes ao meu gabinete, a fim de 
urinar. No tinha muita necessidade de ir, todavia, consegui reunir o suficiente para pr  prova o meu novo estado. Enquanto ali fiquei,  espera que o lquido 
comeasse a 168 169 jorrar, tive a certeza de que iria doer-me tanto como nessa manh, como se estivessem a passar pequenos estilhaos de vidro modo; ao fim e ao 
cabo, o que ele me tinha feito no seria mais do que o efeito de uma espcie de transe hipntico, e que at certo ponto poderia ser
  um alvio, apesar das dores. S que no senti quaisquer dores, e o fluxo que saiu para a retrete era lmpido, sem o mnimo vestgio de pus. Abotoei a braguilha, 
puxei a corrente do autoclismo e regressei  mesa do guarda de servio, sentando-me uma vez mais. Eu sabia o que tinha acontecido; suponho que o sabia mesmo quando 
tentava dizer a mim mesmo que fora hipnotizado. Eu experimentara uma cura milagrosa, uma autntica "Jesus Seja Louvado, o Senhor  Todo-Poderoso". Como em rapaz 
estava acostumado a ir s igrejas baptistas ou pentecostalistas que num dado ms a minha me e as irms agraciavam com a sua presena, tinha ouvido o suficiente 
sobre as histrias miraculosas de "Jesus Seja Louvado, o Senhor  TodoPoderoso". No acreditava em todas elas, mas havia bastantes pessoas em que eu acreditava. 
Uma destas era um homem de nome Roy Delfines, que vivia com a sua famlia cerca de trs quilmetros mais abaixo, na mesma rua que ns, q
 uando eu tinha mais ou menos seis anos. Delfines tinha decepado acidentalmente com um machado o dedo mindinho do filho, quando o garoto, num gesto inesperado, deslocara 
a mo sobre o tronco que segurava sobre o cepo das traseiras, onde era costume o pai rachar a lenha. O Roy Delfines dissera que tinha, praticamente, desgastado a 
carpete com os seus joelhos durante esse Outono e Inverno; na Primavera, o dedo do rapaz tinha voltado a crescer. At mesmo a unha tinha crescido de novo. Eu acreditei 
no Roy Delfines quando ele .apresentou o seu testemunho na reunio de jbilo, de quinta-feira  noite. Nas suas palavras adivinhava-se uma honestidade to franca 
e to pouco complicada quando ele falou ali  frente dos outros, com as mos enfiadas nos bolsos do fato-macaco, que era impossvel no se acreditar no que ele dizia. 
- O rapaz sentia algumas comiches quando o dedo comeou a crescer, e ficava acordado  noite - disse Roy Delfines -, mas ele sabia q
 ue aquelas comiches eram do Senhor, e ue no devia fazer nada. - Jesus Seja Louvado, o Senhor ~ Todo-Poderoso. A histria do Roy Delfines era apenas uma de entre 
muitas; eu cresci numa tradio de milagres e de curas. Cresci

tambm na crena das bruxarias: gua mgica para as verrugas, musgo colocado debaixo da almofada para aliviar os desgostos de amor, e,  claro, aquilo a que costumvamos 
chamar haints - mas eu no estava em crer que o John Coffey fosse um homem de bruxarias. Eu tinha-o olhado bem no fundo dos olhos. Porm, mais importante do que 
isso, tinha sentido o toque da sua mo. Ter sido tocado por ele foi como se tivesse sido tocado por um mdico estranho e maravilhoso. Eu consegui evitar o mal, no 
 verdade? Aquilo continuava a ressoar na minha cabea, como o trecho de uma cano que no conseguimos afastar do pensamento, ou palavras que se proferissem para 
lanar um encantamento. Eu consegui evitar o mal, no  verdade? S que ele no o tinha feito. Deus tinha. A utilizao que o John Coffey fazia da palavra "eu" poderia 
ser levada  conta da ignorncia, e no  do orgulho, mas eu sabia - pelo menos acreditava - no que tinha apre
 ndido sobre as curas nessas igrejas de Jesus Seja Louvado, o Senhor  Todo-Poderoso, amens proferidos no meio de igrejas em pinhais, que tanto a minha me de vinte 
e dois anos como as minhas tias muito amavam: esse gnero de curas nunca tem nada a ver com o que  curado, nem com o que cura, mas sim com a vontade de Deus. Que 
algum rejubile perante os doentes que so curados  normal, mas a pessoa que foi curada passa a ter a obrigao de perguntar porqu - de meditar na vontade de Deus, 
assim como em todas as coisas que Deus teve de fazer para cumprir a Sua vontade. O que  que Deus queria de mim, em relao a este caso? O que  que Ele desejava 
com tanta intensidade para colocar o poder da cura nas mos de um assassino de crianas? Estar no bloco em vez de em casa, doente que nem um co, a tremer na cama 
com o fedor das sulfamidas a ser expelido pelos poros? Talvez;  possvel que o destino me tenha colocado ali, em vez de ter ficado e
 m casa, para o caso de o Bill "Selvagem" Wharton decidir desencadear outra fria, ou ainda para me assegurar de que o Percy Wetmore no enveredava por outra situao 
perigosa e potencialmente destrutiva. Nesse caso, muito bem. Pois que o fosse. Eu manterme-ia de olhos bem abertos... e de boca bem fechada, muito em especial quanto 
s curas milagrosas. Ningum sentiria curiosidade, por eu estar com melhor 170 aspecto; eu dissera a toda a gente que j me sentia melhor, e at esse dia acreditara 
sinceramente que era esse o caso. Dissera mesmo ao director Moores que j estava a caminho da cura. Apesar de o Delacroix ter visto qualquer coisa, eu estava certo 
de que ele tambm ficaria calado (provavelmente com receio de que o John Coffey lanasse um encantamento sobre ele prprio, caso falasse do assunto). Quanto ao prprio 
Coffey, muito possivelmente j se havia esquecido de tudo. Ao fim e ao cabo, ele no passava de um mero veculo de transmisso
 , alm de que no existia em todo o mundo um nico cano de esgoto que se recordasse da gua que tinha corrido pelo seu interior, depois de a chuva ter amainado. 
Nesta conformidade, resolvi manter a minha boca completamente selada quanto quele assunto, sem fazer ideia de que em breve estava a contar a histria e de a quem 
a contaria. O certo  que sentia curiosidade quanto ao nosso matulo, no servindo de nada querer negar esse facto. Depois do que me tinha acontecido ali, na cela, 
sentiame mais curioso do que nunca. 4 Antes de me ir embora nessa noite, combinei com o Brutal para que me substitusse no dia a seguir, no caso de eu chegar um 
pouco mais tarde. Quando me levantei na manh seguinte, pus-me a caminho de Tefton, localidade situada no municpio de Trapingus. - No sei se gosto que te preocupes 
tanto com esse fulano, o Coffey - dissera a minha mulher, entregando-me a merenda que preparara; a Janice nunca confiou nessas bancas de hambrgue
 res que existem  beira da estrada; costumava dizer que em cada uma delas havia uma dor de barriga  espera., - Isso no parece nada teu, Paul.

- Eu no estou preocupado com ele - retorqui. - Estou apenas curioso e nada mais. - A minha experincia diz-me que uma coisa leva  outra - retorquiu a Janice num 
tom acerbado, e deu-me um beijo na boca, vindo bem do fundo do corao. - Pelo menos ests com melhor aspecto, tenho de admitir isso. Durante algum tempo conseguiste 
pr-me nervosa. A canalizao est toda curada? 172 - Completamente curada - confirmei e l me pus a caminho, entoando canes como por exemplo, Come, Josephine, 
in My Flying Machine e We're in the Money, a fim de fazer companhia a mim prprio. Em primeiro lugar, dirigi-me para os escritrios do Intelligencer de Tefton, onde 
fui informado de que o Burt Hammersmith, o sujeito com quem eu queria falar, devia estar no tribunal. De facto assim fora, de acordo com o que me disseram no tribunal, 
mas ele sara depois de ter rebentado um cano da gua a meio do julgamento de um caso de estupro (nas pginas do Intelligencer o c
 aso seria referido como "ataque a uma mulher", que era a forma de descrever esse gnero de ocorrncia nesses tempos, antes do aparecimento em cena de Ricki Lake 
e Carnie Wilson). Calcularam que o mais certo seria ele ter ido para casa. Numa estrada de terra batida to estreita e cheia de sulcos que nem sequer me atrevia 
a percorr-la com o meu Ford, deram-me algumas indicaes que segui at ter encontrado o homem que procurava. Fora o Hammersmith quem escrevera a maior parte dos 
artigos relativos ao julgamento do Coffey, e atravs dele eu tomara conhecimento da maior parte dos pormenores que haviam envolvido a breve caada ao homem que culminara 
na deteno do Coffey. Como  evidente, estou a referirme aos aspectos que a redaco do Intelligencer considerou serem demasiado macabros para publicao. Mrs. 
Hammersmith era uma mulher ainda bastante jovem, senhora de um rosto bonito, mas que acusava cansao, e tinha as mos vermelhas por causa
 da lixvia. No me perguntou o que  que me levara ali, limitando-se a conduzir-me atravs de uma pequena casa cheia da fragrncia de biscoitos a cozerem no forno 
at um alpendre nas traseiras, onde o marido se sentava com uma garrafa de refrigerante na mo, tendo em cima das coxas uma edio da revista Liberty por abrir. 
O pequeno jardim das traseiras era em declive; na base deste encontravam-se dois garotos que discutiam e riam por causa de um baloio. Do alpendre era impossvel 
dizer qual era o seu sexo, mas fiquei com a impresso de que eram um rapaz e uma rapariga.  possvel que fossem gmeos, o que colocava o pai numa perspectiva bastante 
interessante  luz do papel perifrico que desempenhara no julgamento do Coffey. Mais prximo, como se fosse uma ilha no meio de uma zona coberta de cagalhes onde 
no havia nada plantado, encontrava -se uma casota de co. No se via o mais pequeno sinal do Fido; era outro dia anormalmente
 quente, e calculei que deveria estar dentro da sua casota, a passar pelas brasas. - Burt, tens visitas - anunciou Mrs. Hammersmith. - Est bem - replicou ele. Olhou 
para mim, olhou para a mulher, depois olhou para os filhos, onde era bvio que o seu corao se encontrava. Era um homem magro - quase doentiamente magro, como se 
s h muito pouco tempo  que houvesse comeado a recuperar de uma doena grave - e nas fontes o cabelo j comeava a deixar ver umas entradas. A medo, a mulher 
tocou-lhe num dos ombros com as mos avermelhadas e inchadas da lavagem da roupa. O marido no a olhou nem fez qualquer meno de lhe desejar tocar; momentos depois, 
ela retirou a mo. Foi ento que me ocorreu, de uma maneira imprecisa, que eles mais pareciam irm e irmo, em vez de marido e mulher - ele tinha a inteligncia, 
enquanto ela possua a beleza, mas nem um nem outro conseguira escapar a algumas parecenas que se adivinhavam mais do que se vi
 am, a uma hereditariedade a que nunca se podia escapar. Mais tarde, j a caminho de casa, compreendi que eles no tinham nenhuma semelhana entre si; aquilo que 
dava essa impresso era o rescaldo de uma tenso latente e um desgosto que teimosamente se recusava a desaparecer.  bastante estranha a forma como o sofrimento 
marca as nossas feies, emprestando-nos as parecenas existentes entre familiares. - Apetece-lhe uma bebida fresca, Mister?... - perguntou ela pouco depois.

- O nome  Edgecombe - apresentei-me. - Paul Edgecombe. Muito agradecido. Uma bebida refrescante seria uma maravilha, minha senhora. Ela regressou ao interior de 
casa. Estendi a mo a Hammersmith, que a apertou num gesto breve. O seu apertar de mo era flcido e frio. Nunca afastou o olhar dos garotos que brincavam ao fundo 
do jardim. - Mister Hammersmith, eu sou o superintendente do Bloco E da Priso Estadual de Cold Mountain. E... - Eu sei o que  - atalhou ele, fitando-me com um 
pouco mais de interesse. - Com que ento, o manda-chuva dos guardas prisionais da Milha Verde encontra-se no jardim da minha casa, to grande como a prpria vida. 
O que  que o fez percorrer oitenta quilmetros para conversar com o nico reprter a tempo inteiro do pasquim local? 174 - O John Coffey - respondi. Estou convencido 
de que eu esperava que ele reagisse de uma maneira mais intensa (as crianas, que poderiam ter sido gmeos, gravadas no fundo da minha mente...
  e talvez tambm a casota do co; os Detterick tinham tido um co), contudo, o Hammersmith limitou-se a soerguer o sobrolho, bebendo um gole da sua bebida. - Neste 
momento, o Coffey  um problema seu, no  verdade? - perguntou o Hammersmith. - Ele no constitui um grande problema - repliquei. - No gosta do escuro e passa 
muito tempo a chorar, mas na nossa linha de trabalho nenhum destes aspectos constitui um problema por a alm. Costumamos ver muito pior. - Com que ento chora muito? 
- comentou o Hammersmith. - Pois bem, eu diria que ele tem muitas razes para chorar. Tendo em considerao o que fez. O que  que deseja saber? - Tudo o que me 
possa dizer. Eu j li os artigos que escreveu para o jornal; portanto, aquilo que me interessa  qualquer coisa que no tenha sido publicada na altura. Lanou-me 
um olhar agreste e cheio de secura. - Tal como por exemplo qual era o aspecto das garotinhas? O que  que ele lhes fez exactamente? =C
 9 esse o gnero de pormenores que lhe interessam, Mister Edgecombe? - No - respondi, mantendo uma voz calma. - No  nas gmeas Detterick que eu estou interessado, 
meu caro senhor. As pobrezinhas j morreram. Mas o Coffey no... pelo menos, ainda no, e sinto-me curioso a respeito dele. - Muito bem - acedeu o Hammersmith. - 
Puxe uma cadeira e sente-se, Mister Edgecombe. Desculpar-me- se lhe dei a impresso de ser um pouco acerbo, mas na minha profisso deparo com muitos abutres. Que 
diabo, eu prprio j fui acusado muitas vezes de ser um deles. S queria certificar-me da espcie de pessoa que o senhor . - E conseguiu certificar-se? - perguntei. 
- Calculo que sim - retorquiu ele num timbre de voz quase de indiferena. A histria que ele me contou assemelha-se bastante ao que eu descrevi anteriormente nesta 
narrativa - amaneira como Mrs. Detterick deparou com o alpendre vazio e com a porta de rede solta da dobradia superior, os coberto
 res amontoados a um canto e o sangue nos degraus, a forma co mo o marido e o filho tinham ido em perseguio do raptor das garotas; como o corpo dos guardas civis 
os tinham alcanado em primeiro lugar e encontrado o John Coffey no muito depois. A forma como o Coffey estivera sentado na margem do rio a lamentar-se e a chorar, 
com os corpos envolvidos pelos seus braos macios, como se as garotas fossem grandes bonecas de trapos. O reprter, magro que nem um espeto, com a camisa branca 
aberta no colarinho e calas cinzentas, expressava-se numa voz baixa desprovida de qualquer emoo... embora os seus olhos jamais se houvessem despregado dos seus 
prprios dois filhos, enquanto estes riam e implicavam um com o outro, sentando-se um de cada vez no baloio colocado  sombra, ao fundo do declive do jardim. A 
certa altura a meio da histria, Mrs. Hammersmith regressou com uma garrafa que continha uma bebida caseira no alcolica feita de razes, fo
 rte e deliciosa. Deixou-se ficar junto de ns por algum tempo, ouvindo a narrativa que interrompeu durante o tempo

necessrio para chamar as crianas, dizendo-lhes que tinha os biscoitos prestes a sarem do forno. - Vamos j, mam! - gritou a garotinha; a me voltou a entrar 
em casa. - Portanto, o que  que o leva a querer saber mais? - perguntou o Hammersmith depois de ter concludo a sua narrativa. - Nunca fui visitado por um guarda 
prisional,  a primeira vez que isso acontece. -Eu j lhe disse... - Sim, a curiosidade. Eu sei que as pessoas se sentem curiosas, chego mesmo a dar graas a Deus 
por isso, pois se assim no fosse ficaria sem emprego e talvez me visse obri gado a trabalhar para ganhar a vida. Mas oitenta quilmetros  um percurso bastante 
grande apenas para satisfazer uma simples curiosidade, especialmente quando os ltimos trinta e dois so por estradas ms. Por conseguinte, porque  que no me diz 
a verdade, Edgecombe? J satisfiz a sua curiosidade, agora  a sua vez de satisfazer a minha. Pois bem, poderia eu dizer, eu tinha uma i
 nfeco urinria e o John Coffey ps as suas mos no meu corpo e curou-a. O homem que violou e assassinou essas duas garotinhas fez isso mesmo. Assim, comecei a 
questionar-me a seu respeito,  claro... qualquer outra pessoa tambm o faria. Cheguei mesmo a perguntar a mim mesmo se o Homer Cribus e o seu assistente Rob McGee 
no teriam prendido o homem errado. Apesar de todas as provas incriminatrias que existiam contra ele, interrogueime a esse respeito. Porque quando um homem tem 
nas suas mos poderes como esse, regra geral no o consideramos capaz de violar e assassinar crianas. No, talvez isso no fosse o mais adequado. - H duas coisas 
que me intrigam - continuei. - A primeira  saber se ele j tinha feito uma coisa semelhante anteriormente. O Hammersmith voltou-se para mim; subitamente, os seus 
olhos reflectiam argcia aliada a um brilho de interesse, e apercebi-me de que era um fulano inteligente. Talvez fosse mesmo brilhante. - Po
 rqu? - perguntou. - O que  que voc sabe, Edgecombe? O que  que ele lhe disse? - Nada. Mas um tipo que faz este gnero de coisa uma vez, normalmente j a fez 
noutra ocasio. Adquirem o gosto por isso. - Sim - concordou ele. - De facto. L isso adquirem. - E ocorreu-me que seria bastante fcil investigar o seu passado 
e saber se  ou no verdade. Um homem do tamanho dele e ainda por cima negro, no deve ser muito difcil de localizar. - Isso  o que o senhor pensa, mas chegaria 
 concluso de que est redondamente enganado - retorquiu ele. - Pelo menos no caso do Coffey. Eu sei o que estou a dizer. - J tentou? - J e no cheguei a concluso 
nenhuma. Dois homens que trabalham no caminho-deferro pensaram t-lo avistado nos estaleiros de Knoxville, dois dias antes de as garotas Detterick terem sido mortas. 
O que no constituiu grande surpresa; ele encontrava-se do outro lado do rio em relao  linha do caminho-de-ferro da
 Great Southern quando eles o apanharam e, provavelmente, foi dessa maneira que aqui chegou vindo do Tennessee. Recebi uma carta de um homem que me disse que tinha 
contratado um negro, corpulento e calvo, para carregar e descarregar caixotes, no incio da Primavera desse ano, no Kentucky. Enviei-lhe uma fotografia do Coffey 
e ele confirmou que se tratava do mesmo homem. Mas para alm disso... - O Hammersmith encolheu os ombros e abanou a cabea. - No acha que isso  um pouco estranho? 
- perguntei. - Parece-me que  at muitssimo estranho, Mister Edge 176 177 combe.  como se ele tivesse cado do cu. E ele prprio no serve de grande ajuda; no 
 capaz de se recordar esta semana daquilo que aconteceu na anterior. - No, de facto, no  - concordei. - Como  que o senhor explica isso? - Estamos no meio da 
Grande Depresso - respondeu ele -,  assim que eu explico a situao. Por todas as estradas s se v gente. Os de Oklahom
 a querem ir para a Califr nia apanhar pssegos, enquanto os brancos pobres vindos dos confins pretendem ir para Detroit trabalhar nas fbricas de automveis; por 
seu lado, os

negros do Mississipi desejam ir para a Nova Inglaterra trabalhar nas fbricas de calado ou na indstria txtil. Todos, quer sejam brancos ou negros, esto convencidos 
de que, a sua situao econmica melhorar noutro lugar qualquer. E o raio da maneira de viver dos Americanos. At mesmo um gigante como o Coffey no desperta as 
atenes onde quer que v... isto , at decidir matar duas rapariguinhas. Duas rapariguinhas brancas. - Acredita realmente nisso? - perguntei. - Por vezes acredito 
- respondeu o Hammersmith, lanando-me um olhar brando com o seu rosto demasiado magro. Entretanto, a mulher assomara  janela da cozinha, qual maquinista na dianteira 
de uma automotora. - Meninos! Os biscoitos esto prontos! - Voltou-se para mim. - Apetece-lhe um biscoito de aveia com passas, Mister Edgecombe? - Tenho a certeza 
de que esto deliciosos, minha senhora, mas desta vez declino a oferta. - Est bem - redarguiu ela, regressando  cozinh
 a. - J reparou nas cicatrizes que ele tem no corpo? - perguntou o Hammersmith abruptamente. Continuava a observar os filhos, os quais no conseguiam afastar-se 
dos prazeres do baloio, nem sequer perante a perspectiva de poderem comer biscoitos de aveia com passas. - Sim - respondi, sentindo-me surpreendido por ele as ter 
visto. O Hammersmith reparou na minha reaco e riu-se. - A grande vitria do advogado de defesa foi fazer com que o Coffey despisse a camisa para mostrar essas 
mesmas cicatrizes ao jri. O advogado da acusao, o George Peterson, protestou que se fartou, mas o juiz permitiu que ele as mostrasse. O velho George poderia ter 
poupado o seu fle 178 go... Os jurados por estas bandas no se deixam convencer por toda essa psicologia da treta de que as pessoas que foram maltratadas no so 
capazes de conter os seus impulsos malvolos. Acreditam que as pessoas podem evitar essas aces.  um ponto de vista por que eu nutro bastant
 e simpatia... mas o certo  que essas cicatrizes eram bastante chocantes. Reparou em alguma coisa de especial nelas, Edgecombe? Tivera oportunidade de ver o homem 
nu no chuveiro... e claro que reparara; compreendia perfeitamente de que  que o Hammersmith estava a falar. - So todas entrecruzadas, chegam mesmo a assemelhar.Se 
quase a uma trelia. - Sabe o que  que isso significa? - Que algum o zurziu com toda a violncia quando ainda era criana, como se quisesse mat-lo - respondi. 
- Antes de ter crescido tudo o que tinha a crescer. - Mas a realidade  que ele no morreu, no  verdade, Edgecombe? Poderiam ter poupado o chicote, limitando-se 
a afog-lo no rio, como se fosse um gatinho abandonado, no lhe parece? Suponho que teria sido de boa poltica eu ter concordado, pondo-me a andar dali para fora, 
mas senti-me incapaz de o fazer. Eu tinha-o visto. E tambm o tinha sentido. Sentira o toque das suas mos. - Ele ... estranho - acres
 centei. - Mas o certo  que parece no existir uma violncia verdadeira no seu ntimo. Estou a par das circunstncias em que ele foi encontrado, e  bastante difcil 
equacionar isso com o que vejo nele, dia aps dia, l na priso. Sei como so os homens violentos, Mister Hammersmith. Naquele momento, como  evidente, era no Wharton 
que eu pensava, no Wharton a tentar estrangular o Dean Stanton com a corrente que lhe prendia os pulsos, gritando: Ennaaa, rapazes! Isto  que  uma festa de arromba, 
no acham? Naquele momento, o Hammersmith olhava para mim com toda a sua ateno, esboando um pequeno sorriso de incredulidade que, devo confessar, no me agradou 
muito. - O senhor no veio at minha casa para saber se ele teria ou no morto qualquer outra garotinha algures - observou ele. - Veio c para averiguar se eu acho 
que ele possa t-lo feito.  isso, no  verdade? Confesse-se, Edgecombe. Bebi o que restava da minha bebi
 da e coloquei a garrafa sobre uma mesinha. 179 - Pois bem. Acha que sim? - perguntei.

- Meninos! - gritou ele, chamando os filhos, e inclinando-se um pouco para a frente. - Venham j para aqui e vo comer os vossos biscoitos! - Em seguida, voltou 
a recostar-se para trs na cadeira, olhando para mim. Aquele pequeno sorriso, aquele que no me agradava muito, voltou a reaparecer nos seus lbios. - Vou dizer-lhe 
uma coisa - continuou ele. - Tambm vai querer ouvir com bastante ateno, porque isto poder ser a tal coisa que precisa de saber. - Estou a ouvir - redargui. - 
Ns tnhamos um co a que chamvamos Sir Galahad - disse ele, indicando a casota do co com o polegar apontado. - Era um bom co. De nenhuma raa em especial, mas 
meigo. Calmo. Sempre pronto a lamber-nos a mo ou a ir buscar um pau que tivssemos arremessado. H uma data de ces rafeiros como ele, no lhe parece? Encolhi os 
ombros e assenti. - Sob muitos aspectos, um bom co rafeiro assemelha-se muito ao seu negro continuou o Hammersmith. - Ficamos a con
 hec-lo e com muita frequncia comeamos a dedicar-lhe afecto. No serve qualquer objectivo em particular, mas ainda assim continuamos a mant-lo connosco, porque 
pensamos que ele gosta de ns. Quando se tem sorte, Mister Edgecombe, nunca se chega a verificar qu isso no corresponde  verdade. A Cynthia e eu no tivemos essa 
sorte. - Suspirou... um som alongado e de uma certa forma fantasmagrico, como o vento a dispersar folhas mortas cadas no cho. Uma vez mais, apontou na direco 
da casota do co, o que me fez perguntar a mim mesmo como  que eu no tinha ainda reparado no estado geral de abandono a que fora votada, ou no facto de muitos 
dos excrementos terem adquirido na superfcie uma camada esbranquiada e esborovel. - Eu costumava limpar as porcarias que ele fazia - continuou o Hammersmith -, 
e mantinha sempre o tecto da casota em boas condies, para que no entrasse chuva no interior. Nesse aspecto, o Sir Galahad t
 ambm era como o seu negro do Sul, que no  capaz de fazer essas coisas para seu benefcio. Agora nem lhe toco, desde o acidente que no me aproximo da casota... 
se  que se lhe pode chamar um acidente. Fui at ali com a minha carabina e disparei sobre ele, mas desde ento mantenho-me afastado. No consigo aproximar-me. Suponho 
que acabarei por o fazer, com o tempo. Limparei as porcarias e destruirei a casota.

Naquele momento, as crianas dirigiam-se para casa e, de repente, eu no quis que elas avanassem; de sbito, aquela era a ltima coisa  face da Terra que eu desejava 
que aconte cesse. A garotinha no apresentava nada de anormal, mas o rapazinho... Subiram os degraus com estrpito, olharam para mim e comearam a rir-se  socapa, 
dirigindo-se para a porta da cozinha... - Caleb - chamou o Hammersmith. - Vem at aqui. S por um minuto... A garotinha - de certeza que era gmea do garoto, ambos 
tinham de ser da mesma idade - continuou em direco  cozinha. O rapazito aproximou-se do pai, mantendo o olhar preso nos ps. Tinha conscincia de que era feio. 
Teria apenas uns quatro anos, calculei eu, mas com aquela idade j tinha a percepo du que era feio. O pai colocou dois dedos por baixo do queixo do filho, tentando 
obrig-lo a erguer o rosto. De incio, o garoto ops resistncia, at o pai ter recomeado a falar. - Por favor
 , meu filho - proferiu ele num tom de tanta doura, amor e tranquilidade, que o garoto fez como lhe era pedido. Da linha do couro cabeludo, atravessando-lhe a testa, 
saa uma cicatriz enorme e circular, que percorria um olho sem vista, indiferente e retorcido, e se estendia at um dos cantos da boca, que apresentava um aspecto 
desfigurado, semelhante ao esgar cheio de cinismo de um batoteiro, ou talvez de um homem libertino. Uma das faces era macia e bonita; a outra estava toda arrepanhada 
como o cepo irregular de uma rvore. Calculo que naquela superfcie tivesse existido um buraco, mas, pelo menos isso havia sarado. - Ele s v de uma vista - informou 
o Hammersmith, acariciando a face deformada do filho num gesto cheio de amor. - Suponho que ele teve sorte por no ter

cegado dos dois olhos. Costumamos ajoelharmo-nos e dar graas a Deus por essa benesse. No  verdade, Caleb? - Sim, senhor - respondeu o garoto com timidez... o 
garoto que seria espancado sem qualquer piedade no recreio da escola pelos colegas arruaceiros que fariam troa de si, a troco de uns miserveis anos de uma educao 
escolar de m qualidade; o garoto que nunca iriam chamar para tomar parte nas suas brincadeiras, e que, provavelmente, jamais haveria 180 de ter oportunidade de 
dormir com uma mulher cujos servios no houvesse pago antecipadamente, quando chegasse quela idade adulta em que isso passaria a ser uma necessidade; o garoto 
que iria estar sempre  margem do crculo iluminado e acolhedor formado pelos seus pares, o garoto que iria olhar-se ao espelho durante os prximos cinquenta, sessenta 
ou setenta anos, pensando sempre: "Feio, feio, feio!" - Vai  cozinha buscar os teus biscoitos - disse-lhe o pai, beijando a boca de esguelha d
 o filho. - Sim, senhor - aquiesceu Caleb, correndo para dentro de casa. O Hammersmith retirou um leno do bolso de trs das calas, e limpou os olhos: naquele momento 
estavam secos, mas imagino que se tenha habituado a t-los sempre humedecidos. - O co j estava c em casa quando eles nasceram - continuou ele. - Levei-o at casa 
para os farejar quando a Cynthia regressou com eles da maternidade; o Sir Galahad lambeu-lhes as mos. As mos pequenas dos meus filhos. - O Hammersmith acenou com 
a cabea como se estivesse a confirmar aquele facto perante si mesmo. - Costumava brincar com eles; lambia o rosto da Arlen at ela no poder conter o riso. O Caleb 
costumava puxar-lhe as orelhas e, quando comeou a dar os primeiros passos, s vezes circundava o jardim agarrado  cauda de Sir Galahad. O co nem sequer lhe dirigia 
um rosnar. A nenhuma das crianas. Naquele momento as lgrimas j lhe tinham assomado aos olhos; limpou-as num gesto auto
 mtico, tal como um homem costuma fazer depois de ter adquirido muita prtica. - No havia qualquer razo para isso - prosseguiu ele. - O Caleb no lhe fazia mal, 
no gritava com o animal, nada de nada. Eu sei. Estava sempre presente. Se no estivesse, quase de certeza que o meu filho teria morrido. O que aconteceu, Mister 
Edgecombe, resume-se a nada. O garoto limitou-se a colocar a sua face directamente em frente do focinho do co, e ocorreu  mente do Sir Galahad... ou ao que quer 
que seja que um co tem por mente... atirar-se a ele para lhe morder. Com a inteno de matar, se a oportunidade lhe surgisse. A criana encontrava-se mesmo  sua 
frente e o co no hesitou em morder. E foi isso mesmo que aconteceu com o Coffey. Ele estava l, viu as garotas no alpendre, apossouse delas, violou-as e depois 
assassinou-as. O senhor diz que deve 182 haver qualquer indcio de que ele tenha cometido anteriormente algo semelhante, e eu compreendo o q
 ue quer dizer, mas acontece que talvez ele no tenha feito nada disso antes. O meu co nunca tinha abocanhado ningum; isso s aconteceu dessa vez. Talvez, caso 
o Coffey fosse libertado, nunca mais voltasse a cometer um acto desses.  possvel que o meu co jamais voltasse a morder em algum. No entanto, eu no me preocupei 
com essa probabilidade, bem v. Fui buscar a minha carabina, agarrei-o pela coleira e alvejei-o em cheio no focinho. . O Hammersmith respirava a custo. - Sou uma 
pessoa to esclarecida como qualquer outra, Mister Edgecombe. Frequentei a Universidade em Bowling Green, formei-me em Histria e Jornalismo, e tambm estudei Filosofia. 
Gosto de me considerar um homem esclarecido. No me parece que a gente do Norte fosse dessa opinio, mas agrada-me pensar que sou um homem esclarecido. Por nada 
deste mundo estaria disposto a fazer reviver a escravatura. Na minha opinio, devemos ser humanos e generosos e envidar todos os esforo
 s para resolver os problemas de natureza racial. Todavia, no podemos esquecer-nos de que o seu negro voltar a morder se a oportunidade lhe voltar a aparecer, 
tal como um co rafeiro abocanhar se a hiptese lhe surgir e caso se

lhe meta isso na cabea. O senhor quer saber se ele cometeu esse acto, o seu Coffey lacrimoso, com o corpo coberto de cicatrizes, no  verdade? Acenei afirmativamente. 
- Oh, sim - prosseguiu o Hammersmith. - F-lo, sim. Que no lhe reste a mais pequena dvida e tome a precauo de no se pr de costas para ele.  possvel que no 
lhe acon tea nada uma vez, ou cem vezes... at mesmo um milhar de vezes... mas no fim... - Ergueu uma mo em frente dos meus olhos e fez estalar os dedos rapidamente, 
transformando a mo numa boca que morde. - Est a compreender o que lhe digo? Acenei que sim uma vez mais. - Ele violou as garotas, em seguida matou-as e depois 
lamentou o seu acto... mas, apesar disso, essas duas meninas no deixaram de ter sido violadas, essas duas meninas continuaram mortas. Mas vai tratar-lhe da sade, 
no  verdade, Edgecombe? Daqui a algumas semanas, certificar-se- de que ele jamais volta a ter a oportunidade de com
 eter um acto des 183 ses. - Com aquelas palavras, o Hammersmith ergueu-se da cadeira e dirigiu-se para o alpendre, lanando um olhar vago na direco da casota 
do co, erguida no meio daquele bocado de terreno mal cuidado, no centro daqueles excrementos j antigos. - Talvez possa desculpar - continuou ele -, mas, uma vez 
que no tenho de passar a tarde no tribunal, pensei em aproveitar a aportunidade para estar um pouco com a famlia. Os filhos s so crianas uma vez. - No se prenda 
por mim - disse eu. Sentia os lbios dormentes, como se no me pertencessem. - Permita-me que lhe agradea o tempo que me dispensou. - No tem importncia - retorquiu 
ele. Conduzi directamente da casa do Hammersmith para a penitenciria. Foi um percurso bastante longo, e desta feita no consegui encurt-lo entoando canes. Tinha 
a impresso de que todas as canes me haviam abandonado, pelo menos durante algum tempo. Continuava a ter gravada na m
 ente a imagem daquele garotinho com a face desfigurada. Assim como a mo do Hammersmith, com os dedos a deslocarem-se para cima e para baixo contra o polegar, simulando 
algo que abocanhava. 5 O Bill "Selvagem" Wharton efectuou a sua primeira jornada at  cela do isolamento logo no dia seguinte. Passou a manh e a tarde sossegado 
e manso que nem um cordeirinho, um estado de esprito que, viemos a descobrir ao fim de pouco tempo, no era nada normal na sua maneira de ser e que s significava 
a aproximao de complicaes. Ento, por volta das sete e meia desse fim de tarde, o Harry sentiu algo morno a molhar-lhe a bainha das calas do uniforme que vestira 
limpas nesse mesmo dia. Era mijo. O William Wharton estava de p junto das barras da cela, mostrando os seus dentes enegrecidos num esgar desmesuradamente arreganhado, 
e mijava na direco dos sapatos e das calas do Harry Terwilliger. - O porco do filho da puta deve ter andado a conter o mi
 jo durante todo o dia disse o Harry mais tarde, ultrajado e enfurecido. Pois bem, foi assim que as coisas aconteceram. Tinha 184 chegado a altura de mostrar ao 
William Wharton quem  que era o dono da festa do Bloco E. O Harry chamou-nos, ao Brutal e a mim; eu alertei o Dean e o Percy, que tambm estavam de servio. Como 
esto recordados, naquela altura tnhamos trs encarcerados e procedamos quilo a que chamvamos uma vigilncia apertada, com o meu grupo a entrar ao servio s 
sete da tarde e a sair s trs da manh perodo da noite em que era mais provvel ocorrerem complicaes - e dois outros turnos cobriam o resto do dia. Estes dois 
ltimos grupos eram constitudos maioritariamente por temporrios, e o Bill Dodge era, por via de regra, o responsvel por eles. Levando tudo em considerao, at 
que no era uma maneira ineficaz de gerir a situao, e eu achava que, assim que conseguisse transferir o Percy para o t
 urno do dia, a vida melhoraria bastante. Contudo, nunca cheguei a ter oportunidade de concretizar esse plano. Por vezes, pergunto a mim mesmo se

a situao se teria alterado, tivesse eu conseguido levar essa ideia a bom termo. Seja como for, na arrecadao existia um ramal da canalizao da gua, numa das 
paredes afastada da Velha Fasca. O Dean e o Percy ligaram-lhe uma mangueira de lona. Ficavam junto da vlvula para poderem abrir, caso tal fosse necessrio. O Brutal 
e eu dirigimo-nos num passo apressado para a cela do Wharton, onde este continuava de p com o mesmo esgar e com a ferramenta pendurada fora da braguilha. Eu j 
tinha retirado o colete-de-foras da cela do isolamento e pusera-o em cima de uma prateleira no meu gabinete na noite anterior antes de ir para casa, pensando que 
o mais certo seria virmos a precisar dele para a nossa nova criana problemtica. Naquele momento, j o tinha na mo, com o dedo indicador debaixo de uma das correias 
de lona. O Harry vinha atrs de ns, arrastando a mangueira, que atravessava o meu gabinete, descia pelos degraus da sala da arrecad
 ao e ia at  vlvula que deveria ser accionada pelo Percy logo que possvel. - Ei, gostaram da minha brincadeira? - perguntou o Bill Selvagem. Ria-se como uma 
criana num parque de diverses, as suas gargalhadas eram tantas que quase o impediam de falar, e pelas faces comearam a escorrer-lhe lgrimas gordas. Vocs vieram 
todos to depressa que devem ter gostado. Agora estou a preparar alguns cagalhes para acompanhar 185 o mijo. Uns que sejam bem bons, macios. Amanh j poderei oferec-los 
a todos... Entretanto, ele viu que eu abria a porta da cela; os seus olhos estreitaram-se. Viu que o Brutal empunhava o revlver numa das mos e o basto na outra; 
os seus olhos semicerraram-se ainda mais. - Vocs podem entrar aqui trazidos pelas vossas pernas, mas sairo deitados de costas.  o Billy the Kid quem vos garante 
isso - disse-nos ele todo cheio de fanfarronice. O seu olhar desviou-se para mim. - E se esto a pensar que vo co
 nseguir vestir-me esse casaco de malucos, preparem-se para uma grande surpresa, meus velhos. - No s tu quem d as ordens por aqui - repliquei. - J devias ter 
compreendido isso, mas calculo que sejas demasiado idiota para conseguir aprender alguma coisa. Acabei de abrir a porta da cela, tendo-a feito correr sobre a calha. 
O Wharton recuou at junto da tarimba, continuando a manter a picha pendurada de fora da braguilha, embora ti vesse as mos estendidas na minha direco, com as 
palmas para cima, indicando-me com os dedos que me aproximasse. - Chega-te c, meu grandessssimo filho da puta. - insultou-me ele. - Podes ter a certeza que algum 
vai aprender alguma coisa, mas aqui o rapaz  que est preparado para ser o professor. - Desviou o olhar para o Brutal, tendo-o mimoseado com o seu esgar de dentes 
enegrecidos. - Aproxima-te, matulo, tu vais ser o primeiro a levlas. Desta vez no podes apanhar-me de surpresa pelas costas. Baixa a arma.
 .. em qualquer dos casos, no vais atrever-te a dispar-la, no tens coragem, vamos l, de homem para homem. Vamos ver quem  que leva a melhor... O Brutal entrou 
na cela, mas no se dirigiu ao Wharton. Depois de ter transposto a porta, deslocou-se para a esquerda. Os olhos que o Wharton mantivera semicerrados at ento comearam 
a arregalar-se ao ver a mangueira apontada ao seu peito. - No, vocs no vo fazer isso - atalhou ele. - Oh, no, vocs... -Dean! - gritei. - Abre a vlvulal Abre-a 
toda! O Wharton deu um salto em frente, e o Brutal acertou-lhe em cheio na testa - a espcie de golpe com que certamente o Percy passava a vida a sonhar - assentando 
o basto com toda a fora acima do sobrolho do Wharton. Este, que dava a 186 impresso de estar convencido de que nunca nos vramos em situaes daquelas antes de 
ele ter aparecido no bloco, caiu logo de joelhos, com os olhos abertos mas sem ver nada. Em seguida, a gua come=E
 7ou a jorrar da mangueira, fazendo com que o Harry cambaleasse para trs devido ao impacte do jorro, mas ele equilibrou-se logo, mantendo o bocal nas mos apontado 
como se fosse uma arma. O forte esguicho de gua apanhou o Bill "Selvagem" Wharton em cheio no peito, fazendo-o rodopiar descontroladamente e arremessando-o para 
debaixo da tarimba.

Na sua cela, mais abaixo no corredor, o Delacroix saltava ora em cima de um p ora em cima do outro, cacarejando numa voz esganiada e praguejando contra o John 
Coffey, exigindo que este lhe dissesse o que  que estava a passar-se, enquanto este, por seu lado, choramingava; no meio de toda aquela algaraviada, o Delacroix 
perguntava ainda como  que o grand foul do novo rapaz gostava daquele tratamento de gua, estilo tortura chinesa. O John no lhe respondeu, limitandose a ficar 
em silncio com as suas calas demasiado curtas e as pantufas da priso. S lhe lancei um rpido olhar, mas este foi o suficiente para ver nele a mesma velha expresso, 
a qual reflectia uma mistura de tristeza e serenidade. Ficava-se com a sensao de que ele j tinha assistido a situaes daquelas, no apenas uma ou duas vezes, 
mas sim num milhar de ocasies diversas. - Fecha a gua! - gritou o Brutal por cima do ombro antes de avanar a correr pela cela aden
 tro. Agarrou firmemente no semiconsciente Wharton por baixo dos sovacos, co meando a arrast-lo de debaixo da tarimba. O Wharton tossia, emitindo sons gorgolejados. 
O sangue escorria-lhe para os olhos esbugalhados, vindo da regio acima das sobrancelhas, onde o basto do Brutal lhe abrira um rasgo na pele. Para o Brutal Howell 
e para mim, a rotina do colete-de-foras j se tinha transformado numa cincia cheia de preciso; ambos praticramos o processo, como se fssemos um par de danarinos 
de sapateado a executar um novo nmero. De vez em quando, essa prtica pagava os seus dividendos. Como por exemplo, naquela circunstncia. O Brutal ajudou o Wharton 
a levantar-se do cho, estendendo os braos para mim, da mesma maneira que uma criana seguraria num boneco desconjuntado. A percepo do que tinha acontecido s 
em francs no original: "grande louco". (N. da T.) naquele momento comeava a espelhar-se no olhar do Wharton, ciente de
 que, se no comeasse a debater-se de imediato, pouco depois seria tarde de mais, mas a ligao entre o seu crebro e os msculos continuava sem funcionar e, antes 
que ele conseguisse voltar a activ-la, enfiei-lhe nos braos as mangas do coletede-foras, enquanto o Brutal prendia as fivelas nas costas. Entretanto, agarrei 
nas correias dos punhos, puxei os braos do Wharton de forma a rodearem-lhe os flancos e uni-lhe os pulsos com outra correia de lona. O resultado final foi ele parecer 
que estava a abraar-se. - Raios te partam, meu grandessssimo atrasado mental... Como  que eles se esto a sair com ele? - perguntava o Delacroix em altos berros. 
Tambm ouvi os guinchos do Mister Jingles, como se o rato tambm desejasse inteirar-se da situao. Entretanto, apareceu o Percy com a camisa toda molhada e com 
a fralda de fora, devido ao esforo com a vlvula da gua; era tanta a excitao que ele sentia que tinha o rosto iluminado.
  O Dean surgiu logo atrs dele, trazendo  volta da garganta um colar formado por hematomas de tom prpura, e com uma expresso muito menos excitada do que a do 
colega. - Agora toca a andar, Bill Selvagem - disse eu, puxando pelo Wharton, para que ele se levantasse do cho. - Seu pacvio. - No me chames isso! - vociferou 
ele, gritando esganiadamente, e parece-me que, pela primeira vez, tivemos ocasio de detectar emoes verdadeiras, e no apenas aspectos camuflados de um animal 
esperto. - O Bill "Selvagem" Hickokl no era nenhum montanhs! Tambm nunca lutou contra nenhum urso com uma faca Bowie!2 No passava de um outro tarado do mato 
que obedecia  lei! Um idiota de um filho da puta que se sentou de costas para a porta e foi morto por um bbedo! - Ora no querem l ver isto, uma lio de histria! 
- exclamou o Brutal, empurrando o Wharton para fora da cela. - Um tipo nunca sabe o que lhe vai acontecer quando inicia o seu dia
  de trabalho por aqui, s sabe que at pode ser uma ' James Butler Hickok "Bill Wild", 1837-1876. (N. da T.) z Faca de grandes dimenses com lmina de um s gume, 
que deve o seu nome a James Bowie, e foi concebida por ele prprio ou pelo irmo Rezin P. Bowie. (N. da T.) 188

coisa agradvel. Mas com tanta gente simptica como tu por estas bandas, calculo que isso tenha uma certa razo de ser, no concordas? E sabes que mais? Daqui a 
pouco tempo, sers tu quem ter passado  histria, Bill Selvagem. Entretanto, toca a andar pelo corredor. Temos uma sala  tua espera.  um lugar onde podes arrefecer 
as ideias. O Wharton soltou um berro enfurecido e desarticulado, investindo contra o Brutal, apesar de se encontrar manietado pelo colete-de-foras, com os braos 
em redor do torso e pre sos nas costas. O Percy fez meno de sacar do seu basto - a Soluo Wetmore para todos os problemas da vida - mas o Dean deteve-o, colocando-lhe 
uma mo no pulso. O Percy lanou-lhe um olhar intrigado e um tanto indignado, como que a dizer-lhe que, depois de tudo o que o Wharton lhe tinha feito, o Dean deveria 
ser a ltima pessoa  face da Terra a desejar impedi-lo de prosseguir. O Brutal empurrou o Wharton para trs. Agarre
 i-o e empurrei-o na direco do Harry. Por seu lado, este impeliu-o atravs da Milha Verde, passando pelo jubilante Delacroix e pelo impassvel Coffey. O Wharton 
prosseguiu a correr para no cair de rosto em cheio no cho; durante todo o percurso no deixou de soltar imprecaes. Cuspiaas da mesma forma que o maarico de 
um soldador cospe fogo. Atirmo-lo para dentro da ltima cela do lado direito, enquanto o Dean, o Harry e o Percy (que para variar no reclamava pelo facto de o 
fazerem trabalhar em excesso) retiravam toda a tralha que se encontrava no interior da cela do isolamento. Enquanto eles tratavam daquela tarefa, tive uma pequena 
conversa com o Wharton. - Ests convencido de que s um tipo duro - comecei a dizer -, e talvez sejas, meu menino, mas aqui a dureza no tem o mnimo significado. 
Os teus dias de arruaceiro chegaram ao fim. Se nos facilitares as coisas, ns tambm facilitaremos a tua vida aqui. Caso decidas dificultar a
  situao, acabars por morrer  mesma, com a diferena de que te aguaremos como a ponta de um lpis antes de marchares para o alm. - Vais sentir-te muito feliz 
quando me vires pelas costas - replicou o Wharton numa voz enrouquecida. No parava de se debater dentro do colete-de-foras, embora soubesse que no lucraria nada 
com os seus esforos; as suas bochechas estavam to vermelhas como um tomate maduro. 189 Mas at eu desaparecer, hei-de transformar a vossa vida num verdadeiro inferno. 
- Arreganhou-me os dentes como se fosse um gorila enfurecido. - Se  isso o que desejas, transformar a nossa vida num inferno, podes desistir j, uma vez que conseguiste 
alcanar o teu objectivo - interveio o Brutal. - Mas quanto ao tempo que hs-de passar na Milha, Wharton, no nos incomoda minimamente que o passes todo fechado 
na sala com as paredes almofadadas. Tambm poders usar esse casaco para tarados at os teus braos gangrenarem devi
 do  falta de circulao sangunea, acabando por te cair do corpo. - Fez uma pausa. No sei se sabes, mas no costuma vir muita gente at aqui abaixo. E se pensas 
que algum se importa com o que possa acontecer-te, seja l o que for, acho que  melhor reconsiderares. Para o mundo, tu j s um criminoso morto. O Wharton examinava 
o Brutal com toda a ateno, tendo comeado a desaparecerlhe do rosto a fria que sentira. - Deixem-me sair disto - pediu ele num tom de voz apaziguador... Um tom 
demasiado racional e sensato para ser verdadeiro. - Eu porto-me bem. Prometo que sim. O Harry surgiu  entrada da cela. A extremidade do corredor assemelhava-se 
muito a uma venda ao ar livre, mas depois de metermos mos  obra iramos pr tudo aquilo em or dem num pice. No seria a primeira vez que teramos de dar conta 
daquela tarefa, j conhecamos a rotina. - Est tudo a postos - anunciou o Harry. O Brutal agarrou na salincia da l
 ona, por baixo da qual se encontrava o cotovelo direito do Wharton, e puxou-o para que se pusesse de p. - Vamos l, Billy Selvagem. Olha para o lado positivo da 
situao. Vais ter pelo menos vinte e quatro horas para recordar a ti mesmo que nunca devers sentar-te de costas para a porta, nem agarrar-te demasiado aos trunfos.

- Deixem-me sair disto - repetiu o Wharton. Olhou para o Brutal, para o Harry e por ltimo para mim, com o tom avermelhado a voltar a apossar-se do seu rosto: Eu 
porto-me bem... Garanto-vos que aprendi a lio. Eu... eu... aaaaahhhhhhh!... De repente, sucumbiu; metade do corpo caiu dentro da cela e a outra metade estatelou-se 
sobre a Milha Verde, dando pontaps e contorcendo-se todo. - Jesus Cristo! Ele est a ter uma convulso - sussurrou o Percy. 190

- Com certeza, e a minha irm  a prostituta da Babilnia - retorquiu o Brutal. - Ela costuma executar a dana do ventre para o Moiss aos sbados  noite, com um 
vu branco muito comprido. - Baixou-se e passou uma mo por baixo de um dos sovacos do Wharton. Agarrei-o pelo outro. O homem debatia-se entre ns como se fosse 
um peixe que tivesse acabado de morder o anzol. Transportar o seu corpo que no parava de se agitar, ouvi-lo resmungar por uma das aberturas e a peidar-se pela outra, 
foi uma das minhas experincias de vida menos agradveis. Ergui o olhar e por breves segundos ele cruzou-se com o do John Coffey. Os olhos dele estavam raiados de 
sangue e tinha as faces humedecidas. Uma vez mais, o homem havia estado a chorar. Ocorreu-me a imagem do Hammersmith a fazer com a mo o gesto de abocanhar, e senti 
o corpo percorrido por um pequeno arrepio. Voltei a dedicar toda a minha ateno ao Wharton. Atirmos com ele para dentro da cela do isol
 amento, como se fosse uma saca de batatas, e vimo-lo no cho a escoicear dentro do colete-de-foras, junto do ralo onde em tempos havamos procurado o rato que 
comeara a sua existncia no Bloco E sob o nome de Steamboat Willy. - No me incomodo muito se ele engolir a lngua ou qualquer outra coisa e morra - disse o Dean 
na sua voz spera e enrouquecida -, mas, rapazes, pensem na papelada a que isso dar origem! Nunca mais tinha fim. - No te incomodes com a papelada, pensa mas  
no inqurito - atalhou o Harry com uma expresso desalentada. - Acabaramos por perder a porra dos nossos empregos. O nosso destino seria apanhar ervilhas no Mississpi. 
Sabem o que  o Mississpi, no sabem?  a palavra ndia para olho do cu. - Ele no vai morrer nem vai engolir a lngua - atalhou o Brutal. - Amanh, quando abrirmos 
esta porta, vo ver que estar bem de sade. Acreditem no que vos digo. E de facto foi assim que as coisas se passar
 am. O homem que conduzimos de regresso  sua cela na noite seguinte ia calado e plido, dando a impresso de ter sido disciplinado. Caminhava de cabea baixa, no 
tendo feito meno de atacar algum quando o retirmos do colete-de-foras, limitando-se a fitar-me com uma expresso absorta quando eu lhe disse que aquele processo 
se repetiria da prxima vez, pelo que ele s tinha de se interrogar sobre quanto mais tempo desejava passar a mijar nas prprias calas e a ingerir comida em papas 
que lhe eram dadas  colher. - Eu porto-me bem, chefe. J aprendi a lio - murmurou ele numa voz humilde e a medo quando o colocmos de novo na sua cela. O Brutal 
olhou para mim e piscou-me o olho. Mais tarde, no dia seguinte, o William Wharton, que para si prprio era Billy the Kid e nunca aquele tarado do mato, o Hickok, 
homem cumpridor da lei, o Bill Selvagem, comprou um bolo ao velho Pouca Terra. O Wharton havia sido expressamente proibido de ef
 ectuar esse tipo de transaco comercial, mas o turno da tarde era composto apenas por temporrios, tal como parece que j vos disse, pelo que o negcio se verificou. 
Sem dvida que o prprio Pouca Terra deveria ter estado alertado em relao a tal facto, mas para ele o carrinho onde transportava a comida era sempre uma fonte 
de lucro.

Nessa mesma noite, quando o Brutal efectuou a ronda, o Wharton estava de p junto das barras da cela. Aguardou que o Brutal erguesse o olhar para si, depois bateu 
fortemente com a palma das mos nas bochechas que estavam inchadas, fazendo jorrar da boca um jacto espesso e espantosamente comprido de massa de chocolate, que 
foi acertar em cheio no rosto do Brutal. Tinha enfiado o bolo inteiro na boca, mantivera-o l at se ter liquefeito e cuspira-o como se fosse um naco de tabaco mascado. 
Em seguida, o Wharton deixou-se cair em cima da tarimba, com o queixo sujo de chocolate, esperneando e gritando por entre sonoras gargalhadas, enquanto apontava 
para o Brutal, cujo rosto estava todo sujo de chocolate. - Tal e qual um escarumba, sim senhor, patro, sim senhor, como  que vossemec tem passado? - O Wharton 
agarrava-se  barriga, soltando uivos. - Se ao menos tivesse sido caca! Quem me dera que tivesse sido! Se eu tivesse tido alguma  mo... - Tu  que 
 s uma caca - vociferou o Brutal -, e espero bem que tenhas feito as malas, porque vais regressar  tua retrete preferida. Uma vez mais, o Wharton foi manietado 
no colete-de-foras e voltmos a atirar com ele para dentro da sala de paredes almofadadas. Desta feita, ficou nessa cela durante dois dias. s vezes chegavam-nos 
aos ouvidos os seus rugidos en furecidos, outras vezes ouvamo-lo a prometer que se portaria bem, que passaria a ter juzo e a ser bonzinho e s vezes gritava que 
precisava de um mdico, que estava  beira da morte. No entanto, esteve calado durante a maior parte do tempo. E, quando voltmos a retir-lo da cela do isolamento, 
tambm se remeteu ao mutismo, regressando  sua cela com a cabea baixa e olhos inexpressivos, sem dar qualquer rplica quando o Harry lhe dirigiu a palavra. - Recorda-te 
que isto s depende de ti. - Com certeza que se comportaria como devia ser durante algum tempo, mas depois tentaria outra coisa qualque
 r. Ele no podia fazer nada que no houvesse sido tentado em ocasies anteriores (bem, talvez com a excepo da habilidade com o bolo de chocolate; at o Brutal 
foi forado a admitir que tinha sido bastante original); no entanto, a persistncia que ele mostrava era, por si s, assustadora. Eu tinha receio que, mais cedo 
ou mais tarde, isso chamasse a ateno de algum, dando origem a um verdadeiro inferno. E aquela situao poderia vir a arrastar-se por mais algum tempo, uma vez 
que o Wharton tinha um advogado algures que no parava de arengar perante quem o gmsesse ourar o quanto seria errado executar aquele fulano na flor da idade... e 
que, incidentalmente, era to branco como os melhores. No fazia qualquer sentido protestar contra aquilo, porque manter o Wharton afastado da cadeira elctrica 
era a funo do seu advogado. Porm, mant-lo seguramente imobilizado era tarefa que nos cumpria. E, no fim, quase de certeza a Velha Fa=E
 Dsca o reclamaria para si, com advogado ou sem advogado. 6 Foi nessa semana que a Melinda Moores, a mulher do director da priso, regressou a casa vinda de Indanola. 
Os mdicos j no podiam fazer nada por ela; haviam conseguido as suas muito interessantes radiografias com o tumor que ela tinha na cabea; possuam documentos 
sobre a fraqueza que a doente sentia na mo e as dores paralisantes que a atormentavam quase constantemente naquela fase; e tinham-na despachado. Entregaram ao marido 
uma grande quantidade de comprimidos de morfina e mandaram a Melinda para casa, a fim de morrer. O Hal Moores acumulara alguns dias de licena por doena - embora 
no fossem muitos; nessa poca, no tinham por hbito conceder-nos muita coisa, mas ele ti 192 193 rou partido daquilo que era o seu direito, de forma a poder ajud-la 
a fazer o que tinha a fazer. Mais ou menos trs dias depois de ela ter regressado a casa, a minha mulher e eu fomos visit-la. Te
 lefonei antes de irmos e o Hal disse que no havia inconveniente, uma vez que a Melinda estava a ter um bom dia, pelo que gostaria muito de nos ver.

- Detesto fazer este gnero de visitas - disse eu  Janice, enquanto seguamos no carro para a casa onde os Moores haviam vivido durante a maior parte do seu casamento. 
- Tal como toda a gente, meu querido - retorquiu ela, acariciando-me a mo. Havemos de conseguir ultrapassar a dificuldade da mesma forma que ela. - Espero que sim. 
Quando chegmos, a Melinda encontrava-se sentada na sala de estar, sob um sol de Outubro anormalmente quente e luminoso; o meu primeiro pensamento, provocado pelo 
cho que do que vi, foi que ela tinha perdido quarenta quilos. Claro que no era esse o caso - se ela tivesse perdido tanto peso, no poderia com certeza estar ali 
mas foi essa a reaco inicial do meu crebro face quilo que os meus olhos lhe transmitiram. As suas faces haviam praticamente desaparecido, deixando adivinhar 
o contorno dos malares que se encontravam debaixo delas, e a sua tez estava to esbranquiada como pergaminho ressequido. Tinha olheiras muito
 escuras. Foi a primeira vez que dei com ela na cadeira de baloio sem ter o regao cheio de roupa para coser, ou de retalhos para fazer uma manta. Estava ali sentada 
sem fazer nada. Como uma pessoa que aguardasse na sala de espera de um apeadeiro. - Melinda - saudou a minha mulher numa voz calorosa. Tenho a impresso de que se 
encontrava to chocada quanto eu prprio, talvez mesmo mais ainda, mas conseguia ocult-lo na perfeio, como s algumas mulheres so capazes de o fazer. Aproximou-se 
da Melinda, ajoelhou-se sobre um joelho ao lado da cadeira de baloio e agarrou-lhe uma das mos. Durante aquele interior, o meu olhar dirigiu-se, por acaso, para 
o tapete azul que se encontrava em frente da lareira. Ocorreu-me que deveria ter a tonalidade das limas velhas, uma vez que, presentemente, aquela sala era apenas 
uma outra verso da Milha Verde. - Trouxete um pouco de ch - disse a Jan -, daquele que eu costumo tomar.  um ch muito calmante que
 nos ajuda a adormecer. Deixei-o na cozinha. 194 - Obrigada, minha querida - retorquiu a Melinda. A sua voz tinha uma entoao envelhecida e era spera. - Como  
que te sentes? - perguntou a minha mulher. - Um pouco melhor respondeu a Melinda na sua voz spera e rouca. - No se pode dizer que me apetea ir a um baile, mas 
pelo menos hoje no sinto dores. Os mdicos deram-me uns comprimidos para as dores de cabea. s vezes at conseguem fazer efeito. - Isso  bom, no  verdade? - 
Mas no tenho muita fora.. Aconteceu qualquer coisa...  minha mo. - Ergueua, fitando-a como se nunca a houvesse visto, e voltou a pous-la no regao. Aconteceu 
qualquer coisa... no corpo todo. - Comeou a chorar num pranto silencioso, de uma maneira que me fez recordar a imagem de John Coffey. Aquilo que ele tinha dito 
comeou a soar de novo na minha cabea: Eu consegui evitar o mal, no  verdade? Eu consegui evitar o mal, no  verdade?, c
 omo se fosse uma ladainha que no conseguimos esquecer. Nessa altura, o Hal entrou na sala. Agarrou-me e podem acreditar quando vos digo que me senti deveras satisfeito 
por ele me ter agarrado. Fomos os dois para a cozinha, e ele serviu-me um trago de usque branco, uma bebida forte que devia ter acabado de vir do alambique ilegal 
de um campons qualquer. Brindmos em silncio, e bebemos. A bebida deslizou-me pela garganta que nem querosene, mas o impacte na barriga foi paradisaco. Mesmo 
assim, quando o Moores aproximou de mim a vasilha de barro, perguntando-me sem palavras se queria mais, abanei a cabea, afastando-a com um gesto da mo. Bill "Selvagem" 
Wharton encontrava-se fora do colete-de-foras, pelo menos de momento - e no seria nada seguro aproximar-me do homem com a cabea toldada pela bebida. Nem mesmo 
com as barras a separar-nos. - No sei durante quanto mais tempo serei capaz de suportar esta situao, Paul - confessou ele numa voz s
 egredada. - Todas as manhs vem uma rapariga para me ajudar a tratar dela, mas os mdicos dizem que talvez ela venha a sofrer de incontinncia, e... e... - Deteve-se 
cm a voz embargada, esforando-se para no desatar a chorar de novo  minha frente. - S podes fazer aquilo que estiver ao teu alcance - disse eu. Estendi a mo 
atravs do tampo da mesa e agarrei na dele, uma mo trmula e com manchas de

origem heptica. - Faz o que puderes dia aps dia e deixa o resto por conta de Deus. No podes fazer mais nada, pois no? 195 - Calculo que no. Mas mesmo assim 
 muito difcil, Paul. Rezo para que nunca venhas a descobrir at que ponto  dificil. - Fez um esforo para se recompor um pouco. Agora pe-me a par das novidades. 
Como  que ests a aguentar-te com o William Wharton? E como  que esto a correr as coisas em relao ao Percy Wetmore? Durante algum tempo discutimos assuntos 
profissionais. Pouco depois, a visita chegou ao fim. Ao longo de todo o caminho at casa, com a minha mulher em silncio a maior par te do tempo - pensativa e de 
olhos humedecidos - sentada ao meu lado, as palavras do Coffey assomaram-me ao pensamento, como se fossem o Mister Jingles a correr pela cela do Delacroix: Eu consegui 
evitar o mal, no  verdade? -  terrvel - disse a minha mulher, desalentada, a certa altura. - E ningum pode fazer nada pa
 ra a ajudar. Acenei num gesto de concordncia, enquanto pensava: Eu consegui evitar o mal, no  verdade? Mas aquela ideia era uma loucura, pelo que envidei todos 
os esforos para a expulsar da minha mente. Quando nos aproximmos da entrada da nossa casa, ela falou finalmente pela segunda vez desde que tnhamos sado da casa 
dos Moores - no sobre a sua velha amiga Melinda, mas sim sobre a minha infeco urinria. Queria saber se j tinha desaparecido de todo. Afirmei-lhe que sim. -Nesse 
caso, ptimo - retorquiu ela, beijando-me acima do sobrolho, nessa regio do meu corpo que me fazia ser percorrido por um calafrio de prazer. - Talvez devssemos, 
compreendes, fazer uma pequena coisa. Isto , se tiveres tempo e vontade. Possuindo bastante da ltima e apenas o suficiente do primeiro, agarrei-a pela mo, conduzi-a 
para o quarto das traseiras e comecei a despi-la enquanto ela acariciava aquela parte de mim que pulsava e ficava tumefacta, mas
 que me deixara de doer por completo. Enquanto eu penetrava na doura de Janice, deslizando no seu interior daquela maneira lenta que tanto lhe agradava - que agradava 
a ambos - pensei no John Coffey a dizer que tinha conseguido evitar o mal, que tinha conseguido evitar o mal, no era verdade? Como se fosse o trecho de uma cano 
que se recusa a abandonar a nossa mente at muito bem lhe apetecer. Mais tarde, quando j seguia a caminho da priso, come196 a pensar que dentro de pouco tempo 
teramos de comear afiar a execuo do Delacroix. E logo me lembrei que o ocuparia o lugar na linha da frente, o que me provocou um estremecimento de temor. Disse 
a mim mesmo que deveeguimento ao planeado, s mais uma execuo e pro ce ae Perc urn es ria dai ._ vavelmente ficvamos livres do Percy Wetmore de uma vez por todas... 
Ainda assim, continuei a sentir um estremecimento, como se a infeco que tanto me atormentara no houvesse desaparecido de todo,
  apenas mudado de localizao, deixando de me queimar as virilhas para me enregelar a coluna vertebral. 7 - Toca a andar - disse o Brutal ao Delacroix no dia seguinte, 
ao fim da tarde. Vamos dar um pequeno passeio. Tu, eu e o Mister Jingles. O Delacroix olhou para ele, com desconfiana, e levou a mo  caixa de charutos para agarrar 
no rato. Colocou-o na palma da mo em forma de concha, fitando o Brutal atravs de olhos semicerrados. - De que  que ests a falar? - perguntou ele. - Esta  uma 
grande noite para ti. e para o Mister Jingles - disse o Dean que entretanto se tinha aproximado do Brutal com o Harry. A corrente de ndoas negras em redor do pescoo 
do Dean tinha adquirido um desagradvel tom amarelo, desagradvel, sim, mas pelo menos ele j conseguia falar de novo sem parecer um

co a ladrar a um gato. Olhou para o Brutal. - Achas que devamos colocar-lhe as grilhetas, Brute? - No - respondeu o interpelado por fim, depois de ter avaliado 
a pergunta. Ele vai portar-se bem, no  verdade, Del? Tu e o rato. Ao fim e ao cabo, esta noite poders exibir-te a alguns manda-chuvas importantes. O Percy e eu 
estvamos junto da mesa do guarda de servio, observando tudo aquilo, o Percy de braos cruzados, exibindo nos lbios um pequeno sorriso escarninho. Ao fim de algum 
tempo, tirou de uma algibeira o seu pente de osso, e comeou a pentear-se. O John Coffey tambm observava tudo aquilo em silncio, junto das barras da sua cela. 
O Wharton encontrava-se deitado sobre a tarimba, olhando fixamente pa 197 ra o tecto, ignorando todo aquele espectculo. Continuava a "ser bonzinho", embora o que 
ele classificava de bom fosse aquilo a que os mdicos se referiam no Briar Ridge como o estado catatnico. Tambm se encontrava presente um o
 utra pessoa. Estava escondido dos outros no interior do meu gabinete; contudo, a sua sombra emagrecida projectava-se atravs da abertura da porta, reflectindo-se 
na Milha Verde. - O que vem a ser isto, meu grand fou? - perguntou o Del, quezilento, recolhendo os ps para cima da tarimba, enquanto o Brutal abria a porta da 
sua cela, fazendo-a deslizar sobre a calha. Os olhos do Delacroix iam de uns aos outros, percorrendo os trs guardas. - Pois bem, eu digo-te - comeou o Brutal a 
responder. - Mister Moores vai estar ausente durante algum tempo... A mulher est um pouco em baixo, tal como possivel mente j ouviste dizer. Por conseguinte, Mister 
Anderson  quem manda agora. Mister Curtis Anderson. - Sim? E o que  que isso tem a ver comigo? - Bem - continuou o Harry -, o chefe Anderson ouviu falar do teu 
rato, Del, pelo que quer v-lo a fazer as suas habilidades. Ele e mais seis fulanos esto na administrao,  espera que apareas. E no estou a
 referir-me a uns simples guardas de uniforme azul. Estes so uns pssaros grados, tal como o Brute j te disse. Estou em crer que um deles  um poltico que fez 
a viagem toda desde a capital do estado. O Delacroix inchou visivelmente ao ouvir aquilo, no tendo eu detectado o mnimo vestgio de desconfiana na expresso do 
seu rosto.  claro que eles desejavam ver o Mister Jingles; quem  que no desejaria? Comeou a mexer-se com toda a azfama; primeiro procurou debaixo da tarimba 
e depois por baixo da almofada. Por fim, acabou por encontrar um daqueles grandes rebuados de hortel-pimenta de cor amarelada, assim como o carretel colorido com 
cores garridas. Olhou para o Brutal com uma expresso interrogadora, e este acenou afirmativamente. - Sim.  a habilidade com o carretel que eles esto realmente 
desejosos de ver, calculo eu, embora a forma como ele come o raio desses rebuados de menta tambm seja muito engraada. E no
  te esqueas da caixa de charutos. Vais querer lev-lo dentro dela, nao ? O Delacroix agarrou na caixa e colocou os adereos do Mister Jingles no seu interior, 
mas, quanto ao rato, colocou-o 198 em cima do ombro da sua camisa. Em seguida, encaminhou-se para fora da cela, com o peito todo inchado a indicar o caminho, olhando 
para o Dean e para o Harry. - Vm, rapazes? - No - respondeu o Dean. - Temos outro peixe para fritar. Mas tu, Del, vai e deixa-os de boca aberta... Mostra-lhes 
o que  que acontece quando um rapaz da Luisiana pe mos  obra e comea realmente a trabalhar. - Pode crer - respondeu ele. Pelo seu rosto espelhou-se um sorriso 
enorme, to repentino e to simples em toda a sua felicidade que senti um pequeno aperto no corao por causa dele, apesar do terrvel crime que tinha cometido. 
Mas que mundo este em que vivemos... mas que mundo este!

O Delacroix voltou-se para o John Coffey, com quem encetara uma amizade um tanto recalcitrante, no muito diferente da centena de outros relacionamentos que eu tivera 
ocasio de testemunhar naquela casa da morte. - Deixa-os de boca aberta, Del - disse o Coffey numa voz cheia de solenidade. Mostra-lhes todas as habilidades dele. 
O Delacroix acenou que sim, levando a mo ao ombro. O Mister Jingles passou para ela como se fosse uma plataforma, e o Delacroix estendeu a mo na direco da cela 
do Coffey. Este estendeu um gigantesco dedo indicador, e raios me partam se aquele rato no esticou o pescoo, lambendo a extremidade, tal como um co o faria. - 
Vamos l, Del, pra de molengar - urgiu o Brutal. - Estes sujeitos esto a atrasar um jantar quente que os aguarda em suas casas para poder assistir s habilidades 
do teu rato. - Aquilo no era verdade, claro... O Anderson estava ali at s oito horas todas as noites e os guardas que ali se tinham dir
 igido para observar o "espectculo" do Delacroix seriam forados a ficar at s onze ou  meia-noite, dependendo da hora a que os seus turnos chegavam ao fim. O 
poltico que viera da capital do estado era apenas um funcionrio da manuteno com uma gravata emprestada. Porm, o Delacroix no tinha maneira de saber tudo isto. 
- Estou pronto - anunciou ele, exprimindo-se com a simplicidade de uma grande vedeta que conseguira no perder o contacto com o comum dos mortais. - Vamos l. - 
E enquanto o Brutal o conduzia atravs da Milha Verde, com o Mister Jingles empoleirado em cima do ombro do Dela 199 croix, este comeou uma vez mais, a anunciar: 
- Messieurs et mesdames! Bienvenue au cirque de mousie! t - Contudo, embora to profundamente mergulhado no seu mundo de fantasia, fitou o Percy com um olhar de 
desconfiana e um esgar. O Harry e o Dean detiveram-se em frente da cela vazia oposta  do Wharton (aquela ilustre figura ainda nem sequer se
 mexera). Ficaram a observar o Brutal, enquanto ele abria a fechadura da porta que dava para o ptio de recreio, onde era aguardado por outros dois guardas, a fim 
de conduzir o Delacroix ao seu magnificente espectculo, a que assistiriam os mais elevados zs-ninguns da penitenciria de Cold Mountain. Espermos at que a porta 
voltou a ser fechada  chave, e olhei n direco do meu gabinete. Aquela sombra continuava junto  porta, escanzelada e faminta; senti-me bastante satisfeito pelo 
facto de o Delacroix ter ficado to excitado que nem sequer reparara nela. - Sai c para fora - disse eu. - E vamos l a despachar este assunto, rapazes. Quero fazer 
dois ensaios e no dispomos de muito tempo. O velho Pouca Terra, mostrando uns olhos to cintilantes e com uma postura to importante como sempre, saiu do gabinete, 
encaminhando-se para a cela do Delacroix, entrando pela porta aberta num passo descontrado. - Estou a sentar-me - anunciou ele.
  - Estou a sentar-me, estou a sentar-me, estou a sentar-me. "Este  que  o verdadeiro circo", pensei eu para comigo, cerrando os olhos por breves segundos. "O 
verdadeiro circo encontra-se precisamente aqui, e ns no passamos de um grupo de ratos amestrados." Em seguida, afastei aquele pensamento da minha mente, dando 
incio quele ensaio macabro. 8 O primeiro ensaio correu bem, o mesmo acontecendo com o segundo. O Percy saiu-se bastante melhor do que eu alguma vez poderia ter 
esperado nos meus sonhos mais fantasiosos. No entanto, aquilo no significava que as coisas iriam correr ' Em francs no original: "Senhores e senhoras, bem-vindos 
ao circo do ratinho." (N. da T.) bem quando chegasse o momento da verdadeira execuo, em que o cajun percorreria a Milha, mas o ensaio fora um grande passo na direco 
certa. Ocorreu-me que os ensaios tinham corrido pelo melhor, porque finalmente o Percy estava a fazer algo que deveras lhe agradava. Fui invadido por
  um certo desprezo perante aquele

facto, mas afastei-o. O que  que isso interessava? Ele haveria de colocar o capacete na cabea do Delacroix mas em seguida iriam ambos desaparecer. Se isso no 
era um fim feliz, o que  que seria? E, tal como o Moores havia acentuado, os tomates do Delacroix iam ficar estorricados, independentemente de quem interviesse 
directamente na sua electrocusso. Apesar de todos esses considerandos, o Percy tinha-se mostrado  altura da sua nova tarefa, e apercebera-se disso. Tal como ns. 
No que me dizia respeito, sentia-me demasiado aliviado para nutrir grande averso por ele, pelo menos de momento. Tudo parecia indicar que as coisas iriam correr 
da melhor maneira possvel. O meu alvio foi ainda maior ao descobrir que o Percy prestara realmente ateno quando lhe sugerimos algumas alteraes para melhorar 
ainda mais a sua actuao, ou pelo menos reduzir a probabilidade de algo correr mal. Se querem saber a verdade, sentimos-nos verdadeiramente entusi
 asmados com o assunto - at mesmo o Dean, que, regra geral, se mantinha bastante afastado do Percy... tanto em termos psicolgicos como fisicos. Nada do que estava 
a suceder poderia ser classificado de surpreendente, suponho eu - para a maioria dos homens, nada  mais lisonjeiro do que haver uma pessoa jovem que preste realmente 
ateno aos seus conselhos, e nesse aspecto ns no diferamos muito dos demais. Como resultado, nenhum de ns reparou que o Bill "Selvagem" Wharton j no fitava 
o tecto. Eu tambm no, mas o certo  que ele deixara de o fazer. Observava-nos enquanto estvamos junto da mesa do guarda de servio, e, entre alguma conversa fiada, 
dvamos conselhos ao Percy. Dvamos conselhos! E ele a fingir que os ouvia! At d vontade de rir, tendo em conta a forma como as coisas vieram a desenrolar-se posteriormente! 
O som de uma chave a ser inserida na fechadura da porta que dava para o ptio de recreio ps cobro  nossa
  pequena crtica ps-ensaio. O Dean lanou ao Percy um olhar de advertncia. - Nem uma palavra nem uma expresso que lhe permita 201 adivinhar - acautelou ele. 
- No queremos que saiba aquilo que estivemos a fazer. Isso no  bom para os condenados. Transtorna-os. O Percy aquiesceu com um acenar de cabea, passando um dedo 
pelos lbios num gesto que significava que no iria abrir o bico e que deveria ter sido divertido mas no foi. A porta que dava para o ptio abriu-se, e o Delacroix 
entrou, escoltado pelo Brutal, o qual transportava a caixa de charutos com o carretel s cores, da mesma maneira que o assistente de um ilusionista de feira poderia 
transportar para fora do palco os adereos do seu patro, no fim de um espectculo. O Mister Jingles vinha empoleirado no ombro do Delacroix. E quanto ao prprio 
Delacroix? Vou dizer-vos uma coisa: a Lillie Langtryl no devia ter exibido uma expresso mais radiante depois de ter actuado na Cas
 a Branca. - Eles adoraram o Mister Jingles! - declarou o Delacroix. - Riram-se, gritaram e bateram palmas! - Que maravilha - comentou o Percy. Exprimia-se com uma 
entoao indulgente e paternalista, nada caracterstica do Percy de antigamente. - E agora volta para a tua cela, velho veterano. O Delacroix brindou-o com um olhar 
de desconfiana cmica, e o velho Percy surgiu de rompante. Mostrou os dentes num arreganho a fingir, como se se preparasse para agarrar o Delacroix. Era uma brincadeira, 
como  bvio. O Percy estava bem-disposto e o seu estado de esprito no o impelia a mostrar-se agressivo, mas o Delacroix no tinha percepo disso. Num gesto brusco, 
afastou-se com uma expresso de medo e espanto e tropeou num dos ps enormes do Brutal. Caiu desamparado com toda a violncia, batendo com a parte de trs da cabea 
no linleo. O Mister Jingles conseguiu saltar do ombro a tempo de evitar ser esmagado, desatando a correr aos guinchos
  pela Milha Verde at  cela do Delacroix. Este conseguiu pr-se de p e lanou ao Percy, que entretanto se ria  socapa, um nico olhar pleno de dio, e seguiu 
no encalo do seu animal de estimao num passo apressado,

chamando-o enquanto ia esfregando a nuca. O Brutal (que desconhecia que o Percy, para variar, tinha mostrado sinais entusiasmantes de competncia profissional) fitou 
o Percy ~ Emily Charlotte Le Breton, O Lirio de Jersey, 1852-1929, actriz inglesa. (N. da T.) 202 com desprezo sem proferir uma nica palavra, e foi logo atrs do 
Del com o molho de chaves que tinha na mo a chocalhar. Creio que aquilo que aconteceu em seguida foi porque o Percy se sentiu na obrigao de apresentar as suas 
desculpas - eu sei que  extremamente difcil acreditar numa coisa destas, mas nesse dia ele encontrava-se invulgarmente de bom humor. Caso isto seja verdade, s 
vem provar um velho adgio cheio de cinismo que em tempos ouvi, qualquer coisa que tinha a ver com o facto de as boas aces no passarem sem ser punidas. Recordam-se 
de eu vos ter contado como ele, depois de ter ido em perseguio do rato at  cela do isolamento e antes de o Delacroix ter sido coloca
 do sob a nossa tutela, se tinha aproximado um tudo-nada de mais da cela do Presidente? Isso era perigoso, razo por que a Milha Verde era to larga quando se caminhava 
exactamente pelo meio, no se podia ser tocado por quem se encontrava no interior das celas. O Presidente no fizera nada ao Percy, mas recordo-me de nessa ocasio 
ter pensado que o Arlen Bitterbuck poderia ter feito qualquer coisa, uma vez que fora dele que o Percy se aproximara tanto. Apenas para lhe ensinar uma lio. Pois 
bem, tanto o Presidente como o Chefe j tinham desaparecido, mas o Bill "Selvagem" Wharton preenchera o lugar que eles haviam deixado. Ele era muito mais malcomportado 
do que o Presidente ou o Chefe alguma vez tinham sonhado vir a ser, e estivera a observar a nossa pequena encenao, com a esperana de que surgisse a oportunidade 
de ele prprio poder entrar em palco. Naquele momento, essa hiptese foi-lhe oferecida de mo beijada, por obsquio do Percy Wetmor
 e. - Ei, Del! - chamou o Percy meio a rir, indo atrs do Brutal e do Delacroix, aproximando-se de mais do lado da Milha Verde onde estava situada a cela do Wharton, 
sem se aperceber de que o fazia. - Ei, tu, meu cabea de merda, eu no quis fazer-te mal! Ests bem... O Wharton levantou-se da tarimba e aproximou-se das grades 
da cela com a celeridade de um relmpago - durante o tempo em que exerci o cargo de guarda prisional, nunca vi ningum movimentar-se com tanta rapidez, nem sequer 
os jovens atlticos com quem o Brutal e eu posteriormente viemos a trabalhar no Estabelecimento Correccional Juvenil. Num gesto lesto, estendeu os braos por entre 
as barras e agarrou o 203 Percy, primeiro pelos ombros da camisa e depois pela garganta. Conseguiu arrast-lo contra a porta da sua cela. O Percy soltava guinchos 
que se assemelhavam ao grunhir de um porco num matadouro; li nos seus olhos que ele pensava estar prestes a morrer. - Mas que querido - murmurou o Wharton
 . Uma das suas mos abandonou a garganta do Percy para lhe despentear os cabelos. - Macios! - acrescentou com uma pequena risada. - Como os de uma rapariga. Antes 
queria foder-te o olho do cu do que a rata da tua irm. - Depois, foi ao ponto de beijar a orelha do Percy. Estou em crer que este ltimo - que espancara o Delacroix 
no bloco por este, acidentalmente, ter roado a mo pelas suas virilhas, recordam-se desse incidente? - teve a percepo exacta daquilo que estava a acontecer. Duvido 
muito que o desejasse saber, mas estou convencido que sabia. Toda a cor havia abandonado as suas faces e as imperfeies sobressaam como marcas de nascena. Tinha 
os olhos esbugalhados e humedecidos. De um dos cantos da sua boca trmula escorria um fio de saliva. Tudo aquilo se desenrolou com muita celeridade - eu diria que 
comeou e terminou em menos de dez segundos. O Harry e eu avanmos com os bastes empunhados. O Dean sacou da arma. Todavia, antes qu
 e as coisas pudessem avanar um centmetro que fosse, o Wharton largou o Percy e recuou para dentro da cela, erguendo as mos at aos ombros e exibindo o seu medonho 
esgar.

- Eu larguei-o. Estava s a brincar e depois larguei-o - disse ele. - Nem sequer fiz mala um nico cabelo desse rapaz to bonito. Portanto, no venham com ideias 
de me enfiarem outra vez dentro daquela maldita cela de paredes almofadadas. O Percy Wetmore atravessou que nem uma flecha a Milha Verde, encolhendo-se contra a 
porta de uma cela vazia no lado oposto; a sua respirao era to rpida e elevada que quase parecia um choro convulsivo. Finalmente aprendera que devia manter-se 
sempre no centro da Milha Verde, afastado das mos que agarravam com violncia, dos dentes que abocanhavam e das ganas que dilaceravam. Creio que aquela lio iria 
ficar gravada na sua mente durante muito mais tempo do que todos os conselhos que lhe dramos depois dos ensaios. Havia no seu rosto uma expresso de profundo tenor 
e os seus preciosos cabelos estavam todos desgrenhados, todos espetados, pela 204 primeira vez desde que eu o conhecia. O Percy parecia algum que
  acabara de escapar a um crime de estupro. Fez-se um silncio to grande que o tempo pareceu imobilizar-se no espao, um silncio to pesado que o nico som que 
se ouvia era o silvo soluante da respirao do Percy. Foi quebrado por um riso cacarejado to repentino e tresloucado que chegava a ser chocante. O Wharton, foi 
o meu primeiro pensamento, mas no era ele. Era o Delacroix, que estava junto da porta aberta da sua cela, apontando para o Percy. Entretanto, o rato regressara 
ao seu ombro; o Delacroix parecia um bruxo pequeno mas malvolo, com o seu diabrete e tudo. - Olhem para ele! At mijou nas calas! - ululava o Delacroix. - Vejam 
bem o que o homem grande fez! Costuma rebentar os outros com o seu basto, mais oui um mauvais homee, mas, quando algum lhe toca, ele verte guas para as calas 
como se fosse um beb! Continuava a rir-se e a apontar, dando largas ao medo e ao dio que nutria pelo Percy - naquele riso escarninho. O Pe
 rcy olhava-o com fixidez, parecendo incapaz de se mexer ou de falar. O Wharton regressou para junto das barras da sua cela, baixando o olhar at  mancha escurecida 
na frente das calas do Percy - era pequena mas estava l, e no deixava margem para dvidas quanto  sua natureza e fez uma careta risonha. - Algum devia comprar 
uma fraldinha a este rapaz to duro - disse ele com sarcasmo, regressando  sua tarimba e continuando a rir-se. O Brutal dirigiu-se para a cela do Delacroix, embora 
o cajun j tivesse entrado e se tivesse atirado para cima do colcho antes da chegada do Brutal. Estendi a mo e agarrei no Percy pelo ombro. - Percy... - comecei, 
mas no fui mais longe. Ele readquiriu vida, sacudindo a minha mo. Olhou para a parte dianteira das calas, viu a mancha que se espalhara e corou, ficando com as 
faces de um vermelho-escuro. Voltou a soerguer o olhar para mim, depois para o Harry e o Dean. Recordo-me de me ter sentido satisfeito p
 elo facto de o velho Pouca Terra j ter sado do bloco. Se ainda ali estivesse, aquela histria teria circulado por toda a priso num s dia. E, devido ao apelido 
do Percy - naquele contexto, era de facto um infortnio Em ingls, wet: "molhado", more: "mais". (N. da T) 205 era uma histria que haveria de ser contada com grande 
gudio durante muitos anos. - Se falarem disto a algum, daqui a uma semana esto na bicha para a sopa dos pobres - declarou ele num sussurro enfurecido. Noutras 
circunstncias, aquela observao teria feito com que eu desejasse ir-lhe s fuas, mas, dada a situao, a nica coisa que senti foi pena do homem. Acho que ele 
detectou esse sentimento de piedade, o que fez com que o seu mal-estar se agravasse - como se tivesse uma ferida aberta que estivesse a ser limpa com urtigas. - 
Aquilo que se passa no bloco no sai daqui - redarguiu o Dean numa voz plcida. - No precisas de te preocupar com isso. O Percy ol
 hou por cima do ombro na direco da cela do Delacroix. Naquele momento, o Brutal fechava a porta  chave; vindo do interior, de forma a no deixar dvidas, ouvia-se

o riso casquinado do Delacroix. A expresso do Percy era to sombria como uma noite de trovoada. Ainda me apeteceu dizer-lhe que na vida costuma colher-se aquilo 
que se semeou, mas conclu que aquela talvez no fosse a melhor ocasio para uma lio extrada da Bblia. - Quanto a ele... - comeou o Percy, mas no terminou 
a frase. Em vez disso, baixou a cabea e dirigiu-se para a arrecadao  procura de um par de calas secas. - Ele  to bonitinho - insistiu o Wharton numa voz sonhadora. 
O Harry mandou-o calar antes que fosse para a cela do isolamento apenas por uma questo de princpio. O Wharton cruzou os braos sobre o peito, fechou os olhos e 
pareceu ter intenes de dormir. 9 Na noite anterior  da execuo do Delacroix, o tempo estava mais quente e abafado do que nunca - a temperatura era de vinte e 
oito graus, de acordo com o termmetro no exterior da administrao quando o consultei s seis da tarde. Vinte e
  oito graus em finais de Outubro, com a trovoada a soar a oeste tal como era hbito em Julho. Nessa tarde, encontrara na cidade um membro da minha congregao, 
e ele perguntara-me, com uma seriedade aparente, se eu pensava que aquele tempo to anormal para a altura do ano em que 206 estvamos seria o anncio do dia do Juzo 
Final. Eu respondi-lhe que tinha a certeza que no, mas ocorreu-me que, sem dvida, aquele seria o dia do Juzo Final para o Eduard Delacroix. E assim foi. O Bill 
Dodge encontrava-se junto  porta que dava para o ptio de recreio a beber caf e a fumar. - Ora vejam quem acaba de chegar - comentou ele, dirigindo-se a mim depois 
de ter olhado  sua volta. - O Paul Edgecombe, to grande como a vida e duas vezes mais feio. - Como  que te correu o dia, Billy? -Nada de especial. - E o Delacroix? 
e - Est ptimo. D a impresso de perceber que  para amanh, mas ao mesmo tempo parece que no percebe. Sabes como fica
  a maior parte deles quando finalmente o seu fim se aproxima. Fiz um acenar de cabea afirmativo. - E o Wharton? - Mas que comediante - retrucou Bill com uma gargalhada. 
- Faz com que o Jack Benny parea um quacre. Disse ao Rolfe Wettermark que tinha comido doce de morango da rata da mulher dele. - E o que  que o Rolfe respondeu? 
- perguntei. - Que nem sequer era casado. E que ele devia era estar a pensar na me dele. Ri-me a bandeiras despregadas. Aquilo realmente tinha graa, embora de 
uma maneira um bocado ordinria. E era bom poder rir-me  vontade sem ter a sensao de que algum estava a chegar fsforos em chama s minhas partes baixas. O Bill 
fz coro comigo, e depois despejou o resto do caf no cho do ptio, que na altura no tinha ningum, excepto alguns prisioneiros de confiana que por ali arrastavam 
os ps, a maioria deles vivendo na priso h mais de um milhar de anos, ou coisa no gnero. Os troves faziam-se ouv
 ir  distncia, e uns quantos relmpagos dispersos atravessaram o cu pardacento acima de ns. O Bill ergueu o olhar pouco  vontade e com o riso a morrer-lhe nos 
lbios. - No entanto, deixa-me que te diga uma coisa - acrescentou. - Este tempo no me agrada muito. D a sensao de que est prestes a acontecer alguma coisa. 
Alguma coisa m. 207 Ele tinha toda a razo. A coisa m aconteceu precisamente por volta das dez e um quarto dessa mesma noite. Foi a essa hora que o Percy matou 
o Mister Jingles. 10 De incio tudo indicava que aquela noite seria bastante boa, apesar do calor abafado - o John Coffey estava como sempre, calado, o Bill Selvagem 
preparava-se para entrar na

pele do Bill Moderado, e o Delacroix mostrava um moral elevado para um homem que tinha um encontro marcado com a Velha Fasca dali a pouco mais de vinte e quatro 
horas. Ele compreendia aquilo que o aguardava, pelo menos dentro dos parmetros mais bsicos; j tinha encomendado chili para a ltima refeio e dera-me instrues 
especiais a serem transmitidas ao pessoal da cozinha. - Diga-lhes para carregarem no picante - pediu ele. - Diga-lhes que quero daquele que salta na garganta e pergunta 
como  que temos passado... daquele verde, no do fraco. Essa coisa apodera-se de mim como um filho da puta, no dia seguinte no sou capaz de sair da retrete, mas 
no me parece que desta vez v ter problemas com isso, nest-ce pas? A maioria dos condenados preocupa-se com a imortalidade das suas almas com uma espcie de ferocidade, 
mas o Delacroix ignorou as minhas questes quanto quilo que desejava para conforto espiritual nas ltimas horas de vida. Se
 "aquele tipo", o Schuster, tinha sido suficientemente bom para o "Grande Chefe" Bitterbuck, concluiu o Del, ento tambm seria suficientemente bom para si. No, 
aquilo que para ele era realmente importante - tenho a certeza que j adivinharam a que  que estou a referir-me - era o que viria a acontecer ao Mister Jingles 
depois de ele, Delacroix, ter ido para o outro mundo. Eu estava acostumado a passar longas horas junto dos condenados, na noite anterior  sua ltima caminhada; 
contudo, era a primeira vez que passava essas longas horas a ponderar no destino a dar a um rato. O Del avaliou possibilidade aps possibilidade, considerando pacientemente 
cada hiptese na sua mente um tanto obtusa. E enquanto ia pensando em voz alta, desejando assegu rar-se de que no faltaria nada ao seu animal de estimao, como 
se este fosse uma criana que acabaria por ter de ir para a universidade, atirava o carretel colorido contra uma parede. De cada vez que o fazia,
  o Mister Jingles corria atrs do objecto, parava-o e em seguida fazia-o rolar at aos ps do Delacroix. Ao fim de algum tempo, aquilo comeou a bulir-me com os 
nervos - primeiro foi o rudo que o carretel fazia quando batia contra a parede de pedra, depois era o barulho quase imperceptvel das patas do Mister Jingles a 
correr. Embora aquela habilidade fosse muito engraada, ao fim de mais ou menos noventa minutos comeava a perder interesse. E o rato parecia nunca se sentir cansado. 
De vez em quando fazia uma pausa para se refrescar com um pouco de gua do pires de caf que o Delacroix tinha apenas com essa finalidade, ou para tasquinhar uma 
migalha do rebuado amarelado de hortel-pimenta, e regressava de imediato  sua habilidade. Por vrias vezes estive para dizer ao Delacroix que parasse um pouco 
com aquilo, mas em cada uma dessas ocasies recordei a mim mesmo que ele s dispunha daquela noite e do dia seguinte para poder fazer o truque d
 o carretel com o Mister Jingles. No entanto, j prximo do fim comeou a ser-me francamente difcil manter esse pensamento em mente - sabem como , quando um barulho 
se repete indefinida e monocordicamente. Ao fim de algum tempo ficamos com os nervos  flor da pele. Apesar de todas as consideraes, comecei a dizer de minha justia, 
mas ento houve algo que me fez olhar por cima do ombro para fora da cela. O John Coffey encontrava-se de p junto das barras da porta da sua cela, do outro lado 
do corredor, abanando a cabea na minha direco: para a direita, para a esquerda e de volta ao centro. Como se tivesse lido os meus pensamentos, dizendo-me que 
deveria reconsiderar o que estava prestes a dizer. Assegurar-me-ia de que o Mister Jingles era entregue  tia solteirona do Delacroix, disse eu, a mesma que lhe 
havia enviado o saco grande cheio de rebuados. O carretel colorido tambm seguiria com o rato, at mesmo a sua "casa" - entretanto, t
nhamos feito uma colecta, acabando de vez com a reivindicao do Pouca Terra sobre a caixa de Coronas. No, dissera o Delacroix depois de ter meditado um pouco 
(nesse interior, tivera tempo para lanar o carretel contra a parede, pelo menos cinco vezes, com o Mister Jingles a empurr-lo com o focinho ou a faz-lo rodar 
com as patas, para junto dele), isso no resultaria. A tia Hermione j era demasiado velha, nunca conseguiria compreender os modos atrevidos do 208

209 Mister Jingles, e o que seria dele se lhe sobrevivesse? No, no, a tia Hermione estava absolutamente fora de questo. E se um de ns ficasse com o rato?, perguntei. 
Um dos guardas prisionais? Poderamos mant-lo mesmo ali, no Bloco E. No, recusou o Delacroix, agradecendo-me o pensamento generoso, certainement, mas o Mister 
Jingles era um rato que ansiava pela liberdade. Ele, Eduard Delacroix, sabia isso, porque o Mister Jingles - com certeza que j tinham adivinhado - lhe segredara 
essa informao ao ouvido. - Muito bem - continuei -, nesse caso, um de ns lev-lo- para casa, Del. Talvez o Dean. Ele tem um filho ainda pequeno que adoraria 
ter um rato de estimao. Perante aquela sugesto, o Delacroix chegou ao ponto de empalidecer. Um garoto a tomar conta de um roedor de gnio como o Mister Jingles? 
Como  que, em nome de le bon Dieu, se poderia esperar que um rapazinho tivesse capacidade para o manter amestrado e lhe ensinar novas h
 abilidades? E suponhamos que o garoto perdia o interesse e se esquecia de lhe dar de comer durante dois ou trs dias consecutivos? O Delacroix, que tinha assado 
seis seres humanos em vida, tentando encobrir as provas incriminatrias do seu primeiro crime, estremeceu, mostrando a delicada repulsa de um ardente antivivisseccionista. 
Est bem, eu prprio o levarei para casa, disse-lhe eu (esto lembrados? Devemos prometer-lhes seja o que for; durante as suas ltimas quarenta e oito horas, h 
que prometer-lhes tudo e mais alguma coisa). O que  que ele achava dessa sugesto? - No senhor, chefe Edgecombe - retorquiu o Del num tom de voz onde se adivinhava 
um pedido de desculpas. Voltou a arremessar com o carretel contra a parede. Este fez rico chete e rodopiou; em seguida, o Mister Jingles atirou-se ao carretel que 
nem gato a bofe, empurrando-o com o focinho de regresso ao Delacroix. - Agradeo a sua generosidade... merci beaucoup, mas o senhor vive no bosq
 ue e o Mister Jingles teria medo de viver dans la fort. Eu sei, porque... - Parece-me que sou capaz de adivinhar como  que soubeste, Del - retorqui. O Delacroix 
acenou com a cabea, exibindo um sorriso rasgado antes de retomar a palavra. 210 - Mas ns vamos arranjar maneira de resolver o problema, Pode crer! - Uma vez mais, 
lanou o carretel contra a parede. O Mister Jingles l foi a correr atrs dele. Tentei no me retrair. No fim, foi o Brutal quem salvou o dia. Estivera sentado na 
mesa do guarda de servio a ver o Dean e o Harry jogarem s cartas. O Percy tambm se encontrava presente, e o Brutal, ao fim de vrias tentativas, cansou-se de 
tentar meter conversa com ele, uma vez que as nicas respostas que obtinha eram resmungos amuados. O Brutal veio at junto de mim e ficou do lado de fora da cela 
do Delacroix a ouvir a nossa conversa de braos cruzados. - E que tal a Vila dos Ratos? - perguntou o Brutal, interrompendo o silncio que se s
 eguira  refeio do Delacroix da minha velha casa, que to sinistra era no meio do arvoredo. Lanou aquela sugesto num tom de voz muito casual, como se fosse 
uma ideia que lhe ocorresse naquele momento. - A Vila dos Ratos? - perguntou o Delacroix, lanando ao Brutal um olhar de interesse e prplexidade. - Mas que Vila 
dos Ratos  essa? - Uma atraco turstica que h na Florida - respondeu ele. - Parece-me que em Tallahassee. No  verdade, Paul? Em Tallahassee? - Sim - concordei 
sem hesitao, pensando que Deus deveria abenoar o Brutus Howell. - Tallahassee. $ s um bocado mais abaixo na estrada, logo ao p da universidade dos ces. - Ao 
ouvir aquilo, a boca do Brutal desenhou um trejeito de riso, o que me levou a pensar que desataria a rir, borrando a pintura toda, mas l conseguiu dominar-se, acenando 
com a cabea. Calculei que mais tarde iria fartar-me de ouvir falar da universidade dos ces. Desta vez, o Del no lan=E
 7ou o carretel, embora o Mister Jingles se encontrasse em cima da sua pantufa, com as patas dianteiras erguidas, indicando que esperava

avidamente pela oportunidade de poder comear a correr atrs do carretel. O olhar do cajun pousou no Brutal e depois em mim, voltando a concentrar-se no Brutal. 
- O que  que eles fazem na Vila dos Ratos? - perguntou ele. - Achas que acolheriam o Mister Jingles? - perguntou-me o Brutal, ignorando a pergunta do Del, mas ao 
mesmo tempo incentivando-o a continuar. - Achas que ele tem o que  preciso, Paul? Tentei dar a impresso de que meditava no assunto. - Sabes - comecei a dizer -, 
quanto mais penso nisso, mais chego  concluso de que se trata de uma ideia brilhante. - Pelo canto do olho vi o Percy a meio da Milha Verde (ao passar pela cela 
do Wharton fez um grande desvio). Encostou um ombro s barras de uma cela vazia, prestando ateno  nossa conversa com um sorriso de desprezo nos lbios. - O que 
 essa coisa da Vila dos Ratos? - continuou o Delacroix, ansioso por saber mais pormenores. - uma atraco turstica, como j te disse - res
 pondeu o Brutal. - Existem l, oh, no sei bem, talvez uns cem ratos. No te parece, Paul? - Creio que j devem ser uns cento e cinquenta - reforcei eu. - Tem sido 
um grande sucesso. Tanto quanto sei, esto a pensar em abrir um na Califrnia e chamar-lhe Vila dos Ratos do Oeste; por aqui vs como o negcio tem vindo a prosperar. 
Os ratos amestrados esto na moda para a gente inteligente, calculo... embora eu no consiga compreender muito bem todo esse entusiasmo. O Del estava sentado com 
o carretel colorido na mo, olhando para ns, tendo-se esquecido momentaneamente da sua prpria situao. - Eles s aceitam os ratos mais espertos - acrescentou 
o Brutal num tom de advertncia -, os que sabem fazer habilidades. E no podem ser ratos brancos, porque esses vendem-se nas lojas. - Sim, vendem-se nas lojas, aposto 
que sim! - atalhou o Delacroix com toda a veemncia. - Odeio esses ratos das lojas! - E h l uma... - continuou o Brutal com
 o olhar fixo  distncia, como se imaginasse a cena. - Existe uma tenda onde entramos..: - Sim, sim, como se fosse num circo!  preciso pagar para entrar? - Ests 
a gozar comigo?  claro que  preciso pagar para entrar. Dez centavos por pessoa, dois centavos para as crianas. E h uma espcie de cidade feita de caixas de ba 
quelite e rolos de papel higinico, com janelas feitas de vidro de folha de mica para podermos ver os ratos no interior... - Sim! Sim!... - Naquele momento, o Delacroix 
tinha entrado em xtase. Em seguida, voltou-se para mim. - Que vidro  esse? -  como as portas dos fornos que deixam ver para dentro - expliquei. -. Ah, estou a 
ver! Essa merda! - Fez um gesto com a mo ao Brutal, querendo que ele prosseguisse, enquanto os olhinhos de contas negras do Mister Jingles quase descreviam uma 
volta completa dentro das rbitas, tentando no perder de vista aquele carretel. Era uma cena deveras engraada. Entretanto, o Percy apro
 ximouse um pouco mais, como se quisesse observar melhor; vi que o John Coffey lhe franzia o sobrolho, mas eu estava demasiado embrenhado na fantasia do Brutal para 
prestar mais ateno ao que se passava. Aquela situao conferia ao facto de dizer aos condenados tudo o que queriam ouvir uma dimenso inteiramente nova, e todo 
eu era admirao, acreditem. - Pois bem - continuou o Brutal -, temos a cidade dos ratos, mas aquilo de que os midos gostam verdadeiramente  o Circo da Vila dos 
Ratos, onde h ratos que andam de baloio, outros que rolam em cima de pequenos barris, outros que empilham moedas... - Sim,  isso mesmo! Esse  que  o lugar para 
o Mister Jingles! - retorquiu o Delacroix, todo excitado. Os seus olhos cintilavam e as suas faces tinham ficado muito ruborizadas. Achei que o Brutus Howell era 
uma espcie de santo. - Sempre vais acabar por ir parar a um circo de ratos, Mister Jingles! Vais passar a

viver numa cidade de ratos na Florida! Com todas as janelas de vidro de folha de mica! Hurra!!! Arremessou o carretel com mais fora do que o habitual. Atingiu a 
parede na zona inferior, fez ricochete de uma forma estranha e foi projectado por entre as barras da porta da cela do Delacroix, indo parar  Milha. O Mister Jingles 
no hesitou em ir a correr atrs do carretel, e o Percy viu ali a sua grande oportunidade. - No, grande idiota! - berrou o Brutal, mas o Percy no lhe prestou a 
mnima ateno. Assim que o Mister Jingles chegou junto do carretel, demasiado concentrado no ob jecto para se aperceber de que o seu velho inimigo se encontrava 
por perto, o Percy colocou-lhe em cima a sola dura do seu pesado sapato preto de trabalho. Ouviu-se um estalar bastante audvel quando a espinha do Mister Jingles 
se partiu, tendo comeado a jorrar-lhe logo sangue da boca. Os seus pequenos olhos negros imobilizaram-se esbugalhados nas rbitas; neles li uma expres
 so de agonia e de surpresa que era demasiado humana. 212 213 O Delacroix gritou de dor e de horror-. Lanou-se contra a porta da cela, enfiando os braos por entre 
as barras de ferro, esticando-se tanto quanto possvel e gritando vezes sem conta o nome do rato. O Percy voltou-se para ele com um sorriso nos lbios. - J est 
- disse ele, dirigindo-se a ns trs. - Sabia que acabaria por apanh-lo. Na verdade, era uma questo de tempo. - Virou costas e comeou a andar pela Milha Verde 
sem pressa, deixando o Mister Jingles estendido em cima do linleo, no meio de uma poa do seu prprio sangue. Parte Quatro

A M MORTE DO EDUARD DELACROIX Pondo de parte toda esta outra escrita, tenho vindo a manter um pequeno dirio desde que fixei residncia em Georgia Pines - nada 
de muito importante, s uns dois pargrafos por dia, em grande parte acerca das condies do tempo - e ontem ao fim do dia passei-lhe uma vista de olhos. O meu objectivo 
era saber h quanto tempo  que os meus netos, Christopher e Danielle, me tinham forado a vir para este lar. -  para o seu prprio bem, av - haviam eles dito 
na altura.  claro que disseram. No  isso o que a maior parte das pessoas costuma dizer, quando finalmente conseguem ver-se livres de um problema que anda e fala? 
Passaram pouco mais de dois anos. Mas o mais estranho  que no sei se realmente parece que j passaram dois anos, mais tempo, ou menos. Tenho a sensao de que 
o meu sentido da passagem do tempo est a liquefazer-se, tal como o boneco de neve de uma criana que se derrete com o degelo
 de Janeiro.  como se o tempo, como sempre foi, tenha deixado de existir. Aqui existe apenas o Tempo de Georgia Pines, que  o mesmo que dizer, o Tempo do Homem 
Velho, o Tempo da Senhora de Idade e o Tempo de Mijar na Cama. O resto... desapareceu por completo. Este  um lugar perigoso. Ao princpio no nos apercebemos disso, 
pensamos que  apenas um lugar enfadonho que se deve temer tanto como um jardim-infantil durante a hora da sesta; contudo,  perigoso, sem dvida. J tive ocasio 
de ver muita gente entrar num estado de senilidade desde que aqui cheguei e s vezes isso no se processa com suavidade - s vezes afundam-se  velocidade de um 
submarino a mergulhar no menor espao de tempo possvel. Essas pessoas do entrada aqui em condies de sade bastante razoveis 217 com o olhar um pouco opaco, 
grudadas  bengala, talvez um pouco soltos dos intestinos, mas, fora isso, bem - e depois passa-se qualquer coisa com elas. Um ms
 mais tarde s conseguem estar sentados na sala da televiso, a olhar fixamente para o ecr com uma expresso abstracta, o queixo descado e um copo

de sumo de laranja esquecido na mo, e que entretanto se inclinou e comeou a gotejar. Um ms depois,  necessrio dizer-lhes os nomes dos filhos quando estes vm 
visit-los. E um ms depois  o raio dos seus prprios nomes que  preciso recordar-lhes. De facto, h qualquer coisa que lhes acontece:  o Tempo em Georgia Pines 
o que lhes acontece. A passagem do tempo por aqui assemelha-se a um cido fraco que primeiro apaga a memria, e que em seguida elimina o gosto pela vida.  necessrio 
lutar contra esse estado mrbido.  o que eu digo constantemente  Elaine Connelly, a minha amiga muito especial. No que me diz respeito, a situao melhorou desde 
que comecei a escrever sobre o que me aconteceu em 1932, o ano em que o John Coffey chegou  Milha Verde. Algumas destas recordaes so horrorosas, mas o certo 
 que as sinto a aguar-me a memria e o meu estado de alerta, da mesma forma que o gume de uma faca afia a ponta
  de um lpis, e s por isso compensam o sofrimento que causam. No entanto, a escrita e a memria por si s no so o suficiente. Tambm tenho um corpo, independentemente 
do quanto hoje em dia ele possa ser grotesco e estar deteriorado, e eu exercito-o tanto quanto possvel. De incio foi difcil - os velhos jarretas como eu no so 
muito dados ao exerccio fsico, quando este  feito sem um incentivo - mas agora -me mais fcil, uma vez que passou a existir uma finalidade nos meus passeios. 
Costumo sair antes do pequeno-almoo - na maior parte dos dias, assim que a manh comea a despontar - para dar o meu primeiro passeio. Esta manh estava a chover 
e o tempo hmido provoca-me dores nas articulaes, mas vesti um impermevel que estava pendurado no bengaleiro  porta da cozinha, e mesmo com o tempo chuvoso sa. 
Quando um homem tem uma tarefa a cumprir, esta tem de ser levada a cabo, e se isso lhe causar dores, pois bem,
 tanto pior. Alm do mais, h que levar em considerao todas as compensaes. A principal  conseguirmos manter esse sentido do Tempo Verdadeiro, ao contrrio do 
Tempo em Georgia Pines. E alm disso, a chuva agrada-me, com dores ou sem dores. Especial 218 mente, s primeiras horas da manh, quando o dia ainda  jovem, e nos 
d a impresso de estar repleto de possibilidades, at mesmo para um velhote desgastado como eu. Atravessei a cozinha, detendo-me para implorar a um dos cozinheiros, 
de olhos ainda meio adormecidos, que me desse duas torradas, e sa. Percorri o campo de jogos e parte do pequeno campo de golfe coberto de ervas. Por detrs dessa 
rea existe um arvoredo de pequenas dimenses, com uma vereda estreita e sinuosa, assim como dois barraces que j no so utilizados, e que se vo deteriorando 
com a passagem do tempo. Num passo lento, percorri este caminho, escutando o gotejar da chuva, suave e envolto em mistrio,
  a tombar sobre os pinheiros, enquanto ia trincando as torradas com os poucos dentes que me restam. Sentia dores nas pernas, mas estas no eram muito intensas e 
conseguiam suportar-se. De uma maneira geral, sentia-me bastante bem. Inspirei o ar hmido e pardacento to profundamente quanto me foi possvel, os meus pulmes 
engolindo-o como se fosse comida. Quando cheguei ao segundo dos velhos barraces que mencionei, entrei durante algum tempo e tratei do que tinha a tratar ali. Vinte 
minutos mais tarde, quando voltei  vereda por onde tinha ido, comecei a sentir o bichinho da fome a agitar-se no meu estmago; pensei que j me apetecia alguma 
coisa um pouco mais substancial do que as torradas. Talvez uma tigela de papas de aveia, ou mesmo um ovo mexido com uma salsicha ao lado. Gosto de salsichas, sempre 
gostei, mas hoje em dia, se por acaso como mais do que uma, tenho propenso a ficar com diarreia. No entanto, s uma no deveria causar-me transtorno.
 Em seguida, com a barriga cheia e com o ar hmido ainda a espevitarme o crebro (ou assim o esperava), tencionava ir para o solrio comear a escrever sobre a execuo 
do Eduard Delacroix. F-lo-ia o mais depressa possvel, para no perder a coragem. Quando voltei a atravessar o campo de jogos, em direco  porta da cozinha, era 
o Mister Jingles que me preenchia os pensamentos - a maneira como o Percy Wetmore o tinha es magado com o sapato, partindo-lhe a espinha, e de como o Delacroix havia 
desatado a gritar ao dar-se conta daquilo que o seu inimigo

fizera - e s dei pela presena do Brad Dolan, que estava meio oculto pelos contentores do lixo, quando ele subitamente me agarrou pelo pulso. 219 - Com que ento 
saste para dar um pequeno passeio, no  verdade, Paulie? perguntou ele. Dei um safano, soltando o pulso, sobressaltado - qualquer pessoa apanhada de surpresa 
faria a mesma coisa - mas no s. Recordam-se de que eu estivera a pensar no Percy Wetmore, e de cada vez que vejo o Brad lembro-me logo do Percy. Isso deve-se em 
parte ao facto de o Brad andar sempre com um livro de bolso enfiado na algibeira (no caso do Percy era sempre uma revista de aventuras; com o Brad so livros de 
anedotas que s tm graa no caso de se ser estpido, ou ter mau corao), e  maneira como ele se comporta, como se fosse o maior, mas principalmente por ele ser 
matreiro e ter prazer em fazer mal aos outros. Reparei que acabara de pegar ao trabalho - nem sequer ainda tivera tempo de vestir o uniforme bran
 co de servente do lar. Trazia um par de calas de ganga e uma camisa grosseira. Numa das mos tinha o que restava de um bolo que roubara da cozinha. Estivera debaixo 
do beiral a com-lo, para se proteger da chuva. E para poder observar a minha chegada, nesta altura estou bem certo disso. Tambm estou certo de outra coisa: preciso 
de ter cuidado com o Brad Dolan. Ele no gosta muito de mim. No sei por que razo, mas tambm nunca cheguei a saber porque  que o Percy Wetmore sempre antipatizara 
com o Delacroix. Na realidade, antipatia  uma palavra demasiado fraca. O Percy odiara o Del com todas as veias da sua alma desde o primeiro instante em que o pequeno 
franci surgira na Milha Verde. - O que  que se passa com esse impermevel que trazes vestido, Paulie? perguntou ele, sacudindo a gola. - No  teu. - Tirei-o do 
corredor, junto  porta da cozinha - repliquei. Detesto que ele me chame Paulie e estou convencido de que ele est bem ciente d
 isso, mas raios me partissem se eu lhe daria a satisfao de aludir ao assunto. - H imensos impermeveis pendurados no bengaleiro. Seja como for, no estou a danific-lo, 
no te parece? E  exactamente para a chuva que eles se destinam. - Mas no foram feitos para ti, Paulie - retorquiu ele com um pequeno sorriso de desdm. - A  
que est o buslis. Esses impermeveis so para os empregados e no para os residentes. - Continuo sem compreender que mal  que posso ter feito. Ele lanou-me um 
sorriso por entre os lbios cerrados. - Isto no tem nada a ver com mal, mas sim com os regulamentos. O que seria a vida sem regulamentos? Paulie, Paulie, Paulie. 
- Abanou a cabea, como se s o facto de ser forado a olhar para mim fizesse com que lamentasse estar vivo. Provavelmente, ests convencido de que um peido velho 
como tu no tem de se preocupar mais com os regulamentos, mas isso no  verdade. Paulie. A sorrir para mim. A
 ntipatizando comigo. Talvez chegasse ao ponto de me odiar. E porqu? No sei. Por vezes no h qualquer motivo. Esse  que  o aspecto assustador da questo. - 
Bom, lamento muito se desobedeci aos regulamentos - continuei. A minha voz saiu choramingada e um pouco esganiada; detestei-me por ter falado daquela maneira, mas 
j sou velho e as pessoas de idade choramingam com facilidade. As pessoas velhas assustam-se com facilidade. - As tuas desculpas so aceites - disse o Brad com um 
acenar de cabea. - Agora vai pendurar isso. Em qualquer dos casos, no tens nada que andar a passear  chuva. Muito em especial, naquele arvoredo. E se escorregasses 
e casses, fracturando o raio da bacia? Hem? Quem  que pensas que seria obrigado a arrastar a tua velha carcaa pela colina acima? -No sei - respondi-lhe. O meu 
nico desejo era afastar-me dele. Quanto mais o ouvia falar, mais o achava parecido com o Percy. O William Wharton, o tresloucado que es
 tivera na Milha Verde durante o Outono de 32 numa ocasio agarrou no Percy e assustou-o tanto que ele mijou nas calas. Se falarem disto a algum, dissera-nos o 
Percy depois do ocorrido, daqui a uma semana esto na bicha para a sopa dos pobres. Agora, depois de decorridos todos esses anos, eu quase conseguia ouvir o Brad 
Dolan a articular aquelas mesmas palavras, exactamente no mesmo timbre de voz. $ como se, ao escrever sobre esses tempos

passados, eu tivesse aberto uma porta medonha que ligava o passado ao presente o Percy Wetmore ao Brad Dolan, a Janice Edgecombe  Elaine Connelly, a penitenciria 
de Cold Mountain ao lar da terceira idade de Georgia Pines. Se este pensamento no me mantiver acordado  noite, estou em crer que nada o conseguir. Fiz meno 
de entrar pela porta da cozinha, e o Brad voltou a agarrar-me pelo pulso. No sei quanto  primeira vez, mas desta feita ele f-lo de propsito, apertando-me o pulso 
at me magoar. Os seus olhos percorriam tudo em seu redor, certificando-se que no havia ningum por ali com aquele 220 tempo hmido do incio da manh, ningum 
que pudesse testemunhar que ele estava a abusar de uma das pessoas de idade das quais deveria cuidar. - O que  que fazes quando vais por aquele caminho? - perguntou 
ele. - Eu sei que no vais por ali para bateres uma punheta, esses dias h muito que ficaram para trs. Portanto, o que  que
 vais fazer? - Nada - respondi, dizendo a mim mesmo que me acalmasse, para no lhe dar a mostrar o quanto estava a magoar-me; era preciso manter a calma, ter em 
mente que ele s mencionara a vereda e no dissera nada sobre o barraco. - Vou s passear. Pr as ideias em ordem. -  tarde de mais para isso, Faulie, a tua mente 
nunca voltar a pensar com clareza. - Uma vez mais, apertou o meu pulso de homem fragilizado pela idade, fazendo presso sobre os ossos quebradios, sempre a olhar 
de um lado para o outro para se assegurar de que ningum presenciava aquela cena. O Brad no receava infringir os regulamentos; o seu nico receio era ser apanhado 
a faz-lo. At nisso ele agia como a Percy Wetmore, o qual nunca permitia que ningum se esquecesse que ele era sobrinho do governador do estado. - To velho como 
s,  um autntico milagre que sejas capaz de te recordar de quem s. s demasiado velho. At mesmo para um museu como este. Ca
 usas-me arrepios na espinha, Paulie. - Larga-me - ripostei, tentando falar numa voz que no fosse choramingada. O que no se devia apenas ao meu orgulho. Pensei 
que se ele o detectasse poderia ficar todo inflamado, da mesma forma que o cheiro do suor pode, por vezes, inflamar um co de maus flgados - um co que, noutras 
circunstncias, se limitaria a rosnar - levando-o a morder. Aquilo trouxe-me  recordao a imagem do reprter que fizera a cobertura do julgamento do John Coffey. 
O reprter era um homem horroroso de nome Hammersmith, e a coisa mais horrvel acerca dele  que nunca se apercebera de como era horroroso. Em vez de me soltar, 
o Dolan voltou a apertar-me o pulso. Comecei a gemer. No queria fazer tal coisa, mas foi mais forte do que eu. As dores percorreram-me o corpo at aos tornozelos. 
- O que  que costumas fazer ali em baixo, Paulie? Diz-me. - Nada! - respondi. No chorava, ainda no, mas re ceava que isso viesse a acontecer
 dentro em pouco, caso ele continuasse a magoar-me daquela maneira. - Nada, limito-me a passear, eu gosto de passear, larga-me o pulso! Ele acedeu, mas somente pelo 
tempo suficiente para poder agarrar-me pela outra mo. Essa estava fechada num punho. - Abre-a - disse ele. - Deixa o pap ver o que  que tens a. Obedeci-lhe, 
o que lhe provocou um resmungo de nojo. Eram s os restos da minha segunda torrada. Quando ele comeara a apertar-me o pulso esquerdo,. eu cerraraa na outra mo 
e, como estava barrada de manteiga - que  como quem diz... com um sucedneo, como  evidente, eles ali no tinham manteiga da verdadeira lambuzara-me os dedos. 
- Vai para dentro e lava a porcaria das mos - ripostou ele, retrocedendo e dando outra dentada no seu bolo. - Jesus Cristo! Subi os degraus. Sentia as pernas a 
tremer, e o meu corao pulsava como um motor que tivesse vlvulas que no vedassem e pistes velhos. Enquanto rodava a maaneta que abriria a po
 rta da cozinha - eme proporcionaria segurana - o Dolan continuou a falar.

- Se contares a algum que eu te torci esse pulso velho, Paulie, eu digo-lhes que andas a ver coisas. O incio da demncia provocada pela senilidade, muito plausivelmente. 
E sabes que eles acreditaro em mim. Se por acaso houver ndoas negras, pensaro que foste tu que as fizeste a ti prprio. Sim. Aquilo era verdade. E, uma vez mais, 
poderia muito bem ter sido o Percy Wetmore a proferir aquelas palavras, um Percy que conseguira manter-se jovem e malvolo, enquanto eu tinha envelhecido, ficando 
com um corpo frgil. - No tenciono dizer nada seja a quem for - repliquei entre dentes. - No tenho nada a dizer. -  isso mesmo, minha velha doura. - A sua voz 
era suave e mordaz, a voz de um mentecapto (para utilizar o termo do Percy) que estava convencido que se manteria jovem para sempre. - E podes crer que vou descobrir 
o que  que andas a tramar. No hei-de descansar at saber. Ests a ouvir o que te digo? Estava e muito bem, mas no lhe dari
 a a satisfao de lho dizer. Entrei, atravessando a cozinha (chegava-me s narinas o aroma dos ovos e das salsichas, mas eu entretanto tinha 222 223 perdido o apetite), 
e pendurei o impermevel no cabide. Em seguida, subi as escadas at ao meu quarto - descansando em cada degrau e dando tempo ao meu corao para que se acalmasse 
- afim de ir buscar o meu material de escrita. Desci at ao solrio; preparava-me para me sentar  pequena mesa junto das janelas, quando a minha amiga Elaine enfiou 
a cabea pela porta entreaberta. Tinha um aspecto fati gado e, pensei, pouco saudvel. Penteara os cabelos mas continuava com o roupo vestido. Ns, as velhas douras, 
no costumamos estar com muitas cerimnias, quanto ao traje que envergamos; na maior parte dos casos, no podemos dar-nos a esse luxo. - No quero incomodar - disse 
ela -, estou a ver que ests a preparar-te para comear a escrever... - No digas disparates - repliquei. - Tenho t
 empo de sobra. Entra. O que a Elaine fez, mas continuando junto  porta. - E que no consegui dormir... outra vez. E por acaso olhei pela janela ainda no h muito 
tempo... e... - E viste o Dolan e eu prprio embrenhados numa pequena conversa deveras agradvel - continuei. Esperava que ela se houvesse limitado a observar; que 
a janela dela se ti vesse mantido fechada, impedindo-a de me ouvir a choramingar, pedindo ao homem que me largasse. - No me parece que tenha sido agradvel nem 
to-pouco amigvel - acrescentou ela. - Paul, esse Dolan tem andado por a a fazer perguntas a teu respeito. Fezme pergun tas sobre ti, na semana passada. Na altura 
no pensei muito no assunto, pois acho que ele  muito bisbilhoteiro em relao s outras pessoas, mas agora estou com algumas dvidas. - Fez perguntas sobre mim? 
- S esperava que a minha voz no desse a entender o mal-estar que me invadira. - A perguntar o qu? - Para comear, queria saber
 onde  que vais quando ds os teus passeios. E tambm por que razo vais passear. Tentei rir-me sem grande xito. - A est um homem que no acredita nos beneficios 
do exerccio fsico. - Ele pensa que tu tens um segredo. - A Elaine fez uma pausa. - E eu tambm. Abri a boca - no sei bem para dizer o qu - mas a Elaine ergueu 
uma das suas mos enodadas, mas to estra nhamente bonitas, antes de eu ter oportunidade de proferir uma nica palavra. - Se for esse o caso, no pretendo saber 
o que , Paul. Os teus assuntos s a ti dizem respeito. Foi assim que fui educada, embora isso no acontea com toda a gente. Tem cuidado. Era s o que queria dizer-te. 
E agora vou deixar-te sozinho com a tua escrita. A Elaine voltou-se, fazendo meno de se ir embora; antes que pudesse transpor a porta, chamei-a. Virou-se para 
mim com uns olhos inquiridores.

- Quando eu terminar o que tenho andado a escrever... - comecei a dizer, abanando ligeiramente a cabea. Aquilo era incorrecto. - Se eu conseguir acabar o que tenho 
andado a escrever, estarias disposta a l-lo? Pareceu ter ficado a pensar no assunto; ao fim de algum tempo, brindou-me com aquela espcie de sorriso por que um 
homem se poderia apaixonar facilmente, at mesmo um homem envelhecido como eu prprio. - Para mim, isso seria uma honra - respondeu a Elaine por fim. -  prefervel 
leres antes de comeares a falar em honras - retorqui, pensando na morte de Delacroix. - Seja como for, gostaria de ler os teus escritos - continuou ela. - Cada 
palavra. Prometo. Mas primeiro tens de acabar de escrever. Com aquelas palavras, deixou-me sozinho, mas ainda decorreu muito tempo at que comeasse a escrever qualquer 
coisa. Fiquei sentado a olhar pela janela durante quase uma hora, batendo com a caneta contra a mesa, observando o dia pardacento a iluminar-se um po
 uco por breves instantes, a pensar no Brad Dolan, o qual me chama Paulie e nunca se cansa das piadas sobre os chinocas, os saloios e os negros, a pensar no que 
a Elaine Connelly tinha acabado de me dizer. Ele pensa que tu tens um segredo. E eu tambm. Talvez eu tivesse.  possvel que sim. E, como  evidente, o Brad Dolan 
queria conhec-lo. No porque pensasse que era importante (e calculo que no fosse, excepto para mim), mas s porque pensava que os velhos como eu no deviam ocultar 
segredos. To-pouco devem tirar os impermeveis dos bengaleiros junto da porta da cozinha. Ou ficar com a ideia de que os da nossa igualha continuam a ser seres 
humanos. E por que razo no deveria ser-nos permitido tal ideia? Ele 224 225 no sabe. E tambm nesse aspecto  muito parecido com o Percy. Por conseguinte, os 
meus pensamentos, como as guas que dobram o cotovelo de um rio, regressaram finalmente ao ponto onde haviam estado na altura em que o Brad Dol
 an es tendera a mo, perto da cozinha, para me agarrar o pulso: ao Percy, ao Percy Wetmore, o homem de esprito maldoso, e  forma como ele exercera a sua vingana 
sobre algum que ousara rir-se de si. O Delacroix estava a lanar o carretel de cores garridas - aquele que o Mister Jingles ia buscar a correr quando este fez ricochete 
na parede da cela, e saltou para o corredor. No foi necessrio mais nada; o Percy viu ali a sua grande oportunidade. 2 - No, grande idiota! - berrou o Brutal, 
mas o Percy no lhe prestou a mnima ateno. Assim que o Mister Jingles chegou junto do carretel, demasiado concentrado no ob jecto para se aperceber de que o seu 
velho inimigo se encontrava por perto, o Percy colocou-lhe em cima a sola do seu pesado sapato preto de trabalho. Ouviu-se um estalar bastante audvel quando a espinha 
do Mister Jingles se partiu, tendo comeado a jorrar-lhe logo sangue da boca. Os seus pequenos olhos negros imobilizaram-se esbugalh
 ados nas rbitas; neles li uma expresso de agonia e de surpresa que era demasiado humana. O Delacroix gritou de dor e de horror. Lanou-se contra a porta da cela, 
enfiando os braos por entre as barras de ferro, esticando-se tanto quanto possvel e gritando vezes sem conta o nome do rato. O Percy voltou-se para ele com um 
sorriso nos lbios. Tambm se virou para o Brutal e para mim. - J est - disse ele. - Sabia que acabaria por apanh-lo. Na verdade, era uma questo de tempo. - 
Virou costas e comeou a andar pela Milha Verde, sem pressa, deixando o Mister Jingles estendido em cima do linleo, o sangue vermelho a derramar-se por cima do 
verde. O Dean levantou-se da mesa do guarda de servio, batendo com o joelho num dos cantos, fazendo tombar o baralho de cartas com que tinha estado a jogar, que 
se espalharam em todas as direces. Nem o Dean nem o Harry, que estavam quase a terminar o seu turno, prestaram a mnima ateno s cartas.

- O que  que fizeste desta vez? - gritou o Dean ao Percy. - Que porra  que fizeste desta vez, meu estupor? O Percy no lhe deu resposta, passando junto da secretria 
a acamar o cabelo com os dedos. Atravessou o meu gabinete em direco  sala da arrecadao. Foi o William Wharton quem respondeu no seu lugar. - Chefe Dean? Parece-me 
que o que ele fez foi ensinar a um certo franci que este no  muito esperto quando se ri dele - disse o Wharton, desatando a rir-se. Foi uma boa gargalhada, um 
riso do campo, jovial e profundo. Conheci pessoas ao longo desse perodo da minha vida (na sua maioria, pessoas deveras assustadoras), que s pareciam normais quando 
se riam. O Bill Selvagem era uma delas. Uma vez mais, cheio de perplexidade, baixei o olhar at ao rato. Continuava ainda a respirar; viam-se pequenas gotculas 
de sangue entre os filamentos dos seus bigodes, e os olhos, que at ento tinham estado brilhantes que nem pequenas contas negras
 , comeavam a ficar toldados. O Brutal apanhou do cho o carretel colorido, olhou para o objecto e depois fitou-me. Mostrava-se to aparvalhado quanto eu prprio. 
Atrs de ns, o Delacroix no parava de gritar, dando largas a todo o desgosto e horror que sentia. No se tratava apenas do rato, como  bvio. O Percy havia destrudo 
o mecanismo de defesa do Delacroix, e todo aquele horror brotava do seu interior. Mas o Mister Jingles era o centro de todos esses sentimentos reprimidos; era horrvel 
ouvi-lo. - Oh, no - gritava ele repetidamente por entre os berros e as splicas balbuciadas e as oraes em cajun. - Oh, no, oh, no, pobre Mister Jingles, pobre 
velho Mister Jingles, oh, no. - D-mo a mim. Intrigado com aquela voz profunda e retumbante, ergui o olhar, sem que inicialmente soubesse a quem pertencia. Deparei 
com John Coffey.  semelhana do Delacroix, tambm enfiara os braos por entre as barras da porta da cela, mas a
 o contrrio do Del, ele no os abanava. Limitava-se a mant-los estendidos to longe quanto podia, com as mos abertas. Era uma postura quase de urgncia. O seu 
timbre de voz possua as mesmas caractersticas, motivo por que, suponho eu, de 226 227 princpio no a reconheci como pertena sua. Dava a impresso de ser um homem 
diferente em relao quela alma lacrimosa e perdida que ocupara a sua cela durante as ltimas semanas. - Entregue-mo, Mister Edgecombe! Enquanto ainda se vai a 
tempo! Foi ento que me lembrei do que ele fizera por mim, e compreendi. Supus que mal no faria, embora estivesse convencido de que tambm no iria servir de muito. 
Quando apanhei o rato do linleo, retra-me ao tocar-lhe no corpo - havia tantos ossos quebrados e espetados em vrios pontos dos quartos traseiros e dianteiros 
do Mister Jingles, que a sensao era a de agarrar numa almofada de alfinetes coberta de plos. Aquilo no era nenhuma i
 nfeco urinria. Ainda assim... - O que  que ests a fazer? - perguntou-me o Brutal quando coloquei o Mister Jingles na palma da gigantesca mo direita do John 
Coffey. - O que raio?... O Coffey recolheu o rato atravs das barras. O animal mantinha-se inanimado na sua mo, com a cauda pendurada por cima do arco formado pelo 
polegar e dedo indicador, a agitar-se fracamente no ar. Em seguida, o Coffey cobriu a sua mo direita com a esquerda, criando uma espcie de concha, no interior 
da qual o rato se encontrava deitado. Tnhamos deixado de poder ver o Mister Jingles, vamos apenas a sua cauda, suspensa e contorcendo-se fracamente na ponta, qual 
pndulo prestes a imobilizar-se. O Coffey ergueu as mos at ao rosto e, ao faz-lo, abriu os dedos da direita, criando espaos como os existentes entre as barras 
da priso. Naquele momento, a cauda do rato continuava pendurada do lado das mos virado para ns. O Brutal aproximou-se de mim, cont
 inuando a segurar o carretel colorido. - O que  que ele pensa que est a fazer? - Chuuu - fiz-lhe eu. Entretanto, o Delacroix parara de gritar. - Por favor, John 
- sussurrou ele. - Oh, John ajuda-o, por favor ajuda-o, oh, s'il vous plat.

O Dean e o Harry tinham-se juntado a ns; este ltimo trazia numa das mos o nosso velho baralho de cartas. - O que  que se passa? - perguntou o Dean; como resposta, 
limitei-me a abanar a cabea. Uma vez mais, estava a sentir-me hipnotizado, raios me partam se no estava. 228 O Coffey colocou a boca junto de dois dos seus dedos, 
inspirando profundamente. Por um momento, tudo se manteve em suspenso. Pouco depois, ergueu a cabea, afastando-a das mos, o que me permitiu ver a expresso de 
um homem que aparentava estar gravemente doente, ou sob um sofrimento terrvel. Os seus olhos ardentes exibiam uma expresso alerta; os seus dentes superiores mordiam 
com fora o lbio inferior; as suas faces negras tinham adquirido uma tonalidade desagradvel, que mais se assemelhava a uma pasta de cinzas misturadas com lama. 
Emitiu um som estrangulado bem do fundo da garganta. - Adorado Jesus, Senhor e Salvador - murmurou o Brutal. Os seus olhos pareciam querer s
 altar-lhe das rbitas. - O que  que?... - A voz do Harry mais parecia um ladrar. - O qu? - A cauda! No ests a ver? A cauda! A cauda do Mister Jingles deixara 
de se assemelhar a um pndulo prestes a imobilizar-se, e zurzia vigorosamente de um lado para o outro, como a cauda de um gato pronto a caar pssaros. E ento, 
do interior das mos em concha do Coffey, ouviu-se um guinchar perfeitamente familiar. O Coffey soltou uma vez mais aquele som estrangulado de quem estava amordaado, 
e rodou a cabea para o lado, como um homem que houvesse puxado um jacto de escarros e pretendesse lan-lo da boca para fora. Em vez disso, expeliu uma nuvem de 
insectos negros da boca e do nariz. - pelo menos, eu penso que fossem insectos, tal como os outros, mas at hoje no estou absolutamente certo disso. - Comearam 
a zunir  sua volta, formando uma nuvem escura que temporariamente obscureceu as suas feies. - Credo, o que  aquilo?! - perguntou
 o Dean numa voz esganiada e receosa. - No h problema - ouvi-me eu a dizer. - No entres em pnico, est tudo bem, dentro de alguns segundos desaparecero. Tal 
como na ocasio em que o Coffey tinha curado a minha infeco urinria, os "bichinhos" ficaram brancos e desapareceram. - Mas que merda  esta?! - sussurou o Harry 
atnito. - Paul? - chamou o Brutal numa voz pouco firme. - Paul? O Coffey voltara a apresentar um bom aspecto - emo 229 um fulano que tivesse conseguido cuspir 
um bocado de carne que estivera quase a sufoc-lo. Dobrou-se para baixo, colocou junto do cho as mos que continuavam a formar uma concha, espreitou por entre os 
dedos e abriu-as. O Mister Jingles, so que nem um pro - sem o mnimo defeito na espinha nem to-pouco um nico alto nos quartos - comeou a correr. Deteve-se por 
breves instantes junto da porta da cela do Coffey, e em seguida atravessou a Milha Verde at  cela do Delacroix. Quando o ra
 to ia a correr, reparei que ainda tinha algumas gotculas de sangue agarradas aos bigodes. O Delacroix pegou no animal, rindo e chorando ao mesmo tempo, cobrindo 
o rato com beijos repenicados sem quaisquer mostras de embarao. O DDean, o Harry e o Brutal obsevavam em silncio, perplexos. Ento, o Brutal avanou e entregou 
ao Delacroix o carretel colorido atravs das barras da cela. De princpio, este no reparou; estava demasiado enlevado com o Mister Jingles. Era como um pai cujo 
filho tivesse acabado de ser salvo de um afogamento. O Brutal bateu-lhe com o carretel no ombro. O Delacroix olhou, viu o que era, aceitou o carretel e voltou a 
dedicar toda a sua ateno ao Mister Jingles, acariciando-lhe o plo e devorando-o com os olhos, sentindo necessidade de renovar constantemente a sua percepo de 
que sim, o rato estava bem de sade, o rato continuava inteiro e em excelente forma. - Lana-o - disse o Brutal. - Quero ver como  que ele corre.
 - Ele est bem, chefe Howell, ele est bem, louvado seja Deus... - Lana o carretel - repetiu o Brutal, insistente. - Faz o que te digo, Del.

O Delacroix dobrou-se, um pouco relutante, pois no desejava que o Mister Jingles voltasse a sair-lhe das mos, pelo menos de momento. Mas ento, com toda a suavidade, 
arremessou o carretel. Este rolou pelo cho da cela, passando pela caixa de charutos Corona, at chegar  parede. O Mister Jingles foi atrs do objecto, embora o 
no fizesse com a celeridade que demonstrara anteriormente. Dava a impresso de coxear, ainda que ligeiramente, da pata traseira esquerda, pormenor que me despertou 
mais a ateno do que tudo o resto - era, suponho, o que tornava tudo aquilo to real. Aquele pequeno coxear. No entanto, o rato chegou junto do carretel, agarrou-o 
sem problemas e, com o focinho, empurrou-o para junto do Delacroix com o mesmo entusiasmo de sempre. Voltei-me para o John Coffey, que estava junto da porta da cela 
com um sorriso nos lbios. Era um sorriso cansado e no aquele que eu classificaria de realmente feliz; todavia, o sentido de urgncia
 que eu lhe vira na fisionomia quando me implorara que lhe entregasse o rato tinha desaparecido, assim como a expresso de dor e de medo. Uma vez mais, era o nosso 
John Coffey, com o rosto de quem no se encontrava ali de corpo e alma e os estranhos olhos que pareciam fitar  distncia. - Conseguiste evitar o mal - disse eu. 
- No foi, matulo? - Foi isso mesmo - anuiu o Coffey. O sorriso alargou-se um pouco e, durante um momento ou dois, espelhou felicidade. - Eu consegui evitar o mal. 
Eu consegui evitar o mal, consegui evitar o mal no rato do Del. Eu ajudei... - A sua voz enfraqueceu incapaz de se recordar do nome. - O Mister Jingles - adiantou 
o Dean. Observava o John com uns olhos intrigados e cautelosos, como se esperasse que ele ficasse envolto em chamas a qualquer instante, ou que talvez comeasse 
a flutuar pela cela. -  isso mesmo - disse o Coffey -, o Mister Jingles. Ele  um rato do circo. Vai viver numa casa com vidros de folha de mica. - Podes a
 postar o que quiseres - retorquiu o Harry, juntando-se a ns na observao a que submetamos o John Coffey. Por detrs de ns, o Delacroix deitara-se em cima da 
sua tarimba com o Mister Jingles em cima do peito. Entoava-lhe uma cano, uma qualquer melodia em francs que parecia ser uma cano de embalar. Com o olhar, o 
Coffey percorreu a Milha Verde, detendo-se na mesa do guarda de servio; fitou a porta que dava para o meu gabinete, concentrando-se na sala da arrecadao para 
l deste. - O chefe Percy  mau - disse ele. - O chefe Percy  mau. Pisou o rato do Del. Pisou o Mister Jingles. E ento, antes de lhe podermos dizer fosse o que 
fosse - isto , se tivssemos sido capazes de pensar em alguma coisa para lhe dizer - o John Coffey regressou  sua tarimba, deitou-se e voltou o rosto para a parede. 
230 231 3 O Percy encontrava-se de costas para ns quando o Brutal e eu entrmos na arrecadao, cerca de vinte minutos mais ta
 rde. Descobrira uma lata de pomada para polir moblia nu ma prateleira por cima do cesto da roupa onde costumvamos colocar os nossos uniformes (e por vezes, tambm 
as roupas  paisana; a lavandaria da priso no se interessava pelo que lavava) e comeara a puxar lustro  madeira de carvalho dos ps e dos braos da cadeira elctrica. 
Isto, provavelmente, poder parecer-vos aberrante, -talvez at mesmo macabro, mas, na minha opinio e na do Brutal, aquilo parecia ser a coisa mais normal que o 
Percy fazia em toda aquela noite. No dia seguinte, a Velha Fasca tinha encontro marcado com o seu pblico, e o Percy, finalmente, poderia dar a impresso de ser 
o responsvel. - Percy - chamei numa voz calma. Voltou-se; a pequena cano que tinha estado a trautear morreu-lhe na garganta; olhou para ns. No deparei com o 
receio de que estivera  espera, pelo menos de incio. Apercebi-me de que o Percy parecia ter envelhecido. O John Coffey
  tinha razo. De facto, ele tinha um aspecto maligno. A maldade  como uma droga ningum  face da Terra se encontra mais qualificado do que eu para poder dizer

isso - e ocorreu-me que, depois de ter experimentado, o Percy ficara viciado naquilo. Sentia prazer no que fizera ao rato do Delacroix. E sentia ainda mais prazer 
nos gritos de desgosto que o Delacroix soltara. - No comeces a implicar comigo - proferiu ele num tom de voz quase agradvel. Quer dizer, que diabo, no passava 
de um rato. Para comear, o seu lugar nunca foi aqui, como vocs muito bem sabem. - O rato est de boa sade - retorqui. Sentia o corao a bater-me aceleradamente 
dentro do peito, mas obriguei-me a falar numa voz calma, quase desinteressada. - Est pti mo. Anda outra vez a correr e a guinchar atrs do carretel. Tu no s 
melhor a matar ratos do que a fazer a maior parte das outras coisas que fazes por aqui. O Percy olhava fixamente para mim, espantado e sem querer acreditar no que 
eu lhe dizia. - Ests  espera que eu acredite numa coisa dessas. O raio do animal ficou esborrachado! Eu ouvi o barulho que fez! Portanto, no
  podes... - Cala a boca - atalhei. Olhou para mim de olhos esbugalhados. - O qu? O que  que acabaste de dizer? Dei um passo, aproximando-me mais dele. Sentia 
uma veia a latejar a meio da testa. No era capaz de me recordar de qual fora a ltima vez em que me encolerizara. - No ests satisfeito por o Mister Jingles se 
encontrar bem de sade? Depois de todas as conversas que tivemos sobre a nossa funo de manter os prisioneiros calmos, em especial quando se encontram prximos 
do seu fim, pensei que ficarias contente. Aliviado. Porque o Del amanh ter de fazer a caminhada final e tudo o mais. O olhar do Percy desviou-se de mim para o 
Brutal; a sua calma estudada dissolveu-se na incerteza. - Que raio de brincadeira  que pensam que esto a fazer? - perguntou ele. - Nada disto  brincadeira, meu 
amigo - replicou o Brutal. - O facto de pensares que ... pois bem,  apenas uma das razes por que no podemos confiar em ti. Queres saber qual
 a verdade? Acho que inspiras piedade. - Aconselho-te a teres ateno ao que dizes - redarguiu o Percy. Naquele momento, transparecia na sua voz uma certa agressividade. 
Ao fim e ao cabo, o medo apoderava-se dele a pouco e pouco... medo daquilo que talvez pretendssemos dele, medo do que lhe pudssemos vir a fazer. Senti-me satisfeito 
ao detectar aquele medo. Assim era mais fcil lidar com ele. - Eu tenho conhecimentos. Gente importante. - Assim o dizes, mas s um grande sonhador - acrescentou 
o Brutal. Dava a impresso de estar prestes a rebentar em gargalhadas. O Percy deixou cair o pano do p em cima do assento da cadeira com as braadeiras nos braos 
e nas pernas. - Eu matei aquele rato - continuou ele numa voz pouco firme. - Vai ver com os teus prprios olhos - aconselhei. - Estamos num pas livre. -  o que 
vou fazer - disse ele. - Vou, sim. Passou por ns num passo brusco, lbios firmemente cerrados, e com as suas pequenas mos (o W
 harton tinha razo; elas eram bonitas) a remexer no pente. Subiu os degraus e 232 233 baixou a cabea para poder passar por baixo da ombreira da porta que dava 
para o meu gabinete. O Brutal e eu deixmo-nos ficar junto da Velha Fasca,  espera que ele regressasse, e sem trocarmos qualquer palavra. No sei quanto ao Brutal, 
mas por mim no conseguia pensar numa nica coisa para dizer. Nem sequer sabia o que pensar acerca do que acabramos de testemunhar. Decorreram trs minutos. O Brutal 
agarrou no pano do p que o Percy utilizara e comeou a puxar lustro s travessas espessas das costas da cadeira elctrica. Teve tempo de acabar uma e comear outra 
antes de o Percy ter regressado. Este ao descer os degraus do meu gabinete at  arrecadao, tropeou e quase caiu

por eles abaixo; quando se aproximou de ns, vinha num passo cambaleante. A sua expresso era de descrena e choque. - Vocs trocaram de rato - afirmou ele com uma 
voz esganiada e acusadora. - No sei como, mas vocs substituram o rato, grandes estupores. Esto a brincar comigo, mas garanto que iro arrepender-se, caso no 
ponham fim  brincadeira! Ainda hei-de v-los no raio das filas da sopa dos pobres se no pararem com isso! Quem  que julgam que so? Interrompeu-se, arquejando 
e com falta de ar; tinha as mos enclavinhadas. - Eu digo-te quem  que somos - repliquei. - Somos as pessoas com quem trabalhas, Percy... mas no durante muito 
mais tempo. - Estendi os braos e assentei firmemen te as minhas mos sobre os seus ombros. No com muita fora, mas ainda assim com firmeza. Sim, de facto foi isso. 
- Tira as... - comeou o Percy a dizer, erguendo as mos at s minhas. O Brutal agarrou-lhe na mo direita - envolven
 do por completo aquela mo pequena, macia e branca, que desapareceu no interior do punho bronzeado do Brutal. - Cala o buraco dos bolos, filho. Se sabes o que  
bom para ti, aproveita esta ltima oportunidade para limpar a cera que te tapa os ouvidos. Fi-lo dar meia volta, icei-o para cima do estrado e obriguei-o a retroceder 
at que a parte de trs dos seus joelhos bateu contra o assento da cadeira elctrica, forando-o a sen tar-se. Toda a sua calma se esfumara, assim como a maldade 
e a arrogncia. Aquelas facetas do seu carcter eram verdadeiras, mas  preciso no esquecermos que o Percy ainda era muito jovem. Naquela idade, elas no passavam 
de uma camada fina de verniz, como se fossem um tom desagradvel de tinta de esmalte. Continuava a ser possvel descascar a camada. Calculei que naquele momento 
o Percy estivesse pronto para ouvir o que tnhamos a dizer. - Quero a tua palavra - disse eu. - A minha palavra sobre o qu? - Os seus lbio
 s continuavam a querer exibir um esgar escarninho, mas os olhos mostravam-se aterrorizados. A energia que vinha do quadro elctrico estava desligada, mas o assento.de 
madeira da Velha Fasca possua um poder muito prprio, e, naquele momento, imaginei que o Percy estaria a senti-lo. - Atua palavra de que se amanh  noite te deixarmos 
trabalhar na linha da frente irs de facto para o Briar Ridge, deixando-nos em paz de uma vez para sempre - declarou o Brutal, expressando-se com uma veemncia que 
eu nunca lhe tinha ouvido. - Que pedirs transferncia logo no dia seguinte. - E se eu no quiser? E se eu decidir telefonar a umas determinadas pessoas, informando-as 
de que vocs me ameaam e no param de me assediar? Que se comportam como arruaceiros para comigo? -  possvel que corram com os nossos traseiros daqui para fora 
se os teus conhecimentos forem to bons como pareces acreditar que so - retorqui -, mas juro-te que antes disso tratarem
 os de garantir que tambm deixars derramado no cho o teu quinho justo de sangue, Percy. - Por causa desse rato? Pensam que algum vai interessar-se por eu ter 
pisado o rato de estimao de um assassino condenado  morte? Fora das paredes deste asilo de doidos? - No. Mas h trs homens que te viram de braos cruzados enquanto 
o Bill "Selvagem" Wharton tentava estrangular o Dean Stanton com a corrente que lhe prendia os pulsos. As pessoas interessar-se-o por isso, Percy, garanto-te que 
sim. Se tiver conhecimento dessa situao, at o manda-chuva do teu tio governador se interessar. A testa e as bochechas do Percy enrubesceram com manchas avermelhadas. 
- E pensas que algum acreditaria em ti? - perguntou ele; contudo, a sua voz tinha perdido muita da fora que a ira lhe emprestara. Era evidente que o Percy pensava 
que algum iria acreditar em ns. E no gostava de se ver metido em pro 234 235 blemas. Infringir os regulamentos n E3o era uma coisa por a alm. Mas ser apanhado 
a infringi-los j no era nada bom. - Quero acrescentar que tenho

algumas fotografias do pescoo do Dean tiradas antes de os hematomas terem comeado a desaparecer - continuou o Brutal. Eu no fazia a mais pequena ideia se aquilo 
corresponderia ou no  verdade, mas o que  certo  que soava bem. Sabes o que  que essas fotografias dizem? Que o Wharton teve uma esplndida oportunidade antes 
de algum o ter impedido de continuar, embora tu te encontrasses mesmo junto dele, e ainda por cima numa posio em que ele no poderia ter dado pela tua presena. 
Ver-te-ias obrigado a dar resposta a umas quantas perguntas bem difceis, no te parece? E uma coisa dessa natureza pode bem acompanhar um homem durante bastante 
tempo. O mais certo seria acompanh-lo at muito depois de os seus familiares terem deixado de exercer funes na capital do estado e regressado a suas casas, onde 
passaro o tempo a beber usque com folhas de hortel-pimenta, sentados no alpendre da frente. A folha de servio de um home
 m pode transformar-se numa coisa deveras interessante, e h muita gente que tem a oportunidade de a examinar ao longo de uma vida. Os olhos do Percy percorriam 
cada um de ns, reflectindo desconfiana. A sua mo esquerda ergueu-se at aos cabelos, que alisou. No disse nada, mas pensei que quase o tnhamos na mo. - Vamos 
l a pr fim a isto - disse eu. - No te apetece estar aqui mais do que ns te queremos aqui, no ser verdade? - Eu detesto trabalhar aqui! - explodiu ele. - Odeio 
a forma como sou tratado, o facto de nunca me teres dado qualquer oportunidade! A ltima observao encontrava-se longe da verdade, mas considerei que a ocasio 
no era propcia a discutir o assunto. - Mas tambm no gosto que me dem ordens a torto e a direito. O meu pai ensinou-me que assim que comeamos a percorrer esse 
caminho, o mais certo  acabarmos por pernitir que as pessoas faam gatosapato de ns durante toda a vida. - Os seus olho
 s, que no eram to bonitos como as mos, chisparam. - Muito em particular, no me agrada receber ordens de gorilas gigantescos como este tipo. - Lanou um olhar 
ao meu velho amigo e resmungou: - Brutal... Pelo menos deram-te a alcunha adequada. 236 Tens de compreender uma coisa, Percy - atalhei. - Quando se observam as coisas 
da nossa perspectiva, vemos que s tu quem tem andado a fazer gato-sapato de ns. Dizemos-te vezes sem conta como  que costumamos fazer as coisas e tu continuas 
a faz-las como bem te apetece, escudando-te atrs dos teus conhecimentos na poltica sempre que as coisas do para o torto. O facto de teres espezinhado o rato 
do Delacroix... - O Brutal olhou para mim, chamando-me a ateno, pelo que arrepiei rapidamente caminho. - De teres tentado pisar o rato do Delacroix... ilustra 
bem o nosso ponto de vista. Foras as coisas, foras e voltas a forar; estamos apenas a pagar-te na mesma moeda e mais nada. Mas ouve bem, se
  andares acertadamente, acabars por sair de tudo isto muito bem visto... como um jovem em franca asceno, a cheirar a rosas. Ningum precisa de vir a ter conhecimento 
desta nossa pequena conversa. Portanto, o que  que tens a dizer? Comporta-te como um adulto. Promete-nos que depois do Del te irs embora. O Percy ficou a pensar 
no assunto. Aps alguns momentos, surgiu-lhe no olhar uma determinada expresso, o gnero daquelas com que um fulano fica depois de ter tido uma boa ideia. Isso 
no me agradou muito, uma vez que qualquer ideia que pudesse parecer boa ao Percy no seria certamente boa para ns. - Se no por mais nada - interveio o Brutal 
-, pensa pelo menos no quanto seria agradvel ficares bem longe do saco de pus do Wharton. O Percy assentiu com a cabea; deixei-o levantar-se da cadeira. Endireitou 
a camisa do uniforme, meteu a fralda para dentro das calas e com o pente deu uma penteadela nos cabelos. Em seguida, olhou para ns. -
  Muito bem, de acordo. Amanh  noite estarei na linha da frente para o Del; peo a transferncia para o Briar Ridge logo no dia seguinte. E a partir da ficamos 
quites. Est bem assim? - Suficientemente bem - respondi. Ele continuava a manter aquela expresso nos olhos; naquela altura, porm, eu sentia-me demasiado aliviado 
para me interessar por aquele Pormenor. - Damos um aperto de mo para selar o assunto? - pergumtou o Percy, estendendo a mo.

Assim fiz. O Brutal tambm lhe apertou a mo. Conseguira enganar-nos uma vez mais. 237 4 O dia seguinte provou ser o mais abafado e o ltimo do nosso estranho Outubro, 
que to quente se mantivera at ento. A oeste ouvia-se o ribombar da trovoada que me acompanhou at ao trabalho, e as nuvens enegrecidas haviam comeado a a formar 
um manto.  medida que a noite desciasobre ns, mais elas se aproximavam; por entre aquele manto nebuloso, avistvamos as forquilhas azuis e brancas dos relmpagos 
que as aguilhoavam. Por volta das dez da noite, o municpio de Trapingus foi atingido por um tornado - provocou a morte a dez pessoas e arrancou os telhados das 
cavalarias municipais de Tefton - acompanhado de trovoadas de grande intensidade e vendavais, que se abateram sobre Cold Mountain. Mais tarde ocorreu-me que eram 
os prprios cus que protestavam pela m morte do Eduard Delacroix. Ao princpio correu tudo melhor. O Del passara uma noite tranq
 uila na sua cela, ocasionalmente a brincar com o Mister Jingles, mas a maior parte do tempo passou-o deitado na tarimba a acarici-lo. O Wharton tentou arranjar 
problemas por duas vezes - da primeira, disse ao Del aos berros que iriam comer hambrgueres de rato depois de o velho Pierre Felizardo j se encontrar a danar 
no inferno - mas o pequeno cajun no lhe deu rplica, e o Wharton, aparentemente convencido de que aquela tinha sido a sua melhor tentativa, desistiu. s dez e um 
quarto, o Irmo Schuster apareceu, tendo-nos deliciado ao dizer que rezaria o padre-nosso juntamente com o Del em francs cajun. Aquilo parecia ser um bom pressgio. 
 claro que estvamos redondamente enganados. Por volta das onze, as testemunhas comearam a chegar. Na sua maioria falavam em voz baixa, comentando as condies 
climatricas que se avizinhavam e aventando a probabilidade de um corte de energia, que adiaria a electrocusso. Nenhuma dessas pessoas pareci
 a ter conhecimento de que a Velha Fasca era alimentada por um gerador e, a menos que esse mecanismo fosse directamente atingido por um raio, o espectculo haveria 
de prosseguir. Nessa noite, o Harry fora destacado para o compartimento do quadro elctrico; portan 238 to, era ele, juntamente com o Bill Dodge e o Percy Wetmore, 
que desempenhavam a tarefa de arrumadores, conduzindo as pessoas aos seus assentos e perguntando a cada uma delas se desejava um copo de gua. Encontravam-se presentes 
duas mulheres: a irm da rapariga que o Del violara e assassinara e a me de uma das vtimas que tinha sido imolada pelo fogo. A ltima senhora era corpulenta e 
tinha as faces plidas, embora se mostrasse determinada. Confidenciou ao Harry Terwilliger que esperava que o homem que tinha vindo ver morrer estivesse com medo, 
sabendo antecipadamente que as chamas da fornalha o aguardavam. Em seguida, foi acometida por uma crise de choro e ocultou o rosto num leno de renda
  que tinha quase o tamanho de uma fronha. A trovoada, que mal era abafada pelo telhado de zinco, fazia ouvir os seus estrpitos alto e bom som. As pessoas erguiam 
o olhar at ao tecto, demonstrando um certo mal-estar. Os homens, que davam a impresso de no se sentir  vontade com as suas gravatas quela hora tardia, limpavam 
o suor das faces coradas. Na sala da arrecadao estava um calor insuportvel. E, como  claro, eles olhavam constantemente para a Velha Fasca.  possvel que no 
incio da semana tivessem dito algumas piadas quanto quela tarefa, mas, mais ou menos por volta das onze e meia dessa noite, as piadas j haviam desaparecido. Comecei 
tudo isto contando-vos que o bom humor abandonava rapidamente as pessoas que eram obrigadas a sentar-se naquela cadeira de carvalho, mas os encarcerados condenados 
no eram os nicos a perder o sorriso quando a hora se aproximava inexoravelmente. Aquilo era chocante, um objecto atarracado sobr
 e o estrado, com as braadeiras das pernas parecidas com as coisas que os doentes de poliomielite eram forados a usar. No se ouviam muitas conversas e quando 
os troves ribombaram de novo, to presentes e pessoais como uma rvore fendida, a irm da vtima do Delacroix soltou um pequeno grito. A ltima pessoa a sentar-se 
na

seco reservada s testemunhas foi o Curtis Anderson, o substituto do director Moores. s onze e meia, dirigi-me  cela do Delacroix, acompanhado pelo Brutal e 
pelo Dean, ligeiramente atrs de mim. O Del estava sentado na tarimba, com o Mister Jingles no regao. O rato tinha a cabea esticada para a frente, na direco 
do homem condenado  morte. O Del acariciava o topo da cabea do animal entre as orelhas. Pelas faces do Del corriam 239 lgrimas grandes choradas em silncio, e 
eram elas que o Mister Jingles dava a impresso de estar a observar. Ao ouvir o som dos nossos passos, o Del ergueu o olhar. Estava muito plido. Atrs de mim pressentia 
presena do John Coffey junto  porta da sua cela, observando tudo aquilo. O Del retraiu-se ao ouvir as minhas chaves a entrar nas' fechaduras, embora se houvesse 
mantido calmo, continuando a acariciar a cabea do rato enquanto eu fazia girar as chaves e corria a porta sobre a calha. - Ol, ch
 efe Edgecombe - saudou ele. - Ol, rapazes. Diz ol, Mister Jingles. Mas o animal limitava-se a olhar enlevado para as faces do pequeno homem calvo, como se perguntasse 
a si mesmo qual a origem daquelas lgrimas. O carretel colorido fora cuidadosamente arrumado no interior da caixa de charutos Corona... arrumado pela ltima vez, 
pensei eu, sentindo um aperto no corao. - Eduard Delacroix, na minha qualidade de funcionrio autorizado pelo tribunal... - Chefe Edgecombe? Ainda pensei em dar 
seguimento ao resto do discurso da praxe, mas reconsiderei. - O que se passa, Del? - Aqui tem - disse ele, estendendo o rato na minha direco. - No deixe que acontea 
alguma coisa de mal ao Mister Jingles. - Del, no me parece que ele queira vir para mim. Ele no est... - Mais oui, ele disse-me que queria. Ele diz que sabe tudo 
a seu respeito, chefe Edgecombe, e que o senhor vai lev-lo para esse lugar na Florida onde os ratinhos mostram as suas habilidades.
  Ele disse-me que confia em si. - Estendeu ainda mais o brao e raios me partam se o rato no saiu da palma da mo do Delacroix e passou para o meu ombro. Era to 
leve que eu mal conseguia sentir o seu peso atravs do tecido do casaco do uniforme, mas dei-me conta da sua presena como se fosse uma pequena chama. - E chefe, 
no deixe que aquele homem mau faa mal ao meu rato. - No, Del. No deixarei. - A questo que se me colocava era o que fazer com o rato naquele preciso momento. 
No me parece que pudesse fazer marchar o Delacroix em frente das testemunhas, com um rato empoleirado no meu ombro. _ Eu fico com ele, chefe - troou uma voz atrs 
de mim. Era a voz do John Coffey e, tendo surgido nessa altura, provocou-me uma sensao fantasmagrica, como se tivesse adivinhado os meus pensamentos. - S por 
agora. Se o Del no se importar. Com uma expresso de alvio, o Delacroix acenou afirmativamente. - Sim, fica com ele, John, at que e
 ste disparate esteja terminado... bien! E depois... - O seu olhar centrou-se no Brutal e depois em mim. - O senhor vai lev-lo para a Florida. Para esse lugar, 
a Vila dos Ratos. - Sim, o mais provvel  o Paul e eu irmos juntos - replicou o Brutal, observando com um olhar perturbado e inquieto o Mister Jingles abandonar 
o meu ombro, indo para a enorme palma da mo que o Coffey estendera. O rato fez isso sem hesitar ou tentar fugir; na realidade, saltou com tanta prontido para o 
brao do Coffey como havia passado para cima do meu ombro. - Tiramos alguns dias de frias. No  verdade, Paul? - acrescentou o Brutal. Acenei que sim. O Delacroix 
tambm manifestou a sua concordncia, com os olhos cintilantes e o esboo de um sorriso nos lbios. - Cada pessoa vai pagar dez cntimos para poder v-lo. Dois cntimos 
para os midos. No  verdade, chefe Howell? -  isso mesmo, Del. - O senhor  um homem bom, Howell - continuou o Delacroix. - O
 senhor tambm, chefe Edgecombe. s vezes grita comigo, oui, mas s quando  necessrio faz-lo. Todos vocs so bons, tirando esse Percy. Quem me dera poder ter-vos 
conhecido noutro lugar qualquer. Mauvais temps, mauvaise chance.

- Preciso de dizer uma coisa, Del - proferi eu. - So apenas as palavras que tenho de dizer a toda a gente antes de comearmos a andar. Nada de especial, mas faz 
parte do meu trabalho. De acordo? - Oui, monsieur - anuiu ele, olhando para o Mister Jingles, pela derradeira vez, empoleirado no ombro largo do John Coffey. - Au 
revoir, mon ami. At  vista, meu amigo - acrescentou ele, comeando a chorar com mais intensidade. -Je t'aime, mon petit. - Soprou um beijo na direco do rato. 
Deveria ter sido engraado, aquele beijo soprado, ou talvez simplesmente grotesco, mas no era. Por uns breves 240 241 momentos, o meu olhar cruzou-se com o do Dean, 
mas fui forado a afast-lo. O Dean ps-se a olhar pelo corredor na direco da sala do isolamento, esboando um sorriso estranho. Estou em crer que ele se encontrava 
 beira das lgr_ mas. Quanto a mim, disse o que tinha a dizer, recomeando na parte em que me referia a ser um funcionrio judic
 ial e, quando terminei, o Delacroix saiu da sua cela pela ltima vez. - Espera uns segundos, homem - pediu o Brutal, inspeccionando a coroa do cabelo do Del onde 
o capacete teria' de assentar. Acenou-me, indicando-me que estava tudo em ordem e deu uma palmada no ombro do Delacroix. - Tudo a postos, estamos prontos para seguir. 
A caminho. E foi assim que o Eduard Delacroix iniciou a sua ltima caminhada pela Milha Verde. Nas suas faces misturavam-se as gotas de suor e as lgrimas, enquanto 
no firmamento aci ma de ns rolavam os troves em sucesso. O Brutal caminhava  esquerda do condenado, eu  direita e o Dean  retaguarda. O Schuster aguardava 
no meu gabinete, com os guardas Ringgold e Battle, que se mantinham de vigilncia, colocados no canto. O Schuster olhou para o Del, sorriu e comeou a falar com 
ele no francs cajun. A mim, aquilo pareceu ser empolado, mas o certo  que resultou s mil maravilhas. O Delacroix retribuiu o sorriso e aproxim
 ou-se do Schuster, colocou-lhe os braos  volta do torso e abraou-o. O Ringgold e o Battle adquiriram uma postura tensa, mas eu fiz-lhes um gesto com as mos, 
ao mesmo tempo que abanava a cabea. O Schuster ouviu atentamente a torrente de palavras embargadas pelas lgrimas que o Del proferia no seu francs atabalhoado, 
acenando com a cabea como se o compreen desse na perfeio, enquanto lhe dava umas pancadinhas calorosas nas costas. Olhou para mim por cima do ombro do pequeno 
homem, antes de comear a falar. - Eu mal consigo compreender um quarto do que ele est a dizer-me. - Acho que isso no interessa - resmungou o Brutal. - Tambm 
eu no, meu filho retorquiu o Schuster com uma careta risonha. Ele era o melhor deles todos e agora apercebo-me de que no fao a mnima ideia do que foi feito dele. 
S espero que tenha mantido a sua f, independentemente de tudo o mais que o possa ter abandonado. 242

Incitou o Del para que se ajoelhasse e uniu as mos. O Delacroix seguiu-lhe o exemplo. -1Vot' Pre, qui tes aux cieux - comeou o Schuster a rezar e o Delacroix 
juntou a sua voz  dele. Ambos proferiram o padre-nosso naquele francs cajun, at chegarem a "mais dehverez-vous du mal, ainsi soit-il". Nessa altura, as lgrimas 
do Del j haviam cessado e ele mostrava uma aparncia calma. Seguiramse alguns versculos da Bblia (em ingls), sem que tivesse sido neglicenciado o velho arrimo 
acerca das guas mansas. Depois de concluda aquela parte, o Schuster comeou a erguer-se, mas ~ o Del agarrou-o pela manga da camisa, dizendo-lhe algo no seu francs. 
O Schuster ouviu-o com toda a ateno, franzindo o cenho. Respondeu-lhe. O Del acrescentou mais qualquer coisa e ergueu o olhar at ao seu rosto, aguardando com 
uma expresso esperanosa.

- Ele tem algo mais a dizer, Mister Edgecombe - anunciou o Schuster, dirigindose a mim. - Uma orao em que eu no posso ajud-lo, devido  minha f. V algum inconveniente 
nisso? Olhei para o relgio na parede e vi que faltavam dezassete minutos para a meianoite. - De acordo - acedi -, mas ter de ser rpido. Como sabe, temos um horrio 
a cumprir. - Sim, eu sei - retorquiu o Schuster. Voltou-se para o Delacroix e com um acenar de cabea, indicou-lhe que prosseguisse. O Del cerrou os olhos como se 
preparado para comear a rezar, mas durante um momento no disse nada. Enrugou a testa, e eu tive a impresso que ele procurava algo bem no fundo da sua mente, como 
um homem poderia procurar no seu pequeno sto um objecto que no houvesse sido usado (ou sido necessrio) durante muito, muito tempo. Uma vez mais, olhei para o 
relgio e estive prestes a falar - e tlo-ia feito se o Brutal no me tivesse tocado na manga da camisa, abanando a
 cabea. Ento, o Delacroix comeou a falar suave mas rapidamente naquele seu dialecto cajun, numa toada to arredondada e sensual como os seios de uma mulher jovem. 
- Marie! Je vous salue, Marie, oui, pleine de grce; le Seigneur est avec vous; vous tes bnie entre toutes les femmes, et mon cher Jsus, le fruit de vos entrailles, 
est bni. - 243 Delacroix recomeara a chorar, mas no parecia que se ti vesse dado conta disso. - Sainte Marfe,  ma mre, Mrt de Dieu, priez pour moi, priez pour 
nous, pauv' pcheurs,  maint'ant et  l'heure... 1'heure de ntre mort. L'heure de mon mort. - Respirou fundo, um som estremecido. - Ainsi' soit-il. Quando o Delacroix 
se ps de p, atravs da janela entrou o breve claro azulesbranquiado de um relmpago. Todos, os presentes se retraram sobressaltados, com excepo do' prprio 
Del; ele parecia continuar embrenhado na antiga orao. Estendeu uma mo sem ver para onde a diri
 gia. O Brutal agarrou-a e deu-lhe um breve aperto. O Delacroix olhou para ele, esboando um pequeno sorriso. - Nous voyons... - comeou ele a dizer, mas deteve-se. 
Com um esforo consciente, comeou a falar em ingls. - Agora j podemos ir, chefe Howell, chefe Edgecombe. - Estou de bem com Deus. - Isso  ptimo - declarei eu, 
perguntando a mim mesmo at que ponto o Del se sentiria bem com Deus dali a vinte minutos, quando se encontrasse no outro extremo da corrente elctrica. Eu s esperava 
que a sua ltima orao tivesse sido ouvida, e que a Me Maria rezasse por ele com toda a sua alma e corao, porque o Eduard Delacroix, assassino e violador, carecia 
naquele momento de todas as oraes a que pudesse deitar mo. L fora, os troves fizeram-se ouvir uma vez mais, atravessando os cus. - Vamos l, Del. J no falta 
muito. - De acordo, chefe, vamos l. Porque eu j no tenho medo. - Foi o que ele afirmou, mas eu vi no
 s seus olhos que... com padre-nosso ou sem padre-nosso, ave-maria ou no ave-maria, ele estava a mentir. Quando chega a altura de percorrerem a ltima parte do 
tapete verde e de se dobrarem para poder transpor a entrada baixa, quase todos eles se mostravam atemorizados. - Quando chegares ao fim pra, Del - disse-lhe eu 
em voz baixa enquanto ele transpunha a ombreira, mas era uma advertncia que eu no necessitava de ter feito. Ele deteve-se ao fundo dos degraus, sem qualquer hesitao, 
completamente imvel ao ver o Percy Wetmore ali no estrado com o balde da esponja junto de um dos ps e o telefone, que se encontrava directamente ligado ao governador, 
mal se vendo por detrs da sua anca direita. 244 - Non - proferiu Del numa voz baixa e horrorizada. - Non, non, ele, no! - Segue em frente - disse o Brutal. - Mantm 
os olhos em mim e no Paul. Esquece que ele est ali. - Mas...

As pessoas tinham-se virado, olhando para ns, mas, ao deslocar-me um pouco, ainda pude agarrar no Delacroix pelo cotovelo esquerdo, sem ser visto pela assistncia. 
- Acalma-te - incitei eu num tom de voz que s o Delacroix, e talvez o Brutal, conseguiam ouvir. - A nica coisa de que estas pessoas se recordaro  da maneira 
como te portas; portanto, proporciona-lhes algo de bom que lhes fique gravado na memria. Entretanto, ouviu-se o ribombar do trovo mais forte que se fizera ouvir 
at ento; a intensidade foi tal que o telhado de zinco da arrecadao vibrou. O Percy deu um salto como se algum se tivesse aproximado por trs sem ele se aperceber 
e o Del soltou uma pequena gargalhada escarninha. - Se os troves forem muito mais fortes do que este, ele vai mijar de novo nas calas - disse, endireitando os 
ombros... no que tivesse muito para endireitar. - Vamos l. Acabamos com isto de uma vez. Encaminhmo-nos para a plataforma. Com um ol
 har nervoso, o Delacroix percorreu as testemunhas - desta feita, encontravam-se presentes vinte e cinco - quando passmos por elas. O Brutal, eu e o Dean tnhamos 
os olhos fixos na cadeira. Parecia-me que estava tudo em ordem. Ergui um polegar e um sobrolho interrogador na direco do Percy, que me brindou com um esgar, como 
se dissesse: O que  que queres saber, se est tudo em ordem?  claro que est! Eu s esperava que ele no estivesse enganado. Automaticamente, o Brutal e eu agarrmos 
no Delacroix pelos cotovelos, enquanto ele subia para o estrado. Este fica acima do solo apenas uns escassos vinte centmetros, mas vocs ficariam surpreendidos 
se soubessem quantos deles, mesmo os tipos mais endurecidos, necessitam de ajuda para subir esse ltimo degrau das suas vidas. No entanto, o Del portou-se bem. Durante 
um momento Permaneceu em frente da cadeira elctrica (firmemente resolvido a no olhar para o Percy) e falou para ela, quer acreditem
  quer no, como se estivesse a apresentar-se. - C'est moi - disse o Delacroix. O Percy estendeu-lhe a - 245 mo, mas ele voltou-se sozinho e sentou-se. Ajoelhei-me 
junto do que naquele momento era o seu lado esquerdo e o Brutal no lado direito. Protegi as virilhas e a garganta da maneira que j descrevi, e, em seguida, posicionei 
a braadeira de forma a que a parte que se abria cincundasse a carne emagrecida; e branca, exactamente acima do tornozelo do cajun. A trovoada ribombou de novo, 
sobressaltando-me. Senti o suor a escorrer-me para os olhos, que comearam a arder. Por qualquer razo que desconheo, pensava continuamente na Vila dos' Ratos. 
A Vila dos Ratos e o bilhete de ingresso que custava dez cntimos. Dois cntimos para as crianas, que poderiam ver o Mister Jingles atravs das janelas de folha 
de mica. A braadeira era volumosa e no queria fechar-se. Ouvia o Del a respirar em grandes arrancos secos, enchendo os pulmes de ar, pulmes
  que ficariam reduzidos a sacos carboni zados em menos de quatro minutos, esforando-se por poder acompanhar o seu corao desenfreado que pulsava ao ritmo do medo. 
O facto de ter morto meia dzia de pessoas dava naquela altura a impresso de ser a coisa menos importante acerca da sua pessoa. No estou a tentar estabelecer agora 
aquilo que  correcto e o que no ; limito-me a descrever a situao como ela se me apresentava. - O que se passa, Paul? - perguntou-me o Dean num sussurro ajoelhado 
junto de mim. - No sou capaz... - comecei a dizer, mas nessa altura a braadeira fechou-se com um estalar bem audvel. Tambm deve ter arrepanhado a pele do Delacroix, 
porque ele se re traiu, emitindo um pequeno som sibilado. - Desculpa - disse eu. - No tem importncia, chefe - retorquiu Del. - S vai doer por um minuto. A braadeira 
do lado do Brutal, a que tinha o elctrodo acoplado e que levava sempre mais tempo a fechar, tambm se fechou.
 Pusemo-nos de p, os trs, quase exactamente ao mesmo tempo. O Dean agarrou na braadeira do pulso do lado esquerdo do Del, e o Percy na do lado direito. Eu encontrava-me 
preparado para avanar, no caso de o Percy vir a necessitar de auxlio, mas ele saiu-se melhor com a braadeira do pulso do que eu com a do tornozelo. Naquele momento, 
reparei

que o Del tremia todo, como se o seu corpo tivesse comeado a ser percorrido por uma corrente de fraca intensi 246 dade. Tambm me chegava s narinas o cheiro da 
sua transpirao~ Era forte e acre, trazendo-me  recordao um cheiro fraco a picles. O Dean acenou com a cabea na direco do Percy. Este voltou-se, comeando 
a falar por cima do ombro. Eu conseguia avistar uma zona abaixo do seu queixo, onde ele se tinha cortado nessa manh ao fazer a barba. - Prosseguir com a fase um! 
- disse ele em voz baixa, embora firme. Ouviu-se um zunido, do gnero .do que o motor de um velho frigorfico faz quando comea a funcionar; as luzes do tecto da 
arrecadao adquiriram uma luminosidade mais intensa. Ouviram-se alguns arquejos e murmrios vindos da assistncia. Na cadeira, o corpo do Del foi percorrido por 
um safano, enquanto as suas mos se agarravam aos extremos dos braos de carvalho da cadeira com fora suficiente para que os n
 s dos dedos tivessem ficado brancos. Os seus olhos deslocaram-se rapidamente de um lado para o outro nas rbitas e a sua respirao seca acelerou-se ainda mais. 
Naquele momento ele estava quase a arquejar. - Mantm-te firme - incentivou-o o Brutal num murmrio. - Calma, Del, vais ver que no custa muito. Aguenta-te, ests 
a portar-te muito bem. Ei, rapazes!, pensei. Venham ver o que o Mister Jingles  capaz de fazer! Acima das nossas cabeas, a trovoada fez-se ouvir de novo. Todo 
emproado, o Percy contornou a cadeira elctrica. Aquele era o seu grande momento: ocupava o lugar central do palco, todos os olhares pousados na sua pessoa. Todos, 
com excepo do de uma pessoa. O Delacroix apercebeu-se da sua presena e baixou os olhos para o regao. Eu teria apostado fosse o que fosse em como o Percy iria 
atamancar o que tinha a dizer quando chegasse o momento de se dirigir  audincia, mas a realidade  que ele se expressou sem hesitao, num
 a voz calma e soturna. - Eduard Delacroix, o senhor foi condenado a morrer na cadeira elctrica tendo a sentena sido lavrada por um jri formado pelos seus pares, 
e imposta por um juiz deste estado, Deus abenoe as pessoas deste estado. Tem alguma coisa a dizer antes de se dar cumprimento  sentena? O Del tentou falar mas 
no lhe saiu qualquer som da garganta para alm de um sussurro aterrorizado cheio de ar e de 247 vogais. A sombra de um sorriso desdenhoso assomou aos lbios do 
Percy; seria com toda a satisfao que eu o teria abatido ali, naquele momento. Ento, o Del lambeu os lbios e fez outra tentativa. - Lamento muito tudo o que fiz 
- disse ele num tom contrito. - Daria fosse o que fosse para poder fazer recuar o tempo, mas ningum tem poderes para uma coisa dessas. Por isso, agora... - Acima 
de ns, os troves explodiram como fogo de morteiro. O Del deu um salto to grande quanto as braadeiras lhe permitiam, parecendo que os ol
 hos lhe queriam saltar do rosto. - Por isso, agora tenho de pagar o preo. Que Deus me perdoe. - Uma vez mais, passou a lngua pelos lbios e olhou para o Brutal. 
- No se esquea da promessa que me fez quanto ao Mister Jingles acrescentou ele numa voz baixa que se destinava apenas aos nossos ouvidos. - No esqueceremos, no 
te preocupes - assegurei-lhe, tocando-lhe numa mo fria que nem mrmore. - Ele ir para a Vila dos Ratos... - Uma ova  que vai - atalhou o Percy, falando pelo canto 
da boca, assemelhandose a um dos prisioneiros espertalhes no ptio, enquanto prendia a correia  largura do peito de Delacroix. - Isso no existe. No passa de 
uma histria da carochinha que estes tipos inventaram para te manterem calmo. Achei que devias ter conhecimento disto, meu maricas. O brilho fulminante que encheu 
os olhos do Del disse-me que parte dele tinha sabido... mas que estava determinado a manter esse conhecimento afastado do resto da sua pes
 soa, se tal lhe fosse permitido. Olhei para o Percy, sentindo-me furioso e aparvalhado com a sua atitude; ele limitou-se a olhar bem de frente para mim, como se 
me perguntasse o que tencionava eu fazer a respeito daquilo.  evidente que ele me

tinha na mo. No havia nada que eu pudesse fazer naquela situao, sobretudo em frente das testemunhas, com o Delacroix sentado no extremo da sua vida. No havia 
rigorosamente nada que se pudesse fazer de momento, a no ser prosseguir com aquilo, terminar de uma vez por todas. O Percy retirou o saco negro do gancho e enfiou-o 
pela cabea do Del, cobrindolhe o rosto e apertando-o bem por baixo do pescoo do pequeno homem, a fim de esticar o ori fcio do topo. Retirar a esponja que se encontrava 
dentro do balde e coloc-la dentro do capacete era o passo seguinte; foi aqui que o Percy se afastou da rotina pela primeira vez: em 248 lugar de se debruar para 
retirar a esponja do balde, agarrou no capacete de ao que se encontrava pendurado nas costas da cadeira e inclinou-se com ele na mo. Por outras palavras, em vez 
de levar a esponja ao capacete - o que teria sido a maneira lgica de proceder - levou o capacete  esponja. Nessa altura, eu devia te
 r compreendido que alguma coisa no estava bem, mas a realidade  que me sentia bastante perturbado. Aquela foi a nica execuo em que participei onde me senti 
inteiramente  margem dos acontecimentos. Quanto ao Brutal, nem sequer chegou a lanar um olhar ao Percy, pelo menos quando este se debruou sobre o balde (de forma 
a bloquear o nosso ngulo de viso, impedindo-nos de ver o que estava a fazer), nem to-pouco quando ele se endireitou e se voltou para o Delacroix, com o capacete 
nas mos e o crculo de esponja castanha j no seu interior. Entretanto, o Brutal olhava para o bocado de tecido que ocultava as feies do Del, observando a forma 
como a seda negra fazia uma concavidade onde se delineava o formato da boca do condenado, para logo em seguida se enfolar com a sua respirao. A testa do Brutal 
estava perlada de gordas gotas de suor, o mesmo acontecendo s fontes logo abaixo da linha do cabelo. Nunca o vira a transpirar durante
  uma execuo. Atrs dele, o Dean dava a impresso de estar distrado, demonstrando um certo mal-estar, como se lutasse para no perder o jantar. Agora compreendo 
que todos ns comevamos a perceber que qualquer coisa no estava a correr bem. S que no conseguamos apontar concretamente a falha. Ningum sabia - nessa altura 
- que espcie de perguntas o Percy tinha feito ao Jack Van Hay. Haviam sido muitas, mas eu desconfio que a maior parte se destinava apenas a servir de camuflagem. 
Aquilo que o Percy queria saber - estou em crer que era a nica coisa que lhe interessava - dizia respeito  esponja. A sua finalidade. O motivo por que era mergulhada 
em salmoura.., e o que  que aconteceria se no fosse mergulhada em salmoura. O que aconteceria se a esponja estivesse seca. O Percy enfiou o capacete na cabea 
de Delacroix. O pequeno homem saltou de novo e soltou um gemido, desta vez mais audvel. Algumas das testemunhas agitaram-se na
 s cadeiras desdobrveis, constrangidas. O Dean deu meio passo em frente com a inteno de ajudar a apertar a correia do pescoo; todavia, o Percy indicou-lhe que 
se afastasse num 249 gesto breve. O Dean assim fez, vergando os ombros e retraindo-se quando o estrondo de outro trovo fez estremecer a arrecadao. Desta vez, 
seguiram-selhe as primeiras gotas de chuva que tombaram sobre o telhado. O som era parecido' com um punhado de berlindes a ser lanado sobre uma superfcie metlica. 
J todos ouvimos pessoas a dizer: "Senti o sangue enrege_ lado", no  verdade? Certamente que sim. J todos ouvimos essa expresso, mas a nica vez em todos os 
meus anos de vida em que senti que isso estava realmente a acontecer comigo foi nessa madrugada de Outubro de 1932, diferente de todas as outras, em que a trovoada 
se fazia ouvir em toda a sua intensidade, cerca de dez segundos aps a meia-noite. No foi a expresso de triunfo venenoso no rosto do Pe
 rcy; Wetmore, enquanto ele se afastava da figura encapuada, presa por correias e com o capacete na cabea, sentada na Velha Fasca; foi sim aquilo que eu deveria 
ter visto mas que no vi. No se via gua a escorrer pelas faces do Delacroix por baixo do capuz. Foi nessa altura que abarquei toda a situao.

- Eduard Delacroix - dizia o Percy -, a partir de agora, a corrente elctrica atravessar o seu corpo at que o senhor esteja morto, de acordo com a lei deste estado. 
Olhei para o Brutal, sentindo uma agonia to grande que fazia com que a minha infeco urinria no tivesse passado de um dedo dorido. A esponja est seca!, disse-lhe 
eu formando as palavras com os lbios, mas ele abanou a cabea, indicando-me que no compreendera, e voltou a concentrar a sua ateno no saco negro que ocultava 
as feies do franci, dentro do qual os ltimos flegos do homem recolhiam e enfolavam a seda negra. Toquei no cotovelo do Percy mas ele afastou-se, fitando-me 
com um olhar inexpressivo. Foi apenas um olhar momentneo, mas que me disse tudo. Mais tarde, ele iria apresentar as suas mentiras e meias verdades, e as pessoas 
que possuam alguma influncia acreditaram na maior parte, embora eu soubesse que a histria era bem diferente. Sempre que fa
 zia algo que o interessava, o Percy era um aluno aplicado, como descobrramos durante os ensaios; ouvira com a mxima ateno o Jack Van Hay explicar-lhe como  
que a esponja mergulhada em salmoura era um bom mtodo de transmisso da corrente elctrica, canalizando-a e transformando a carga numa espcie de bala elctrica 
que atingia o crebro. Oh, sim, o 250 Percy sabia perfeitamente o que estava a fazer. Acho que posteriormente, quando me disse que desconhecia at que ponto aquilo 
iria, acreditei nele, mas esse aspecto nem sequer conta na coluna das boas intenes, pois no? No me parece. E para alm de desatar a gritar em frente do assistente 
do director da priso e de todas as testemunhas para que o Jack Van Hay no accionasse a alavanca, eu no podia fazer mais nada. Se tivesse podido dispor de mais 
cinco segundos, estou em crer que teria gritado isso mesmo; no entanto, o Percy no me concedeu aqueles cinco segundos suplementare
 s. - Que Deus tenha piedade da sua alma - disse ele  figura.aterrorizada e arquejante sentada na cadeira elctrica, depois, olhou para l do condenado, em direco 
 janela de malha de rede por detrs da qual o Harry e o Jack se encontravam; o Jack tinha a mo sobre a alavanca etiquetada com as palavras SECADOR DE CABELO DA 
MABEL. O mdico encontrava-se  direita dessa janela, com os olhos presos na maleta negra entre os seus ps, to silencioso e discreto como era seu costume. - Prosseguir 
com a fase dois! Ao princpio, o processo foi o mesmo de sempre: o zunido surdo que pouco mais elevado era do que um ciclo habitual de corrente elctrica, o impulso 
involuntrio que o corpo do Del deu para a frente e os espasmos que lhe percorreram os msculos. E foi ento que as coisas comearam a correr mal. O zunido da electricidade 
perdeu a estabilidade e comeou a fraquejar. Foi acompanhado por um estalar seco, como papel celofane a ser amachuca
 do. Comecei a sentir um cheiro horroroso, que na altura no percebi que era o de cabelos queimados e esponja orgnica, at ter comeado a ver pequenas espirais 
de fumo a evolar-se da base do capacete. Entretanto, comeara a sair mais fumo do orifcio recortado no cimo do saco, por onde entrava o cabo; assemelhava-se ao 
fumo que costumava sair do orifcio superior das tendas dos ndios. O Delacroix comeou a contorcer-se; o seu corpo foi atravessado por espasmos, enquanto a cabea 
oculta pela seda negra, se agitava de um lado para o outro, no arremedo de um veemente gesto de recusa. As suas pernas comearam a erguer-se para cima e para baixo 
descontroladamente, em golpes curtos restringidos pelas braadeiras que lhe prendiam os artelhos. A trovoada continuava a ribombar acima de ns e a chuva comeou 
a cair com mais fora. 251 Olhei para o Dean Stanton; ele olhou para mim completamente desnorteado. Ouviuse um som abafado vindo de debaixo do capac
 ete, como se fosse uma pinha a explodir nutrafogo que ardesse bem. Naquela altura, eu tambm via o fumo que saa do interior do saco negro, evolando-se em pequenas 
colunas sinuosas. Lancei-me para o rectngulo de rede de arame existente entre ns e o compartimento do quadro elctrico, mas, antes de poder ter aberto a boca, 
o "Brutal" Howell agarrou-me pe

lo cotovelo. A fora com que me segurava era suficiente para eu sentir picadas nos nervos daquela regio. As suas faces estavam to lvidas como uma vela de sebo, 
embora no mostrassem sinais de pnico - no se via nenhuma reaco que se aproximasse disso. - No digas ao Jack que pare - aconselhou-me ele em voz baixa. - Faas 
o que fizeres, no lhe digas para parar. J  demasiado tarde para isso. De incio, quando o Del comeou a gritar, as testemunhas no o ouviram. A chuva que se abatia 
sobre o telhado de zinco transformara-se num som ensurdecedor, e os troves fa ziam-se ouvir uns atrs dos outros, numa sequncia contnua. Mas ns, em cima do estrado, 
conseguamos ouvi-lo na perfeio - uivos de dor estrangulados que saam do saco negro, de onde o fumo continuava a evolar-se, sons que um animal encurralado poderia 
ter emitido. O zunido que na altura vinha do capacete no era uniforme, mas sim errtico, interrompido p
 or rudos parecidos com os da electricidade esttica. O Delacroix comeou a agitar-se violentamente em cima da cadeira, para a frente e para trs, como se fosse 
uma criana a fazer birra. A plataforma estremecia; o corpo do Del investiu contra a correia que lhe prendia o peito, com fora suficiente para quase a rebentar. 
A corrente elctrica tambm o fazia contorcer-se de um lado para o outro; ouvi um estalar violento, como algo a esmigalhar-se, quando o seu ombro direito se quebrou 
ou deslocou. Provocou um som semelhante ao que ouviramos se algum tivesse atingido um caixote de madeira com um martelo de forja. A zona das calas entre as pernas 
que no se distinguia com nitidez devido ao movimento das mesmas, semelhante ao dos pistes, escureceu. Em seguida, ele comeou a guinchar, emitindo uns sons apavorantes, 
extremamente agudos, como os guinchos das ratazanas, que ecoavam mesmo acima do rudo das btegas de chuva. 252 - Mas que raio est=E
 1 a acontecer? - ouviu-se algum perguntar. - Ser que aquelas braadeiras vo conseguir aguentar. . Cus, o cheiro! Que fedor! - Isto  normal? - perguntou uma 
das duas mulheres presentes. O corpo do Delacroix sofreu um violento impulso para a frente, caiu para trs e voltou a ser impulsionado para a frente para logo voltar 
atrs. O Percy olhava-o fixamente, mantendo o queixo descado numa expresso de horror. Sem dvida que ele havia esperado que alguma coisa acontecesse, mas nunca 
com aquela dimenso. O saco de seda negra por cima do rosto do Delacroix ficou envolto em chamas. Ao cheiro a cabelo queimado e a esponja juntava-se agora o de carne 
estorricada. O Brutal agarrou no balde onde estivera a esponja - como  evidente, nesta altura estava vazio - e como se fosse uma carga de cavalaria dirigiu-se ao 
lavatrio, para uso do pessoal da limpeza, que se encontrava a um canto. - No achas que eu devia cortar a corrente, Paul? - perguntou o Van
 Hay aos gritos do outro lado da janela. A sua voz indicava que se sentia atordoado. No achas que devia... -No! - respondi-lhe num grito. O Brutal fora o primeiro 
a inteirar-se da situao, mas eu no lhe fiquei muito atrs: tnhamos de pr cobro quela situao macabra. O que quer que vissemos a fazer ao longo do resto da 
nossa vida passara para segundo plano: naquele momento tnhamos de acabar com o Delacroix. - Continua, por amor de Deus continua! Continua, continua, continua! Voltei-me 
para o Brutal, mal me apercebendo das pessoas que naquele momento conversavam atrs de ns; algumas delas j se tinham posto de p, e um casal gritava. - Pra com 
isso! - berrei, dirigindo-me ao Brutal. - Nada de gua! Nada de gua! Ests doido? Ao ouvir-me, o Brutal voltou-se; no seu rosto reflectia-se uma espcie de compreenso 
entorpecida. Lanar gua para cima de um homem que estava a ser electrocutado. Oh, sim! Isso  que seria uma
  grande esperteza. Olhou em redor, avistou o extintor pendurado na parede, e optou por ir busc-lo. Lindo menino. O saco de seda negra tinha-se descascado do rosto 
do De 253

lacroix o suficiente para pr a descoberto as suas feies mais; enegrecidas do que as do John Coffey. Naquele momento, os; seus olhos, que no passavam de globos 
brancos mutilados, uma massa gelatinosa e translcida, haviam sido projectados; das rbitas e ficado colados s bochechas. As pestanas tinham desaparecido por completo 
e, enquanto eu o observava, as prprias plpebras comearam a arder envoltas em chamas. Continuava a ouvir-se insistentemente o zunido da corrente elctrica, invadindo-me 
e vibrando na minha cabea. Imagino , que deve ser o mesmo som que as pessoas loucas devem ouvir, isso ou algo parecido. O Dean comeou a avanar, pensando, atordoado, 
que conseguiria extinguir com as prprias mos as chamas da camisa do Del; puxei-o com tanta fora que estive prestes a levant-lo do cho. Se tivesse tocado no 
Delacroix naquela fase, teria sido electrocutado. Continuei sem me voltar para trs para ver o que estava a acontecer e
 ntre as testemunhas; contudo, os sons que me chegavam eram indicadores de um pandemnio; as cadeiras tombavam e as pessoas berravam. - Parem com isso, parem com 
isso, oh, no vem que ele j sofreu o suficiente? vociferava uma mulher com toda a fora dos seus pulmes. Entretando, o Curtis Anderson agarrou-me num ombro, perguntando-me 
o que  que se estava a passar, por amor de Deus, e por que motivo  que eu no mandava o Jack interromper a corrente? - Porque no posso - respondi-lhe. - J fomos 
longe de mais para poder retroceder, no vs? Em qualquer dos casos, dentro de alguns segundos estar tudo terminado. No entanto, decorreram pelo menos dois minutos 
antes que a execuo estivesse concluda; os dois minutos mais longos de toda a minha vida, e, durante todo aquele tempo, estou em crer que o Delacroix permaneceu 
consciente. Gritava, sacolejava, agitando o corpo de um lado para o outro. O fumo saa-lhe das narinas, assim como de uma bo
 ca que havia adquirido a tonalidade da prpura-enegrecida das ameixas maduras. O fumo soltava-se da sua lngua da mesma maneira que costuma sair da chapa de um 
fogo. Todos os botes da sua camisa ou tinham rebentado ou derretido. A sua camisola interior no chegou a pegar fogo, mas estava toda negra, e o fumo filtrava-se 
atravs do algodo, de onde saa o 254 cheiro dos plos queimados do peito. Por trs de ns, as pessoas dirigiam-se para a porta como se fossem gado  desfilada. 
Como no conseguiam transp-la ao fim e ao cabo, encontrvamo-nos no interior de uma penitenciria amontoavam-se junto dela enquanto o Delacroix era frito (Agora 
estou a estorricar, dissera o velho Pouca Terra quando ensaimos a execuo do Arlen Bitterbuck, estou cozinhado como um peru); a trovoada continuava a ribombar 
acima de ns e a chuva caa numa ftria perfeita. A certa altura pensei no mdico -e olhei em volta a ver se o avistava. Continuava al
 i, todo amarfanhado no cho, junto  sua maleta negra. Tinha desmaiado. O Brutal aproximou-se e ficou ao meu lado com o extintor nas mos. - Ainda no - disse eu. 
- Eu sei. Olhmos em rredor, procurando o Percy, e vimo-lo atrs da Velha Fasca, imobilizado e de olhos esbugalhados, com o n de um dedo enfiado na boca. Por fim, 
o Delacroix caiu contra as costas da cadeira, com a cabea tumefacta e disforme tombada sobre um ombro. O seu corpo continuava a ser sacolejado, mas j havamos 
visto isso antes: eram os efeitos da corrente elctrica que continuava a atravess-lo. O capacete deslocara-se na cabea e estava inclinado, mas, quando o retirmos 
um pouco mais tarde, a maior parte do couro cabeludo e o que restava dos poucos cabelos vieram agarrados, presos ao metal como se estivessem colados com uma cola 
muito resistente. - Corta a corrente! - gritei ao Jack depois de terem passado trinta segundos sem haver qualquer reaco, para alm dos
 espasmos provocados pela corrente elctrica, no corpo daquele ser amarfanhado que tinha a figura de um homem,

enegrecido e fumacento, e se balanava na cadeira elctrica. O zunido parou imediatamente e eu acenei ao Brutal. Este voltou-se e colocou o extintor nos braos do 
Percy com tanta fora que ele cambaleou para trs, quase caindo sobre a plataforma. - Tu  que vais fazer isso - disse-lhe o Brutal. - Ao fim e ao cabo, a festa 
 tua, no  verdade? O Percy lanou-lhe um olhar que tanto tinha de mrbido como de assassino, soltou o mecanismo de segurana do ex 255 tintor, accionou o mbolo, 
ajustou a boca e projectou um lona go jacto de espuma branca por cima do homem na cadeira. Reparei que os ps do Delacroix se contorceram uma vez; quando o jacto 
de espuma lhe atingiu o rosto e pensei: Oh,, no, talvez tenhamos de repetir tudo, mas s houve aquele nico espasmo. O Anderson tinha feito meia volta, e gritava 
s testemunhas em pnico, garantindo que tudo estava bem, que toda aquela situao se encontrava sob controlo, que tinha sido apenas u
 ma interferncia na corrente elctrica provocada pela tempestade, nada que pudesse causar a mnima preocupao. S faltava dizer que aquilo que haviam cheirado 
- uma mistura demonaca de cabelos queimados, carne assada e merda acabada de sair dos intestinos - era Chanel Nmero Cinco: - Vai buscar o estetoscpio - disse 
eu ao Dean quando' o extintor ficou vazio. Naquele momento, o Delacroix estava coberto por uma camada branca e o pior do cheiro nausea-~ bundo era camuflado por 
um cheiro acre a produtos qumicos.; - O mdico... achas que devo... - No ligues ao mdico, vai s buscar o estetoscpio insisti. - Vamos l a terminar com isto... 
para podermos le v-lo daqui para fora. O Dean acenou que sim. Terminar e dali para fora eram dois conceitos que lhe agradavam muito naquele preciso momento. Na 
realidade, agradavam a ns dois. Ele aproximou-se', da maleta do mdico e comeou a remexer no seu interior. Entretanto, o mdico comear
 a a dar sinais de vida, o que indicava que, pelo menos, no tinha sofrido um ataque do corao ou uma trombose devido  tempestade. O que era bom. Todavia, a maneira 
como o Brutal olhava para o Percy no augurava nada de bom. - Vai l para baixo, para o tnel, e espera junto da maca - disse eu. - Paul, ouve. Eu no sabia que... 
- comeou o Percy a dizer depois de ter engolido em seco. - Cala a boca. Vai para o tnel e espera junto da maca. Imediatamente. Voltou a engolir em seco. Fez um 
esgar como se sentisse dores e dirigiu-se para a porta que dava acesso s escadas do tnel. Levava nos braos o extintor vazio, como se fosse um beb. O Dean passou 
por ele quando se dirigia a mim, trazendo o estetoscpio. Tirei-o das suas mos e coloquei as extremidades nos ouvidos. J tinha feito aquilo na tropa e era como 
andar de bicicleta - nunca se esquece como  que se faz. Afastei a camada de espuma do peito do Delacroix e tive de conter os vmito
 s que me assomaram  garganta quando uma grande poro da sua pele ainda quente se destacou muito simplemente da carne que cobrira at ento, da mesma forma que 
a pele deslizaria de um... bem, vocs sabem. "Sou um peru assado." - Oh meu Deus! - exclamou uma voz que no reconheci  beira das lgrimas, vinda de trs de mim. 
- As execues so sempre assim? Porque  que ningum me avisou? Nunca teria vindo! Agora  demasiado tarde, meu amigo, pensei. - Levem este homem daqui para fora 
- disse eu, dirigindo-me ao Dean ou ao Brutal, ou a quem quer que estivesse a ouvir-me... o que fiz quando tive a certeza de que no desataria a vomitar em cima 
das coxas fumegantes do Delacroix. - Levem-nos todos para a porta das traseiras. Couracei-me tanto quanto possvel e coloquei o disco do estetoscpio sobre a regio 
em carne viva que pusera a descoberto no peito do Del. Comecei a escutar enquanto rezava para no ouvir nada, e foi exactamente isso q
 ue aconteceu. - Ele est morto - disse eu ao Brutal. Graas a Deus.

- Sim. Graas a Deus. Tu e o Dean vo buscar a padiola. Vamos desamarr-lo e lev-lo daqui para fora o mais depressa possvel. 5 Levmos o corpo sobre a maca pelos 
doze degraus abaixo, sem problemas de maior. O meu pesadelo era que a sua carne cozinhada comeasse a desprender-se dos ossos enquanto o transportvamos - a frase 
do velho Pouca Terra, relativa ao peru assado, continuava gravada na minha mente - mas, como  evidente isso no veio a acontecer: O Curtis Anderson~ estava no andar 
de cima a tranquilizar os espectadores - pelo menos a tentar - o que deu jeito ao Brutal, uma vez que o Anderson no se encontrava presente para ver quando ele deu 
um passo na direco da frente da maca e encolheu o brao, pronto a desferir um murro no Per 257 256 cy, que continuava com uma expresso aparvalhada. Detive o_ 
seu brao a tempo, e ainda bem para ambos. Foi bom para', o Percy, porque o Brutal tencionava assentar-lhe um murro com a violncia daquel
 es que quase decapitavam, e foi bom para o Brutal porque ele teria perdido o emprego se o murro acertasse, e possivelmente, ido parar  cadeia. - No - disse eu. 
- O que  que queres dizer com esse no? - perguntou~~ -me o Brutal, enfurecido. - Como  que podes dizer no? Bem viste o que ele fez! O que  que ests a tentar 
dizer-me? Que vais continuar a permitir que os seus conhecimentos protejam? Depois do que ele fez? - Sim. - O Brutal ficou a olhar para mim de boca aberta e com 
uns olhos to furibundos que lacrimejavam. - Ou ve bem o que te digo, Brutus... tu ds-lhe um soco e o mais certo  todos ns sermos despedidos. Tu, eu, o Harry, 
o Dean e talvez at mesmo o Jack Van Hay. Todos os outros sobem um ou dois degraus na escada, a comear pelo Bill Dodge, e a Comisso Prisional contrata trs ou 
quatro zs-ninguns daqueles que fazem bicha para a sopa dos pobres para preencher os lugares mais inferiores da escala. Talvez tu possas viver
 com isso, mas... - Dobrei o polegar na direco de Dean, que olhava para ns do outro extremo do tnel de tijolos, que gotejavam. Tinha os culos numa das mos, 
olhando para o Percy como se quase no o visse. - Mas... e a respeito do Dean? Ele tem dois filhos, um na escola secundria e outro prestes a entrar para l. - Por 
conseguinte, a que  que tudo isto se resume? - perguntou-se o Brutal. Vamos permitir que ele se safe desta? - Eu no sabia que a esponja devia estar molhada - 
interveio o Percy numa voz mecnica que mal se ouvia. Aquela era a histria que ele havia ensaiado, como  evidente, quando esperava uma brincadeira dolorosa, em 
vez do autntico cataclismo a que tnhamos assistido. Sempre que ensaivamos ela nunca era molhada. - Ah, meu grande estupor.... - comeou o Brutal a dizer, fazendo 
meno de se atirar ao Percy. Voltei a agarr-lo, obrigando-o a retroceder. Entretanto, comeou a ouvir-se o som de passos que des
 ciam as escadas. Ergui o olhar, sentindo-me desesperadamente receoso de avistar o Curtis Ander258 son, mas era apenas o Harry Terwilliger. As suas faces estavam 
brancas como uma folha de papel e os lbios tinham uma tonalidade prpura, como se tivesse acabado de comer uma torta de amoras pretas. Voltei a dedicar a minha 
ateno ao Brutal. - Por amor de Deus, Brutus, o Delacroix est morto, nada pode alterar esse facto, e o Percy no merece o que estars a arriscar. - Comearia eu 
j a perceber o plano ou a sua fase inicial? Deixem que vos diga que desde ento tenho vindo a interrogar-me sobre o assunto, sem contudo ter conseguido encontrar 
uma resposta satisfatria. Mas suponho que isso no tenha grande importncia. H muitas coisas que no importam, mas tenho reparado que isso no impede um homem 
de se questionar. - Vocs esto para a a falar de mim como se eu fosse invisvel - comentou o Percy. Continuava a parecer entorpecido e ato
 rdoado, como se algum lhe tivesse assentado um bom murro na barriga, mas podamos ver que conseguira recobrar um pouco de nimo.

- Tu s invisvel, Percy - repliquei. - Eh, no podes... Controlei muito a custo a vontade que sentia de o esmurrar. A gua continuava a gotejar, com um som cavo, 
das paredes de tijolo do tnel; as nossas sombras gigantescas e distorcidas pareciam danar sobre a sua superfcie, como se fossem as sombras daquele conto do Poe 
sobre o gigantesco gorila da Rua da Morgue. Os troves continuavam a fazer-se ouvir; contudo, ali em baixo, o seu ribombar era mais abafado. - S quero ouvir uma 
coisa da tua boca, Percy; a promessa de que amanh entregars o teu pedido de transferncia para o Briar Ridge. - No te preocupes com isso - respondeu-me ele com 
uma expresso de amuo. Olhou para a figura coberta em cima da maca, afastou o olhar fitou-me por breves momentos e voltou a desviar o olhar. - Isso ser o melhor 
- atalhou o Harry. - Caso contrno,  possvel que venhas a conhecer melhor o Bill "Selvagem" Wharton, muito melhor do que aquilo que desejas
 . - Uma ligeira pausa. - Ns podemos garantir que isso acontea. O Percy tinha medo de ns e, provavelmente, daquilo que pudssemos fazer se ele ainda l estivesse 
quando descobrssemos o que ele conversara com o Jack Van Hay sobre a esponja 259 e por que motivo tnhamos sempre o cuidado de a mergulhar em salmoura; porm, a 
referncia do Harry ao Wharton despelhou nos seus olhos um verdadeiro terror. Percebi que estava a recordar-se da maneira como o Wharton o agarrara despenteara, 
assim como das suas palavras. - No te atreverias - disse ele num murmrio. - Ah, isso  que me atreveria - replicou o Harry com toda a calma. - E queres saber que 
mais? Ningum viria a saber. Porque j demonstraste que no tens cuidado nenhum quando lidas com os prisioneiros. E que tambm s incompetente. Os punhos do Percy 
cerraram-se e as suas faces adquiri ram uma tonalidade rosada. - Eu no sou... -Claro que s - atalhou o Dean, juntando-se a nsj Form E1mos uma espcie de semicrculo 
em redor do Percy ao' fundo das escadas, e at a sada pela parte da frente do tnel se encontrava bloqueada; a maca estava atrs dele com o seu' amontoado de carne 
fumegante oculto debaixo de um velho lenol. - Acabaste de queimar o Delacroix vivo. Se isso no  uma demonstrao de incompetncia, o que  que ser? A expresso 
que se reflectia no olhar do Percy era pouco'' segura. Planeara proteger-se, invocando ignorncia, e naquele momento verificava que o feitio se virara contra o 
feiticeiro Nunca cheguei a saber o que  que ele teria alegado em se guida, porque, nesse momento, o Curtis Anderson apareceu vindo das escadas. Apercebemo-nos de 
que era ele e afastmo-nos um pouco do Percy, de forma a no darmos uma imagem to ameaadora. - Que porra  que foi aquilo? - perguntou o Anderson num rugido. - 
Jesus, o cho l em cima  s vomitado por todo o lado! E o cheiro! Eu j disse ao Ma
 gnusson e ao velho Pouca Terra que abrissem as duas portas, mas aquele cheiro no h-de sair durante pelo menos cinco anos, aposto tudo o que quiserem. E o monte 
de merda do Wharton est a cantar, acerca do assunto! Estou a ouvi-lo! - E ele tem boa voz, Curt? - perguntou o Brutal. Sabem como  que se pode fazer com que o 
gs de iluminao entre em combusto apenas com uma centelha sem que da nos advenha qualquer dano fsico, se o fizermos antes de a concentrao ser excessiva? Foi 
o que aconteceu naquela situao. Ficmos uns instantes a olhar de boca aberta para ele 260 gratos e desatmos a rir histericamente. As nossas gargalhadas cheias 
de histerismo ecoavam por aquele tnel lgubre como o adejar de asas de morcegos. As nossas sombras disformes oscilavam sobre as paredes. J no fim do nosso

ataque de riso, at o Percy fez coro connosco. Por fim acalmmo-nos e, no rescaldo, todos nos sentimos melhor. Possuamos de novo alguma sanidade mental. - Muito 
bem, rapazes - atalhou o Anderson, limpando os olhos lacrimejantes com um leno, continuando a soltar um soluo ocasional de riso -, o que raio se passou l em cima? 
- Uma execuo - respondeu o Brutal. Estou em crer que o seu tom de voz neutro desarmou o Anderson, mas a mim no me surpreendeu, pelo menos no muito; o Brutal 
sempre tinha sido bom em tirar o maior partido de uma ocasio propcia. Bem sucedida. - Como  que podes dizer uma coisa dessas? Algumas testemunhas sero incapazes 
de dormir durante um ms! Raios, aquela gaja gorda  capaz de no pregar olho durante um ano! O Brutal apontou para a maca, para o corpo por baixo do lenol. - Ele 
est morto, no  verdade? Quanto s tuas testemunhas, a maior parte delas dir amanh  noite aos amigos que se tratou de
  um acto de justia perfeita... O Del queimou uma data de pessoas vivas, portanto, ns invertemos as coisas e queimmo-lo, a ele, vivo. Com a diferena de que no 
diro que fomos ns. Diro que foi a vontade de Deus que se manifestou atravs de ns. Talvez at haja alguma verdade nisso. E queres saber o melhor de tudo? A ironia 
suprema? A maior parte dos amigos das testemunhas vai desejar ter podido estar aqui, para ver com os seus prprios olhos. - Lanou um olhar ao Percy, que tanto tinha 
de sardnico como de escarninho. - E se ficaram um tudo-nada abalados, o que  que isso tem de mais? - perguntou o Harry. - Eles ofereceram-se para o raio desta 
misso, ningum os recrutou. - Eu no sabia que a esponja tinha de estar molhada - interveio o Percy numa voz mecanizada. - Durante os ensaios nunca  costume molh-la. 
O Dean olhou para ele com o mais profundo dos desprezos. 261 - Durante quantos anos mijaste na tampa da retrete at; algu
m te ter dito que a levantasses antes de urinar? - perguntou ele num timbre de voz que mais parecia um ladrar. O Percy ainda abriu a boca para responder, mas eu 
disse -lhe que se calasse. E, surpresa das surpresas, ele obedeceu Voltei-me para o Anderson. - O Percy lixou tudo, Curtis... Foi isso o que sucedeu muito pura e 
simplesmente. - Virei-me para o Percy, desafiando-o a contradizer-me. Ele no ousou faz-lo ao ler a expresso nos meus olhos: " prefervel que o Anderson julgue` 
que foi um erro estpido do que algo propositado." Alm do' mais, fosse o que fosse que se dissesse ali no tnel no tinhaqualquer significado. Aquilo que interessava, 
o que interessa sempre aos Percy Wetmore deste mundo,  o que fica regis tado ou o que chega aos ouvidos dos manda-chuvas... da pessoas que interessam. O que tem 
relevncia para os Percies, Wetmore deste mundo  o que  publicado nos jornais. O Anderson olhou para ns, parecendo um pouco inseguro. Cheg
 ou mesmo ao ponto de olhar para o Delacroix, mas este no se encontrava em estado de falar. - Imagino que poderia ter sido pior - comentou. - Isso  verdade - concordei. 
- Ele ainda podia estar vivo. O Curtis pestanejou confuso: aquela probabilidade parecia no lhe ter ocorrido. - Amanh quero ver em cima da minha secretria um relatrio 
pormenorizado sobre este assunto - instruiu ele. E nenhum de vocs falar disto ao director Moores at eu ter tido a oportunidade de conversar com ele. Estamos de 
acordo? Acenmos veementemente com a cabea. Se o Curtis Anderson pretendia pr o director ao corrente do sucedido; por' ns no havia qualquer inconveniente. - 
Isto , se nenhum desses caras de cu dos reprteres referir o assunto nos seus jornais... - No o faro - repliquei. - Ainda que o tentassem, os editores impediriam 
que o assunto viesse a lume.  demasiado macabro para um pblico constitudo maioritariamente por famlias. Mas eles
  nem sequer tentaro. Os que se encontravam presentes esta noite so todos veteranos. s vezes ~ coisas do para o torto, mais nada. Eles sabem disso to bem como 
ns.

O Anderson pensou por mais uns instantes, e pouco depois assentiu. Olhou para o Percy; no seu rosto, habitualmente bastante afvel, reflectia-se uma expresso desdenhosa. 
- s um verdadeiro idiota - declarou -, e no gosto de ti nem um bocadinho. Assentiu com a cabea perante o olhar estupidificado de surpresa do Percy. - E se contares 
a algum dos teus amigos de cu rosado que eu te disse isto, podes estar certo que o negarei at que as galinhas venham a ter dentes... e estes homens ho-de confirmar 
o que eu disser. Como vs, ests com um pequeno problema, meu filho. Com aquelas palavras, voltou-se e comeou a subir as escadas. Deixei-o percorrer quatro degraus 
antes de o chamar. - Curtis? - O interpelado deu meia volta, franziu o sobrolho e no disse nada. - No vale a pena preocupares-te muito com o Percy - acrescentei. 
- Ele vai ser transferido para o Briar Ridge. Esperam-no coisas maiores e melhores. No  verdade, Percy? - Assim que a transfer EAncia seja aprovada - prosseguiu 
o Brutal. - E at que tal acontea, ele vai passar a dar parte de doente todas as noites acrescentou o Dean. Aquilo enfureceu o Percy; ainda no trabalhava na priso 
h tempo suficiente para poder ter acumulado dias de dispensa por doena remunerados. Fitou o Dean com grande desdm. - Isso querias tu - disse ele. 6 Regressmos 
ao bloco mais ou menos por volta da uma e um quarto da manh (com excepo do Percy, que ficou a limpar a arrecadao muito mal-humorado) e eu ainda tinha de escrever 
um relatrio. Decidi elabor-lo na mesa do guarda de servio; se eu me sentasse na cadeira do meu gabinete, que era mais confortvel do que aquela, acabaria por 
passar pelas brasas. Muito provavelmente, isto poder parecer-vos um pouco peculiar, em vista do que tinha acontecido h cerca de uma hora mas a realidade  que 
eu tinha a sensao de haver vivido trs vidas desde as onze horas da noite anterior sem co
 nseguir conciliar o sono. 262 263 O John Coffey encontrava-se junto das barras da porta da cela, com as lgrimas a brotarem dos seus olhos estranhos e de expresso 
distanciada - era como se estivssemos a observar o sangue a escorrer de uma ferida que se recusava a sarar, mas que no provocava dores. Mais perto da secretria, 
no corredor, o Wharton estava sentado na sua tarimba, embalando-se em movimentos laterais, enquanto entoava uma cano da sua lavra que no era despropositada de 
todo. Tanto quanto me consigo recordar, a letra dizia qualquer coisa como isto: "Chu...rras...co! Tu e eu! Fedorento, rosadinho, mas que pivete! No foi o Billy 
nem o Philadelphia Philly, No foi o Jackie nem o Roy! Era um rapazinho, pequeno e pimpo, Que dava pelo nome de Delacroix." - Cala a boca, idiota! - disse-lhe eu. 
Wharton mimoseou-me com um esgar sorridente que ps  mostra os seus dentes enegrecidos. Ele no estava a morrer, pelo menos ainda no; estava d
 e p, todo satisfeito, praticamente a executar um sapateado. - Vem at aqui dentro e obriga-me a calar a boca - desafiou, trocista e todo contente, comeando a 
entoar outro verso da Cano do Churrasco, formando frases que no eram totalmente desprovidas de graa. Revelavam uma inteligncia aberrante e nauseabunda, mas 
que  sua prpria maneira raiava o brilhantismo. Dirigi-me para a cela do John Coffey. Este limpou as lgrimas das faces com a palma da mo. Tinha os olhos vernelhos 
e inchados, e pareceu-me que tambm estava exausto. No percebia bem porqu, pois ele passava apenas duas horas por dia no ptio de recreio e o resto do tempo sentado 
ou deitado na tarimba da sua cela; eu no tinha a certeza, mas no duvidei daquilo que estava a ver. Era demasiado evidente. - Pobre Del - comentou ele numa voz 
baixa e spera.

Coitado do velho Del. - Sim - anu. - Coitado do velho Del. John, tu ests' bem? - J deixou tudo isto - continuou o Coffey sem me responder. - O Del j est fora 
disto. No  verdade, chefe? 264 Sim. Mas responde ao que te perguntei, John. Ests bem? O Del deixou tudo isto, ele  que tem sorte. No interessa a forma como 
aconteceu, ele  que tem sorte. Pensei que o Delacroix era muito capaz de contradizer aquela observao, mas decidi guardar aquele pensamento para mim prprio. Lancei 
um olhar pela cela do John Coffey. - Onde  que est o Mister Jingles? - Foi a correr at ali ao fundo. - Apontou atravs das barras, indicando o fundo do corredor, 
onde se situava a cela do isolamento. - Bem, ele h-de regressar - disse eu com um acenar de cabea. Mas a verdade  que no regressou; os dias do Mister Jingles 
na Milha Verde tinham chegado ao fim. O nico vestgio que encontrmos da sua presena foi o que o Brutal descobriu ness
 e Inverno: umas quantas lascas de madeira coloridas e o cheiro a rebuados de hortel-pimenta, que emanava de um orificio na trave do tecto. Tinha intenes de 
me ir embora nessa altura, mas no o fiz. Olhei para o John Coffey, e ele retribuiu-me o olhar, como se adivinhasse todos os meus pensamentos. Disse a mim mesmo 
para me pr a mexer dali para fora, dar a noite por terminada e depois elaborar o relatrio que tencionava escrever sentado  mesa do guarda de servio. Em vez disso, 
ouvi-me a proferir o seu nome. - John Coffey. - Sim, chefe - retorquiu ele de imediato. Por vezes, um homem sente a necessidade de saber uma determinada coisa, e 
era exactamente isso o que se passava comigo naquele momento. Baixei-me sobre um joelho e comecei a descalar um dos meus sapatos. 7 Quando cheguei a casa a chuva 
j parara de cair. Acima da cordilheira a norte surgira no firmamento a Lua tardia. O sono que eu sentira antes dava a impresso de ter desaparecido com
  as nuvens. Estava completamente desperto e sentia em mim o cheiro do Delacroix. Pensei que talvez conseguisse cheir-lo na minha pele churrasco, tu e eu, fedorento, 
rosadinho, mas que pivete - ainda durante .muito tempo. 265 A Janice estava de p  minha espera, como fazia sempre nas noites em que havia execues. Tinha inteno 
de no lhe contar a histria, uma vez que no vi qualquer finalidade em perturb-la com aquilo; contudo, ela lanou um olhar ao meu rosto quando transpus a porta 
da cozinha e exigiu que eu lhe contasse. Assim, sentei-me, agarrei nas suas mos quentes, envolvi-as com as minhas, que estavam frias (o sistema de aquecimento do 
meu velho Ford funcionava mal, e desde o desencadear da tempestade que a temperatura tinha executado um ngulo de cento e oitenta graus), e comecei a narrar-lhe 
aquilo que ela pensava desejar ouvir. A meio da histria fui-me abaixo e comecei a chorar, no tinha contado com aquilo. Sentime um pouco e
 nvergonhado, mas no muito; bem vem, era ela, a Janice; que nunca me chamava a ateno para as ocasies em que eu me desviava do comportamento que estava convencionado 
para um homem... pelo menos, do comportamento que eu julgava dever ser o meu. Um homem casado com uma boa mulher  a criatura de Deus que mais sorte tem, ao passo 
que um que no possua essa ddiva deve encontrar-se entre os mais desgraados, creio eu, sendo nica bno das suas vidas o facto de no se aperceberem de quanto 
isso lhes faz falta. Chorei e ela encostou a minha cabea junto dos seus seios; quando a minha prpria tempestade se dissipou, senti-me melhor... pelo menos, um 
tudo-nada melhor. Estou convencido de que foi nessa altura que tive a primeira percepo consciente da minha ideia. No foi o sapato; no  a isso que estou a referir-me. 
O sapato estava relacionado, mas de forma diferente. No entanto, a minha verdadeira ideia consistia, naquele momento, ap
 enas numa percepo estranha: que o John Coffey e a Melinda Moores, to diferenciados quanto podiam ser em tamanho, sexo, e cor da

pele, possuam exactamente os mesmos olhos: tristes, pesarosos e distantes. Olhos moribundos. - Vem para a cama - disse por fim a minha mulher. Vem para a cama comigo, 
Paul. Acedi; fizemos amor e, quando terminmos, a Janice adormeceu. Enquanto eu estava deitado a olhar para a face da Lua, ouvindo o ranger ocasional das paredes 
finalmente, tinham comeado a retrair-se, mudando do Vero para o Outono - pensei no John Coffey a dizer que tinha evitado o mal. Eu consegui evitar o mal no rato 
do Del. Eu consegui evitar o mal no Mister Jingles. Ele  um rato do circo. Com 266 certeza. E talvez, pensei eu, todos ns fssemos ratos de circo, a correr de 
um lado para o outro, tendo apenas uma noo vaga de que Deus e toda a Sua hoste no paraso, nos observavam nas nossas pequenas casas de baquelite, atravs das janelas 
de folha de mica. Quando o dia comeou a clarear dormi um pouco - calculo que umas duas horas, talvez mesmo trs; dormi da mesma maneira que c
 ostumo dormir hoje em dia, aqui, em Georgia Pines o que muito raramente me acontecia nessa poca, um sono sobressaltado. Adormecia pensar nas igrejas da minha juventude. 
As tendncias religiosas alteravam-se de acordo com os caprichos da minha me e das suas irms, mas na realidade eram todas o mesmo, resumiam-se  Primeira Igreja 
da Regio Remota de Louvado Seja Jesus, o Senhor  Todo-Poderoso.  sombra daqueles campanrios quadrados, o conceito de expiao surgia com a mesma regularidade 
do dobrar dos sinos que chamavam os fiis  orao. S Deus podia perdoar os pecados, podia e fazia-o, lavando-os no sangue do Seu Filho crucificado, mas esse facto 
no alterava a responsabilidade dos Seus filhos, que teriam de expiar esses pecados (e at mesmo os seus simples erros de discernimento) sempre que possvel. A expiao 
era um instrumento poderoso; era a tranca na porta que se fecha a fim de encerrarmos o passado. Adormeci a pensar em e
 xpiaes que tinham lugar em pinhais frondosos, no Eduard Delacrorx, envolto em chamas montado no relmpago, na Melinda Moores e no matulo com os seus olhos infinitamente 
lacrimosos. Estes pensamentos conseguiram formar um sonho. Nele, o John Coffey encontrava-se sentado na margem de um rio, balbuciando o seu pesar desarticulado em 
direco ao firmamento de incio do Vero, enquanto na outra margem se via um comboio de mercadorias que avanava veloz e incessantemente em direco a um viaduto 
ferrugento que atravessava o Trapingus. Em cada brao, o homem de raa negra tinha o corpo de uma rapariguinha nua de cabelos louros. Os seus punhos, enormes rochedos 
castanhos nas extremidades desses braos, mantinham-se firmemente cerrados. Em seu redor os grilos cantavam e os insectos esvoaavam; o calor do dia parecia zunir. 
No meu sonho dirigi-me a ele ajoelhando-me  sua frente e tomando as suas mos nas minhas. Os seus punhos relaxaram-se, revela
 ndo os seus segredos. Numa delas encontrava-se um carretel pintado de verde, vermelho e amarelo. Na outra estava o sapato de um guarda prisional. 267 - No consegui 
evitar o mal - dizia John Coffey, , Tentei desfazer o que estava feito, mas era demasiado tarde; E desta feita, no meu sonho, compreendi finalmente o homem. 8 s 
nove horas da manh seguinte, enquanto bebia a minha terceira caneca de caf na cozinha (a minha mulher no fez qualquer comentrio, mas vi a reprovao escrita 
no seu rosto quando me deu o caf), o telefone comeou a tocar. Dirigi-me para a sala a fim de o atender; a telefonista da Central disse a algum que j tinha em 
linha a pessoa pretendida, em seguida desejou-me um dia muito feliz e abandonou a linha, presumivelmente. Com a Central nunca se podia ter a certeza. A voz do Hal 
Moores chocou-me muito. Soava enrouquecida e vacilante, dando-me a impresso de que pertencia a um octogenrio. Ocorreu-me ento que tinha sido bo
 m que as coisas tivessem corrido da melhor maneira com o Curtis Anderson, na noite anterior, quando estivramos todos no tnel; era ptimo que ele pensasse mais 
ou

menos o mesmo que ns em relao ao Percy, porque o homem com quem eu estava a falar provavelmente jamais voltaria a trabalhar em Cold Mountain. - Paul, pelo que 
percebi, ontem  noite houve um pequeno problema. Tambm percebi que o nosso amigo, Mister Wetmore, esteve envolvido no assunto. - Foi apenas uma ligeira complicao 
- admiti, colocando o auscultador bem junto ao ouvido e inclinando-me sobre o bocal -, mas o trabalho ficou concludo. E isso  o mais importante. - Sim. Claro que 
sim. - Posso perguntar quem  que te contou? - "Para poder atar-lhe uma lata  cauda", pensei. - Podes perguntar, mas, como no  assunto onde devas meter o bedelho, 
vou ficar de boca fechada. Quando liguei para o meu gabinete, a fim de saber se havia algum recado ou qualquer assunto urgente, fui informado de uma coisa bastante 
interessante. - Oh! - Sim - retorquiu Moores. - Parece que um pedido de 268 transferncia foi aterrar na minha secretria. O Percy Wetmore
  quer ser transferido para o Briar Ridge logo que possvel. Deve ter preenchido o papel antes mesmo do fim do turno da noite passada, no achas? - Ao que tudo indica, 
parece que sim - concordei. - Em circunstncias normais, eu deixaria que fosse o Curtis Anderson a tratar deste assunto, mas levando em considerao a... a atmosfera 
que tem reinado no Bloco E nestes ltimos tempos, pedi  Hannah que me trouxesse pessoalmente esse pedido na sua hora de almoo. Gentilmente, ela acedeu. Vou aprovar 
a transferncia e certificar-me de que  enviada para a capital do estado ainda esta tarde. Calculo que possas ver o Percy Wetmore pelas costas em menos de um ms. 
Talvez at menos. O Moores esperava que eu ficasse satisfeito com aquela novidade, e tinha todo o direito a esperar. Interrompera a assistncia  mulher para poder 
dispor do tempo necessrio para dar andamento quele assunto, o qual, no fora isso, poderia ter levado mais de seis meses a ser
  tratado, at mesmo atravs dos to alardeados conhecimentos do Percy. No entanto, senti o corao cair-me aos ps. Um ms! Mas talvez isso no tivesse muita importncia. 
Eliminava um desejo perfeitamente natural de aguardar e adiar um empreendimento arriscado, e o assunto que me preenchia a mente de momento seria efectivamente muito 
arriscado. Em certas ocasies, quando  assim,  prefervel dar o salto antes de perder a coragem. Se amos ser obrigados a tratar do Percy (sempre partindo do pressuposto 
de que eu seria capaz de convencer os outros a apoiarem-me na minha loucura - por outras palavras, partindo do princpio de que existiria um "ns"), mais valia que 
fosse naquela mesma noite. - Paul? Continuas em linha? - O Moores baixou um pouco a voz, como se pensasse que estava a falar consigo prprio. - Raios partam isto, 
est a parecer-me que a ligao foi cortada. - No. Continuo aqui, Hal. Deste-me uma bela novidade. - Sim - conc
 ordou ele; uma vez mais, senti-me espantado ao verificar o quanto a sua voz havia envelhecido. De uma forma estranha, parecia to fina como papel. - Oh, eu sei 
bem em que  que ests a pensar. "No, no sabes, senhor director", pensei para comigo. 269

"Nem daqui a um milho de anos conseguirias adivinhar em que  que estou a pensar." - Ests a pensar que o nosso jovem amigo ainda andar pelo bloco aquando da execuo 
do Coffey. O que provavelj mente ser verdade... O Coffey marchar antes do Dia de aco de Graas, de acordo com as minhas previses, mas poders muito bem recambi-lo 
de novo para o compartimento do quadro elctrico. Ningum levantar a mnima objeco.! Incluindo ele prprio, calculo. -  exactamente o que farei - repliquei. 
- Hal, como  que a Melinda tem passado?

Fez-se uma longa pausa - to longa que eu poderia ter pensado que ele sara da linha, no fora o som da sua respirao. Quando o Moores voltou a falar, f-lo muito 
mais baixo - Ela est a apagar-se - disse ele. ~ A apagar-se. Aquela expresso to aterradora que os antigos costumavam usar, no para dizerem que uma pessoa estava 
a morrer, mas sim que tinha comeado a desligar-se do mundo dos vivos. - As dores de cabea parecem ter abrandado um pouco... pelo menos por agora... mas no consegue 
caminhar sem ajuda, no consegue agarrar nas coisas, enquanto est a dormir no  capaz de controlar a bexiga... - Fez-se outra pausa, e ento, num tom de voz ainda 
mais baixo o Hal acrescentou; qualquer coisa que me deu a impresso de ser: "Ela adeja". - Adeja? O que  que queres dizer, Hal? - perguntei,, franzindo a testa. 
Entretanto a minha mulher tinha chegado  entrada da sala de estar e ficou ali a olhar para mim, a limpar as mos a um pano
  da loua. - No - replicou o Moores numa voz que dava a impresso de vacilar entre a clera e as lgrimas. - Ela pragueja. - Oh! - exclamei, continuando sem saber 
o que  que ele pretendia dizer, embora no tivesse inteno de perguntar. No foi necessrio; ele encarregou-se de me explicar. - Ela est muito bem, perfeitamente 
normal, a conversar acerca dos canteiros de flores ou de um vestido que viu no catlogo, ou a dizer que ouviu o Roosevelt no rdio, comentando que ele falou maravilhosamente, 
e ento, sem mais nem menos, comea a dizer as coisas mais horrorosas que se possa conceber, coisas monstruosas... palavras. No eleva a tom de voz. Na minha opinio, 
quase seria prefervel se ela o fizesse... porque nesse caso... bem vs, ento... - No se pareceria tanto consigo prpria - adiantei. -  isso mesmo - aquiesceu 
o Moores numa voz agradecida. _Mas ouvi-la proferir aquelas coisas horrveis, linguagem reles, na sua doce
  voz... Desculpa-me Paul. - A sua voz enfraqueceu, e ouvi-o a aclarar ruidosamente a garganta. Pouco depois, o Moores retomou a palavra, num tom um pouco mais forte 
mas to entristecido como antes. - A Melinda quer que o pastor Donaldson venha c a casa e eu sei que ele  um grande conforto para ela, mas como  que eu posso 
pedirlhe que venha? Supe que. ele est sentado na sala, lendo as Escrituras com ela e ela lhe chama um nome obsceno? A Melinda  muito capaz de o fazer; ontem  
noite chamou-me nomes. Ela disse-me: "Chega-me essa revista, a Liberty, meu caralho de merda, se fizeres o favor." Oh, Paul, onde  que ela ter ouvido linguagem 
desta espcie? Como  que ela pode ter conhecimento deste gnero de palavras? - No sei. Hal, tencionas ficar em casa esta noite? Quando estava de posse de todas 
as suas faculdades, sem se sentir perturbado pelas preocupaes e desgostos, o Hal Moores tinha uma faceta rspida e sarcstica; acho que os
 seus subordinados receavam mais essa faceta do que a sua clera ou desprezo. O seu sarcasmo, que habitualmente se revestia de impacincia e brusquido, era capaz 
de nos aguilhoar como cido. Naquele momento, senti um pouco desse sarcasmo. Foi bastante inesperado, mas, tudo considerado, fiquei satisfeito por detectar aquilo. 
Ao fim e ao cabo, parecia que nem todo o esprito de luta o abandonara. - No - respondeu-me o Hal -, tenciono levar a Melinda ao baile no celeiro. Tencionamos fartar-nos 
de danar e depois dizer ao rabequista que  um filho da puta. Tapeia boca com a mo para no me rir. Felizmente, a vontade de rir desapareceu com rapidez. - Desculpa 
- acrescentou ele. - Ultimamente, no tenho andado a dormir muito. O que me torna rabugento.  claro que vamos estar em casa. Porque  que perguntas? - No interessa 
- retorqui. - No ests a pensar em passar por c, pois no? Porque se estiveste de servio ontem  noite, isso signifi
 ca que hoje tambm trabalhars no turno da noite. A menos que tenhas trocado com algum, no? - No, no troquei - confirmei. - Esta noite tambm estou de servio. 
270 271

- Em qualquer dos casos, a tua visita no seria muito boa ideia. Da forma como ela se sente neste momento.., - Talvez tenhas razo. Obrigado pelas notcias que me 
deste. - No tens de qu. Reza pela minha Melinda, Paul. Eu prometi-lhe que assim faria, pensando que talvez viesse a fazer um pouco mais do que rezar. Tal como 
eles costumam dizer na Igreja do Louvado Seja Jesus, o Senhor  Todo-Poderoso, Deus ajuda os que se ajudam a si prprios. Desliguei o telefone e olhei para a Janice. 
- Como  que est a Melly? - perguntou-me ela. - No muito bem. - Contei-lhe o que o Hal me dissera, incluindo a parte respeitante  linguagem obscena, embora no 
tenha includo a parte do caralho e do filho da puta. Con clu o meu relato, utilizando a expresso do Hal, "a apagar-se"; a Jan abanou a cabea com uma expresso 
de tristeza. Em seguida, observou-me com mais ateno. - Em que  que ests a pensar? Andas a matutar em qualquer coisa, provavelmen
 te, nada de bom. Est escrito no teu rosto. Mentir encontrava-se inteiramente fora de questo; essa no era a nossa maneira de ser. Limitei-me a dizer-lhe que seria 
prefervel que ela no se inteirasse do assunto, pelo menos de momento. - Trata-se de... Pode vir a causar-te algum problema? -perguntou ela, apesar de no parecer 
estar particularmente alarmada perante aquela hiptese, antes interessada, o que  um dos aspectos de que eu sempre gostei no seu carcter. Talvez - respondi lacnico. 
-  uma coisa boa? - Talvez - repeti. Continuava no mesmo lugar enquanto com um dedo girava distraidamente a manivela do telefone. - Preferes que eu te deixe sozinho 
enquanto fazes o teu telefonema? - perguntou a Janice. - Que seja uma boa mulherzinha e no me meta onde no sou chamada? Que v lavar a loua? Tricotar umas botinhas 
de l? Assenti. - No era bem nisso que eu estava a pensar, mas... - Vamos ter convidados para o almoo, Paul? - Espero que
  sim - repliquei. 272 9 Contactei com o Dean e o Brutal sem mais demoras, uma vez que ambos se encontravam ligados  rede telefnica. No era o caso do Harry, pelo 
menos nessa poca, mas eu tinha o nmero de telefone do seu vizinho mais prximo. Cerca de vinte minutos mais tarde, o Harry retribuiu o meu telefonema, extremamente 
embaraado por a chamada ter de ser paga no destino, mas prometendo "pagar o seu quinho" quando nos fosse enviada a prxima factura. Eu repliquei-lhe que "tudo 
vem a seu tempo e os nabos no Advento"; entrementes, poderia ele vir almoar a minha casa? O Brutal e o Dean j tinham aceite o convite, e a Janice prometera servir 
a sua famosa salada de repolho cru... para j no falar na sua ainda mais famosa tarte de ma. - Almoo sem ser por qualquer motivo especial? - perguntou o Harry 
com cepticismo. Acabei por admitir que queria discutir com eles um certo assunto, mas no desejava entrar nessa questo ao telefone. O
  Harry concordou em ir almoar a minha casa. Pousei o auscultador, dirigi-me para a janela e olhei para fora, pensativo. Embora houvssemos trabalhado no turno 
da noite, eu no acordara o Brutal nem o Dean, e o Harry tambm no parecera ter acabado de sair de vale de lenis. Tudo indicava que eu no era o nico a estar 
incomodado com o que se passara na noite anterior, e tendo em conta a loucura que eu tencionava levar a cabo, isso no era mau. O Brutal, que era o que vivia mais 
prximo de mim, chegou s onze e um quarto. O Dean apareceu quinze minutos mais tarde e o Harry - j vestido para o trabalho outros quinze minutos depois deste ltimo. 
A Jan serviu-nos o almoo na cozinha: sanduches de carne assada, salada de repolho e ch gelado. Tivesse aquela refeio tido lugar no dia anterior e teramos comido 
no alpendre, ao ar livre, satisfeitos por sentir a brisa todavia a temperatura havia descido uns bons

catorze graus desde a tempestade da noite anterior, e das cumeeiras soprava um vento bastante agreste. - Podes sentar-te  mesa connosco - disse eu  minha mulher. 
- Acho que no quero saber o que andas a tramar - disse-me ela com um abanar de cabea -, e fico menos preo - 273 cupada se no souber. Eu como qualquer coisa na 
sala de es tar. Esta semana tenho encontro marcado com Miss Jan Austen, a qual, devo dizer,  uma companhia excelente. - Quem  a Jane Austen? - perguntou o Harry 
depois de a Janice ter sado da cozinha. - Da tua famlia ou da da tua mulher, Paul?  alguma prima?  bonita? -  uma escritora, idiota - esclareceu o Brutal. - 
J morreu h uma eternidade. - Oh! - exclamou o Harry, constrangido. - Eu no sou grande leitor. Na maior parte, manuais de rdio. - O que  que andas a magicar, 
Paul? - perguntou o Dean sem rodeios. - Para comear, temos o Mister Jingles e o John Coffey. Os trs mostraram-se surpreendidos, tal co
 mo eu esperara..;, Tinham julgado que eu queria falar do Delacroix ou do Per cy. Talvez mesmo de ambos. Fitei o Dean e o Harry. - Aquilo com o Mister Jingles... 
o que o Coffey fez... aconteceu com bastante rapidez. Eu no sei se chegaste a tempo de ver at que ponto  que o rato ficou ferido. - No, mas ainda vi o sangue 
espalhado no cho - re plicou ele com um abanar de cabea. Voltei-me para o Brutal. - O filho da puta do Percy esmagou-o - disse ele simplesmente. - Deveria ter 
morrido, mas tal no aconteceu: O Coffey fez-lhe qualquer coisa. No sei como, mas o certo  que sarou. Eu sei que isto parece ser impossvel, mas eu vi com os meus 
prprios olhos. - Ele tambm me curou e eu no me limitei a ver, senti isso na pele - atalhei eu. Contei-lhes o que se passara com a minha infeco urinria, a forma 
como esta ressurgira, o so frimento por que tinha passado (apontei atravs da janela da cozinha para a pilha de madeira a que fora obrigado
 a agarrar-me, na manh em que as dores me prostraram de joelhos), e a forma como havia desaparecido completamente depois de o Coffey me ter tocado. E nunca mais 
voltara. No foi necessrio muito tempo para esta narrativa. Depois de eu ter terminado, os trs ficaram em silncio por algum tempo, mastigando as suas sanduches. 
O Dean foi o primeiro a retomar a conversa. - Da boca dele saem coisas pretas. Parecidas com insectos. -  verdade corroborou o Harry. - Pelo menos, de incio eram 
pretas. Mas em seguida ficaram brancas e sumi 274 ram-se. - Olhou  sua volta com uma expresso pensativa. - J me tinha esquecido do raio dessa coisa toda, Paul. 
No acham que  engraado? Nao h nada de engraado nem de estranho a respeito disso - interveio o Brutal. - Na minha opinio,  assim que a maior parte das pessoas 
procede em relao s coisas que no  capaz de compreender... Limitam-se a esquec-las. No faz muito bem  cabea d
 e uma pessoa recordar-se de coisas que no tm explicao. O que  que tens a dizer quanto a isso, Paul? Tambm apareceram insectos quando ele te curou da infeco? 
- Sim. Na minha opinio, eles  que so a doena... as dores... o sofrimento. Absorvem os males e depois libertam-nos de novo em pleno ar. - Onde acabam por vir 
a morrer - acrescentou o Harry. Encolhi os ombros. Por mim, no sabia se morriam ou no, to-pouco tinha a certeza se isso interessaria para o caso. - Ele sugou 
isso de ti? - perguntou o Brutal. - O Coffey deu-me a impresso de estar a sugar qualquer coisa directamente do rato. O sofrimento. O... vocs sabem o que quero 
dizer. A morte.

- No - redargui. - Ele limitou-se a tocar-me. E eu senti o seu toque. Foi uma espcie de safano, como um choque elctrico, com a diferena de que no me provocou 
qualquer dor. Mas eu no estava a morrer, s sentia dores. - O toque e a respirao - proferiu o Brutal com um acenar de cabea. - Tal como se costuma ouvir desses 
apregoadores da palavra divina. - Jesus seja Louvado, o Senhor  Todo-Poderoso - atalhei. - C por mim, no sei se Jesus tem alguma coisa a ver com isto - acrescentou 
o Brutal -, mas o certo  que me parece que o John Coffey  um homem muito poderoso. - Muito bem - interveio o Dean. - Uma vez que tu afirmas que tudo isso aconteceu, 
acho que sou obrigado a acreditar. Deus manifesta-se de maneiras misteriosas. Mas o que  que isso tem a ver connosco? Bem, aquela  que era a grande questo, no 
era? Respirei fundo e disse-lhes aquilo que tencionava fazer. Aparvalhados, os trs ouviram o que eu tinha a dizer. At o
  Brutal, que gostava de ler aquelas revistas que traziam histrias sobre homenzinhos verdes vindos do espao, apresentava uma expres 275 so estupidificada. Desta 
vez, quando terminei, fez-se u silncio ainda maior e as sanduches pareciam ter sido esquecidas. Por fim, numa voz suave cheia de sensatez, o Brutus Howell retomou 
a palavra. - Se fssemos apanhados, perderamos o emprego, pau~, e j era uma sorte se fosse s isso. O mais provvel era acabarmos por ir parar ao Bloco A como 
convidados do estado, a! fabricar carteiras e a tomar duche aos pares. - Sim - admiti. - Isso poderia muito bem vir a acontecer. - At certo ponto, sou capaz de 
compreender o que sen-tes - continuou ele. Conheces o Moores muito melhor do que qualquer de ns e, para alm de ele ser o chefe, tambm  teu amigo e sei que pensas 
muito no estado de sade da mulher dele... - A Melinda  a pessoa mais meiga do mundo - afirmei -, e para ele nada mais existe. - Mas ns
  no a conhecemos da mesma forma que tu e a Janice - disse o Brutal. No  verdade, Paul? - Se a conhecessem, tambm sentiriam afecto por ela retorqui. - Pelo menos 
teriam sentido se a tivessem conhecido antes de esta coisa se ter apoderado dela com as suas gar ras impiedosas. Ela costumava fazer muitas coisas em prol da comunidade, 
e  uma boa amiga e uma pessoa religiosa. Mas ainda mais  uma pessoa espirituosa. Enfim, costumava ser. A Melinda era capaz de nos contar coisas que nos faziam 
rir at s lgrimas. Mas no  por isso que quero ajud-la a salvar a vida, isto , caso possa vir a ser salva. O que est a acontecer com ela constitui uma ofensa, 
raios, uma verdadeira ofensa. Para os olhos, para os ouvidos e para o corao. - Essa tua atitude  muito nobre, mas duvido muito que seja isso que est a incomodar-te 
- interps o Brutal. - Estou convencido de que a tua atitude se deve mais ao que aconteceu ao Del. De uma maneira qualquer
 , pretendes restabelecer o equilbrio das coisas. E ele tinha toda a razo. Claro que tinha. Eu conhecia a Melinda Moores melhor do que eles; porm, depois de tudo 
analisado, isso no bastava para lhes pedir que arriscassem os seus empregos por ela... e possivelmente tambm a sua liberdade. E j agora, o mesmo se aplicava ao 
meu emprego e  minha liberdade. Ao fim e ao cabo, eu tinha dois filhos, e a 276 ltima coisa que desejava que viesse a suceder neste mundo de Deus era que a minha 
mulher fosse obrigada a escrever aos filhos para lhes comunicar que o pai ia ser julgado por... ben,, porque  que seria? No sabia. Por ajudar a instigar uma tentativa 
de fuga, parecia-me ser a razo mais plausvel. No entanto, a morte do Eduard Delacroix tinha sido o ac~ mais hediondo e ultrajante que eu presenciara ao longo de 
toda a minha vida - e no estou a referir-me apenas  minha vida profissional, mas sim  totalidade da minha

existncia - e eu tomara parte nele. Todos ns havamos tomado uma vez que permitramos que o Percy Wetmor~ tivesse continuado com as mesmas funes depois de sabermos 
que ele no possua o mnimo de capacidades para trabalhar num lugar como o Bloco E. Sem objeces entrramos naquele jogo. At o director Moores tinha a sua quota-parte 
de responsabilidade. "Os tomates dele vo ser estorricados quer o Wetmore faa parte do grupo ou no", dissera ele na altura; talvez isso no devesse causar-nos 
grandes apreenses, em virtude dos actos que o pequeno franci cometera, mas, no fim, o Percy tinha feito muito mais do que estorricar os tomates do Del; fizera 
explodir os globos oculares para fora das rbitas e pegara-lhe fogo  cara. E porqu? Porque o Delacroix cometera seis assassnios? No. Porque o Percy havia mijado 
nas calas e o pequeno cajun tivera a ousadia de se rir dele. Ns havamos tomado parte num acto monstruoso e o
  Percy sair-se-ia daquilo com toda a impunidade. Ia ser transferido para o Briar Ridge, to feliz como um gato ao sol num dia de Inverno, e ali teria um hospcio 
cheio de lunticos, sobre quem poderia exercer todas as suas sdicas crueldades. No havia nada que pudssemos fazer para impedir isso, mas talvez no fosse demasiado 
tarde para lavarmos alguma da sujidade que nos conspurcava as mos. - Na minha igreja classificam isto de expiao em vez de restabelecimento do equilbrio - disse 
eu -, mas acho que no fim vem tudo a dar no mesmo. - Acreditas realmente que o Coffey poderia salv-la? - perguntou o Dean numa voz suave e perplexa... - Fazendo 
apenas.., o qu?... Sugando-lhe o tumor cerebral que lhe mina a cabea? Como se fosse o... o caroo de um pssego? - Acho que seria capaz. Como  evidente, no  
certo, mas depois do que ele fez comigo... e com o Mister Jingles... No h duvida de que o rato estava bastante esborrachado - di
 sse o Brutal. - 277 - Mas estaria ele disposto a faz-lo? - perguntou Harry ensimesmado. - Estaria? - Se estiver ao seu alcance, sem dvida que sim - repliquei. 
- Porqu? O Coffey nem sequer a conhece! - Porque essa  a sua misso. Foi com essa finalidade que Deus o criou. O Brutal olhou ostensivamente em redor, recordando-nos 
que faltava algum. - E quanto ao Percy? Pensas que ele vai permitir que isto v para a frente? perguntou ele. Aquela questo levou-me a contar-lhes o que eu planeara 
em relao ao Percy. Quando terminei, o Harry e o Dean olhavam para mim estupefactos e o Brutal esboava um sorriso relutante de admirao. - Bastante audacioso, 
Irmo Paul! - exclamou ele. Quase consegues cortar-me a respirao! - Mas seria uma faanha e tanto! - observou o Dean quase num murmrio, aps o que desatou a rir 
sonoramente,, batendo palmas, como se fosse um garoto. - Quer dizer, vuu.., duu... d... oh... duu e macacos me mordam! -  p
 reciso no esquecer que o Dean tinha um interesse muito especial na parte do plano que envolvia o Percy (ao fim e ao cabo, este teria permitido que o Dean morresse 
devido  sua inrcia quando o Dean fora atacado pelo Wharton). - Sim, mas... e depois? - perguntou o Harry. Parecia sentir-se acabrunhado, mas os seus olhos atraioaram-no; 
cintilavam, indicando que ele desejava ser convencido. - O que  que acontece depois? - Costuma-se dizer que homem morto no ganha soldo - resmungou o Brutal. Lanceilhe 
um rpido olhar para ter a certeza de que ele estava a brincar. - Acho que ele vai ficar de bico calado - disse eu. - A srio?! - O Dean parecia cptico. Tirou os 
culos do nariz e comeou a limpar as lentes. - Convenam-me~ - Em primeiro lugar, ele nunca saber o que realmente sucedeu... Vai julgar-nos pela sua bitola, pensando 
que se tratou apenas de uma partida. Em segundo lugar... e mais impor' tante ainda, ele ter receio de dizer seja o que for.
 com isso que u estou efectivamente a contar. Ns dizemos-lhe que se comear a escrever cartas e a fazer telefonemas tambm ns comearemos a escrever cartas e 
a fazer alguns telefonemas 278

A respeito da execuo - disse o Harry. E da forma como ele ficou paralisado quando o Wharton atacou o Dean - interveio o Brutal. - Acho que a possibilidade de as 
pessoas poderem vir a tomar conhecimento destes assuntos  o que o Percy Wetmore teme mais. - Acenou lentamente com a cabea, pensativo. -  capaz de resultar. Mas, 
Paul... no faria mais sentido levar Mistress Moores at junto do Coffey, do que o Coffey a Mistress Moores? Poderamos tratar do Percy da forma que delineaste, 
e fazamola passar pelo tnel, em lugar de ser o Coffey a percorrer esse caminho. - Essa opo nunca poder vir a ser concretizada - declarei com um sacudir de cabea 
descrente. - Nem daqui a um milho de anos. - Por causa do director Moores? - Exactamente. Ele  teimoso que nem uma mula. Se levarmos o Coffey a casa dele acho 
que ficar to surpreendido que pelo menos no impedir que ele faa uma tentativa. Caso contrrio... - O que  que ests a p
 ensar em utilizar em termos de veculo? - inquiriu o Brutal. - O meu primeiro pensamento foi a diligncia - respondi -, mas nunca conseguiramos tir-la do ptio 
sem dar nas vistas, alm de que toda a gente que habita num raio de trinta quilmetros conhece bem o seu aspecto. Calculo que talvez possamos ir no meu Ford. - Calcula 
outra vez - disse o Dean, voltando a colocar os culos no nariz. Ainda que o despisses todo e lhe barrasses o corpo com banha, nunca conseguirias meter o John Coffey 
dentro do teu automvel, nem com a ajuda de uma caladeira. Ests to acostumado a olhar para ele que te esqueceste do seu tamanho. No tive resposta para aquilo. 
Grande parte da minha ateno nessa manh fora dedicada ao problema que o Percy representava - assim como ao problema menor, mas no menos considervel, que era 
o Bill "Selvagem" Wharton. Naquele momento comeava a compreender que o meio de transporte no iria ser to simples quanto eu t
 inha esperado. O Harry Terwilliger agarrou no que restava da sua segunda sanduche observou-a durante uns segundos e voltou a pous-la no prato. - Se decidssemos 
levar a cabo esta coisa de loucos - 279 disse ele -,imagino que poderamos servir-nos da minha camioneta de caixa aberta. Coloc-lo-amos na parte de trs. A essa 
hora da noite no h muita gente na estrada. Estamos a falar de uma hora por volta da meia-noite, no  verdade? - Sim - confirmei. - Vocs esto a esquecer-se de 
um pequeno pormenor interveio o Dean. - Eu sei que o Coffey tem andado muito sossegado desde que chegou ao bloco, est sempre deitado na tarimba a choramingar constantemente, 
mas a realidade  que  um assassino. E tambm um homem gigantesco. Se por acaso decidisse que desejava fugir pela parte de trs da camioneta do Harry, a nica maneira 
de o impedirmos seria mat-lo. E um tipo como ele exigiria uma grande quantidade de tiros, at mesmo com uma arma d
 e calibre quarenta e cinco. Suponhamos que no ramos capazes de o abater? E que ele tinha oportunidade de matar algum? Eu no gostava nada de perder o emprego 
e passar uma temporada na penitenciria... Tenho mulher e filhos que dependem de mim para comer, mas no me parece que odiaria qualquer destas coisas tanto como 
o ter na conscincia o peso de outra garotinha morta. - Isso no vir a acontecer - declarei. - Como  que podes estar assim to certo? No dei resposta imediata 
quela pergunta. No sabia bem por onde havia de comear. Eu soubera de antemo que aquela questo acabaria por vir  baila, claro que sim, mas o certo  que continuava 
sem saber como dizer-lhes o que sabia.; Foi o Brutal quem veio em meu auxlio. - No acreditas que ele tenha feito aquilo, pois no, Paul? - perguntou-me ele com 
uma expresso de incredulidade. - Achas que o idiota gigante est inocente. - Tenho a certeza absoluta que est inocente - r
 epliquei. - Como  que podes ter tanta certeza?

- Existem duas coisas - respondi. - Uma delas  o meu sapato. - Debrucei-me sobre a mesa e comecei a falar. PARTE CINCO JORNADA NA NOITE 1 Mr. H. G. Wells em tempos 
escreveu uma histria sobre um homem que inventou uma mquina do tempo, e eu cheguei  concluso que, ao escrever estas memrias, criei a minha prpria mquina do 
tempo. Ao contrrio da de Wells, esta s pode viajar para o passado - na realidade, de regresso a 1932, altura em que eu era o manda-chuva dos guardas prisionais 
do Bloco E, na penitenciria de Cold Mountain - mas, no obstante essa peculiaridade,  fantasmagoricamente eficiente. Seja como for, esta mquina do tempo traz-me 
 recordao o velho Ford que eu conduzia nessa altura: podia-se ter a certeza de que o motor acabaria por pegar, embora nunca se soubesse se uma volta com a chave 
na ignio seria o suficiente para iniciar a combusto ou se seria necessrio utilizar a manivela, at que o nosso brao estiv
 esse prestes a soltar-se do corpo devido ao esforo. Tenho tido muitos arranques fceis desde que comecei a nanar esta histria sobre o John Coffey, mas ontem fui 
obrigado a servir-me da manivela. Estou em crer que foi por ter chegado ao assunto da execuo do Delacroix, e parte da minha mente no desejar reviver esses momentos. 
Tratou-se de uma morte muito m, uma morte terrvel, e foi-o por causa do Percy Wetmore, o jovem que adorava pentear-se, mas que no era capaz de suportar que se 
rissem dele - nem sequer um pequeno franci, meio calvo, que jamais voltaria a ver outro Natal. No entanto tal como acontece com a maioria das tarefas repugnantes, 
o que custa  comear. Para um motor  indiferente que a sua ignio se faa por meio de chave ou de manivela; depois de ligado, funciona sempre da mesma maneira. 
Foi o que aconteceu comigo ontem. Ao princpio, as palavras 283 comearam a brotar-me da boca aos arrancos, mas depois se guiram-se f
 rases completas que culminaram numa torrente de fluncia verbal. A escrita  uma forma bastante aterradora e muito especial de rememorar, tal como vim a descobrir 
. re_ veste-se de uma inteireza que quase se assemelha a um crime de estupro.  possvel que eu tenha essa percepo somente porque sou um homem j muito velho (por 
vezes tenho a sen_ sao de que isso aconteceu nas minhas costas, sem que eu me desse conta); todavia, no estou muito seguro. Acredito que a combinao lpis e 
memria d origem a uma magia prtica, e a magia  perigosa. Na minha qualidade de homem, que conheceu o John Coffey e assistiu quilo que ele era capaz de fazer 
- tanto aos ratos como aos homens - sinto-me bastante habilitado a fazer essa afirmao. A magia  perigosa. Em qualquer dos casos, ontem escrevi durante todo o 
dia, as palavras fluram sem a mnima dificuldade, e o jardim de' Inverno deste glorioso lar para pessoas da terceira idade desapar
 eceu para dar lugar  arrecadao situada no extremo da Milha Verde, onde tantas das minhas crianas problemticas se sentaram pela ltima vez, e ao fundo das escadas 
que davam acesso ao tnel abaixo da estrada. Foi a que o Dean, o Harry, o Brutal e eu prprio confrontmos o Percy Wetmore a por causa do corpo fumegante do Eduard 
Delacroix, e onde o obrigmos a renovar a sua promessa de que pediria transferncia para o Briar Ridge, o estabelecimento hospitalar do estado destinado aos doentes 
mentais. No solrio h sempre flores frescas, mas, por volta do meio-dia de ontem, a nica coisa que me chegava s narinas era o cheiro nauseabundo da carne cozinhada 
do corpo do ho mem morto. O som da mquina de cortar relva no relvado mais abaixo fora substitudo pelo gotejar cavo da gua que se infiltrava lentamente atravs 
do tecto abaulado do tnel. Eu viajara de regresso a 1932, se no corporalmente, pelo menos de alma e mente. Dispensei
 o almoo, tendo ficado a escrever at mais ou menos s quatro da tarde, e, quando por fim pousei o lpis, sentia a mo dorida. Num passo lento

dirigi-me  extremidade do corredor do segundo andar. Nesse lugar existe uma janela sobranceira ao parque de estacionamento dos funcionarios do lar. O Brad Dolan, 
o servente que me faz lembrar o' Percy - e aquele que mostra uma curiosidade excessiva;, 284 quanto s minhas idas e vindas e quanto ao que fao durante os meus 
passeios conduz um velho Chevrolet cujo pra-choques tem um autocolante que diz: "Eu VI DEUS E O SEU NOME  NEWT." O automvel no estava no parque de estacion~nento; 
o Brad tinha terminado o seu turno e seguira para qualquer que fosse o jardim a que chamava lar. Imaginei uma caravana em cujo interior estivessem coladas com fita-cola 
as pginas centrais das revistas pornogrficas, com latas de cerveja Dixie nas prateleiras. Sa atravs da cozinha onde j haviam comeado a preparar o jantar. - 
O que  que leva nesse saco, Mister Edgecombe? --perguntou-me o Norton. -  s uma garrafa vazia - respondi-lhe. - L em baixo, no bos
 que, descobri a fonte da juventude. Todas as tardes, por volta desta hora, vou at l buscar um pouco. Costumo beber o lquido antes de me deitar. S te digo que 
 de boa qualidade. - Pode ser que o mantenha jovem - interveio George, o outro cozinheiro -, mas no est a fazer nada para que fique mais bem-parecido. Todos demos 
uma boa gargalhada com aquele comentrio e eu sa para as traseiras. Dei comigo a olhar em redor,  procura do Dolan, embora o seu carro no se encontrasse ali; 
disse a mim prprio que era um idiota chapado por permitir que o homem me bulisse tanto com os nervos. Atravessei o campo de jogos. Para l deste existe um arremedo 
de campo de golfe de aspecto miservel, que parece ser muito mais agradvel nas fotografias das brochuras de Georgia Pines, havendo por detrs deste uma vereda sinuosa, 
que vai dar a um pequeno arvoredo situado a oriente do lar. Tambm existem dois velhos barraces  berma deste caminho, que hoje
  em dia no tm qualquer serventia. Chegado ao segundo, que se situa prximo do elevado muro de pedra erigido entre os terrenos de Georgia Pines e a AutoEstrada 
47 que atravessa a Jrgia, entrei, tendo permanecido no seu interior durante algum tempo. Nessa noite comi um bom jantar, vi um bocado de televiso e deitei-me cedo. 
H muitas noites em que acordo e, sorrateiramente deso at  sala do televisor, onde costumo ver filmes antigos no canal de filmes americanos. No entanto, isso 
no aconteceu na noite passada; na noite passada dormi 285 que nem uma pedra, sem ter sido perturbado por nenhum dos sonhos que tanto me tm assombrado desde que 
iniciei as ~ nhas incurses no campo da literatura. Devo ter ficado cansado com toda a escrita desse dia. Como sabem, j no sou jovem como costumava ser. Quando 
despertei e vi que o retalho de sol, que habitualmente se projecta no soalho s seis da manh, j subira at aos ps da minha cama, levante
 i-me de um salto, to alarmado que nem dei pelas guinadas de dor na bacia, nos joelhos e nas articulaes dos tornozelos. Vesti-me o mais depressa possvel e sa 
apressadamente para o corredor, em direco  panela que d para o parque de estacionamento, na esperana de que o lugar onde o Dolan costumava estacionar o seu 
velho Chevrolet continuasse a estar desocupado. Por vezes ele chegava a atrasar-se meia hora... Naquele dia no tive essa sorte. O carro estava no parque, ferrugento 
sob o sol da manh. Porque Mr. Brad Dolan tinha um motivo para chegar pontualmente nestes ltimos tempos, no  verdade? Sim. O velho Paulie Edgecombe costuma ir 
a um lugar desconhecido logo de manh cedo, o velho Paulie Edgecombe anda a tramar alguma, e o Brad Dolan est determinado em descobrir do que  que se trata. O 
que  que costumas fazer ali em baixo, Paulie? Diz-me. O mais provvel era ele j estar  minha espera, oculto para que eu no o vi
 sse. O melhor seria eu deixar-me ficar onde estava... S que no podia. - Paul? Dei meia volta com tanta rapidez que estive prestes a cair. Era a minha amiga Elaine 
Connelly. Tinha os olhos muito abertos e estendera as mos para a frente,

como se pretendesse suster a minha queda. Felizmente para ela, recuperei o equilbrio; a Elaine tem artrite e o mais provvel teria sido eu quebr-la em duas, como 
se fosse um galho seco, caso tivesse tombado para cima dos seus braos. O romance no more quando se entra naquela estranha zona que se situa para l dos oitenta 
anos, mas podemos muito bem esquecer-nos das tretas do estilo E Tudo o Vento Levou. - Desculpa - disse ela. - No tive inteno de te pregar um susto. - No tem 
importncia - repliquei-lhe, oferecendo-lhe o esboo de um sorriso.  melhor acordar assim do que com um balde de gua fria no rosto. Eu devia contratar-te para 
fazeres isso todas as manhs. 286 Estavas  procura do carro dele, no  assim? Do carro do Dolan. No valia a pena tentar engan-la, pelo que me limitei a acenar 
que sim. . Quem me dera ter a certeza de que ele est na ala oeste. Gostaria de sair por algum tempo, mas no me quero arriscar a que e
 le me veja. Elaine sorriu-me - o fantasma do sorriso endiabrado e tentador que ela deveria ter tido nos seus tempos de rapariga. - Ele  um intrometido, no achas? 
- Sim - concordei. - E tambm no est na ala oeste. J desci para tomar o pequeno-almoo e posso dizer-te onde  que ele se encontra, porque dei uma espreitadela. 
Neste momento, est na cozinha. Olhei para ela, embasbacado. Eu sabia que o Dolan era curioso, mas no quele ponto. - No podes adiar o teu passeio da manh? - 
perguntou a Elaine. Fiquei a pensar naquela sugesto. - Suponho que poderia, mas... - Devias faz-lo - sugeriu ela. - No. No devia - retorqui, resoluto. Agora, 
pensei, ela vai perguntar-me onde  que vou, e o que  que tenho a fazer l em baixo, no arvoredo, que seja assim to diabolicamente importante. A Elaine, porm, 
no fez isso. Pelo contrrio, brindou-me uma vez mais com aquele seu sorriso endiabrado, que tinha um aspecto estranho e absolut
 amente maravilhoso naquele rosto emaciado e marcado pela dor. - Conheces Mister Howland? - perguntou-me ela. - Com certeza - respondi apesar de no costumar v-lo 
muitas vezes. Encontravase instalado na ala oeste, o que, em Georgia Pines era quase o mesmo que viver num pas vizinho. - Porque perguntas? - Sabes o que  que 
ele tem de especial? - Sacudi a cabea, indicando-lhe que no sabia. - Mister Howland - continuou Elaine exibindo um sorriso extremamente rasgado -  um dos nicos 
cinco residentes de Georgia Pines que tem autorizao para fumar. Isso acontece porque ele j vivia c antes de os regulamentos terem sido alterados. - 287 Devia 
ser uma velha clusula, antiqussima. E que lugar era mais adequado para tal clusula do que um lar para a terceira idade? A Elaine levou a mo  algibeira do seu 
vestido s riscas azuis e brancas, e tirou de l duas coisas: um cigarro e uma carteira de fsforos. - Apequena Ellie vai fazer chichi n
 a cama esta noite cantarolou ela numa voz engraada. - Elaine, o que ... - Acompanha esta velhota at ao andar de baixo - convidou ela, voltando a colocar o cigarro 
e os fsforos dentro do bolso, agarrando no meu brao com uma das suas mos enodadas. Comemos a percorrer o corredor na direco inversa. Enquanto caminhvamos, 
decidi desistir e colocar-me' nas suas mos. Elaine j tinha uma idade avanada e um corpo frgil; todavia, no era nada estpida. Enquanto seguamos para baixo, 
andando com o cuidado que merecem as relquias em que o tempo nos transformou, a Elaine retomou a palavra. - Espera ao fundo dos degraus. Vou  ala oeste,  casa 
de banho do corredor. Sabes a qual  que estou a referir-me, no sabes? - Sim - respondi. - A que fica mesmo ao lado da tina de hidromassagem. Mas porqu?

- H mais de quinze anos que no fumo um cigarro continuou ela -, mas esta manh est a apetecer-me fumar um. No sei quantas baforadas sero necessrias para accionar 
o detector de incndios que existe nessa casa de banho, mas tenciono vir a descobrir. Fiquei a olhar para ela com uma nova admirao, pensando no quanto ela me recordava 
a minha mulher - a Jan poderia muito bem ter feito a mesma coisa. A Elaine fitou-me com o seu sorriso atrevido e endiabrado. Com a palma da mo em forma de concha 
envolvi-lhe a nuca esguia, cheguei o rosto dela ao meu e beijei-a ao de leve nos lbios. - Amo-te, Ellie - disse-lhe eu. - Mas que conversa to sria - retorquiu 
ela, mas eu vi que se sentia agradada. - E quanto ao Chuck Howland? - perguntei. - Isto vai arranjar-lhe problemas? - No, porque ele est na sala a ver televiso 
com mais duas dzias de pessoas. Assim que o detector de incndio 288 entrar em aco e o alarme da ala oeste desatar a to
 car, eu tenciono desaparecer rapidamente. . Tem cuidado, no vs cair e magoar-te, mulher. Eu nunca seria capaz de me perdoar se... - Oh, deixa-te disso - atalhou 
a Elaine e desta vez foi ela quem me beijou. O amor entre as runas humanas.  possvel que a alguns de vs isto possa parecer estranho, ou grotesco, mas permitam-me 
que vos diga uma coisa, meus amigos: um amor que possa parecer estranho  melhor do que amor nenhum. Observei-a a afastar-se num passo lento e rgido (no entanto, 
a Elaine s se serve de uma bengala nos dias de chuva, e, mesmo nessas alturas, s se as dores forem insuportveis;  uma das suas poucas vaidades), e aguardei. 
Passaram cinco minutos, depois dez, e quando eu j estava prestes a concluir que ou ela tinha perdido a coragem, ou ento descobrira que a pilha que accionava o 
detector de incndios da casa de banho estava gasta, comeou a soar o alarme na ala oeste com um som estridente e ininterrupto. Sem mais delong
 as, dirigi-me para a cozinha, embora caminhasse num passo lento no havia razo para me apressar at ter a certeza de que o Dolan no se cruzaria comigo. Entretanto, 
comeou a sair da sala da televiso (aqui chamamlhe Centro Recreativo; ora, isso  que  grotesco) um grupo de velhotes, a maioria de roupo, curiosos por saberem 
o que  que estava a passar-se. O Chuck Howland encontrava-se entre eles, tal como verifiquei para meu grande contentamento. - Edgecombe! - chamou o Kent Avery na 
sua voz enroquecida, agarrando-se  andadeira com uma mo, enquanto com a outra coava obsessivamente a regio das virilhas por baixo do pijama. - Trata-se de um 
alarme a srio ou outro dos falsos? O que  que te parece? - Acho que no h maneira de saber - respondi. Nessa altura passaram por ns trs serventes a correr em 
direco  ala oeste, gritando s pessoas que se encontravam arpadas junto da porta da sala de televiso, que sassem pa
 ra o exterior onde deveriam aguardar at que algum lhes dissesse que no havia perigo. O terceiro deles era o Brad Dolan. Quando passou nem sequer olhou para mim, 
facto - 289 que me agradou extraordinariamente. Enquanto me dirigia para a cozinha, ocorreume que a dupla formada por a Elain~ Connelly e o Paul Edgecombe seria 
provavelmente uma dupla que chegaria para uma dzia de Brad Dolan, juntamente com meia dzia de Percy Wetmore para compor o ramalhet, Os cozinheiros continuavam 
a arrumar as coisas do pequeno-almoo na cozinha, sem prestarem a mnima ateno ao alarme contra incndios, o qual continuava a fazer-se ouvir com toda a estridncia. 
- Mister Edgecombe - disse o George -, parece-me que o Brad Dolan andava  sua procura. De facto, perdeu-. por pouco. Que sorte a minha!, pensei, tendo dito em 
voz alta que haveria de me cruzar mais tarde com o Dolan. Em seguida perguntei se havia sobrado alguma torrada do pequen -almoo.

- Com certeza - disse o Norton - mas nesta altura j est completamente fria. Esta manh atrasou-se. - Pois atrasei, mas tenho fome. - S preciso de um minuto para 
lhe preparar uma torrada fresca e bem quentinha acrescentou o George, estendend a mo para o po. - No, a fria serve perfeitamente - atalhei e quando ele me deu 
duas torradas em po de forma (com uma expresso intrigada... na realidade, tanto um como o outro se mostravam deveras intrigados), sa apressadamente porta fora, 
sentindo-me como o rapazinho que em tempos fora, faltando  escola para poder ir  pesca, levando um bolo embrulhado em papel de cera na parte da frente da camisa. 
J do lado de fora da porta da cozinha, olhei rapidamente  minha volta, numa atitude reflexa,  procura do Dolan, no tendo avistado nada que pudesse alarmar-me; 
dirigi-me num passo apressado para o campo de jogos e atravessei a zona de golfe, mordiscando uma das torradas enquanto caminhava. Quando c
 heguei ao arvoredo, que me protegeria de olhares indiscretos, abrandei o passo e, ao percorrer a vereda, os meus pensamentos concentraram-se na pavorosa execuo 
do Eduard Delacroix. Nessa mesma manh, eu falara com o Hal Moores e ele dissera-me que o tumor que a Melinda tinha no crebro estava a fazer com que ela s vezes 
praguejasse e utilizasse uma' linguagem ordinria... o que a minha mulher, posteriormente, 290 classificou (bastante a medo; ela no sabia se se tratava exactanente 
da mesma coisa) de Sndrome de Tourettet. Os tremores na voz do Moores, em conjunto com a maneira como o John Coffey curara tanto a minha infeco urinria como 
a espinha fracturada do rato de estimao do Delacroix eram factores que finalmente me haviam impelido para l da linha que se estende entre o pensar uma determinada 
coisa e o passar  fase de concretizao dessa mesma coisa. E existia algo mais. Uma coisa que se relacionava com as mos do John Coffey
  e com o meu sapato. Por conseguinte, eu telefonara aos homens com quem trabalhava, os homens a quem tinha vindo a confiar a minha vida ao longo dos anos - o Dean 
Stanton, o Harry Terwilliger e o Brutos Howell. Eles foram almoar a minha casa no dia seguinte ao da execuo do Delacroix e escutaram-me com ateno a delinear-lhes 
o plano que concebera.  claro que todos eles sabiam que o Coffey tinha curado o rato; de facto, o Brutal at assistira a essa cura. Assim, quando sugeri que um 
outro milagre poderia vir a dar resultado, caso levssemos o John Coffey at junto da Melinda Moores, eles no desataram a rir-se. Foi o Dean Stanton quem levantou 
a questo mais preocupante: e se o John Coffey decidisse tentar a fuga enquanto o levvamos a dar aquele passeio pelo campo? - Suponhamos que ele tinha oportunidade 
de matar algum - perguntara Dean. - Eu no gostava nada de perder o emprego e passar uma temporada na penitenciria... Tenho mulher e filh
 os que dependem de mim para comer mas no me parece que odiaria qualquer dessas coisas tanto como ter na conscincia o peso de outra garotinha morta. Naquele momento 
fez-se silncio, os trs ficaram a olhar para mim, para ver como  que eu responderia quilo. Eu sabia que tudo iria alterar-se se dissesse o que tinha na ponta 
da lngua; chegramos a um ponto para l do qual era impossvel bater em retirada. Deve acrescentar-se que, pelo menos no que me dizia respeito, a retirada j era 
impossvel. Abri a boca e comecei a falar. Uma doena rara, que deve o seu nome ao mdico francs Georges Gilles de la Tourette caracterizada por tiques involuntrios 
e por uma verbalizao incontrolvel, que envolve especialmente ecolalia e o uso de linguagem obscena. (N. da T.) 291 - Isso no vir a acontecer - afirmei. - Como 
 que podes estar assim to certo? - perguntou o Dean. No dei resposta imediata quela pergunta. No sabia bem por
 onde havia de comear. Eu soubera de antemo que aquela questo acabaria por vir  baila, mas continuava sem saber como dizer-lhes o que sabia. Foi o Brutal quem 
veio em meu auxlio.

- No acreditas que ele tenha feito aquilo, pois no, Paul? - perguntou-me ele com uma expresso de incredulidade. - Achas que o idiota gigante est inocente. - 
Tenho a certeza absoluta que ele est inocente - repliquei. - Como  que podes ter tanta certeza? - Existem duas coisas - continuei. - Uma delas tem a ver com o 
meu sapato. - Com o teu sapato?! - exclamou o Brutal, atnito. - O que  que o teu sapato tem a ver com o facto de o John Coffey ter morto, ou no, aquelas duas 
garotinhas? - Ontem  noite descalcei um dos meus sapatos e entreguei-lho - expliquei. Depois da execuo, quer dizer, quando as coisas se acalmaram um pouco. Meti-o 
por entre as barras da cela e ele agarrou-o com aquelas suas mos enormes. Disse-lhe que atasse o atacador. Eu tinha de estar absolutamente certo, porque, bem vem, 
todas as nossas crianas problemticas habitualmente usam pantufas, pelo que o meu sapato era necessrio; no nos esqueamos de que um hom
 em realmente determinado a suicidar-se poder faz-lo com os atacadores, no caso de estar mesmo empenhado. Isso  uma coisa de que todos temos conhecimento. Os 
trs confirmaram com um acenar de cabea. - Ele colocou o sapato em cima das coxas e comeou a entrecruzar as pontas dos atacadores sem qualquer dificuldade, mas 
de repente ficou sem saber o que fazer. Disse que tinha quase a certeza de que algum lhe mostrara como  que se fazia quando ainda era um rapazito, talvez o pai 
ou um dos namorados que a me tivera depois de o marido se ter ido embora, mas perdera-lhe o jeito. - Eu estou como o Brutal... Continuo sem compreender 292 2 qual 
a relao do teu sapato com o facto de o John Coffey ter morto ou no as gmeas Detterick - disse o Dean. Consequentemente, passei uma vez mais em revista a histria 
do rapto e assassnio - que eu lera nos jornais da biblioteca da priso naquele dia de muito calor, enquanto os meus rgaos genitais pareciam
  uma fornalha e o Gibbons ressonava a um canto, e narrei tudo o que o reprter Hammersmith me contara posteriormente. .O co dos Detterick no era muito de morder, 
mas a ladrar era dos melhores do mundo - expliquei. - O homem que levou as garotas manteve o animal calado, dando-lhe salsichas. Cada vez que lhe oferecia uma, chegava-se 
mais perto do animal, imagino eu, e, enquanto o rafeiro comia a ltima, agarrou-lhe a cabea, torceu-lhe o pescoo e partiu-lho. "Mais tarde, quando encontraram 
o Coffey, o assistente do xerife que chefiava o grupo de voluntrios, o Rob McGee, reparou numa salincia no bolso do peito do fato-macaco que o Coffey usava na 
ocasio. De incio, o McGee assumiu que poderia ser uma arma, mas o Coffey disse-lhe que se tratava de uma merenda, como efectivamente veio a provar-se, umas duas 
sanduches com picles, embrulhadas em papel de jornal e atadas com um cordel. O Coffey no foi capaz de se lembrar de quem  que lhas tinha dad
 o; a nica coisa de que se recordava era que tinha sido uma mulher que usava um avental. - Sanduches, picles e nada de salsichas - disse o Brutal. - No havia 
salsichas - concordei. - Claro que no havia - interveio o Dean. - Ele deu-as a comer ao co. - Pois bem, foi isso exactamente o que o promotor de justia disse 
durante o julgamento - admiti -, mas se de facto o Coffey tivesse desembrulhado a merenda para poder dar as salsichas ao co como  que ele teria voltado a atar 
o embrulho de papel de jornal com o cordel? Nem sequer sei quando  que ele teria tido oportunidade para fazer isso, mas deixemos esse assunto de lado pelo menos 
de momento. O homem nem sequer  capaz de dar um n simples. Fez-se um longo silncio de grande estupefaco, que finalmente foi quebrado pelo Brutal. Como  que 
ningum se lembrou de levantar essa questo.durante o julgamento? 293

- Porque ningum pensou nisso - retorqui, dando comigo a pensar de novo no Hammersmith, o reprter, o Hammersmith que tinha frequentado a universidade em Bowlin 
Green, o Hammersmith que gostava de se considerar uma pessoa esclarecida, o mesmo Hammersmith que me dissera que os ces rafeiros e os negros eram mais ou menos 
a mesma coisa, que tanto uns como outros, de repente e sem mais nem menos, so capazes de nos decepar um membro, sem que para isso haja a mnima razo. S que ele 
passara o temppo todo a referir-se a eles como os vossos negros, como se estes continuassem a ser propriedade de algum... mas no propriedade sua. No, no lhe 
pertenciam. Impossvel que fossem seus. E nessa poca, toda a regio do Sul se encontrava repleta de gente da laia do Hammersmith. - Ningum teve capacidade para 
pensar nesse aspecto, nem o prprio advogado de defesa do Coffey. - Mas tu tiveste - retorquiu o Harry. - Raios partam isto, rapazes, aqui estamos n=F
 3s sentados na companhia do Sherlock Holmes. - O seu tom de voz era, simultaneamente, um misto de assombro e troa. - Oh, pra l com isso - atalhei. - Tambm no 
me teria ocorrido se no tivesse comeado a juntar o que ele disse nesse dia ao assistente do xerife, o McGee, com o que me disse depois de ter curado a minha infeco 
e depois de ter curado o rato. - O qu? - perguntou o Dean. - Quando eu fui  cela do Coffey, senti-me como se houvesse sido hipnotizado. Tive a sensao de que 
seria incapaz de resistir a fazer aquilo que ele queria, ainda que o tentasse. - No me agrada nada o que est implcito nisso - interveio o Harry, agitando-se na 
cadeira. - Perguntei-lhe o que  que ele queria, ao que me respondeu: "S evitar o mal". Recordo-me disso com toda a clareza. E quando tudo ficou terminado e comecei 
a sentir-me melhor, ele ficou bem ciente disso. "Eu consegui evitar o mal", disse o Coffey. "Eu consegui evitar o mal, no  ver
 dade?" - Tal e qual como com o rato - comentou o Brutal com um acenar de cabea. - Tu disseste: "Conseguiste evitar o mal", e o Coffey repetiu a mesma coisa como 
se fosse um papagaio. "Eu consegui evitar o mal no rato do Del." Foi nessa altura que soubeste? Foi isso, no  assim? 294 Sim, calculo que foi. Recordei-me daquilo 
que ele tinha dito ao McGee, quando este lhe perguntou o que sucedem. Foi publicado em todos os artigos sobre os assassnios, ou quase todos. "Eu no consegui evitar 
o mal. Tentei desfazer o que estava feito, mas j era tarde de mais." Um homem que diz uma coisa destas e que tem uma garotinha em cada brao, ambas de raa branca 
e louras, enquanto ele  grande que nem uma casa... no admira que eles se tenham enganado. Ouviram aquilo que ele dizia, dando-lhe a interpretao que se ajustava 
ao que tinham  frente, e o que viam era de raa negra. Partiram do princpio de que ele estava a confessar o crime, que se sentira compel
 ido a raptar as duas garotas, a viol-las e a mat-las. Que mais tarde se apercebera do acto que tinha cometido, tentando desfazer... - Mas nessa altura j era 
demasiado tarde - murmurou o Brutal. - Sim. S que o que ele tentava realmente dizer-lhes era que as havia encontrado e tentara cor-las... faz-las regressar  
vida, sem qualquer xito. Elas j se encontravam irremediavelmente mortas. - Paul, acreditas nisso? - perguntou o Dean. - Acreditas mesmo numa coisa dessas? Examinei 
o meu corao, to cuidadosamente quanto estava ao meu alcance, e acenei num gesto afirmativo. No s eu sabia naquele momento, como existia em mim uma faceta intuitiva 
que soubera que algo no batia certo na situao do John Coffey assim que o Percy irrompera pelo bloco, arrastando o Coffey por um brao e berrando com toda a fora 
dos seus pulmes: "Homem morto a caminhar!" Eu at lhe tinha apertado a mo, no era verdade? Nunca apertara a mo de um
  homem que tivesse dado entrada na Milha Verde; no obstante isso havia dado um aperto de mo ao John Coffey.

- Jesus! ~- exclamou o Dean. - Meu bom Jesus Cristo! - Portanto, o teu sapato  uma das coisas - continuou o ~. - Qual  a outra? -No muito antes de o grupo de 
voluntrios ter encontrado o John Coffey e as garotas, os homens saram do bosque prximo da margem sul do rio Trapingus. Nesse local, encontraram um trecho do caminho 
com as ervas acamadas, uma grande quantidade de sangue derramado, e o que restava da camisa de noite da Cora Detterick. Durante algum tempo, os ces mostraram-se 
confusos. A maior parte dos animais in 295 dicava que queria seguir em direco a sudeste, pela corrente abaixo ao longo da margem. Mas dois deles... os dois ces 
caa, pretendiam continuar rio acima. O responsvel pelos ces era o Bobo Marcham e quando ele deu a camisa de dormir a farejar aos animais, estes voltaram atrs 
e juntaram-se ao resto da matilha. - Os ces de caa ficaram confusos, no  verdade? _" perguntou o Brutal. Aos cantos da sua boca dan
 ava um pequeno sorriso estranho e mrbido. - Eles no foram criados para seguir rastos, pelo que se sentiram baralhados. - Sim - confirmei. - No estou a entender 
- admitiu o Dean. - Os ces de caa tinham-se esquecido do que quer que fosse que o Bobo lhes colocara debaixo do focinho para iniciar a busca - explicou o Brutal. 
- Quando surgiram na margem do rio, os animais seguiram a pista do assassino e no a das garotas. O que no era problema desde que o homicida e as garotinhas permanecessem 
juntos, mas... Comeava a fazer-se luz na mente do Dean. O Harry j tinha percebido. - Quando se pensa no assunto - continuei -, interrogamo-nos como  que algum, 
at mesmo um jri que desejasse atribuir o crime a um tipo de raa negra sem poiso certo, pde ter acreditado, ainda que s por um minuto, que o John Coffey era 
o homem que procuravam. Por si s, a artimanha de manter o co sossegado com comida at se lhe poder torcer o pescoo estava
 muito para alm das capacidades mentais do Coffey. "Ele nunca esteve mais prximo da quinta dos Detterick do que a margem sul do Trapingus, e esta  a minha opinio. 
A dez quilmetros ou mais. Deambulava por ali sem destino, talvez a pensar em descer pelos carris do caminho-de-ferro, a fim de apanhar um comboio de mercadorias 
com destino a algures... quando eles saem do viaduto no trazem muita velocidade, o que permite que se salte para o seu interior... quando se apercebeu do tumulto 
mais a norte. - E o assassino? - inquiriu o Brutal. - O assassino. Possivelmente, j as teria violado, ou talvez fosse isso mesmo o que o Coffey ouviu. Seja como 
for, a rea de ervas ensanguentadas foi onde o homicida terminou o assunto, bateu violentamente com as cabeas das raparigas uma na outra, deixouas cair no solo 
e depois ps-se a mxer. 296 ps-se a mexer em direco a noroeste - acrescentou o Brutal - Precisamente para onde os ces de caa queriam ir.
 Certo. O John Coffey surge de entre um macio de ~nieiros, que se encontra um pouco mais a sudeste do lugar onde as garotas foram deixadas, provavelmente curioso 
por causa de todo aquele tumulto, e depara com os corpos.  muito possvel que uma delas ainda continuasse viva; talvez at as duas, embora por pouco tempo. Sem 
dvida que o John Coffey nunca teria sabido se elas continuavam vivas ou no. Tudo o que sabe  que possui nas mos um poder que lhe permite curar e tentou us-lo 
na Cora e na Kathe Detterick. Ao ver que os seus esforos no resultavam, foi-se abaixo, comeando a chorar histericamente. Foi nesse estado que os homens o encontraram. 
- Mas porque  que ele no ficou ali, no lugar onde as havia encontrado? inquiriu o Brutal. - Por que motivo as levou para sul, ao longo da margem do rio? Fazes 
alguma ideia? - Aposto que inicialmente se deixou ficar no mesmo lugar - repliquei. - Durante o julgamento falou-se de uma grande rea espezin
 hada, em que as ervas ficaram todas esmagadas. E o John Coffey  um homem corpulento.

- O John Coffey  um gigante do caralho - corroborou o Harry, falando em voz baixa para que a minha mulher no pudesse ouvi-lo a dizer asneiras, caso ela estivesse 
a prestar ateno  nossa conversa. - Talvez ele tenha entrado em pnico ao verificar que os seus esforos no produziam efeito. Ou talvez tenha ficado com a impresso 
de que o assassino ainda andaria por ali, no arvoredo, a observar os seus movimentos um pouco mais rio acima. Como vocs bem sabem, apesar de toda a sua corpulncia, 
o Coffey no prima pela bravura. Harry, lembras-te de quando ele perguntou se costumvamos deixar as luzes acesas no bloco, depois da hora de deitar? - Sim. Recordo-me 
de ter pensado que isso era bastante peculiar, tendo em vista o tamanho dele. - O Harry parecia abalado e pensativo. - Pois bem, se no foi ele quem matou as garotas, 
ento quem foi? - perguntou o Dean. - Outra pessoa qualquer - respondi com um abanar de cabea. - Algum branco. O promotor de
  justia fartou-se de dizer que era necessrio um homem com muita fora para poder matar um co como o que os Detterick tinham, mas... 297 - Isso no passa de uma 
treta - resmungou o Brutos. , Qualquer rapariga forte, de doze anos de idade, seria capaz de torcer o pescoo de um co, se apanhasse o animal de surpresa e soubesse 
por onde  que havia de o agarrar. Se no foi o Coffey,  possvel que tenha sido qualquer pessoa... isto ~ um homem qualquer. O mais provvel  nunca virmos a saber 
quem foi o responsvel. - A menos que ele volte a fazer o mesmo - atalhei eu. -Mesmo nesse caso no saberamos, se ele decidisse cometer o crime no Texas ou na Califrnia 
- disse o Harry. O Brutal recostou-se para trs e, com os punhos fechados, esfregou os olhos, como se fosse um rapazinho com sono, e voltou a deix-los cair sobre 
as coxas. - Isto  um pesadelo - disse ele. - Temos um homem que pode estar inocente... que possivelmente est inocent
 e,.. e, no entanto, vai percorrer a Milha Verde to certo como Deus ter criado as rvores grandes e os peixes pequenos. O que  que devemos fazer a este respeito? 
Se comearmos a falar dessa merda dos dedos com poderes curativos, toda a gente vai partir o coco a rir, e ele acabar por ir parar na mesma  velha chapa dos grelhados. 
- Preocupemo-nos com esse assunto mais tarde - sugeri, uma vez que no fazia a mnima ideia do que responder. - A questo que se nos coloca neste momento  o que 
fazer... ou no fazer, em relao  Melly. Eu diria que nos acalmssemos e meditssemos durante alguns dias sobre o assunto, mas estou em crer que cada dia de espera 
aumenta as hipteses de ele no poder vir a fazer nada por ela. - Esto lembrados de como ele estendeu as mos para o rato? - perguntou o Brutal. - Dizendo: "Entreguem-mo 
enquanto ainda h tempo." Enquanto ainda h tempo. - Lembro-me sim. - Podem contar comigo - afirmou o Brutal com
 um acenar de cabea depois de ter pensado durante algum tempo - Eu tambm me sinto mal com o que aconteceu ao Del, mas acima de tudo acho que s quero ver o que 
 que acontece quando ele lhe tocar. O mais provvel  no suceder nada, mas talvez... - Eu duvido muito, mas mesmo muito, que cheguemos ao ponto de conseguir tirar 
aquele grande idiota do bloco interveio o Harry, soltando um suspiro e acenando com a ca bea. - Mas que interessa isso? Contem comigo. 298 Eu tambm alinho - acrescentou 
o Dean. - Quem  que vai ficar de guarda ao bloco, Paul? Vamos tirar  sorte? - No, senhor - respondi - Nada de tirar  sorte. s tu que fica. Assim, sem mais nem 
menos? Uma ova  que fico! - vociferou o Dean, magoado e encolerizado. Tirou os culos e comeou a limpar furiosamente as lentes com a fralda da camisa. - Que raio 
de combinao  essa?

 uma daquelas a que se chega quando se  suficientemente jovem para ter filhos em idade escolar - explicou o Brutal. - O Harry e eu somos solteiros. O Paul  casado 
e tem filhos, mas pelo menos estes j so adultos e vivem por conta prpria. Estamos a planear um esquema muito louco; tenho a impresso de que quase de certeza 
seremos apanhados. - Olhou para mim com uma expresso solene. - H uma coisa que ainda no mencionaste, Paul; ainda que consigamos trazer o Coffey para fora da priso 
e depois se chegue  concluso de que os seus dedos curativos no produzem efeito,  o prprio Hal Moores quem poder vir a denunciar-nos. - Deu-me oportunidade 
de responder s suas palavras, talvez para as refutar, mas eu no tinha quaisquer argumentos e por isso fiquei de boca fechada. O Brutal voltou a dedicar a sua ateno 
ao Dean, prosseguindo: - No me interpretes mal: continuars a correr o risco de vir a ser despedido, mas pelo menos ter
s a oportunidade de te manter afastado da priso, no caso de as coisas comearem a aquecer realmente. O Percy ficar convencido de que tudo no passou de uma simples 
partida; se estiveres de servio, podes alegar que pensaste a mesma coisa, uma vez que nunca te pusemos ao corrente da situao. - Continuo a no gostar dessa combinao 
- insistiu o Dean, mas era evidente que estava disposto a alinhar nela, quer esta lhe agradasse ou no. Pensar nos filhos pequenos tinha-o levado a decidir-se. - 
E vai ser esta noite? Vocs tm a certeza? - Se estivermos dispostos a levar isto para a frente,  melhor que seja esta noite - adiantou o Harry. - Se eu pensar 
mais no assunto, o mais certo  perder a coragem. - Deixem que seja eu a ir  enfermaria - pediu o Dean. Pelo menos posso fazer isso no posso? - Desde que o faas 
sem seres apanhado - respondeu o Brutal. - 299 O Dean ficou com uma expresso ofendida e eu dei-lhe uma palmada no ombro. - A
 ssim que pegares ao servio poders prosseguir, parece-te bem? - perguntei. - Podes crer. Naquele momento, a minha mulher meteu a cabea pela porta entreaberta, 
como se eu lhe tivesse indicado que o fizesse. - Quem  que quer mais ch gelado? - perguntou ela com vivacidade. - Tu, Brutus? - No, obrigado - replicou ele. - 
O que me apetece  um bom trago de usque, mas, dadas as circunstncias, talvez isso no seja muito boa ideia. A Janice olhou para mim; tinha um sorriso nos lbios 
e os olhos preocupados. - Em que alhada  que ests a meter estes rapazes, Paul? Mas mesmo antes de eu ter comeado a estruturar uma resposta, ela ergueu a mo e 
acrescentou: Esquece, no interessa, no quero saber. 3 Mais tarde, muito depois de os meus colegas se terem ido embora, enquanto eu vestia o uniforme para ir trabalhar, 
a Janice agarrou-me por um brao, fez-me dar meia volta e olhou-me nos olhos com uma intensidade arrebatadora. - A Melinda? - pergunto
 u lacnica. Acenei que sim. - Podes fazer alguma coisa por ela, Paul? Fazer realmente alguma coisa por ela, ou  apenas uma esperana ilusria provocada pelo que 
viste ontem  noite? Pensei nos olhos do Coffey, nas mos do Coffey, no modo como eu me tinha dirigido a ele, como que hipnotizado, quando ele quisera que eu o fizesse. 
Lembrei-me tambm da forma como ele estendera as mos para o corpo mutilado e moribundo do Mister Jingles. "Enquanto ainda h tempo"> dissera o Coffey. E aquelas 
coisas negras esvoaantes, que depois se tornaram brancas e tinham desaparecido. - Acho que somos a nica oportunidade que lhe resta disse eu por fim. - Nesse caso, 
no a desperdices - replicou Janice, abotoand os botes da frente do meu novo sobretudo de Outono. Havia estado pendurado no guarda-roupa desde o meu aniversrio, 
no incio de Setembro, mas era apenas a terceira ou quarta vez em que eu o usava. - No a deixes fugir - insistiu ela. A minha mulher
  empurrou-me praticamente pela porta fora. 4 Nessa noite marquei o carto de ponto - sob muitos aspectos, foi a noite mais estranha de toda a minha vida - s seis 
horas e vinte minutos. Pensei que ainda

me chegava s narinas o cheiro vago a carne queimada que continuava a pairar no ar. No fora uma iluso - as portas que davam para o exterior, tanto do bloco como 
da arrecadao, tinham estado abertas durante a maior parte do dia e os dois turnos anteriores haviam passado horas a esfregar esta ltima -, mas isso no alterava 
o que o meu nariz me dizia, e acho que no teria sido capaz de comer o jantar ainda que no me tivesse sentido assustado de morte perante a noite que se desenhava 
 minha frente. O Brutal entrou no bloco s seis e quarenta e cinco, e o Dean s sete e dez. Perguntei ao ltimo se poderia ir  enfermaria pedir um emplastro para 
eu aplicar nas costas, alegando que tinha a impresso de as ter esforado nessa madrugada ao ajudar a transportar o corpo do Delacroix at ao tnel. O Dean respondeu-me 
que teria todo o gosto em fazer o que eu lhe pedia. Estou convencido que ele queria piscar-me o olho, mas conseguiu refrear-se. O H
 arry marcou o carto de ponto s sete menos trs. - A camioneta? - perguntei. - Est onde combinmos - respondeu-me. At ali, tudo a correr pelo melhor. Decorreu 
algum tempo em que estivemos junto da mesa do guarda de servio a beber caf, sem que deliberadamente aflorssemos o assunto em que todos pensvamos e em que depositvamos 
tantas esperanas: que o Percy chegasse atrasado, que o Percy talvez no aparecesse de todo. Levando em considerao as crticas de que fora alvo quanto  forma 
como lidara com a electrocusso, aquela hiptese parecia-nos ser, no mnimo, bastante Plausvel. 300 301 Todavia, o Percy perfilhava, aparentemente, aquele velh 
axioma, que dizia que no se deve deixar para amanh o que se pode fazer hoje; transps a porta s sete horas e seis minutos, resplandecente no seu uniforme azul, 
com o coldre presa a uma anca, enquanto na outra trazia o basto de nogueira dentro daquela ridcula bainha feita de
  encomenda. Marcou o carto de ponto e olhou para ns com uma expresso desconfiada (excepto para o Dean, que ainda no regressara da enfermaria). - O meu motor 
de arranque avariou-se. Tive de pr o carro a funcionar com a manivela - informou ele. - Au! - exclamou o Harry. - Pobrezinho. - Devias de ter ficado em casa para 
poderes arranjar a maldita coisa acrescentou o Brutal num tom de voz ameno. - No queremos que esforces o teu brao, no  verdade, rapazes? - Pois, era isso mesmo 
o que vocs queriam, no  verdade? - retorquiu o Percy com escrnio, mas fiquei com a impresso de que ele se sentira tranquilizado devido  relativa brandura com 
que o Brutal proferira o seu comentrio. E ainda bem. Durante as prximas horas, no poderamos ser demasiado hostis nem excessivamente cordiais. Depois do que sucedera 
na noite anterior, ele acharia suspeita qualquer coisa que se assemelhasse, ainda que muito vagamente,  simpatia. No iram
 os conseguir apanh-lo sem as suas defesas a postos, como sabamos, mas eu estava convicto de que conseguiramos armar-lhe a cilada, se jogssemos as nossas cartas 
com todas as precaues. Era importante - pelo menos no que me dizia respeito que ningum sasse lesionado. Nem sequer o Percy Wetmore. Entretanto, o Dean regressara 
ao bloco, fazendo-me um pequeno acenar de cabea. - Percy - disse eu - quero que vs  arrecadao e laves o cho com a esfregona. Incluindo os degraus que do para 
o tnel. Em seguida, podes comear a escrever o teu relatrio sobre a noite passada. - Isso  que deve ser um trabalho cheio de criatividade - comentou o Brutal, 
mordaz, enfiando os polegares dentro do cinto e olhando para o tecto. - Vocs tm mais piada do que uma queca dada na igreja- retorquiu o Percy, mas no levantou 
qualquer objeco. Nem sequer referiu o que era bvio: que o cho da sala da ar 302

recadao j tinha sido lavado pelo menos em duas ocasies nesse dia. O meu palpite  que ele se sentiu satisfeito com aquela oportunidade de poder manterse afastado 
de ns. Comecei a examinar o relatrio correspondente ao turno anterior, no li nada que me dissesse respeito e dirigi-me para a cela do Whartn. Este encontrava-se 
sentado na sua tarimba com os joelhos dobrados para cima e com os braos  volta das canelas, fitando-me com um grande sorriso pleno de hostilidade. -Ora bem, com 
que ento temos aqui o~grande chefe - disse ele, mordaz. - To grande como a vida e duas vezes mais feio. Tem um ar mais contente do que o de um porco mergulhado 
na merda at aos joelhos, chefe Edgecombe. A sua mulher fezlhe uma festa na picha antes de ter sado de casa, foi? - Como  que ests, Kid? - perguntei num tom neutro, 
o que fez com que ele mostrasse uma expresso verdadeiramente iluminada. Estendeu as pernas, levantouse e espreguiou-se. O seu
 sorriso alargou-se, dando origem a que alguma da hostilidade lhe desaparecesse da fisionomia. - Raios me partam! - exclamou ele. - Para variar acertou no meu nome. 
O que  que se passa consigo, chefe Edgecombe? Est doente ou qualquer coisa no gnero? No, no estava doente. De facto tinha estado doente, mas o John Coffey tratara 
disso. As suas mos j haviam esquecido como se atavam os atacadores dos sapatos, se  que alguma vez o tinham sabido, mas sabiam fazer outras habilidades. Sim, 
na realidade sabiam. - Meu amigo - disse-lhe eu -, se queres ser um Billy the Kid em vez de um Bill Selvagem, -me completamente indiferente. Ele ficou todo inchado, 
como um daqueles peixes de aspecto asqueroso que vivem nas guas dos rios da Amrica do Sul e que conseguem picar-nos com os espiges que tm na Parte de cima e 
nos lados do corpo, at ficarmos prestes a morrer. Durante o tempo em que trabalhei na Milha, fui forado a lidar com muitos homens perigos
 os, mas poucos, ou nenh um deles, eram to repelentes como o William Wharton, o qual se considerava um fora-de-lei de grande envergadura, mas cujo comportamento 
na penitenciria raramente se elevou a cima de mijar, ou escarrar, por entre as barras da sua cela. ~ At ao momento ainda no lhe havamos concedido a ad 303 mirao 
respeitosa que ele achava merecer por direito, ~ acontece que, naquela noite, muito em especial, eu pretendia que ele se portasse de uma maneira minimamente tratvel, 
Se isso significava que tinha de lhe passar a mo pelo plo com toda a meiguice, f-lo-ia com a maior das satisfaes. - Eu tenho muito em comum com o Kid, e  melhor 
que acredite nisso - continuou o Wharton. - No foi a roubar rebuados na mercearia do meu bairro que vim parar aqui acrescentou ele com tanto orgulho como se tivesse 
acabado de se alistar na Brigada dos Heris da Legio Estrangeira Francesa, em vez de ter acabado de ir parar com o coiro a
 uma cela que distava setenta passos longos da cadeira elctrica. - Onde  que est o meu jantar? - Deixa-te disso, Kid, o relatrio diz que o comeste s cinco e 
meia. Rolo de carne picada com molho, pur de batata e ervilhas. No consegues enganar-me com essa facilidade. Ele riu-se expansivamente e sentou-se de novo na sua 
tarimba. - Nesse caso, ligue o rdio. - Talvez mais tarde, matulo - repliquei. Afastei-me da sua cela e com o olhar percorri o corredor. O Brutal tinha ido at 
ao extremo mais afastado para verificar se a fechadura da cela do isolamento estava s trancada e no fechada  chave. Eu sabia que era esse o caso, porque eu prprio 
j tinha verificado. Mais tarde, iramos querer abrir essa porta o mais rapidamente possvel. No haveria tempo para retirar do interior toda aquela tralha que as 
pessoas tm por hbito guardar nos stos das suas casas ao longo dos anos; j retirramos tudo e fizramos uma selec
 o, tendo arrumado as coisas noutros lugares pouco depois de o Wharton se ter juntado  nossa feliz banda. Tnhamos a impresso de que a cela com as paredes almofadadas 
estava pronta a ter bastante uso, pelo menos at o Billy the Kid caminhar pela Milha.

O John Coffey, que j deveria estar deitado quela hora, com as suas pernas grossas e compridas a sarem-lhe para fora da tarimba e de rosto virado para a parede, 
encontrava-se sentado na ponta da tarimba com os dedos entrelaados, observando o Brutal com uma expresso to alerta que no era nada habitual. Os seus olhos tambm 
no lacrimejavam. O Brutal experimentou a maaneta da porta da cela do isolamento, aps o que voltou a percorrer a Milha. Lanu um olhar ao Coffey quando passou 
pela sua cela, e este disse algo de curioso. 304 Com certeza. Gostaria de dar um passeio - como se em resposta a qualquer coisa que o Brutal houvesse dito. O olhar 
deste cruzou-se com o meu. Ele sabe, podia eu quase ouvi-lo a dizer. No sei como, mas o certo  que ele sabe Encolhi os ombros e abri os dedos das mos, como se 
replicasse: Claro que ele sabe. 5 O velho Pouca Terra efectuou a sua ltima volta da noite pelo Bloco E por volta das oito e quarenta e cin
 co. Comprmos o suficiente da porcaria que ele vendia, para lhe fazermos assomar aos lbios um sorriso de avareza. - A propsito, algum de vocs viu o rato? - perguntou 
ele. Respondemos-lhe com um abanar de cabea. - Talvez o Rapazinho Bonito o tenha visto - sugeriu o Pouca Terra, fazendo um gesto com a cabea na direco da arrecadao, 
onde o Percy estaria a lavar o cho, a escrever o seu relatrio ou a meter o dedo no olho do cu. - O que  que isso te interessa? - perguntou o Brutal. - No  assunto 
que te diga respeito. Pe as rodas a rolar, Pouca Terra. Ests a empestar o bloco. O Pouca Terra esboou aquele seu sorriso to peculiarmente desagradvel, desdentado 
e com as faces encovadas, e ps-se a cheirar o ar de forma acintosa. - Este cheiro no  meu - disse ele. - Deve ser o do Del a dizer adeus. Com um riso casquinado, 
comeou a empurrar o seu carrinho, saindo pela porta que dava para o ptio de recreio. E continuou
 a fazer rolar aquele carrinho por mais dez anos - raios, por muito tempo depois de Cold Mountain ter desaparecido vendendo bolos e refrigerantes aos guardas e prisioneiros 
que tinham dinheiro para compr-los. Por vezes, at mesmo agora, parece-me que estou a ouvi-lo nos meus sonhos, a gritar que est a fritar, est a fritar, que  
um peru assado. A passagem do tempo alongou-se interminavelmente depois de o Pouca Terra ter sado do bloco, e os ponteiros do relgio pareciam arrastar-se. Ligmos 
o rdio durante hora e meia, e o Wharton riu-se a bandeiras despregadas ao ouvir o programa do Fred Allen O Beco de Allen, embora eu estivesse 305 pronto a apostar 
fosse o que fosse em como ele no compreendia muitas das piadas. O John Coffey continuava sentado no extremo da tarimba, com as mos entrelaadas e olhar que mal 
se desprendia de quem quer que se encontrasse sentado na mesa do guarda de servio. J tive oportunidade de observar homens com a mesma a
 titude, os quais aguardavam nos terminais das camionetas que seja anunciada a partida do seu transporte. Por volta das dez e quarenta e cinco, o Percy saiu da arrecadao, 
tendo-me entregue um relatrio laboriosamente feito a lpis. A folha de papel ainda tinha restos da borracha com que ele havia apagado algumas partes, sobre as quais 
voltara a escrever. Passei o polegar por uma destas zonas manchadas. - Isto  apenas um primeiro rascunho - apressou-se ele a dizer. - Quero copi-lo para outra 
folha. Qual  a tua opinio? A minha opinio era que aquele maldito relatrio era o mais ultrajante branqueamento que eu lera em toda a minha permanncia  face 
da Terra. Mas disse-lhe que estava ptimo, e ele afastou-se todo satisfeito consigo prprio. O Dean e o Harry jogavam s cartas, falando num timbre de voz demasiado 
elevado, e implicando um com o outro em demasia por causa da contagem dos pontos, enquanto de cin

co em cinco segundos lanavam olhares aos ponteiros do relgio que davam a impresso de no avanar. Em pelo menos um dos seus jogos dessa noite, fiquei com a sensao 
de que haviam efectuado trs voltas em vez de duas. O ambiente estava to carregado de tenso que parecia ser possvel cort-lo  faca; as nicas pessoas que, aparentemente, 
no se sentiam afectadas por aquela tenso eram o Percy e o Bill Selvagem: Quando faltavam dez minutos para a meia-noite, no fui capaz de suportar mais aquela situao 
e acenei ligeiramente ao Dean. Este dirigiu-se para o meu gabinete, levando consi go uma garrafa de Cola RC que havia comprado ao Pouca Terra, e voltou a sair um 
ou dois minutos depois. Naquele momento, a bebida encontrava-se no interior de um pequeno pcaro de alumnio, que os prisioneiros no poderiam quebrar e utilizar 
como arma de ataque. Agarrei no pcaro e olhei em volta. O Harry, o Dean e Brutal no despregavam os olhos
 de mim, nem o John Coffey. Todavia, isso no se verificava com o Percy, que entretanto voltara para a arrecadao, onde provavelmente se sentiria mais  vontade 
naquela noite em especial. Rapidamente, cheirei o contedo do pcaro, sem que dele se evolasse qualquer odor, para alm do da RC, a qual, nesses tempos, tinha uma 
fragrncia a canela estranhamente agradvel. Levei a bebida at  cela do Wharton. Encontrava-se estendido na sua tarimba. No estava a masturbar-se - pelo menos, 
por enquanto - mas j tinha uma tumefaco bastante avantajada por baixo das cuecas, e de vez em quando dava um bom apalpo saudvel ao membro retesado, como se 
fosse um mau rabequista a tocar uns acordes suplementares nas cordas tensas. -Kid - chamei. - No me incomode - replicou ele. - De acordo - concordei. - Como esta 
noite te tens comportado como um ser humano, o que  quase um recorde, trouxe-te um refrigerante, mas, como no queres ser incomodado, vou
  beb-lo eu. Fiz meno de fazer o que acabara de dizer erguendo o pcaro de alumnio (todo amolgado por terem batido com ele contra as barras das celas) at aos 
lbios. Como se fosse um relmpago, o Wharton levantou-se da tarimba, o que no me surpreendeu. No fora um bluff de grande risco; quase todos os condenados mais 
perigosos - ladres, violadores e os homens marcados para a Velha Fasca - era uns gananciosos pelas suas guloseimas, e aquele no constitua excepo. - D c isso, 
seu palerma - disse o Wharton. Expressou-se como se fosse ele o capataz, no passando eu de um lacaio dos mais desprezveis. - D isso ao Kid. Mantive o pcaro do 
lado de fora das barras, deixando que fosse ele a estender o brao para lhe pegar. Faz-lo de outra forma  a receita certa para a ocorrncia de um desastre, tal 
como qualquer guarda de priso com muitos anos de experincia nos dir. Lembrvamo-nos disso, sem sequer nos darmo
 s conta de que o fazamos - da mesma maneira que sabamos que no devamos permitir aos prisioneiros que nos tratassem pelos nossos nomes prprios e que o som de 
chaves que se entrechocavam com rapidez significava a ocorrncia de problemas no bloco uma vez que esse era o rudo provocado por um guarda a correr, e estes nunca 
corriam, a menos que se verificassem complicaes. Isso era o gnero de coisa que o Percy Wetmore nunca seria capaz de aprender. 307 No entanto, naquela noite, o 
Wharton no estava interesado em agarrar ou asfixiar ningum. Arrancou-me da mo pcaro de alumnio, bebeu o refrigerante em trs grandes goladas e soltou um estrondoso 
arroto. -Excelente! - exclamou. - O pcaro - disse eu, estendendo a mo. O Wharton deixou-se ficar com ele por alguns momento exibindo um olhar trocista. - Suponha 
que eu quero ficar com ele? - Nesse caso, entraremos na cela para to tirar - respondi com um encolher de ombros. - Em seguida, vais
 para a cela pequena e ters bebido a tua ltima RC. Isto , a menos que costumem servi-las nas profundezas do inferno. - Eu no gosto de piadas sobre o inferno, 
cabea de parafuso - retorquiu ele com o sorriso a apagar-se-lhe dos lbios. Estendeu-me o pcaro atravs das barras. Aqui est. Pode lev-lo.

Agarrei no pcaro. Atrs de mim ouviu-se a voz do Percy, - Em nome de Deus, porque  que ofereceste a um mentecapto como esse um refrigerante? Porque o refrigerante 
tinha soporferos da enfermaria em quantidade suficiente para o deixar de costas durante quarenta e oito horas, e ele no dera por nada, pensei para comigo. - No 
que diz respeito ao Paul - interveio o Brutal -, a misericrdia nunca  restrita; tomba dos cus como uma chuva suave. - Hem?! - perguntou o Percy com o sobrolho 
franzido. - Significa que ele tem um corao bondoso. Sempre teve e sempre ter. Queres jogar  bisca, Percy? - Com a excepo do burro, esse  o jogo de cartas 
mais idiota que alguma vez existiu - respondeu o Percy com uma expresso desdenhosa. - Foi por isso que me ocorreu que talvez gostasses de o jogar - replicou o Brutal 
com um sorriso cheio de doura. - Hoje esto todos muito espertalhes observou o Percy, tendo ido todo amuado para o meu gabinete. N
 o ~ agradava muito o facto de o pequeno lorpa instalar o traseud por detrs da minha secretria, mas mantive a boca fechada Os ponteiros do relgio continuavam 
a arrastar-se. Meia-noite e vinte; meia-noite e meia.  meia-noite e quarenta, John Coffey ergueu-se da sua tarimba e colocou-se junto da porta da cela; as suas 
mos agarravam as barras da maneta 308 solta. O Brutal e eu dirigimo-nos para a cela do Wharton e olhmos para o interior. Estava deitado sobre a tarimba, a sorrir 
para o tecto. Mantinha os olhos abertos, mas estes assemelhavam-se a bolas de vidro. Tinha uma mo em cima do peito, enquanto a outra pendia flacidamente de um dos 
lados da ~mba, com o n dos dedos a roar pelo cho. - Meu Deus - disse o Brutal -, passou de Billy the Kid a Alie, o Choramingas em menos de uma hora. Pergunto 
a mim mesmo quantos comprimidos de morfina  que o Dean ter posto na bebida. - O suficiente - repliquei. A minha voz tremia ligeiramente. No sei se
 o Brutal se apercebeu desse pormenor, mas a mim no me passou despercebido. - Mos a obra. Ponhamos em prtica o que planemos. - No queres esperar que ali o lindinho 
perca a conscincia? -Ele j a perdeu, Brute. Est  muito pedrado para fechar os olhos. - Tu  que s o chefe. - Olhou em redor  procura do Harry, mas este j 
se encontrava presente. O Dean sentava-se muito direito  mesa do guarda de servio, baralhando as cartas com tanta rapidez e violncia que era um milagre elas no 
pegarem fogo, e de vez em quando olhava de relance para a esquerda, na direco do meu gabinete. Estava de olho no Percy. - J est na hora? - perguntou o Harry. 
O seu rosto alongado, com traos cavalares, mostrava-se muito empalidecido acima da camisa azul do uniforme; no entanto, a sua fisionomia denotava determinao. 
- Sim - confirmei. - Est na hora. Vamos pr o nosso plano em aco. O Harry benzeu-se e beijou a ponta do polegar. E
 m seguida encaminhou-se para a cela do isolamento, abriu a porta e regressou com o colete-de-foras. Entregou-o ao Brutal. Comemos a percorrer a Milha Verde, 
os trs. O Coffey continuava junto  porta da sua cela, observando todos os nossos movimentos sem proferir uma nica palavra. Quando chegmos  secretria no corredor 
o Brutal colocou o colete-de-fora atrs das costas as quais eram suficientemente espadadas para o ocultar com facilidade. -- Sorte - disse o Dean. Tinha as faces 
to plidas como as do Harry, embora se mostrasse to determinado quanto este. 309 O Percy encontrava-se por detrs da minha mesa, tal como espervamos, sentado 
na minha cadeira e franzindo a testa enquanto lia o livro que durante as ltimas noites o tinha acompanhado para todo o lado - no era a Argozy ne Stag, mas sim 
Os Cuidados a Prestar aos Doentes Mentais em Hospcios. Ter-se-ia pensado, a fazer f no olhar de culpa e de consternao que ele
 nos lanou quando entrmos, que se tratava de Os Ultimos Dias de Sodoma e Gomorra. - O que foi? - perguntou ele, fechando o livro com toda a rapidez. - O que  
que querem?

- Falar contigo, Percy - disse eu -, mais nada. Contudo, ele leu muito mais nas nossas expresses do que o mero desejo de conversar, e levantou-se da cadeira que 
nem uma flecha, apressando-se - sem no entanto ter comeado a correr, embora no houvesse faltado muito - na direco da porta aberta que dava para a arrecadao. 
Convenceu-se de que tnhamos ido  sua procura para lhe darmos uma boa ensinadela, no mnimo dos mnimos e, muito provavelmente, uma boa sova. O Harry aproximou-se 
por detrs dele, cortando-lhe a retirada pela porta e cruzando os braos  frente do peito. - Mas que diabo! - exclamou o Percy, voltando-se para mim, alarmado, 
apesar de se esforar por no o mostrar. - O que  isto? - No perguntes, Percy - repliquei-lhe. Eu tinha pensado que ele ficaria bem... pelo menos, que iria regressar 
ao normal depois de termos dado incio a todo aquele assunto tresloucado, mas o certo  que as coisas no estavam a desenrolar-se
 como eu supusera. Era-me difcil acreditar no que estava a fazer. Era como se tudo aquilo no passasse de um sonho mau. Esperava constantemente que a minha mulher 
me sacudisse at eu acordar, para me dizer que estivera a gemer durante o sono. - Ser mais fcil se te limitares a vogar no sentido da mar. - O que  que o Howell 
tem escondido atrs das costas? perguntou o Percy numa voz enrouquecida, dando meia volta para poder observar melhor o que o Brutal estava a fazer. - Nada - respondeu 
este. - Bem... suponho que isto.~~ ~< Estendeu a mo com que segurava no colete-de-foras sacudindo-o contra uma das ancas, como se fosse um toureiro a lanar a 
capa perante um touro que investia. Os olhos do Percy arregalaram-se e ele arremessou-se para a frente. Tinha a inteno de desatar a correr, mas o Harry agarrou-o 
pelos braos. Larga-me imediatamente! - gritou o Percy, tentando soltar-se do Harry. No teria possibilidades de se escapar. ~ Harry pesava
 , pelo menos, mais cinquenta quilos que ele e tinha os musculos de um homem que passava a maior parte do tempo dele a lavrar a terra e a cortar madeira; todavia, 
o Percy ainda conseguiu fazer valer alguns dos seus esforos, arrastando o Harry at meio do gabinete, deslocando a horrvel carpete verde que eu dizia a mim mesmo 
que teria de substituir, sem nunca o fazer. Por breves instantes, pensei que ele iria conseguir libertar um brao; o pnico pode ser um motivador muito forte. - 
Acalma-te, Percy - aconselhei. - Ser mais fcil se... - No te atrevas a dizer-me para me acalmar, meu grandessssimo ignorante! - berrou o Percy, dando safanes 
com os ombros, tentando libertar-se dos braos do Harry. - S quero  que se afastem de mim. Todos vocs! Eu tenho os meus conhecimentos. Gente importante! Se no 
pararem j com isto, tero de ir a p at  Carolina do Sul s para conseguir uma refeio na sopa dos pobres! Investiu uma vez ma
 is para a frente, batendo com as coxas contra a minha secretria. O livro que ele estivera a ler, Os Cuidados a Prestar aos Doentes Mentais em Hospcios, sofreu 
um safano, enquanto o mais pequeno, do tamanho de um pequeno livro de bolso e que estivera escondido dentro do outro, saiu do seu lugar. No admirava que o Percy 
tivesse exibido uma expresso de culpa quando entrmos no gabinete. No eram Os ltimos Dias de Sodoma e Gomorra, mas era o que por vezes costumvamos dar aos prisioneiros 
com uma fusa mais forte e que por se terem comportado suficientemente bem mereciam uma ateno. Tenho a impresso de que j falei disto - o pequeno livro aos quadradinhos 
em que a Olvia Palito fornica com toda a gente, excepto com o Sweet Pea, o mido. Achei lamentvel que o Percy tivesse ido para o meu gabinete entreter-se com aquele 
gnero de pornografia to frouxa e o Harry - aquilo que eu conseguia ver dele por cima do ombro do Percy, que continuav
 a a tentar libertar-se - ficou com uma expresso ligeiramente nauseada, mas o Brutal desatou s gargalhadas o que despojou o Percy da sua vontade de se debater, 
pelo menos, momentaneamente. 311 - Oh, Percizinho - disse ele. - O que  que a tua me

diria? J agora, o que  que o governador diria? As faces do Percy adquiriram uma tonalidade vermelh -escura. - Cala-te e deixa a minha me fora do assunto. O Brutal 
lanou-me o colete-de-foras, colocando o rosto mesmo em frente do do Percy. - Com certeza, desde que estendas os braos como um bom rapazinho. Os lbios do Percy 
tremelicavam e os olhos estavam demasiado brilhantes. Compreendi que se encontrava  beira das lgrimas. - No quero - disse ele numa voz trmula de criana -, e 
vocs no podem obrigar-me. - Em seguida, elevou' a voz e comeou a gritar por ajuda. O Harry retraiu-se todo, o mesmo sucedendo a mim prprio. Se alguma vez estivemos' 
prestes a pr fim a tudo aquilo, foi precisamente naquela altura. E era o que teramos feito, no fora a presena do Brutal. Este no hesitou nem um segundo. Colocou-se 
por detrs do Percy, tendo ficado ombro a ombro com o Harry, o qual continuava a manter as mos do Percy imobilizad
 as atrs das costas deste. O Brutal avanou e agarrou no Percy pelas orelhas. - Pra de berrar - ordenou-lhe o Brutal. - A menos que desejes ficar com as orelhas 
mais singulares que existem em todo o mundo. Ao ouvir aquilo, o Percy parou de gritar por ajuda, limitando-se a ficar ali a tremer, baixando o olhar para a capa 
daquele livro ordinrio aos quadradinhos, no qual se viam o Popey e e a Olvia a terem relaes sexuais numa posio deveras criativa, de que eu j ouvira falar 
mas que nunca tinha experimentado. "Oohhh, Popeye!", lia-se na legenda acima da cabea da Olvia. "que... que... que... que!", lia-se na que se encontrava por 
cima de Popeye. Ele continuava a fumar o seu cachimbo. - Estende os braos - disse o Brutal -, e vamos acabar com todos estes disparates. Despacha-te. ` - No quero 
- replicou o Percy. - Recuso-me a faz-lo e tu no podes obrigar-me. - No sei se sabes, mas ests redondamente enganado, a esse resp
 eito - continuou o Brutal, agarrando firmemente nas orelhas do Percy, enquanto as fazia girar como quem gira os botes de um fogo. Isto , um fogo que no tivesse 
a intensidade de calor desejvel para se poder cozinhar. O Percy soltou um guincho de dor e de surpresa; eu teria dado bastante para no ter ouvido aquilo. Bem vem, 
no se tratava somente de dor e surpresa tambm era de compreenso. Pela primeira vez em toda a sua vida, o Percy tinha a percepo de que as coisas horrveis no 
aconteciam apenas s outras pessoas, queles que no eram suficientemente afortunados para serem familiares do governador. Eu s desejava dizer ao Brutal que parasse 
com aquilo, mas como  evidente no o podia fazer. As coisas j haviam ido longe de mais para que eu procedesse dessa forma. Tudo o que podia fazer para acalmar 
a minha conscincia era recordar a mim mesmo o que o Percy tinha feito ao Delacroix, fazendo-o passar por sabia Deus que a
 gonias, s porque este tinha ousado rir-se dele. No entanto, aquela recordao no contribuiu em muito para me tranquilizar.  possvel que isso tivesse acontecido 
se a minha maneira de ser estivesse mais em consonncia com a do Percy. - Estende-me esses braos para a frente, querido - disse o Brutal -, ou eu doute outra dose. 
O Harry j tinha soltado os braos do jovem Mr. Wetmore. Este desatou a chorar convulsivamente como uma criana, com as lgrimas, que at ento lhe haviam marejado 
os olhos, a correrem-lhe livremente pelas faces abaixo, aps o que, num gesto brusco, estendeu as mos, qual sonmbulo num filme de comdia. Em trs segundos, enfiei-lhe 
as mangas do colete-de-foras pelos braos abaixo. Mal as tinha puxado at aos ombros, j o Brutal largara as orelhas do Percy, para poder agarrar nas correias que 
pendiam dos punhos do colete. Puxou as mos do Percy em redor dos flancos, de forma a que os braos ficassem ape
 rtadamente cruzados  frente do peito. Entretanto o Harry tratou da parte de trs, prendendo bem as tiras de lona que se entrecruzavam. Depois de o Percy ter desistido 
e estendido os braos todo aquele processo ficou concludo em menos de dez segundos. - Muito bem, fofos - acrescentou o Brutal. - Em frente; vamos a marchar!

Ele, porm, recusava-se a andar. Fitou o Brutal para logo a seguir me olhar com uma expresso aterrorizada. Naquele momento, o Percy no fazia a mnima aluso aos 
seus conhecimentos, nem to-pouco  maneira como seramos forados a ir para a Carolina do Sul apenas para podermos comer uma 312 313 refeio graas  generosidade 
de algum; o Percy encontrava-se muito para l desse tipo de argumentos. - Por favor - murmurou ele numa voz spera e permeada de lgrimas. - No me leves para junto 
dele, Paul. Foi ento que compreendi o motivo por que ele estava em pnico e se debatera com tanta violncia; estava convencido de que o amos colocar junto do Bill 
"Selvagem" Wharton; que o seu castigo por causa da esponja seca seria um tratamento especial ministrado pelo nosso psicopata interno. Ao invs de sentir qualquer 
simpatia pelo Percy, por ter compreendido a razo do seu medo, senti apenas desdm e uma maior determinao. Ao fim
  e ao cabo, o homem estava a julgar-nos pela sua bitola, caso as nossas posies tivessem sido invertidas. - No  para junto do Wharton que vais - disse-lhe eu. 
-  sim para a cela do isolamento, Percy. Vais passar trs ou quatro horas l dentro, sozinho na escurido, a pensar naquilo que fizeste ao Delacroix. Muito provavelmente 
j  tarde de mais para poderes aprender novas lies quanto  forma como te deves comportar... pelo menos,  essa a opinio do Brutal, mas eu continuo a ser optimista. 
Agora, mexe-te. Ele obedeceu, resmungando entre dentes que haveramos de lamentar aquilo, lamentar e muito, que esperssemos para ver, mas, de uma maneira geral, 
dava a impresso de se sentir aliviado e no demasiado preocupado. Quando o conduzimos para o corredor, o Dean lanou-nos um olhar arregalado de surpresa e de uma 
inocncia to cheia de candura que eu teria desatado a rir se o assunto no se revestisse de tanta seriedade. - Diz-
 me uma coisa: no te parece que a brincadeira j foi longe de mais? perguntou o Dean. - Cala-me mas  essa boca, se sabes o que  bom para ti - vociferou o Brutal. 
Havamos ensaiado aquelas frases  hora do almoo; por isso, tudo aquilo me parecia ser uma en cenao, apenas umas linhas mal alinhavadas, mas, se servissem para 
assustar e confundir o Percy, tanto melhor, uma vez que ainda poderiam vir a salvar o emprego do Dean Stanton, caso as coisas chegassem a esses extremos. Por mim 
no pensava que isso fosse vivel; no entanto, tudo era possvel. Desde ento, sempre que duvido disso, limito-me a pensar no John Coffey e no rato do Delacroix. 
Obrigmos o Percy a percorrer a Milha Verde aos tropa 314 es, enquanto ele nos pedia ofegante que abrandssemos o passo, dizendo que cairia de cara no cho se 
no fssemos mais devagar. O Wharton continuava deitado na sua tarimba, mas passmos pela cela dele demasiado depressa para conseguir v
 er se ainda dormia ou se estava acordado. O John Coffey continuava junto  porta da cela, observando tudo o que se passava no bloco. . Tu s um homem mau e mereces 
ir para aquele lugar escuro - disse ele, mas no me parece que o Percy o tenha ouvido. Entrmos na cela do isolamento. As faces avermelhadas do Percy estavam molhadas 
de lgrimas, enquanto os olhos lhe rebolavam nas rbitas; os seus cabelos ondulados, a que ele prestava tantos cuidados, caam-lhe pela testa todos despenteados. 
Com uma mo, o Harry retirou-lhe o revlver do coldre e com a outra agarrou no basto de nogueira que to querido lhe era. - No te preocupes, porque te sero devolvidos 
- prometeu-lhe o Harry. A sua voz deixava adivinhar um certo constrangimento. - Quem me dera poder dizer o mesmo quanto ao teu emprego - replicou o Percy. Aos empregos 
de todos vocs. No podem fazer-me uma coisa destas. No podem! Era bvio que ele se encontrava na disposio de continu
 ar com aquele tema, mas ns no tnhamos tempo para ouvir a sua ladainha. Eu enfiara num dos meus bolsos

um rolo de fita de frico, o antepassado dos anos 30 da fita de embalagem que se usa hoje em dia. Quando o Percy avistou o rolo, comeou a recuar. O Brutal aproximou-se 
dele por trs e agarrou-o, manietando-lhe os braos at eu ter colocado a fita a tapar-lhe a boca desenrolando o rolo em redor da cabea at  nuca para maior segurana. 
Quando a fita fosse retirada, o Percy iria ficar com umas quantas madeixas de cabelo a menos e uns lbios severamente irritados para compor o ramalhete, mas eu deixara 
de me preocupar muito com as consequncias. Estava positivamente pelos cabelos com o Percy Wetmore. Retrocedemos e afastmo-nos dele. Ficou no meio da cela, por 
baixo da lmpada, imobilizado pelo colete-de-foras, a respirar por narinas frementes, e soltando sons abafados por detrs da fita que lhe tapava a boca. No cmputo 
geral, o seu era o mesmo de qualquer prisioneiro. 315 - Quanto mais sossegado te mantiveres, mais depressa sairs daqui
 - disse-lhe eu. - Tenta no te esqueceres disso Percy. , - E se te sentires sozinho, pensa na Olvia Palito aconselhou o Harry com mordacidade. - "que.., tique... 
que... que!" Em seguida, samos dali. Fechei a porta e o Brutal trancou-a  chave. O Dean encontrava-se um pouco afastado na Milha, mesmo do lado de fora da cela 
do Coffey. J tinha inserido a chave-mestra na fechadura de cima. Entreolhmo-nos sem que nenhum de ns dissesse fosse o que fosse. No havia necessidade de quaisquer 
palavras. Havamos posto o mecanismo em movimento; naquele momento, tudo o que poderamos esperar era que as coisas corressem de acordo com os planos que havamos 
delineado, em vez de saltarem para fora dos carris algures ao longo do caminho. - Continuas a querer dar um passeio, John? - perguntou o Brutal. - Sim, senhor - 
respondeu o Coffey. - Acho que sim, - Excelente - atalhou o Dean. Girou a chave na primeira fechadura, tirou-a e inseriu-a na segunda. - Vamos
  ter de te acorrentar, John? - perguntei. O Coffey deu a impresso de ter ficado a pensar naquilo. - Se quiserem, podem respondeu ele por fim. - Mas no h necessidade. 
Acenei ao Brutal, ele abriu a porta da cela, e eu virei-me para o Harry que, mais ou menos, apontava o revlver do Percy na direco do Coffey, enquanto este saa 
da cela. - Entrega isso ao Dean - disse-lhe eu. O Harry pestanejou como se tivesse estado completamente ausente, reparando que a arma e o basto do Percy continuavam 
nas suas mos, e entregou as duas coisas ao Dean. Entretanto, o Coffey, com a sua figura corpulenta, entrou no corredor onde a cabea calva quase tocava nas lmpadas 
Vendo-o ali com as mos estendidas  sua frente e os ombros inclinados para o seu peito entroncado pensei a mesma coisa que pensara a primeira vez que o vira: um 
urso enorme que tinha sido capturado. - Fecha  chave os brinquedos do Percy na mesa do corredor at regressarmos disse eu. - Se regr
 essarmos - acrescentou o Harry. - De acordo - respondeu-me o Dean sem prestar ateno ao que o Harry dissera. 316 E se algum aparecer por aqui... o mais provvel 
 ningum vir at c, mas se por acaso aparecer algum, o que  que tu lhe dizes? - Que o Coffey ficou perturbado por volta da meia-noite replicou o Dean. A sua 
expresso era to aplicada como a de um estudante a fazer um exame importante. Tivemos de o meter no colete-de-foras e fech-lo na cela do isolamento. Caso se oua 
algum barulho, quem quer que o oua deduzir que  ele. - Ergueu o queixo na direco de John Coffey. - E quanto a ns? - inquiriu o Brutal por sua vez. - O Paul 
foi  administrao buscar o processo do Del para se inteirar do nome das testemunhas - continuou o Dan. - O que desta vez  um assunto muito importante, dado que 
a execuo dele correu de forma to atabalhoada. Disse que o mais certo seria ter de ficar por l durante o resto
 do turno. Tu, o Harry e o Percy foram  lavandaria pr a vossa roupa a lavar. Pois bem, isso era o que se costumava dizer. Havia noites em que tinha lugar um fogo 
de dados na arrecadao da lavandaria, enquanto nas outras era pquer,

cartas ou qualquer outro jogo. Os guardas que participavam neles costumavam dizer que iam pr a roupa a lavar. Naquelas reunies, bebia-se normalmente usque destilado 
em casa e, de vez em quando, um charro passava de mo em mo at completar o crculo. Suponho que isto acontece em todas as penitencirias desde que estas foram 
inventadas. Quando se passa toda a vida a vrgiar homens de maus princpios,  impossvel evitarmos suar-nos um pouco. Em qualquer dos casos, era pouco provvel que 
algum aparecesse no bloco. "A lavagem das roupas" era um assunto tratado com extrema discrio em Cold Mountain. - Tudo bem com o "Senhor a Postos" - disse eu, 
dando meia volta ao Coffey para o pr em movimento. - E se tudo for por gua abaixo, Dean, no sabes nada de nada. - Isso  muito fcil de dizer, mas... Naquele 
preciso momento, um brao magricela saiu disparado por entre as barras da cela do Wharton, agarrando no msculo do brao do Coffe
 y. Todos ficmos sem flego. Em Princpio o, o Wharton deveria estar morto para o mundo, quase que em coma. Contudo ali se encontrava ele de p, com o corpo a oscilar 
de um lado para o outro, qual pugilista violentamente esmurrado exibindo um esgar sorridente e um olhar toldado. 317 A reaco do Coffey foi absolutamente notvel. 
No afastou, mas ficou tambm a arquejar, inspirando o ar por cima dos dentes inferiores, como algum que houvesse tocado inadvertidamente em algo frio e desagradvel. 
Os seus olhos arredondaram-se e, por breves momentos, pareceu nunca ter visto o mentecapto, quanto mais levantarse  mesma hora que ele todas as manhs e deitar-se 
na mesma altura todas ~ as noites. Mostrara-se bastante alerta - presente - quando quis que eu entrasse na sua cela, de maneira a poder tocar-me. Conseguir evitar 
o mal, em linguagem do Coffey. Quando tinha estendido as mos para o rato, mostrara exactamente a mesma atitude. Agora, e pela terceira
  vez, a sua fisionomia iluminara-se, como se um foco de luz houvesse sido, subitamente, ligado no interior do seu crebro. S que desta vez era diferente. Desta 
vez era mais frio, e perguntei a mim mesmo o que  que sucederia se o John Coffey, de sbito, decidisse entrar em fria. Estvamos munidos das nossas armas, pelo 
que poderamos alvej-lo; contudo, subjug-lo poderia vir a provar ser uma tarefa bastante rdua. Nas feies do Brutal li pensamentos similiares; todavia, o Wharton 
continuava a exibir o seu sorriso de imbecil pedrado, com os lbios descados. - Onde  que pensas que vais? - perguntou ele. As suas palavras saram-lhe da boca 
numa toada arrastada. O Coffey mantinha-se imvel, fitando primeiro o Wharton, depois a sua mo, para logo voltar a olhar para o seu rosto. Eu no conseguia ler 
aquela expresso. Quer dizer, detec tava a inteligncia no seu semblante, mas era incapaz de o ler. Quanto ao Wharton, no me sentia
 minimamente preocupado com ele. Mais tarde, no se recordaria de nada daquilo; seria como um bbedo a caminhar por uma zona completamente s escuras. - Tu s um 
homem mau - sussurrou o Coffey e eu no consegui destrinar o que lhe ouvia na voz: sofrimento, clera ou temor. Talvez uma amlgama dos trs sentimentos. O Coffey 
baixou o olhar uma vez mais na direco da mo que continuava no seu brao, da mesma forma que olharia para um insecto que o pudesse picar de maneira bastante desagra' 
dvel, caso estivesse decidido a isso. -  verdade, negro - retorquiu o Wharton com um sorriso matreiro e sinistro. To mau quanto possas imaginar 318 subitamente, 
tive a certeza absoluta de que estava prestes a acontecer algo, horrvel, algo que iria alterar o curso planeado daquele incio de madrugada, da mesma forma que 
um terramoto de propores catastrficas pode alterar o leito de um rio. Iria suceder algo e nada que eu ou qualquer de ns pud
 esse ento o impediria.

Foi ento que o Brutal estendeu a mo e retirou a do Wharton do brao do John Coffey, pondo termo quele meu pressentimento de inevitabilidade. Era como se um circuito 
potencialmente perigoso tivesse sido interrompido. Eu j vos disse que durante todo o tempo em que trabalhei no Bloco E a linha directa para o governador nunca tocou. 
O que era verdade, mas imagino que, se isso tivesse acontecido alguma vez, teria sentido o mesmo alvio que me invadiu quando o Brutal retirou a mo do Wharton do 
brao daquele homem gigantesco que se elevava ao meu lado. Uma vez mais, os olhos de Coffey adquiriram uma expresso ausente; era como se o foco de luz at ento 
existente no seu crebro houvesse sido desligado. -Deita-te, Billy - disse o Brutal. - Descansa um pouco. - Aquela era habitualmente a minha frase para os acalmar, 
mas, dadas as circunstncias, no me incomodei por ele a ter utilizado. - Talvez faa isso mesmo - concordou o Wharton. Num passo cambal
 eante comeou a retroceder e quase caiu, mas recuperou o equilbrio no ltimo instante. - Oohhh, paizinho! A cela est a girar. Parece que estou bbedo. Recuou 
at  tarimba, mantendo o olhar atordoado no Coffey enquanto seguia s arrecuas. - Os negros deviam ter a sua prpria cadeira elctrica - disse ele. Ento, a parte 
de trs dos seus joelhos bateu na tarimba, e ele deixou-se tombar. Antes de a cabea ter tocado na almofada da priso, j comeara a ressonar; os seus olhos mostravam 
umas olheiras azuladas e profundas, enquanto a ponta da lngua pendia da boca. - Como  que ele foi capaz de se levantar com tanta droga no bucho? - perguntou o 
Dean num murmrio. - Isso no interessa agora j perdeu a conscincia - respondi. - Se ele voltar a querer despertar, d-lhe outro comprmido dissolvido num copo 
de gua. No lhe ds mais do que um. Tem cuidado. No queremos mat-lo. - 319 - Fala por ti - atalhou o Brutal num re
 smungo, lanando ao Wharton um olhar de desprezo. - Seja como for,  impossvel matar um gorila como ele s com drogas. Eles desabrocham sob o seu efeito. - Ele 
 um homem mau - repetiu o Coffey, desta feita num tom mais baixo, como se no estivesse bem certo daquilo que estava a dizer, nem do seu significado. - Tens toda 
a razo - corroborou o Brutal. - Terrivelmente mau! Mas isso agora no interessa, uma vez que no vamos ter de danar o tango com ele. - Retommos a nossa caminhada; 
o Coffey seguia ladeado pelos quatro, como se fssemos idlatras em redor de um dolo que tivesse assumido uma qualquer semivida pouco definida. Diz-me uma coisa, 
John... sabes para onde  que vamos levar-te? - inquiriu o Brutus. - Para conseguir evitar o mal - respondeu ele. - penso que  uma senhora? Olhou para o Brutal 
com uma expresso de ansiedade esperanada. -  isso mesmo - retorquiu o Brutal com um acenar afirmativo de cabea. - Mas como  que
 soubeste isso? Como  que sabes? O John Coffey ficou a avaliar aquela pergunta com todo o cuidado, aps o que abanou a cabea. - No sei - disse ele ao Brutal. 
- Para lhe dizer a verdade, chefe, eu no sei muito de nada. Nunca soube. Tivemos de contentar-nos com aquela explicao vaga. 6 Eu sabia que a pequena porta existente 
entre o meu gabinete e os degraus que davam para a sala da arrecadao no fora construda levando em considerao as pessoas da esta tura do Coffey, mas nunca me 
apercebera de at que ponto aquela disparidade existia at ele se ter colocado em frente da entrada para onde olhava com um ar meditativo. O Harry riu-se, mas o 
prprio Coffey pareceu no achar qualquer graa ao facto de um homem corpulento se encontrar em frente daquela porta to pequena. Claro que no teria

achado graa quilo; ainda que a sua inteligncia tivesse sido um pouco mais alargada do que efectivamente era, continua' ria a ser da mesma opinio. Durante a maior 
parte da vida, ~ Coffey fora um homem gigantesco, e aquela porta era um tudo-nada mais pequena do que a maioria. Sentou-se, transpondo-a, e voltou a erguer-se, tendo 
descido as escadas at onde o Brutal o aguardava. Chegado ali, deteve-se, olhando para o outro lado da pequena sala, na direco do estrado onde se encontrava a 
Velha Fasca, to silenciosa - e to lgubre - como um trono no castelo de um rei morto. O capacete continuava pendurado, com um garbo falso, num dos ganchos das 
costas, parecendo menos a coroa de um rei do que o barrete de um bobo da corte, mas sendo algo que qualquer idiota usaria ou agitaria par fazer com que o seu pblico, 
todo emproado, risse ainda mais das suas macaquices. A sombra que a cadeira projectava, alongada e tenebrosa, subia ameaadoramente por uma
  parede. E sim, pensei que ainda conseguia cheirar a carne queimada no ar. Embora fosse bastante vago, eu estava convencido de que aquilo era mais do que apenas 
o fruto da minha imaginao. O Harry baixou a cabea para poder passar pela porta, e em seguida foi a minha vez. No me agradou nada a forma como o John Coffey olhava 
mesmerizado para a Velha Fasca. Gostei ainda menos daquilo que vi nos seus braos quando me aproximei mais dele: a pele toda arrepiada. - Vamos l, matulo - disse 
eu, tentando encoraj-lo. Agarrei-o pelo pulso, tentando lev-lo na direco da porta que dava acesso ao tnel mais abaixo. De incio no se mexeu, e eu tive a sensao 
de que tentava arrastar um penedo do solo apenas com as minhas mos. - Vamos l, John, temos de continuar, a menos que queiras que a carruagem se transforme numa 
abbora - disse o Harry, soltando de novo uma gargalhada nervosa. Agarrou no outro brao do John e comeou a puxar, mas e
 ste continuava imobilizado. Foi ento que ele proferiu algo numa voz baixa e sonhadora. No era a mim que ele se dirigia, no falava para nenhum de ns em particular, 
mas jamais me esqueci do que ele disse ento. - Eles continuam ali. Bocados dos seus corpos ainda ali esto. Consigo ouvi-los gritar. As risadas nervosas do Harry 
cessaram de imediato, deixando-lhe nos lbios um sorriso que parecia ter ficado pendurado na boca, qual persiana desconjuntada numa casa abandonada. O Brutal lanou-me 
um olhar que se aproximava muito de terror, e afastou-se do John Coffey. Pela segunda vez em 320 321 menos de cinco minutos, tive o pressentimento de que todo aquele 
empreendimento se encontrava  beira de ir por gua abaixo. Desta feita fui eu quem interveio; quando a iminncia do desastre nos ameaou uma terceira vez, o que 
aconteceu um pouco mais tarde, foi a vez de o Harry interferir. Acreditem que, naquela noite, todos tivemos a nossa oportunidade de intervi
 r no desenrolar dos acontecimentos. Interpus-me entre o John Coffey e a viso da cadeira, pondo-me em bicos dos ps para ter a certeza de que bloqueava inteiramente 
toda a sua linha de viso. Em seguida, fiz estalar os meus dedos em frente dos olhos do Coffey, por duas vezes e com todo o vigor. - Vamos l! - urgi eu. - Caminha! 
Foste tu que disseste que no precisavas de ser acorrentado, agora prova isso! Comea a andar, matulo! Caminha, John Coffey! Naquela direco! Para aquela porta! 
- Sim, chefe - aquiesceu ele, parecendo ter despertado. E, Deus seja louvado, comeou realmente a andar. - Olha para a porta, John Coffey. Mantm os olhos na porta 
sem olhares para mais nada. - Sim, chefe. - Obedientemente, o John prendeu o olhar na porta. - Brutal - acrescentei, apontando. Este tomou apressadamente a dianteira, 
sacudindo o seu molho de chaves,  procura da que abria a porta. O John mantinha o olhar fixo na porta que dava para o tnel, enquanto eu n
 o despregava os meus olhos dele, embora pelo canto

do olho pudesse ver o Harry lanar olhares cheios de nervosismo para a cadeira, como se nunca a tivesse visto. Continuam ali bocados dos seus corpos... Consigo ouvi-los 
gritar. Se isso era de facto verdade, o Eduard Delacroix s podia estar a gritar mais alto e durante mais tempo do que todos os outros condenados; senti-me satisfeito 
por no ser capaz de ouvir o que o John Coffey ouvia. O Brutal abriu a porta. Comemos a descer os degraus com o Coffey na dianteira. Chegado ao fundo, ele comeou 
olhar para o tnel com uma expresso taciturna, fitando o tec to baixo de tijolos. Inevitavelmente, iria ficar com dores nas costas quando chegasse ao outro extremo, 
a menos que Puxei a maca para junto de mim. O lenol sobre o qual deitramos o Del j havia sido retirado (e provavelmente inci322 nerado), pelo que o almofadado 
negro da maca se encontrava  vista. - Deita-te aqui - ordenei eu ao John. Ele ficou a olhar para mim com uma expresso duvidosa; acene
 i-lhe num gesto de encorajamento. Ser mais fcil para ti e no nos dificultar a passagem pelo tnel. . De acordo, chefe Edgecombe. - Sentou-se e depois deitou-se 
ao comprido, fitando-nos com os seus olhos castanhos que traam preocupao. Os seus ps, calados com as pantufas baratas da priso, ficavam de fora, suspensos 
quase at roarem no cho. O Brutal colocu-se entre eles e comeou a empurrar o John Coffey pelo corredor hmido,  semelhana do que tinha feito a muitos outros. 
A nica diferena era que o actual passageiro da maca continuava a respirar. A mais ou menos meio caminho - por baixo da auto-estrada, de acordo com a minha estimativa, 
e conseguindo ouvir o som abafado das viaturas que sobre ela passassem, caso houvesse alguma aquela hora da noite - o John comeou a sorrir. - Isto  muito divertido 
- comentou ele. Todavia, no pensaria da mesma forma da prxima vez que fosse empurrado em cima da maca; esse foi o
  pensamento que atravessou a minha mente. Na realidade, da prxima vez que fosse levado na maca, no pensaria nem sentiria o que quer que fosse. Ou seria isso possvel? 
Bocados dos corpos deles continuavam ali, dissera ele; conseguia ouvi-los gritar. Caminhando atrs dos outros e sem que estes me vissem, senti-me estremecer. - Espero 
que no te tenhas esquecido da Aladino, chefe Edgecombe - disse o Brutal quando chegmos ao extremo do tnel. - No te preocupes - repliquei. A Aladino no parecia 
apresentar qualquer diferena que a distinguisse das outras chaves que eu costumava trazer sempre comigo nesses tempos... e eu tinha um molho que deveria pesar dois 
quilos. Mas aquela era a chave-mestra de todas as chaves-mestras, a que abria todas as fechaduras. Nessa poca, para cada um dos cinco blocos havia uma Aladino, 
sendo cada uma delas da responsabilidade do superintendente do respectivo bloco. Os outros guardas podiam utiliz-las, mas s o manda-chu
 va dos bardas  que no era obrigado a registar que a levara. Havia um porto de barras de ao na extremidade do t 323 nel. Nunca falhava em me trazer  memria 
as imagens que eu vira de castelos antigos; vocs sabem, dos tempos do antigamente em que abundavam os cavaleiros destemidos de cavalheirescos. Com a diferena de 
que Cold Mountain ficava a;, uma grande distncia de Camelot. Para l dos portes, havia um lano de escadas que dava para um porto macio e discreto que era accionado 
na horizontal, com dsticos onde se lia: " PROIBIDA A ENTRADA, PROPRIEDADE DO ESTADO e VEDAO ELECTRIFICADA" no lado exterior. Abri os portes e o Harry afastou-os 
para trs. Subimos os degraus; uma vez mais, era o John Coffey quem tomava a dianteira, mantendo os ombros inclinados para a frente e a cabea vergada. J no cimo, 
o Harry conseguiu passar  sua volta (no sem experimentar algumas dificuldades, embora fosse o mais pequeno de n=F
 3s trs), e abriu o porto macio que deslizava na horizontal. Era pesado. Conseguia desloc-lo, mas no era capaz de o iar.

- Deixe, chefe - disse o John. Avanou mais, empurrando o Harry contra a parede com a anca ao avanar, erguendo o porto s com uma mo. Poder-se-ia ter pensado 
que era feito de carto pintado em vez de chapa de ao. O ar da noite era frio devido ao vento que soprava vindo do cume das montanhas, e iramos senti-lo at Maro 
ou Abril, aoitando as nossas faces. Com as rajadas de vento veio um turbilho de folhas mortas; o John Coffey apanhou uma delas com a sua mo livre. Jamais me esquecerei 
da maneira como ele olhou para ela, ou a forma como a amachucou por debaixo do seu nariz largo e de linhas bonitas, de molde a que libertasse a sua fragrncia. - 
Vamos l - urgiu o Brutal. - Em frente, toca a andar! Samos da priso, o John desceu o porto e o Brutal fechou-o  chave - aquele no precisava da chave Aladino, 
embora esta fosse necessria para abrir os portes da gaiola de arame e postes que circundavam o porto levadio. - Man
 tm as mos junto ao corpo, matulo, enquanto es tiveres a passar advertiu o Harry num sussurro. - No ta ques no arame, se no quiseres sofrer uma queimadura grave:; 
Naquela altura j nos encontrvamos do lado de fora, ~unto da berma da estrada, formando um pequeno macio (deveramos ter a aparncia de trs pequenas colinas em 
redor de uma montanha, era o que eu imaginava), olhando para l dos luzes e guaritas da penitenciria de Cold Mountain. Na realidade, eu at conseguia distinguir 
a forma pouco definida do guarda no interior de uma dessas torres, o qual soprava o bafo quente para as mos, embora apenas por breves instantes; as pequenas janelas 
, das guaritas que davam para a estrada eram nfimas e pouco importantes para ns. No entanto, tnhamos de nos manter muito, muitssimo calados. E se um automvel 
passasse por acaso poderamos estar metidos em grandes complicaes. - Vamos a despachar - murmurei. - Indica tu o caminho
 , Harry. Sorrateiramente, dirigimo-nos para norte ao longo da estrada, formando uma pequena fila indiana; o Harry seguia  frente, depois o John Coffey, o Brutal, 
e eu  retaguarda. Subimos a primeira elevao de terreno e, do outro lado, tudo o que avistvamos da penitenciria era o claro das luzes intensas acima das copas 
das rvores. O Harry continuava a conduzir-nos em frente. - Onde  que a deixaste estacionada? - perguntou o Brutal numa voz sussurrada, com a condensao da respirao 
a sair-lhe da boca sob a forma de uma nuvem branca. - Em Baltimore? - Est ali, um pouco mais  frente - retorquiu o Harry, irritadio e nervoso. Aguenta os cavalos, 
Brutus. O Coffey, porm, pelo que eu tinha visto dele, ter-se-ia sentido satisfeito por poder continuar a caminhar at ao nascer do Sol, talvez mesmo at este se 
pr de novo. Olhava para tudo em seu redor a comear - no com medo mas deliciado, tenho a certeza - por um mocho que com
 eou a piar. Foi ento que me ocorreu que, embora ele pudesse ter receio da escurido entre paredes, ali fora no sentia medo. O John dava a impresso de acariciar 
a noite, roando os sentidos por ela atravs do caminho da mesma maneira que um homem poderia roar o rosto pelas salincias e concavidades dos seios de uma mulher. 
- Temos de virar aqui - indicou o Harry num resmungo. Deparmos com um pequeno trecho de caminho - estreito e por pavimentar, com ervas que cresciam a meio que se 
desviava para a direita. Virmos naquele lugar e caminhmos mais uns quatrocentos metros. O Brutal j comeara a resmungar de novo, quando o Harry se deteve, dirigindo-se 
 berma esquerda daquele trilho, e comeou a remover 325 ramagens quebradas de pinheiros. O John e o Brutal ajudaram-no, e, antes que eu pudesse ter metido mos 
 obra, eles j haviam posto a descoberto a parte da frente amolgada de uma velha camioneta Farmall, como os faris presos po
 r aromes a olharem para ns como olhos esbugalhados. - No sei se compreendes, mas eu quis ter muito cuidado - justificou-se o Harry, dirigindo-se ao Brutal num 
tom de repreenso. - Para ti isto  capaz de ser uma grande brincadeira, Brutus Howell, mas acontece que eu venho de uma famlia

muito religiosa, tenho primos to religiosos que fazem com que os cristos se assemelhem aos lees, e se eu fosse apanhado a fazer uma coisa destas!... - No tem 
importncia - respondeu-lhe o Brutal, Estou s um bocado nervoso, mais nada. - Eu tambm - acrescentou o Harry numa voz comida. - Agora s precisamos que este maldito 
calhambeque pegue... Contornmos a parte da frente da pequena camioneta de caixa aberta, e, continuando a resmungar, o Brutal piscou-me o olho. No que dizia respeito 
ao Coffey, ns tnhamos deixado de existir. Mantinha a cabea inclinada para trs, absorvendo por todos os poros a viso das estrelas que pontilhavam o firmamento. 
- Se quiseres, eu vou com ele na parte de trs - ofereceu-se o Brutal. Atrs de ns, o motor de arranque da Farmall comeou a dar breves sinais de vida, parecendo 
mais um velho co, tentando encontrar os seus ps numa manh fria de Inverno, at finalmente ter comeado a funcionar em p
 leno. O Harry acelerou-o uma vez e deixou-o ficar a trabalhar em ponto morto. - No h necessidade de irmos os dois. - Senta-te tu  frente - disse-lhe eu. - Na 
viagem de regresso podes vir com ele. Isto , se no acabarmos por fazer esse percurso encarcerados na parte de trs da nossa prpria diligncia. - No digas essas 
coisas - redarguiu ele, genuinamente preocupado. Era como se compreendesse pela primeira vez at que ponto aquela situao seria grave para ns, caso fossemos apanhados. 
- Caramba, Paul! - Vamos, despacha-te - ordenei-lhe eu. - Senta-te na cabina. O Brutus fez como lhe diziam. Puxei pelo brao do John Coffey at ter conseguido chamar 
a sua ateno, fazendo"o regressar  Terra, ainda que s por algum tempo, e conduzi-o para a parte de trs da camioneta, que se encontrava coberta. O Harry tinha 
estendido a lona por cima da estrutura, o queera vantajoso, no caso de passarmos por outras camionetas ou automveis que seg
 uissem na direco contrria. No entanto, em relao  entrada das traseiras no pudera fazer coisa nenhuma. - C vamos ns, matulo - disse eu. - Agora vamos dar 
o passeio? - perguntou o Coffey. - Exactamente. - ptimo - retorquiu ele com um sorriso. Era um sorriso encantador e cheio de doura, talvez mais ainda porque no 
era complicado, no possua um excesso de raciocnio. O Coffey subiu para a traseira da pequena camioneta. Fui atrs dele, tendo-me dirigido para a parte da frente 
da rea de carga e bati no tejadilho da cabina. O Harry engatou a primeira e a camioneta saiu daquele abrigo improvisado, feito com folhagem, a sacolejar e com o 
motor a vibrar intensamente. O John Coffey estava em p de pernas abertas no meio da caixa de carga do veculo, com a cabea inclinada de forma a poder olhar de 
novo para as estrelas, exibindo um sorriso rasgado, sem reparar nas ramadas que o zurziam, enquanto o Harry conduzia a camioneta em di
 reco  auto-estrada. - Olhe, chefe! - disse ele num tom de voz baixo e enlevado, apontando para as sombras da noite. -  a Cassie, a senhora na cadeira de baloio! 
Ele tinha razo; eu conseguia avistar o que ele me indicava na faixa de estrelas visvel entre o macio envolto em trevas do arvoredo que nos ladeava. Mas no foi 
em Cassiopeia que eu pensei quando ele mencionou a senhora na cadeira de baloio; foi sim na Melinda Moores. - Estou a v-la John - retorqui, tocando-lhe no brao. 
- Mas agora tens de~te sentar. De acordo? Sentou-se com as costas contra a cabina, sem nunca afastar os olhos do firmamento nocturno. No seu rosto espalhava-se uma 
expresso de felicidade sublime. A Milha Verde ia~ ficando cada vez mais para trs de ns a cada volta dada pelos pneus carecas da Farmall, e, pelo menos de momento, 
o lacrimejar do John Coffey, que parecia nunca ter fim, havia cessado. 327 7 Eram cerca de quarenta quilmetros at  casa do Hal
 Moores em Chimney Ridge, e na vagarosa camioneta do Harry Terwilliger, que seguia aos solavancos, aquele

percurso levou mais de uma hora. Foi uma viagem bastante estranha, e embora nesta altura eu tenha a impresso de que todos os momentos dessa jornada continuam bem 
gravados na minha memria - todas as curvas, todas as salincias do piso, todos os buracos, as ocasies de susto (foram duas), quando pass. vamos por outras camionetas 
que seguiam na direco contrria - no me parece que possa sequer descrever de forma adequada aquilo que senti, sentado ali atrs na companhia do John Coffey; ambos 
estvamos enrolados em mantas como dois ndios, mantas essas que o Harry tivera o cuidado de trazer. Em grande medida, o que eu sentia era perda - o terrvel e profundo 
sentimento que uma criana sente quando se apercebe de que, algures ao longo do caminho, tomou a direco errada; todos os pontos de referncia lhe so estranhos, 
e ela no sabe como atinar com o caminho para casa. Eu encontrava-me fora da penitenciria acompanhado de um prisioneiro
  - no um prisioneiro qualquer, mas um que fora julgado e condenado pelo homicdio de duas garotinhas e destinado a morrer pelo crime cometido. O facto de eu acreditar 
que ele estava inocente no serviria de atenuante no caso de sermos apanhados; ns prprios acabaramos por ir parar  cadeia, e, possivelmente, o Dean Stanton teria 
o mesmo destino. Eu tinha desbaratado toda uma vida de trabalho, sempre convicto das minhas ideias, por causa de uma execuo que correra mal, e porque acreditava 
que o desajeitado que se encontrava sentado junto de mim, o qual crescera demasiado, poderia ter capacidade para curar o tumor que minava o crebro de uma mulher 
que os mdicos consideravam inopervel. E todavia, ao observar o John, que continuava a fitar incansavelmente as estrelas, compreendi com grande espanto que j no 
acreditava nisso, se  que alguma vez havia acreditado realmente; a minha infeco urinria naquele momento j parecia muito dis
 tanciada no tempo, e perdera grande parte da sua importncia, tal como costuma acontecer sempre a esse gnero de coisas dolorosas e desagradveis depois de terem 
passado 328 (se as mulheres guardassem na sua recordao o quanto custa ter o primeiro filho, dissera-me a minha me numa ocasio, nunca dariam  luz um segundo). 
Quanto ao Mister Jingles, no seria possvel que nos tivssemos enganado em relao  gravidade da leso que o Percy lhe infligira? Ou ainda que o John - o qual 
na verdade possua um certo poder hipntico, pelo menos disso no restavam dvidas - houvesse sido capaz de nos ludibriar, levando-nos a pensar que tnhamos visto 
algo que de facto no vramos. Havia ainda a acrescentar a questo do Hal Moores. No dia em que eu o surpreendera no seu gabinete, tinha deparado com um homem de 
idade, trmulo e lacrimejante. Mas eu no considerava que aquela fosse a faceta mais verdadeira do director Moores. Continuava f
 irmemente convicto de que o autntico director Moores era o homem que quebrara o pulso de um prisioneiro irado que tentara esfaque-lo; o homem que me havia chamado 
a ateno, com uma preciso cheia de cinismo, para o facto de os tomates do Delacroix irem ser estorricados independentemente do homem que fosse destacado como responsvel 
do grupo de execuo. Passar-me-ia pela cabea que o Hal Moores se poria humildemente de lado, permitindo que levssemos a sua casa um assassino de crianas, que 
fora condenado  morte, e que este colocasse as mos sobre a sua prpria mulher? As minhas incertezas aumentavam como uma doena enquanto percorramos a estrada. 
Muito simplesmente, estava incapaz de compreender o que me levara a fazer as coisas que fiz, ou por que motivo havia persuadido os outros a alinharem comigo naquela 
jornada nocturna de loucos; no acreditava que tivssemos a mais pequena hiptese de conseguirmos safar-nos daquela, nem que
 o diabo tocasse rabeca, como os antigos costumavam dizer. Apesar de todas aquelas reticncias, tambm no tentei cancelar o projecto, o que talvez tivesse conseguido 
levar a cabo as coisas no iriam sair irrevogavelmente das nossas mos,~at termos chegado a casa do Moores. Alguma coisa - penso que talvez no tivesse sido mais 
do que as ondas de exaltao que me eram transmitidas pelo gigante sentado ao meu lado me impediu de bater na janela da cabina, gritando ao Harry que invertesse 
a marcha e regressasse  priso enquanto ainda havia tempo. este era o meu estado de esprito quando samos da estrada Principal e entrmos na secundria, a nmero 
5, e desta

329 na Chimney Ridge. Mais ou menos quinze minutos depois avistei o recorte de um telhado que se erguia para as estrelas' e soube que tnhamos chegado ao nosso destino. 
O Harry desengatou a segunda, metendo a primeira (acho que ele engatou a quarta apenas uma vez durante toda aquela estranha viagem). Laboriosamente, o motor abrandou 
e toda a camioneta foi abalada por um estremecimento, como se tambm temesse aquilo que se encontrava  nossa frente. O Harry entrou no caminho de gravilha que dava 
acesso  casa do Moores e estacionou a pequena camioneta recalcitrante atrs do prtico Buick preto do director da penitenci ria.  nossa frente, e ligeiramente 
 direita, encontrava_se uma casa muito bem cuidada e construda num estilo que estou em crer chamar-se Cape Cod. Aquele gnero de residncia talvez devesse dar 
a impresso de no se enquadrar na nossa regio montanhosa, mas tal no acontecia. A Lua j brilhava no firmamento; naquela madrugada
  o seu sorriso era um pouco mais cheio do que o habitual; sob a sua luz observei que o jardim, que sempre se mantivera to maravilhosamente cuidado, apresentava 
agora um aspecto de desleixo. Em grande parte, aquela incria devia-se apenas a folhas secas e mortas por apanhar. Em circunstncias normais, aquela tarefa teria 
cabido  Melly, mas acontece que, naquele Outono, a Melly no estivera em condies de limpar o jardim das folhas e nunca mais voltaria a ver as folhas a carem 
das rvores. Esse  que era o cerne da questo, e eu fora suficientemente louco para pensar que aquele idiota, de olhar vazio, poderia alterar esse estado de coisas. 
Apesar de tudo, talvez ainda no fosse tarde de mais para nos salvarmos. Fiz meno de me levantar, deixando tombar dos ombros a manta em que estivera enrolado. 
Inclinar-me-ia para a frente, bateria na janela do lado do motorista, dizendo ao Harry que se pusesse a andar dali para fora, antes de... O John Coffe
 y agarrou-me pelo antebrao com um pino enorme, obrigando-me a sentar-me com to pouco esforo como o que eu poderia ter usado com uma criana que tivesse comeado 
a dar os seus primeiros passos. - Oua, chefe - disse ele, apontando para a casa. - H algum a p. Segui a direco do seu dedo e senti um baque, no s nas entranhas 
mas tambm no corao. Atravs de uma das janelas das traseiras filtrava-se um feixe de luz. Muito 330 provavelmente, a sala onde a Melinda passava os seus dias. 
Estaria to capaz de poder subir as escadas, como de ~~ um ancinho para remover do jardim as folhas que haviam tombado das rvores durante o vendaval que ocorrera 
recentemente.  claro que eles tinham dado pela chegada da camioneta - a maldita Farmall do Harry Terwilliger, com o seu ruidoso motor desembocando num tubo de escape 
que no era estorvado por algo to frvolo como uma panela de escape. Mas que diabo, o mais certo era os Moores no t
 erem andado a dormir muito bem naquelas ltimas noites. Entretanto, algum acendeu uma luz mais prxima da frente da casa (na cozinha), e em seguida foi a vez da 
do tecto da sala de estar, a do vestbulo da frente e a do alpendre. Observei esta sucesso de luzes a serem ligadas, sentindo o mesmo que um homem encostado a uma 
parede de cimento, enquanto fumava o seu ltimo cigarro, podendo observar a marcha de um peloto de fuzilamento que se aproximava. E, contudo, no reconheci inteiramente 
perante mim prprio, at mesmo naquele instante, que j era demasiado tarde quando o rudo incerto do motor da Farmall esmoreceu e se silenciou. Ouviu-se o ranger 
das portas do veculo a abrirem-se, e o Harry e o Brutal pisaram sonoramente a gravilha. O John j se pusera de p, arrastando-me consigo. Naquela semiobscuridade, 
a expresso do seu rosto era viva e ansiosa. E porque no?, recordo-me de ter pensado. Porque no haveria ele de se mostrar ansios
 o? O Coffey era um pobre de esprito. O Harry e o Brutal mantinham-se ombro a ombro imobilizados ao fundo da camioneta como crianas numa tempestade, no me passando 
despercebido que ambos pareciam

to receosos como aquelas estariam e to pouco  vontade como eu prprio me sentia. Aquilo fez com que o meu mal-estar aumentasse ainda mais. O John desceu. Para 
ele aquele acto era mais um passo do que um salto. Fui atrs dele acabrunhado e sentindo as pernas entorpecidas. Ter-me-ia esparramado em cima da gravilha gelada, 
no fora ele agarrar-me pelo brao. - Isto  um erro - disse o Brutal numa voz sibilada quase num murmrio. Os seus olhos desmesuradamente abertos espelhavam temor. 
- Deus do cu, Paul! Em que  que ns estvamos a pensar? 331 -Agora j  tarde de mais - repliquei. Dei um empurro numa das ancas do Coffey, o qual se colocou 
bastante obedientemente ao lado do Harry. Em seguida, agarrei no brao do Brutal como se aquilo fosse um encontro amoroso e comemos a caminhar em direco aos 
degraus do alpendre, que naquele momento estavam iluminados. - Deixa_me ser eu a conduzir a conversa. Ests a compreender? - De acordo
  - respondeu o Brutal. - Nesta altura, pa_ rece-me que  a nica coisa que sou capaz de compreender. - Harry, fica com ele junto da camioneta, at eu te chamar 
- disse-lhe eu por cima do ombro. - No quero que o Moores o veja at eu estar preparado. - Mas eu nunca iria estar preparado. Agora apercebo-me disso. O Brutal 
e eu estvamos quase no primeiro degrau do alpendre quando a porta da frente se abriu de rompante, com tanta fora que a aldraba de lato bateu contra a chapa. Ali 
estava o Hal Moores, vestindo as calas do seu pijama azul e uma camisola interior sem mangas, com os cabelos grisalhos, de um tom ferroso, despenteados e espetados. 
Era um homem que fizera um milhar de inimigos no decurso da sua carreira, estando bem ciente desse facto. Firmemente empunhada na sua mo direita, com um cano invulgarmente 
longo que no apontava exactamente para o cho, encontrava-se a pistola que costumava estar pendurada acima da cornija da lareira. Era o tipo
  de arma que tinha um dispositivo de apoio para a outra mo quando se disparava, conhecida pelo nome de Ned Buntline Especial, e que pertencera ao seu av; naquela 
ocasio (observei isto sentindo uma outra reviravolta nas entranhas) encontrava-se totalmente engatilhada. - Quem diabo  que anda por a s duas e meia da madrugada? 
- perguntou ele. No detectei o mnimo receio na sua voz. E, pelo menos de momento, os seus tremores tinham cessado. A mo que empunhava a arma mantinha-se firme 
que nem uma rocha. Respondam-me ou... - O cano da pistola comeou a erguer-se. - Pare, director! - gritou o Brutal, erguendo as mos com as palmas para cima na direco 
do homem que empunhava a arma. Eu nunca tinha ouvido a sua voz com o timbro que possua naquela ocasio; era como se os tremores houvessem sado das mos do Moores 
e, de uma maneira estranha, tivessem conseguido entrar na garganta do Brutos Ha well. - Somos ns! O Paul e eu, e... somos n
 s! Ele deu o primeiro passo, de forma a que a luz do tecto do alpendre lhe incidisse directamente sobre o rosto. Aproximei-me. O olhar do Hal Moores ia de um para 
o outro; A determinao encolerizada deu lugar a uma enorme perplexidade - que  que esto a fazer aqui? - perguntou. - No s estamos nas primeiras horas da madrugada, 
como tambm vocs deveriam estar de servio. Eu sei que esto a trabalhar no turno da noite, tenho a escala dos turnos pendurada em cima da minha bancada na garagem. 
Portanto," o que  que, em nome de... oh, meu bom Jesus! No me digam que se trata do confinamento dos presos por medidas de segurana? Ou de algum motim? - Olhou 
para ns; o seu olhar perscrutou mais atentamente. - Quem mais  que est junto daquela camioneta? Deixa-me ser eu a conduzir a conversa. Isso fora o que eu dissera 
ao Brutal, mas agora, que tinha chegado a altura de comear a falar, nem sequer era capaz de abrir a boca. Nessa tarde, quando ia
  a caminho do trabalho, planeara cuidadosamente tudo o que tencionava dizer quando chegssemos ali, e pensara que nada daquilo dava a impresso de ser demasiado 
disparatado. No era normal nada naquela situao poderia ser apelidado de normal - mas talvez suficientemente prximo do que era normal, permitindo-nos transpor 
a porta e dando-nos uma oportunidade. Dar ao John uma s oportunidade. Mas, agora, todas

as minhas palavras, to cuidadosamente ensaiadas, se perdiam numa confuso incomensurvel. Pensamentos e imagens - o Del a assar, o rato a morrer, o Pouca Terra 
a sacolejar no regao da Velha Fasca, enquanto gritava que era um peru assado - revolteavam dentro da minha cabea como areia apanhada num turbilho de restolho 
seco. Acredito que no mundo exista o bem, toda essa fora a fluir omnipresente de um Deus generoso. Mas tambm estou em crer que existe uma outra fora, uma fora 
to presente como o Deus a quem tenho rezado ao longo de toda a minha vida que trabalha conscientemente com a finalidade de no arrasar todos os nossos impulsos 
mais decentes. o Diabo, no estou a referir-me ao Diabo (embora acredite firm emente que ele tambm existe), mas sim uma espcie de ser demonaco da discrdia uma 
coisa estpida e aberrantemente brincalhona, que se ri cheia de gudio quando um velhote se v envolto em chamas ao chegar lume ao seu cac
 himbo ou quando uma criana muito amada coloca na boca 332 333 o seu primeiro brinquedo do Natal e morre asfixiada. Tive muitos anos para pensar neste assunto, 
desde os tempos de Cold Mountain at  poca de Georgia Pines, e estou em crer que essa fora se encontrava a trabalhar activamente entre ns nessa madrugada, a 
revoltear por todo o lado como se fosse um manto de nevoeiro, tentando manter o John Coffey afastado da Melinda Moores. - Director... Hal... eu... - Nada do que 
eu tentasse dizer tinha o mnimo de coerncia. Uma vez mais, ele comeou a erguer a pistola, apontando-a para o espao entre o Brutal e eu, sem ouvir fosse o que 
fosse. Os seus olhos raiados de vermelho tinham-se arregalado. E ali vinha o Harry Terwilliger mais ou menos empurrado pelo nosso matulo, o qual exibia o seu rasgado 
sorriso atoleimado e encantador. - O Coffey! - exclamou o Moores entre dentes. - O John Coffey. - Susteve a respirao e gritou numa voz um tanto esgani
ada mas portentosa. - Pra! Pra imediatamente, seno disparo! Vinda de algures por detrs dele, ouviu-se uma voz feminina enfraquecida e trmula. - Hal - chamou 
ela. - O que  que ests a fazer a fora? Com quem  que ests a falar, meu caralho? O Hal voltou-se na direco da voz por breves momentos, mostrando uma expresso 
confusa e desesperada. Por breves momentos, tal como eu disse, mas que teriam sido o suficien te para eu poder apoderar-me da arma de cano comprido que ele empunhava. 
S que fui incapaz de erguer as mos. Tinha a impresso de que algum as amarrara a pesos. A minha cabea parecia estar cheia de esttica, qual estao de rdio 
que tentasse efectuar as suas transmisses durante uma tempestade elctrica. As nicas emoes que me recordo de ter sentido foram o medo e uma espcie de constrangimento 
por causa do Hal. Entretanto, o Harry e o John chegaram ao fundo dos degraus. O Moores desviou a aten
o do som da voz da mulher, erguendo a arma de novo. Mais tarde confirmou que sim, que tivera inteno de alvejar o Coffey; suspeitara que todos ns ramos seus 
prisioneiros, e que o crebro por detrs do que estava a acontecer se encontrava oculto na camioneta, emboscado a coberto da noite. No compreendia por que motivo 
 que havamos sido levados a sua casa, embora a vingana lhe parecesse ser a probabilidade mais plausvel. Antes de ele poder disparar, o Harry Terwilliger avanou 
alguns passos, colocando-se em frente do Coffey, escudando-se quase completamente com o seu corpo. - No, director Moores! - disse ele. - Est tudo bem! Ningum 
veio armado, ningum vai ficar ferido, estamos aqui para ajudar! - Os espessos sobrolhos eriados do Moores uniram-se. Os seus olhos coruscavam de fria. Eu no 
conseguia afastar o olhar do revlver que ele continuava a manter engatilhado. Ajudar o qu? Ajudar quem?" Em resposta quela pergun
 ta, a voz da mulher de idade fez-se ouvir de novo, quezilenta, determinada e profundamente perdida.

- Vem j para dentro ver se a minha rata continua no lugar, meu filho da puta! Traz tambm os caras de cu dos teus amigos. Eles que faam fila! Olhei para o Brutal, 
sentindo-me abalado at  alma. Eu j sabia que ela comeara a dizer palavres - que o tumor a fazia utilizar uma linguagem obscena - mas aquilo era mais do que 
isso. Muito mais. - O que  que vocs vieram fazer aqui? - perguntou-nos o Moores de novo. A determinao que ele mostrara anteriormente tinha abandonado a sua voz.... 
os gritos trmulos da mulher eram os responsveis por isso. - No estou a compreender. Isto  uma fuga... O John afastou o Harry para o lado - limitou-se a i-lo 
do cho e a coloc-lo noutro lugar - e comeou a subir os degraus do alpendre. Posicionou-se entre o Brutal e eu, to gigantesco que quase nos empurrou para os lados, 
fazendo-nos ir contra as sebes de arbustos que eram sagradas para a Melly. O Moores soergueu os olhos para lhe seguir os m
 ovimentos, da mesma maneira que uma pessoa faria ao tentar ver a copa de uma rvore de grande porte. E subitamente, na minha mente o mundo ajustou-se com tudo no 
seu lugar. Aquele esprito de discrdia, que tinha perturbado os meus pensamentos como dedos poderosos a remexerem areia ou gros de arroz desaparecera. Tambm pensei 
que compreendia por que motivo o Harry fora capaz de tomar a iniciativa, enquanto eu e o Brutal nos limitramos a ficar ali, impotentes e indecisos em frente do 
nosso chefe. O Harry estivera junto do Coffey" e qualquer que fosse esse esprito que se ope ao utr~ ao demonaco, naquela noite esteve ao lado do John 335 Coffey. 
E quando este avanou para enfrentar o director Moores, foi esse outro esprito - qualquer coisa branca,  a imagem que eu guardei disso, qualquer coisa branca ~ 
que se assenhoreou da situao, passando a domin-la por com pleto. A outra coisa no se retirou, mas eu pude v-la a refroceder com
 o uma sombra envolta numa sbita luz cheia de intensidade. - Eu quero ajudar - declarou o John Coffey. O Moores ficou a olhar para ele, olhar fascinado, a boca 
aberta. Quando o Coffey retirou da sua mo o revlver de cano comprido e mo entregou, no me parece que o Hal se tenha dado conta de que j no o empunhava. Cuidadosamente, 
desengatilhei a arma. Mais tarde, quando examinei o carregador verifiquei que estivera sempre vazio. s vezes pergunto a mim mesmo se o Hal teria estado ciente disso. 
Entretanto, o John continuava a murmurar: Vim para a ajudar. Apenas para ajudar.  s o que eu quero. - Hal! - gritou a Melinda da sala das traseiras. Naquele momento, 
a sua voz soava um pouco mais forte, como se a coisa que tanto nos havia confundido e desarmado se houvesse retirado para o interior do corpo dela. - Manda-os embora, 
quem quer que seja! No precisamos de vendedores a meio da noite! Nada de Electrolux! Nada de Hoover! Nada de cuequinhas francesas! Co
 rre com eles! Dizlhes que se vo foder para... - Ouviu-se o som de algo a partir. Talvez um copo com gua, e depois ela comeou a chorar convulsivamente. - Apenas 
para ajudar - repetiu o John Coffey num tom de voz que pouco mais era que um sussurro. Ignorou igualmente tanto o choro como a linguagem obscena da mulher. - S 
para ajudar, chefe, mais nada. - No podes - replicou o Moores. - Ningum pode ajud-la. - Eu j ouvira anteriormente aquela voz e, momentos depois, compreendi que 
era igual  minha quando entrei na cela do Coffey, na noite em que ele curou a minha infeco urinria. Como que hipnotizado. Preocupa-te com os teus assuntos, que 
eu preocupo-me com os meus, fora o que eu dissera ao Delacroix... S que tinha sido o Coffey quem se preocupara com os meus assuntos, tal como naquela altura se 
preocupava com os do Hal Moores. 336 - Ns pensamos que pode - interveio o Brutal. - E no arriscmos os nossos empregos... S para virmos at E9 c e darmos meia 
volta, Sem sequer termos tentado.

O que ns no lhe dissemos foi que tanto ele como eu prprio estivramos prontos a fazer isso mesmo, trs minutos antes. Entretanto, o John Coffe apoderara-se do 
espectculo retirando-o das nossas mos. Avanou at  entrada num passo determinado, passando pelo Moores, que ergueu uma mo flcida a fim de tentar det-lo (roou 
pela anca do Coffey e ficou descada; tenho a certeza que aquele homem corpulento nem sequer sentiu o seu toque), e avanou pelo corredor em direco  sala de estar 
e da cozinha, que se situava atrs desta, seguindo para o quarto das traseiras mais ao fundo, onde aquela voz esganiada e irreconhecvel se elevou de novo. -Pe-te 
j daqui para fora! Quem quer que sejas, sai daqui para fora! No estou vestida e tenho as tetas de fora e a minha rata est a apanhar ar! O John no lhe prestou 
a mnima ateno, avanando imperturbvel e de cabea baixa para no quebrar qualquer das luzes do te
 cto; a pele do seu crnio castanho e de formas arredondadas brilhava, enquanto as mos oscilavam ao longo do corpo. Aps alguns momentos de hesitao, fomos atrs 
dele; eu seguia  frente, o Brutal atrs de mim e ao lado do Hal, e o Harry em ltimo. Uma coisa eu compreendia perfeitamente: a partir daquela altura, a situao 
deixara de estar nas nossas mos e passara para as do John. 8 A mulher no quarto das traseiras, recostada contra a cabeceira da cama fitando de olhos esbugalhados 
o gigante que surgira no seu campo de viso pouco ntido, tinha poucas semelhanas com a Melly Moores que eu conhecia h vinte anos; nem com a Melly Moores que a 
Janice e eu havamos visitado pouco antes da execuo de Delacroix. A mulher que se encontrava sentada naquela cama parecia uma criana doente mascarada de bruxa. 
A sua pele lvida transformara-se numa massa pastosa e flcida cheia de rugas; tinha um tique ~na parte superior do olho direito, c
 omo se tentasse pisc-lo, 337 enquanto esse mesmo lado da sua boca se mantinha descado. Por cima do lbio inferior de uma tonalidade cirrosa havia um dente amarelado. 
Os seus cabelos eram uma nuvem desordenada e pouco espessa  volta do crnio. O quarto estava empestado com o fedor das matrias de que o nosso corpo se descarta 
com decoro quando as coisas correm bem. O penico , , que se encontrava ao lado da cama, estava meio cheio de uma substncia amarelada e pastosa de aspecto nauseabundo. 
Havamos chegado demasiado tarde, pensei eu, horrorizado. Tinham decorrido apenas alguns dias desde a altura em que ela ainda era uma mulher reconhecvel - enferma, 
mas sem ter ~ perdido a sua identidade. Desde essa altura, a coisa no interior da sua cabea deveria ter comeado a disseminar-se a uma velocidade inacreditvel, 
a fim de consolidar firmemente a sua posio. No me parecia que o John Coffey tivesse poderes para a ajudar naquela situao. A e
 xpresso da Melinda quando o Coffey entrou no quarto traduzia medo e horror como se algo no seu ntimo houvesse reconhecido um mdico que podia chegar-lhe e ar 
ranc-la... polvilh-la com sal, da mesma forma que se faz a a uma sanguessuga para que esta solte a sua presa. Prestem bastante ateno ao que vos digo: eu no 
estou a afirmar que a Melly Moores estivesse possessa, e apercebo-me de que, perturbado como estava nessa noite, todas as minhas percepes devem parecer um tanto 
ou quanto suspeitas. Mas nunca pus inteiramente de parte a probabilidade da existncia de uma possesso demonaca. Havia algo nos seus olhos, deixem-me que vos diga, 
algo que se assemelhava ao medo. Quanto a isso, penso que vocs podem confiar em mim;  uma emoo com que estou por de mais familiarizado para poder enganar-me. 
Fosse o que fosse, desapareceu num pice, tendo sido substitudo por uma expresso de interesse vivaz e irracional. Aquela boca hedionda
 estremeceu no que poderia ter sido considerado o arremedo de um sorriso. - Oh, to grande! - gritou ela. O som da sua voz era u de uma garota com uma infeco grave 
na garganta. Retirou as mos, cuja pele era de um branco to esponjoso como a do

seu rosto, de debaixo da coberta da cama e comeou a bater palmas. - Puxa as calas para baixo! Durante toda a minha vida ouvi falar do caralho dos negros, mas nunca 
vi um. Atrs de mim, o Moores emitiu um gemido abafado de desespero. ~ John Coffey no prestava a mnima ateno ao que se passava em seu redor. Depois de se ter 
imobilizado por breves instantes, como se pretendesse observla de uma certa distncia, aproximou-se da cama que se encontrava iluminada por um nico candeeiro em 
cima da mesa-de-cabeceira. Projectava um crculo de luz bastante intensa sobre a colcha branca que estava puxada at  renda do decote da camisa de noite da Melinda. 
Reparei na otomana que pertencia  sala de estar, e que se encontrava oculta pela sombra atrs da cama. Sobre esta havia um agasalho que a Melly havia tricotado 
com as suas prprias mos, em dias mais felizes, meio descado at ao cho. Era ali que o Hal tinha estado a dormir - pelo menos a p
 assar pelas brasas - quando chegmos a sua casa.  medida que o John se aproximava, a expresso da Melinda sofreu uma terceira transformao. Bruscamente, vi a 
Melly, cuja bondade tanto significado tivera para mim ao longo dos anos, e ainda mais para a Janice quando as crianas haviam abandonado o ninho e ela se sentira 
to sozinha, triste e intil. A Melly continuava interessada, mas agora o seu interesse parecia saudvel e alerta. - Quem s tu? - perguntou numa voz clara e coerente. 
- E porque  que tens tantas cicatrizes nas mos e nos braos? Quem  que te fez tanto mal? - J nem me lembro como  que elas foram feitas, minha senhora - respondeu 
o John Coffey numa voz cheia de humildade, sentando-se junto dela  beira da cama. A Melinda sorriu to bem quanto lhe era possvel - o canto arreganhado do lado 
direito da boca estremeceu, recusando-se no entanto a erguer-se. Pouco depois, tocou numa cicatriz esbranquiada de formato curvo
 semelhante a uma cimitarra, que o Coffey tinha nas costas da mo esquerda. - Mas que bno isso . Compreendes porqu? - perguntou ela. - Acho que quando no sabemos 
quem nos fez mal, ou qual o co que nos abocanhou, no ficamos acordados  noite - replicou o John Coffey no seu sotaque quase  maneira do Sul. Ela riu-se ao ouvir 
aquilo, emitindo um som to puro com um fio de prata naquele quarto de doente de onde exalava um fedor to intenso. O Hal estava ao meu lado; a sua respirao processava-se 
com alguma dificuldade mas ele no fazia qualquer meno de intervir. Quando a Melly se riu, a res 338 339 pirao acelerada do Moores susteve-se por breves instantes, 
respirou fundo e uma das suas mos enormes fincou-se no meu ombro. Apertou-o com a fora suficiente para deixar uma ndoa negra - dei por ela no dia seguinte - mas 
naquele momento mal senti o seu aperto. - Como  que te chamas? - inquiriu ela. - John Coffey, minha
 senhora. - Coffey, como a bebida. - Sim, minha senhora, s que se escreve de maneira diferente. Ela recostou-se contra as almofadas, o corpo semiergudo e sem despregar 
os olhos do Coffey. Este continuava sentado  sua beira, retribuindo-lhe o olhar; a luz projectada pelo candeeiro incidia sobre ambos, formando um crculo, como 
se eles fossem actores no palco de um teatro - o corpulento homem de raa negra, com o fato-macaco da priso, e a mulher de estatura pequena s portas da morte. 
Esta fitava os olhos do John com um enorme fascnio. - Minha senhora? - Sim, John Coffey? - Aquelas palavras mal haviam sido articuladas, chegando-nos aos ouvidos 
a muito custo na atmosfera nauseante. Senti os msculos a contrarem-se nos meus braos, pernas e costas. Algures, a uma grande distncia, senti o director da priso 
a apertar-me o brao e, pelo canto do olho, vi que o Harry e o Brutal tinham os braos  volta um do outro, quais crianas perdidas nas
  trevas da noite. Algo estava prestes a acontecer. Qualquer coisa grandiosa. Cada um de ns sentia aquilo  sua prpria maneira.

O John Coffey debruou-se mais para ela. As molas do colcho rangeram, a roupa da cama fez ruge-ruge e a Lua fria e sorridente filtrou os seus raios atravs da vidraa 
superior da janela do quarto. Os olhos congestionados do Coffey observavam a face desfigurada que a Melinda soerguera. - Eu estou a v-lo - disse ele. No se dirigia 
a ela... pelo menos no me parece que o fizesse, falando consigo mesmo. - Estou a v-lo, e sou capaz de impedir o mal. Esteja quieta... esteja muito quieta... Debruou-se 
ainda mais para a Melinda, cada vez mais prximo dela. Por um momento, o seu rosto deteve-se a menos de cinco centmetros do dela. Ergueu uma mo para o lado, com 
os dedos abertos, como se dissesse a algo que aguardasse... que esperasse... e depois baixou de novo o rosto. 340 Os seus lbios macios e carnudos fizeram presso 
sobre os dela, forando-os a entreabrirem-se. Por breves instantes, consegui ver um dos olhos da Melinda, fitando um ponto para l
 do John Coffey, pleno de uma expresso do que me parecia ser surpresa. Em seguida, a cabea lisa e calva do Coffey deslocou-se, impedindo-me a viso daquela cena. 
Ouviu-se um sibilar suave quando ele inspirou o ar que estava no fundo dos pulmes dela. Isso foi tudo o que sucedeu durante um ou dois segundos, e em seguida o 
soalho deslocou-se abaixo de ns, enquanto toda a casa se agitava  nossa volta. Aquilo no fora fruto da minha imaginao; todos os outros sentiram a mesma coisa, 
como me disseram posteriormente. Era uma espcie de rudo abafado semelhante ao marulhar das guas. Depois, ouviu-se um estrondo quando tombou qualquer coisa pesada 
na sala de estar - mais tarde chegou-se  concluso de que tinha sido o relgio de pndulo. O Hal Moores tentou mand-lo reparar, mas nunca mais voltou a dar horas 
por mais de quinze minutos de cada vez. Mais prximo, ouviu-se um estalar seguido de um tinir, quando a vidraa da janela por onde
  tinham entrado os raios de luar se quebrou. Um dos quadros na parede - um navio de cruzeiro que atravessava um dos sete mares - caiu, tendo-se partido no cho; 
o vidro da moldura estilhaou-se em mil fragmentos. Chegou-me o cheiro de algo quente e vi fumo a evolar-se do fundo da coberta branca da cama que cobria a Melinda. 
Uma poro desta tinha enegrecido na salincia formada pelo seu p direito. Sentindo-me como um homem no meio de um sonho, desprendi-me da mo do Moores e aproximei-me 
da mesa-de-cabeceira. Sobre esta havia um copo cheio de gua, rodeado por trs ou quatro frascos de comprimidos, os quais tinham tombado durante o estremeo que 
a casa sofrera. Agarrei no copo de gua e despejei-a em cima do lugar de onde saa fumo. Ouviuse um silvar. O John Coffey continuava a beij-la de uma forma envolvente 
e cheia de intimidade inspirando e voltando a inspirar, uma mo erguida para o lado, a outra sobre a cama, suportando todo o peso do se
 u corpo. Os dedos continuavam abertos; aquela mo fazia-me lembrar uma estrela-do-mar castanha. Bruscamente as costas da Melinda arquearam-se. Uma das suas mos 
agitou-se no ar com os dedos enclavinhados, os 341 quais se abriam e fechavam numa srie de espasmos. Os seus ps batiam contra a cama. Ento algo soltou um grito. 
Uma vez mais, no fui o nico a ouvir aquilo; os outros homens presentes tambm ouviram. Ao Brutal pareceu ser um lobo ou um coiote cuja pata tivesse ficado presa 
numa armadilha. A mim, deu-me a sensao de ser o grito de uma guia, ~ forma como nessa poca elas por vezes se faziam ouvir nas manhs remansosas, a voar por entre 
as brumas dos cumes com as asas rigidamente abertas. L fora, o vento fazia ouvir as suas rajadas com fora suficiente para agitar de novo a casa, o que, devo dizer-vos, 
era bastante estranho, uma vez que at ento no se fizera sentir a mnima brisa. O John Coffey afastou-se da Melinda e vi que
 as feies dela se tinham suavizado. O lado direito do seu rosto j no estava descado. Os olhos haviam readquirido o seu formato natural; parecia ter rejuvenescido 
dez anos. Durante um ou dois momentos, o Coffey olhou-a com enlevo e depois comeou a tossir.

Virou a cabea de forma a no tossir mesmo em frente do rosto da Melinda, perdeu o equilbrio (o que no foi difcil; para comear, corpulento como ele era, tinha 
estado sentado durante o tempo todo com o traseiro meio fora da cama) e caiu no cho. O seu peso foi o suficiente para fazer estremecer a casa uma terceira vez. 
Caiu sobre os joelhos e deixou descair a cabea sobre o peito, acometido por um ataque de tosse como se fosse um homem na ltima fase de uma tuberculose terminal. 
Pensei: Agora  a vez dos insectos. Ele vai expeli-los da boca e desta feita tero de ser bastantes. Apesar da minha expectativa, o Coffey no os deitou fora. Continuou 
a tossir em grandes arrancos, mal tendo tempo de conseguir respirar. A sua tez escura, da cor do chocolate, co meara a adquirir uma tonalidade acinzentada. Alarmado 
com aquilo, o Brutal dirigiu-se para junto do Coffey, deixando-se cair sobre um joelho ao seu lado e colocando um brao em redor das suas co
 stas robustas atravessadas por espasmos. Como se os movimentos do Brutal houvessem quebrado um encantamento, o Moores aproximou-se da cama da mulher, sentando-se 
no mesmo lugar onde o Coffey estivera sentado. Parecia no dar pela presena daquele gigante que continuava a tossir, meio sufocado. Embora o Coffey se encontrasse 
ajoelhado mesmo aos seus ps, o Moores s tinha olhos para 342 a mulher e mais ningum; esta fitava-o com uma expresso de perplexidade. Olhar para ela era o mesmo 
que olhar para um espelho que houvesse sido limpo. ~.John! - gritou o Brutal. - Vomita isso! Vomita isso como fizeste das outras vezes! O John continuou com aqueles 
arrancos de tosse que quase o sufocavam. Tinha os olhos lacrimosos, no devido s lgrimas, mas sim ao esforo. Da boca comeou a sair-lhe cuspo num jacto fino, 
apesar de no ter expelido mais nada. O Brutal assentou-lhe duas palmadas nas costas e olhou para mim. - Ele est a sufocar! Seja o que for que ele
  sugou dela, est a asfixi-lo! Avancei mas, antes de ter dado dois passos, o John afastou-se de mim, ajoelhado, e dirigiu-se para um canto do quarto, continuando 
a tossir violentamente e sentindo grandes dificuldades em respirar. Encostou a testa contra o papel de parede - rosas bravas vermelhas que pendiam do muro de um 
jardim - emitindo um som cavo hompilante, como se pretendesse vomitar o tecido que revestia o interior da sua prpria garganta. "Se h alguma coisa que expulse os 
insectos, s poder ser isto", recordo-me eu de ter pensado na altura, mas continuou a no haver quaisquer vestgios destes. Mesmo assim, aquele ataque de tosse 
deu a impresso de estar a abrandar um pouco. - Eu estou bem, chefe - disse o John, continuando com a cabea apoiada contra as rosas bravas. Tinha os olhos cerrados. 
No sei bem como  que ele percebeu que eu me encontrava junto de si, mas no h dvida que sabia. - A srio que estou. V ver se a senhora p
 recisa de alguma coisa. Com uma expresso duvidosa olhei para ele e virei-me para a cama. O Hal acariciava a testa da Melly, e acima dela avistei algo deveras surpreendente; 
alguns dos seus cabelos - no uma grande quantidade, mas somente uns quantos tinham ficado negros. - O que  que aconteceu? - perguntou ela ao marido. Enquanto eu 
a observava, as cores comearam a regressar-lhe s faces. Era como se houvesse roubado um par de rosas ao Papel de parede. - Como  que eu vim parar aqui? Ns amos 
a caminho do hospital em Indianola, no  verdade? H um mdico de l que vai tirar radiografias  minha cabea, Para fotografar o meu crebro. - Chhuuu - fez o 
Hal. - Chhuuu, minha querida, nada disso interessa neste momento. 343 - Mas eu no estou a compreender! - redarguiu e quase num gemido. - Ns parmos numa banca 
 beira da estrada... tu compraste-me um ramo de flores que custou cntimos... e depois... aqui estou eu. J est
  escuro! J jantaste, Hal. Porque  que eu estou deitada no quarto de hspedes? J me fizeram as radiografias? -

Os olhos dela pousaram no Harry quase sem darem pela sua presena... imagino que aquilo se devesse ao choque... e depois fixaram-se em mim. - Paul? J me fizeram 
a radiografia. - Sim - disse-lhe eu. - No encontraram nada ~ anormal. - No descobriram um tumor? - No - repliquei. - Os mdicos disseram que o mais provvel  
as dores de cabea comearem a desaparecer. Ao lado da mulher, o Hal explodiu num ataque de choro' A Melinda inclinou-se para a frente e beijou-lhe a fronte: Em 
seguida, o seu olhar focou-se no canto. - Quem  aquele homem negro? Por que motivo  que ele est ali ao canto? Voltei-me para trs e vi o John Coffey a tentar 
pr-se de p. O Brutal ajudou-o; com um ltimo impulso do corpo para a frente, o John conseguiu erguer-se do cho. No entanto, deixou-se ficar de rosto virado para 
a parede como se fosse um rapazinho que se tivesse portado mal. Continuava a tossir em espasmos, embora estes parecessem querer abrandar. - John
  - chamei. - Vira-te para ns, matulo, e olha para esta senhora. Lentamente, ele comeou a virar-se. O seu rosto continuava da cor de cinza, aparentando ter envelhecido 
dez anos, como se fosse um homem que em tempos estivera cheio de for as e que por fim perdera uma longa batalha contra a doena que acabara por consumi-lo. Os seus 
olhos baixos olhavam para as pantufas da priso. A sua atitude era a de algum que desejava desaparecer por artes mgicas. - Quem s tu? - perguntou-lhe a Melinda 
de novo. - Como  que te chamas? - John Coffey, minha senhora - respondeu ele, ao que ela respondeu imediatamente: - Mas que no se escreve como a bebida. O Hal, 
que continuava ao lado da mulher, ficou estupefacto. A Melinda sentiu a reaco do marido e bateu-lhe na mo num gesto tranquilizador, sem despregar o olhar do homem 
de raa negra. 344 - Sonhei contigo - continuou ela numa voz suave e sonhadora. - Sonhei que andavas perdido na escurido, tal como
  eu. Encontrmo-nos. O John Coffey continuou calado. . Encontrmo-nos no meio da trevas - acrescentou a Melinda. - Levanta-te, Hal, ests a tolher-me os movimentos. 
O marido levantou-se, olhando com um olhar descrente enquanto ela afastava para trs a coberta da cama. - Melly, tu no podes... -No digas disparates - retorquiu 
ela, descrevendo um movimento circular com as pernas por cima da cama. - Claro que posso. - Alisou a camisa de dormir, espreguiou-se e levantou-se da cama. - Meu 
Deus - murmurou o Hal. - Meu bom Deus que estais no cu, olhem bem para ela! A Melinda dirigiu-se para o John Coffey. O Brutal manteve-se afastado dela, exibindo 
no rosto uma expresso de perplexidade. Ela vacilou um pouco ao dar o primeiro passo, um pouco menos ao dar o segundo e, em seguida, at essa hesitao desapareceu 
do seu andar. Naquele momento, ocorreu-me a imagem do Brutal a entregar o carretel colorido ao Delacroix dizendo: "Lana-o... quero ver como  q
 ue ele corre." O Mister Jingles tinha coxeado um pouco nessa altura, mas na noite seguinte, na noite em que o Del percorrera a Milha, o rato j estava ptimo. A 
Melly colocou os seus braos em redor do John, abraando-o. Este deixou-se ficar imobilizado por um momento, permitindo que o abraassem e, pouco depois, ergueu 
uma mo, acariciando o topo da cabea da Melinda. E f-lo com uma suavidade infinita. A tez do seu rosto continuava acinzentada. Achei que ele tinha um aspecto terrivelmente 
adoentado. Ela afastou-se mantendo o rosto erguido na direco do dele. - Muito obrigada. - No tem de qu, minha senhora. A Melinda voltou-se para o Hal, regressando 
para junto dele. Este colocou-lhe um brao por cima dos ombros.

- Paul... - era a voz do Harry. Estendia o pulso direito na minha direco, batendo no mostrador do relgio. Eram quase trs da manh. Por volta das quatro e meia 
a luz do dia 345 comearia a despontar. Se pretendamos que o Coffey regressasse a Cold Mountain antes do nascer do dia, teramos de partir dentro em pouco. E eu 
queria que ele regressasse. Em parte porque, quanto mais aquela situao se prolongasse, menores seriam as hipteses de conseguirmos que no dessem pela nossa falta, 
como era evidente. Mas para alm disso, tambm queria que o John estivesse num lugar onde eu poderia, com toda a legitimidade, chamar um mdico que o observasse, 
se necessrio. Olhando para ele, achei muito provvel que isso viesse a acontecer. O casal Moores encontrava-se sentado na beira da cama com os braos  volta um 
do outro. Ainda pensei em pedir ao Hal que fssemos at  sala de estar, para poder dar-lhe uma palavrinha em particular, mas aperc
 ebi-me de que poderia esperar at as galinhas terem dentes e que naquele momento ele no se mexeria de onde estava. Talvez conseguisse afastar os olhos da Melinda 
- no mnimo, durante alguns segundos quando o Sol comeasse a despontar, mas no naquela altura. - Hal, temos de nos ir embora. Ele acenou com a cabea sem olhar 
para mim. Observava a cor nas faces da mulher, a curva natural e descontrada que os seus lbios formavam, os seus novos cabelos negros. Bati-lhe no ombro com a 
fora suficiente para lhe despertar a ateno, ainda que s por uns escassos momentos. - Hal, ns nunca estivemos em tua casa. O qu?... -- Nunca viemos aqui - continuei. 
- Mais tarde havemos de conversar, mas por agora  s o que necessitas de saber. Nunca viemos a tua casa. - Sim, de acordo... - Fez um esforo para se concentrar 
em mim por alguns instantes, o que, nitidamente, foi bastante difcil. - Tiraste-o de l, achas que conseguirs voltar a met-lo
  l dentro? - Acho que sim. Talvez. Mas agora temos de nos pr a andar. i - Como  que soubeste que ele podia fazer isto? - Ento, abanou a cabea, como se compreendesse 
que aquela no era a altura mais oportuna para uma conversa daquele teor. Paul... muito obrigado. - No  a mim que tens de agradecer - repliquei. Agradece ao John. 
O Hal olhou para o John Coffey e estendeu-lhe a mo, tal como eu tinha feito no dia em que o Harry e o Percy o escoltaram at ao bloco. - Obrigado. Muitssimo obrigado 
- agradeceu o Moores. O John ficou a olhar para aquela mo. O Brutal acotovelou-lhe o flanco de uma maneira pouco despercebida. O John mostrou-se sobressaltado e 
depois agarrou na mo, dando-lhe um aperto. Para cima, para baixo, de regresso ao centro e soltar. -No tem de qu -.disse o John ao homem que, no decorrer normal 
dos acontecimentos, agarraria numa caneta com aquela mesma mo, a fim de assinar a ordem de execuo do John Coffey. O Harry
 bateu uma vez mais no mostrador do seu relgio de pulso, desta feita com um gesto de maior urgncia. - Brute`? - chamei. - Ests pronto? - Ol, Brutus - saudou 
a Melinda numa voz cheia de jovialidade, como se houvesse reparado na sua presena pela primeira vez. -  um prazer ver-te. Os cavalheiros gostavam de tomar uma 
chvena de ch? E tu, Hal? Eu posso prepar-lo. Levantou-se outra vez. - Tenho andado um pouco adoentada, mas agora estou a sentir-me lindamente. Muito melhor do 
que h muitos anos a esta parte. - Muito agradecido, Mistress Moores, mas temos de nos ir embora - retorquiu o Brutal. - J passa da hora de o John ir para a cama. 
- Sorriu a indicar que se tratava de uma brincadeira, mas o olhar que lanou ao John expressava tanta ansiedade como a que eu prprio sentia. - Bem... se tm a certeza... 
- Sim, minha senhora. Vamos embora, Coffey. - Deu um pequeno empurro no brao do John para que ele comeasse a andar, o que este fez obe
 dientemente.

- Esperem s um minuto! - exclamou a Melinda, soltando-se da mo do Hal correndo num passo ligeiro como o de uma rapariguinha em direco ao John. Colocou os seus 
braos  volta dele e deu-lhe outro abrao. Em seguida, levou a mo  nuca e desapertou um fio fino que retirou do interior do corpete. Na extremidade havia um medalho 
de prata. Estendeu-o ao John, que olhou para a jia com uma expresso de incompreenso. -  a imagem de So Cristvo - informou ela. - Quero que fiques com ela 
Coffey, e que a uses ao pescoo. Manter-te- em segurana. Por favor, coloca-a ao pescoo, f'lo por mim. 346 347 Visivelmente perturbado, o John olhou para mim; 
por mi nha vez, olhei para o Hal, que primeiro abriu as mos num gesto de impotncia e depois assentiu com a cabea. - Aceita, John - disse eu. -  um presente para 
ti. O John aceitou o fio, enfiou-o pelo pescoo forte que nem o de um touro e colocou a medalha de So Cristv=E
 3o no interior da sua camisa. Naquele momento j tinha parado completamente de tossir, mas fiquei com a impresso de que parecia mais doente, com a pele mais lvida, 
do que em qualquer outra altura. - Muito obrigado, minha senhora - agradeceu ele. - No - replicou Melinda -, eu  que tenho de te agradecer. Muito obrigada, John 
Coffey. 9 No caminho de regresso, fui sentado na cabina da camioneta, enquanto Harry ia atrs; sentia-me muito satisfeito por ir ali. O sistema de aquecimento estava 
avariado, mas pelo menos no nos encontrvamos em terrenos descampados. J havamos percorrido pouco mais de quinze quilmetros quando o Harry avistou um pequeno 
desvio, por onde entrmos. - O que  que se passa? - perguntei. -  algum rolamento? - Na minha mente, o problema tanto poderia ser esse como qualquer outro componente 
do motor da Farmall, uma vez que o som que vinha da transmisso indicava que esta se encontrava  beira de ficar irremediavelmente a
 variada. - No - respondeu o Harry num tom de voz de quem se desculpava. - S preciso de verter guas, mais nada. Tenho a bexiga quase a rebentar. Acabmos todos 
por lhe seguir o exemplo, com a excepo do John. Quando o Brutal lhe perguntou se no gostaria de descer da camioneta para nos ajudar a regar o matagal, ele limitou-se 
a sacudir a cabea sem erguer o olhar para ns. Permanecia encostado  parte de trs da cabina, enrolado num dos cobertores do exrcito como se este fosse um poncho 
mexicano. Eu no conseguia deduzir nada pela cara dele; todavia, ouvia a sua respirao - seca e entrecortada, como vento a soprar atravs de um canudo. Aquilo no 
me agradou nada. 348 Caminhei at um macio de salgueiros, desapertei a breguilha e deixei correr. Ainda no me encontrava suficientemente distanciado da minha infeco 
urinria para que a amnsia se tivesse assenhoreado inteiramente do meu corpo, e senti-me grato por conseguir ap
 enas urinar sem ter vontade de gritar. Ali fiquei a esvaziar a bexiga enquanto olhava para a Lua; mal me tinha dado conta de que o Brutal se encontrava junto de 
mim, a fazer a mesma coisa que eu, at que ele comeou a falar. - Ele nunca se sentar na Velha Fasca. Voltei-me na sua direco, surpreendido e um pouco assustado 
pela certeza inexorvel daquilo que a sua voz me transmitia. - O que  que queres dizer com isso? - Quero dizer que ele engoliu aquela coisa em vez de a ter cuspido, 
tal como das outras vezes, por qualquer razo que desconhecemos.  possvel que leve uma semana... ele  muito corpulento e forte, mas aposto que ser rpido. Um 
de ns far a ronda habitual e l estar ele, morto que nem uma pedra em cima da sua tarimba. Pensei que tinha acabado de urinar, mas ao ouvir aquilo senti um arrepio 
a percorrer-me a espinha e urinei um pouco mais. Enquanto voltava a abotoar a breguilha, pensei que aquilo que o Brutal acabara de d
 izer era de uma

racionalidade perfeita. E esperava, depois de tudo considerado, que ele tivesse razo. O John Coffey no merecia morrer de maneira nenhuma, caso eu estivesse certo 
nas concluses a que chegara quanto  morte das garotas Detterick, mas, se ele viesse a morrer, no desejava que fosse pela minha mo. No tinha a certeza de ser 
capaz de a erguer para o fazer, caso se chegasse a essa situao. - Vamos embora - murmurou o Harry da escurido. - Est a fazer-se tarde. Despachemo-nos com isto. 
Enquanto caminhvamos para a camioneta, apercebi-me ~ que tnhamos deixado o John completamente sozinho - uma estupidez bem ao nvel do Percy Wetmore. Pensei que 
talvez ele j houvesse desaparecido; que tivesse cuspido os insectos e, assim que se tivesse dado conta de que ningum o vigiava, se fizesse aos vastos territrios, 
qual aventureiro do antigamente. Tudo o que encontraramos seria o cobertor com que ele se havia agasalhado. 349 Contudo, ele continuava
 no mesmo lugar, sentado com as costas apoiadas contra a traseira da cabina e os antebraos pousados sobre os joelhos. Ao som dos nossos passos, o John soergueu 
o olhar, tentando esboar um sorriso. Aquele trejeito manteve-se suspenso por breves instantes no seu rosto acabrunhado, para logo depois desaparecer. - Como  que 
te sentes, grande John? - perguntou o' Brutal, subindo para a traseira da pequena camioneta e enrolando-se no seu prprio cobertor. - Estou ptimo, chefe - respondeu 
o John distraidamente. - Sinto-me muito bem. - Dentro em pouco estaremos de regresso - acrescentou o Brutal, dando-lhe uma pequena palmada no joelho. _ E depois 
de termos tratado de tudo, sabes que mais? Vou certificar-me de que te arranjo uma grande caneca de caf bem quente com natas e acar. "Podes apostar que sim", 
pensei para comigo, dando a volta at  porta do lado do passageiro e entrando para a cabina. Isto , se antes disso ns no formos apanhados e lana
 dos para dentro de uma cela. No entanto, como desde o momento em que fechramos o Percy na cela do isolamento aquele pensamento no me largava, tal no me preocupou 
o suficiente para me manter acordado. Passei pelas brasas e sonhei com o Calvrio. Com trovoada a oeste acompanhada de um cheiro que poderia ter sido de bagas de 
zimbro. O Brutal, o Harry, o Dean e eu prprio vestamos roupas e chapus de lata como se participssemos num filme do Cecil B. Demille. ramos centuries, imagino 
eu. Havia trs cruzes; o Percy Wetmore e o Eduard Delacroix ~ flanqueavam o John Coffey. Baixei o olhar at  minha mo e verifiquei que segurava num martelo ensanguentado. 
Temos de o tirar dali, Paul!, gritava o Brutal. Temos de o tirar dali! S que isso no era possvel; algum tinha levado a estada de mo. Comecei a explicar isto 
mesmo ao Brutal, mas foi ento que um sacolejo mais violento da camioneta me despertou. Estvamos a fazer marcha atrs
 no mesmo lugar onde  Harry ocultara o veculo algumas horas antes, num dia que me dava a impresso de se ter distanciado at aos primrdios do tempo. Samos da 
cabina e demos a volta at  parte de trs. O Brutal desceu sem qualquer problema, mas os joelhos do John Coffey foram-se abaixo e ele esteve prestes a cair no cho. 
Foi preciso que ns trs o tivssemos amparado, e, mal se encontrava de novo de p, foi acometido por outro dos seus ataques de tosse, sendo este o mais grave de 
todos. Dobrou-se sobre si mesmo, levando a mo  boca e premindo com fora, a fm de abafar a tosse. Quando a tosse lhe passou um pouco, cobrimos uma vez mais a 
dianteira da Farmall com ramadas de pinheiro, tendo comeado a percorrer o caminho por onde viramos horas antes. A pior parte de toda aquela escapadela surrealista 
foi constituda - pelo menos para mim - pelos ltimos duzentos metros, em que quase corremos em direco a sul, ao longo da be
 rma da estrada. Conseguia ver (ou imaginei que via) no cu os primeiros clares do amanhecer e tive a certeza de que qualquer lavrador mais madrugador, j nas suas 
terras para colher as abboras, ou para apanhar as ltimas batatas-doces deixadas nos sulcos onde as semeara, nos

surgiria pela frente no podendo deixar de dar pela nossa presena. E ainda que isso no viesse a acontecer, iramos ouvir algum (na minha imaginao era a voz 
do Curtis Anderson) a gritar: "Parem imediatamente!" no momento em que eu usava a chave Aladino para abrir o porto da cerca que dava acesso ao tnel. Em seguida, 
apareceriam duas dzias de guardas, empunhando carabinas, que entrariam pelo arvoredo, dando a nossa pequena aventura por terminada. Na altura em que realmente chegmos 
 vedao, o meu corao pulsava com tal violncia que eu conseguia ver pequenos pontos de luz a explodir em frente dos meus olhos, acompanhando cada uma das suas 
pulsaes. Sentia as mos geladas e entorpecidas, dando-me a sensao de que no me pertenciam, e, durante um perodo de tempo que me pareceu ser infinito, no fui 
capaz de inserir a chave na fechadura. - Oh, Jesus Cristo, luzes de faris! - exclamou o Harry num gemido. Ergui o olh
 ar e avistei feixes de luz intensa na estrada. O molho de chaves esteve quase a cair-me das mos; consegui agarr-lo no ltimo instante. - D-me as chaves - disse 
o Brutal. - Eu abro o porto. -No  necessrio, j consegui - retorqui. Finalmente, a chave entrou na ranhura e eu fi-la girar. Momentos depois j nos encontrvamos 
do lado de dentro. Agachmo-nos por trs do porto levadio, observando um camio de trans- 350 351 porte do po a passar pela penitenciria. Mesmo ao meu lado ouvia 
a respirao torturada do John Coffey. Soava como fosse um motor que estivesse prestes a acabar-se-lhe o leo Quando samos da priso, ele tinha segurado o porto 
para ns passarmos, sem ter demonstrado o mnimo esforo, mas daquela vez nem sequer nos passou pela cabea pedir-lhe que nos ajudasse; isso estava completamente 
fora de questo, O Brutal e eu conseguimos abrir o porto enquanto o Harry conduzia o John pelas escadas abai
 xo. O homem corpulento caminhava num passo hesitante, mas ainda assim conseguiu descer os degraus. O Brutal e eu passmos pelo porto depois dele to rapidamente 
quanto possvel, depois baixmo-lo e fechmo-lo de novo  chave. - Bolas, tenho a impresso de que vamos... - comeou o Brutal a dizer, mas eu interrompi-o com uma 
violenta cotovelada nas costelas. - No te atrevas a diz-lo - proferi eu. - Nem sequer penses nisso at ele se encontrar em segurana dentro da sua cela. - E ainda 
temos de nos preocupar com o Percy - acrescentou o Harry. As nossas vozes ressoavam com uma vibrao cava no tnel de tijolos. - A madrugada s terminar depois 
de termos tratado dele. Pela forma como os acontecimentos vieram a desenrolar-se, verificmos que a nossa madrugada estava muito longe de ter chegado ao fim. Parte 
Seis O COFFEY PERCORRE A MILHA Encontrava-me eu sentado no solrio de Georgia Pines, com a caneta de tinta permanente do meu pai em r
 iste, e o tempo perdeu todo o sentido para mim, quando me recordei da noite em que o Harry, o Brutal e eu levmos o John Coffey para fora da Milha, at junto da 
Melinda Moores, para tentar salvar-lhe a vida. J escrevi acerca da forma como drogmos o William Wharton, o qual se julgava a reencarnao do Billy the Kid; tambm 
j descrevi como  que pusemos o Percy no colete-de-foras, tendo-o enclausurado na cela do isolamento situada ao fundo da Milha Verde; da mesma maneira, narrei 
a nossa estranha jornada a coberto da noite - que tanto teve de aterrador como de empolgante - e o milagre que nos envolveu a todos quando esta chegou ao fim. Vimos 
o John Coffey arrancar uma mulher, no s da beira da sua sepultura, mas tambm daquilo que dava a impresso de ser o seu fundo. Tambm escrevi sobre a minha percepo 
da vida que existia  minha volta em Georgia Pines. As pessoas de idade desciam para o jantar, depois dirigiam-se todas para o Centro
  Recreativo (sim, pode esboar um sorriso de troa), para a sua dose de programas de comdia do sero apresentados pelas grandes cadeias televisivas. Acho que me 
recordo de a minha amiga Elaine me trazer uma

sanduche, e de eu lhe ter agradecido, t-la comido, mas no posso dizer-vos a que horas da noite  que ela ma ofereceu, nem to-pouco de que  que era. A maior 
parte de mim encontrava-se em 1932, ano ~ que as nossas sanduches eram habitualmente transportadas no carrinho de merendas, coberto com as inscries dos Evangelhos 
do velho Pouca Terra, carne de porco a cinco centimos e'carne em conserva a dez cntimos. 355 Lembro-me da altura em que o lar comeava a ficar sossegado  medida 
que as relquias que ali residiam se preparavam para outra noite de sono agitado e pouco prolongado ouvi o Mickey - que talvez no fosse o melhor auxiliar daquele 
lugar, mas que sem dvida alguma era o mais simptico ,, a cantar Red River Valley na sua voz de tenor, enquanto distribua os medicamentos que as pessoas tinham 
de tomar  noite: apeste vale, dizem que vais partir... Teremos saudades dos teus olhos brilhantes e do teu doce sorriso..." Uma vez mais,
 aquela cano trouxe-me a Melinda  memria, assim como o que ela dissera ao John depois do milagre ter ocorrido. Sonhei contigo. Sonhei que andavas perdido na 
escuri_ do, tal como eu. Encontrmo-nos. O silncio apoderou-se do lar Georgia Pines; a meia-noite chegou e passou, e eu continuei a escrever. Cheguei  altura 
em que o Harry nos chamou a ateno para o facto de que, embora houvssemos conseguido levar o John de regresso  priso sem termos sido apanhados, continuvamos 
a ter o Percy  nossa espera. "A madrugada s terminar depois de termos tratado dele", foi mais ou menos o que ele disse na altura. Foi nesse ponto que aquele longo 
dia passado a escrever com a caneta do meu pai me levou a melhor. Pousei-a - pensei que s por alguns segundos, de forma a poder impri mir um pouco mais de energia 
aos meus dedos tensos - e ento apoiei a cabea sobre o brao, cerrando os olhos para lhes dar algum descanso. Quando voltei a abri-lo
 s e ergui a cabea, o sol da manh banhava-me entrando atravs das ~anelas. Olhei para o relgio, verificando que j passava das oito horas. Tinha dormido, com 
a cabea sobre os braos, qual bbedo envelhecido, durante o que deveriam ter sido seis horas. Levantei-me da cadeira, entorpecido, e espreguicei-me, tentando injectar 
um pouco de vigor nas minhas costas. Pensei em descer at  cozinha, para arranjar algumas torradas antes de iniciar o meu passeio matinal. Mas foi ento que olhei 
para a grande quantidade de folhas de papel j escritas e espalhadas pela mesa. Sem qualquer hesitao, decidi adiar o passeio por algum tempo. Sim, de facto eu 
tinha uma tarefa a cumprir, mas esta poderia esperar, para alm de que naquela manh no me apetecia brincar s escondidas com  Brad Dolan. Em vez de ir passear, 
estava decidido a terminar a minha 356 histria. Em certas circunstncias  prefervel darmos cumprimento ao que temos pela fre
 nte, apesar de a nossa mente e o corpo poderem protestar. Por vezes, essa  a nica maneira de atingir um objectivo. Aquilo que mais fortemente ficou gravado no 
meu pensamento quanto a essa manh foi a forma desesperada como eu queria libertar-me do fantasma persistente do John Coffey. . Muito bem - disse eu para comigo 
mesmo. - Uma milha mais. Mas primeiro... Fui  casa de banho situada ao fundo do .corredor do segundo andar. Enquanto urinava, lancei, por acaso um olhar ao detector 
de fumos instalado no tecto. Isso fez-me pensar na Elaine, na maneira que ela arranjara para distrair o Dolan, para eu poder dar o meu passeio e cumprir a minha 
pequena tarefa no dia anterior. Acabei de urinar com um sorriso arreganhado. Regressei ao solrio, sentindo-me melhor (e muito mais confortvel nas minhas partes 
baixas). Algum - a Elaine, no me restava a mais pequena dvida colocara sobre a mesa um bule cheio de ch, perto das minhas folhas. Bebi com avidez, primeir
 o uma chvena e logo outra, mesmo antes de me sentar. Retomei o meu lugar, tirei a tampa  caneta de tinta permanente e, uma vez mais, recomecei a escrever. Estava 
eu prestes a embrenhar-me de corpo e alma na minha histria quando se projectou uma sombra sobre mim. Ergui o olhar e senti uma reviravolta nas

entranhas. Era o Dolan, que se colocara entre mim e as janelas. Exibia um grande sorriso arreganhado. - Senti a falta do teu passeio matinal, Paulie - comentou ele, 
mordaz. - Por isso, pensei em vir at aqui para ver o que andavas a fazer. Para me assegurar de que no estavas doente. - Tens um corao imenso - repliquei. A minha 
voz era firme, pelo menos at ao momento, mas o meu corao batia descontroladamente. Eu tinha medo dele e no me parece que isso fosse novidade. Embora ele me lembrasse 
o Percy Wetmore, eu nunca sentira receio deste... Mas, quando conheci o Percy, eu ainda era novo. O sorriso do Brad alargou-se, embora no se tenha tornado menos 
desagradvel. - Algumas pessoas disseram-me que passaste toda a noite aqui, Paulie, a escrever o teu pequeno relatrio. Vamos l a 357 ver, isso no  muito bom. 
Os velhos jarretas como tu necessitam do seu sono de beleza. - Percy... - comecei a dizer, mas ento avistei um jeito no seu sorriso ar
 reganhado e apercebi-me do meu erro. Respirei fundo e recomecei. - Brad, o que  que tem contra mim? Por breves momentos, ele mostrou uma expresso intrigada, talvez 
at mesmo de insegurana. Mas pouco depois a careta risonha regressou. - Meu velho - redarguiu ele -,  possvel que seja apenas o facto de eu no gostar da tua 
cara. Seja como for, que  que ests para a a escrevinhar? O ltimo testamento quanto aos teus testculos? Aproximou-se, elevando-se acima de mim. Coloquei vigorosamente 
a mo sobre a folha em que estivera a escrever e comecei a reunir as outras com a mo livre, amachucando algumas com a pressa de as colocar debaixo do brao, em 
segurana. - Ora vamos l a ver - continuou ele como se falasse para uma criana -,isso no vai resultar, minha velha doura. Se o Brad quiser ver, o Brad vai ver. 
E at podes levar essa merda para o cofre de um banco. A sua mo, jovem e hediondamente forte, cerrou-se em redor do meu p
 ulso e comeou a apertar. As dores apoderaram-se da minha mo como se fossem dentes; soltei um gemido. - Larga-me o pulso - disse eu a custo. - Quando me deixares 
ver isso - replicou ele. Deixara de sorrir. No entanto, a expresso no seu rosto era de jovialidade; a espcie de jbilo que se v apenas nos rostos dos in divduos 
que gostam de infligir mal aos outros. - Deixa-me ver, Paulie. Quero saber o que  que andas a escrever. A minha mo comeou a afastar-se da pgina do topo. Era 
nessa em que eu narrava a nossa jornada de regresso com o John, atravs do tnel sob a estrada. - Quero ver se tem alguma coisa a ver com o stio onde tu... - Deixe 
esse homem em paz. Aquela voz era como o vergastar de um chicote num dia quente e seco... e, pela forma como o Brad Dolan saltou, poder-se-ia pensar que o alvo da 
zurzidela fora o seu traseiro. Largou imediatamente a minha mo e esta tombou contra as folhas de papel; ambos olhmos para a porta. 358 A E
 laine Connelly estava junto  ombreira, mostrando um aspecto mais fresco e vigoroso do que aquele que eu vira em muitos dias. Usava umas calas de ganga que deixavam 
ver os contornos das suas ancas magras e pernas alongadas; tinha os cabelos presos por uma fita azul. Nas suas mos atacadas pela artrite havia um tabuleiro - continha 
sumo, um ovo mexido, uma torrada e mais ch. Os seus olhos chamejavam. - O que  que voc pensa que est a fazer? - perguntou o Brad. - Ele no pode comer aqui. 
. Pode e  isso mesmo o que vai fazer - respondeu ela no mesmo timbre de voz seco e cheio de autoridade. Eu nunca lhe tinha ouvido aquela entoao de voz, mas naquele 
momento foi muito bem-vinda. Procurei detectar algum vestgio de receio nos seus olhos, mas no vi nada... Neles s adivinhava raiva. - E o que voc vai fazer  
pr-se a andar daqui para fora antes que passe da fase de uma

simples barata incomodativa  de um verme ligeiramente maior... digamos, de Ratos americanus. O Brad deu um passo na direco da Elaine, parecendo simultaneamente 
inseguro e furioso. Aquela combinao era perigosa; todavia, a Elaine no vacilou por um segundo quando ele se aproximou. - Aposto que sei quem  que accionou o 
raio daquele detector de fumos acrescentou o Dolan. - O mais certo  ter sido uma determinada cabra velha que tem garras em lugar de mos. Agora ponha-se a andar 
daqui para fora. O Paulie e eu ainda no conclumos a nossa pequena conversa. - O nome dele  Mister Edgecombe -ripostou ela -, e se eu voltar a ouvi-lo trat-lo 
por Paulie mais alguma vez, tenho a impresso de que posso garantir-lhe que os seus dias de trabalho em Georgia Pines tero chegado ao fim, Mister Dolan. - Mas quem 
 que voc julga que ? - perguntou ele  Elaine. Naquele momento, a sua figura corpulenta sobrepunha-se  dela, e tentava rir-se, mas se
 m grande xito. - Julgo , comeou ela a dizer com muita calma - que sou a av do homem que presentemente  o porta-voz da Cmara de Deputados da Jrgia. Um homem 
que adora os seus ~miliares, Mister Dolan. Muito em especial, os seus familiares mais idosos. O sorriso desenhado a muito custo sumiu dos lbios do homem, da mesma 
forma que o giz desaparece de uma ard 358 359 sia. Vi incerteza, a possibilidade de estar a ser enganado receio de que no fosse esse o caso, e o nascer de uma 
su~ sio lgica: seria bastante fcil verificar a veracidade da afirmao, porque, ela deveria sab-lo bem, logo, estava a dizer a verdade. Subitamente, desatei 
a rir e, embora o meu riso estivesse bastante emperrado, no deixava de ser adequado. Recordo-me das inmeras vezes em que o Percy Wetmore nos ameaara, invocando 
os seus conhecimentos. Agora, pela primeira vez ao longo da minha extensa vida, ouvia essa ameaa ser proferida uma vez mais... mas, daqu
 ela feita, em meu beneficio. O Brad Dolan olhou para mim com uma expresso coroscante e depois voltou a concentrar a sua ateno na Elaine. - Estou a falar a srio 
- disse ela. - De incio, ainda pensei em no interferir... j estou velha e essa atitude pareceume ser a mais fcil. Mas quando vejo os meus amigos a serem maltratados 
e ameaados, no deixo ficar as coisas como esto. Agora, saia daqui sem proferir uma s palavra que seja. Os lbios do Dolan movimentavam-se como os de um peixe... 
Oh, como ele desejava proferir s mais uma palavra (talvez aquela que rima com macabra). No entanto, no se atreveu. Lanou-me um ltimo olhar, passou pela Elaine 
com brusquido e saiu para o corredor. Soltei a respirao num suspiro longo e entrecortado, enquanto ela colocava o tabuleiro  minha frente e se sentava no lugar 
oposto ao meu. - O teu neto  realmente o porta-voz da Cmara de Deputados? - perguntei. -  - respondeu-me ela. - N
 esse caso, o que  que ests a fazer aqui? - O facto de o meu neto ser o porta-voz de um organismo estatal dessa importncia d-lhe poder suficiente para lidar 
com um verme como o Brad Dolan mas no o torna rico' explicou ela com uma gargalhada. - Alm do mais, gosto de viver aqui. A companhia agrada-me bastante. - Vou 
aceitar as tuas palavras  guisa de um cumprimento - disse eu, o que era verdade. - Paul, ests bem? Pareces to cansado. - A Elaine estendeu a mo e afastou-me 
os cabelos da testa e das sobrancelhas. Os seus dedos estavam contorcidos, embora o seu to360 que fosse maravilhoso, e de uma grande frescura. Por breves momentos, 
cerrei os olhos. Quando voltei a abri-los j tinha tomad uma deciso.

 Estou ptimo - repliquei. - Estou quase a chegar ao fim da minha escrita. Elaine, gostarias de ler uma coisa? Ofereci-lhe as pginas que tinha reunido desajeitadamente. 
O mais provvel era terem perdido a sequncia certa - de facto, o Dolan conseguira assustar-me bastante - mas uma vez que haviam sido numeradas, a Elaine poderia 
voltar a coloc-las facilmente na devida ordem. Ela observou-me com ar pensativo, sem contudo aceitar o que eu lhe oferecia. Pelo menos, de momento. - J acabaste? 
- Vais precisar da tarde toda para ler tudo o que j escrevi - disse-lhe eu. Isto , se fores capaz de decifrar a minha letra. Naquele momento, ela aceitou as folhas, 
olhando para as pginas manuscritas. - Tens uma letra muito cuidada, ainda que as tuas mos estejam obviamente fatigadas - observou ela. - No terei qualquer problema 
em ler o que escreveste. - Quando tiveres acabado, j eu terei passado para o papel a parte que ainda me falta - acrescentei. - Poder
 s ler o resto dentro de mais ou menos trinta minutos. E ento... se continuares interessada e quiseres... gostaria de te mostrar uma coisa. - Isso ter alguma relao 
com o lugar onde costumas ir na maior parte das manhs e tardes? Acenei afirmativamente. Elaine meditou naquilo durante o que me pareceu ser uma eternidade e depois 
fez um acenar de cabea e levantou-se da cadeira com as pginas escritas na mo. - Vou sentar-me nas traseiras - disse ela. - Esta manh o sol est muito quente. 
- E o drago foi derrotado - retorqui. - Desta vez pela gentil dama. A Elaine sorriu debruou-se sobre mim e beijou-me naquele ponto sensvel que me provoca sempre 
um arrepio de prazer. - Esperemos que sim - redarguiu ela -, mas a minha experincia diz-me que os drages como o Brad Dolan so muito difceis de desaparecer. - 
Teve um momento de hesi361 tao. - Boa sorte, Paul. S espero que consigas derrotar o que quer que seja que te tem vindo a atorm
 entar. - Tambm eu espero que sim - declarei eu, pensando no John Coffey. Eu no consegui impedir o mal, dissera ele. Tentei, mas j era demasiado tarde. Comi os 
ovos mexidos que a Elaine me trouxera, bebi o sumo e deixei a torrada para mais tarde. Em seguida, agarre de novo na caneta e recomecei a escrever, pelo que esperava 
; viesse a ser a ltima vez. Uma ltima milha. Uma milha verde. 2 ~: E se isso no resultar, agacha-te no stio onde calculas que ele vai cair, para lhe amortecer 
a queda - acrescentou o Brutal. . Credo! - exclamou o Harry numa voz murcha. - Devias.estar no mundo do espectculo, Brute, pois consegues ter muita graa: - Sem 
dvida que tenho sentido de humor - admitiu o Bruto e no fim, l conseguimos levar o John pelas escadas acima. A minha maior preocupao era a probabilidade de ele 
vir a desmaiar,. mas tal no se verificou. - Vai at  sala da arrecadao e v se no est l ningum -disse eu ao Harry,
 respirando com dificuldade. - E se no estiver, o que  que devo dizer? - perguntou o Harry, agachando-se para poder passar por baixo do meu brao. - "Ningum  
vista!" e depois dou um salto at aqui? - No te armes em chico-esperto - disse-lhe o Brutal. O Harry entreabriu um pouco a porta e espreitou. Fiquei com a sensao 
de que esteve naquela posio durante muito tempo. Por fim, afastou a cabea para trs, apresentando uma expresso quase jovial. -Ningum  vista. Est tudo tranquilo. 
- Esperemos que as coisas se mantenham assim - retorquiu o Brutal. - Vamos l, John Coffey, j ests quase em casa.

Conseguiu atravessar a arrecadao pelo seu prprio p, embora tivssemos de o ajudar a subir os trs degraus at ao meu gabinete, e depois quase o empurrssemos 
para que transpusesse a porta baixa. Quando voltou a pr-se de p, a sua respirao era estertorosa e os seus olhos tinham uma expresso vitrificada. E - reparei 
eu com verdadeiro horror - a parte direita da sua boca arrepanhara-se para baixo, assemelhando-se  deformidade de que a Melinda sofrera. O Dean deu pela nossa chegada 
e aproximou-se vindo da mesa no outro extremo da Milha Verde. - Graas a Deus! Pensei que nunca mais voltavam; quase julguei que tinham sido apanhados, ou que o 
director se havia virado contra vocs ou ainda que.. interrompeu-se reparando no John pela primeira vez desde que se aproximara de ns. - Deus nos valha, o que  
que ele tem? Parece que est a morrer! Ele no est a morrer... pois no, John? - perguntou o Brutal. O seu olhar transmitiu uma ad
 vertncia ao Dean. 363 Nessa madrugada, quando levmos o John Coffey de volta ao Bloco E, a maca foi uma necessidade em vez de um luxo. Duvido muito que ele houvesse 
sido capaz de percorrer o tnel pelo seu prprio p; exige mais energia caminhar agachado do que a direito, e aquele tecto era diabolicamente baixo para qualquer 
pessoa da altura do John Coffey. No me agradava nada a ideia de ele poder ir-se abaixo naquele lugar. Como justificaramos ns a sua presena ali e a razo por 
que havamos metido o Percy na casaca de cerimnia dos loucos, para depois o enclausurarmos na cela do isolamento? No entanto, tnhamos a maca - graas a Deus - 
e o John Coffey deitou-se nela como se fosse uma baleia acabada de dar  costa, enquanto o empurrvamos pelos degraus que davam para a arrecadao. Saiu da maca 
a cambalear e ficou de cabea baixa, a respirar com dificuldade. A sua pele tinha uma tonalidade to acinzentada que dava a impresso qu
 e ele se havia rebolado por um monte de farinha. Eu estava convencido de que por volta do meio-dia j ele teria dado entrada na enfermaria... isto , se no tivesse 
morrido j a essa hora. O Brutal lanou-me um olhar acabrunhado e desesperado. Retribu-lhe com outro parecido. - No somos capazes de carregar com ele para cima 
mas podemos ajud-lo - disse eu. - Tu colocas-te debaixo do brao direito dele e eu do esquerdo. - E eu? - perguntou o Harry. - Tu vens atrs de ns e, se te parecer 
que ele vai tom' bar para trs, ds-lhe um empurro para a frente. - Claro que no, eu no quis dizer que ele estivesse realmente a morrer corrigiu o Dean com um 
pequeno sorriso de nervosismo. - Mas que coisa... - Acaba com isso - intervim eu. - Ajuda-nos a lev_lo para a cela. Uma vez mais, no passvamos de pequenas colinas 
que circundavam uma montanha, s que naquele momento a montanha tinha sofrido alguns milhes de anos de eroso e estava bast
 ante curvada e fraca. O John Coffey caminhava com lentido, respirando atravs da boca como um homem de idade que fumasse em demasia, mas, pelo menos, deslocava-se 
pelo seu prprio p. - E quanto ao Percy? - perguntei. - Ele tem estado aos pinotes? . - Ao principio, sim - respondeu o Dean. - Tentava gritar atravs da fitacola 
com que lhe tapaste a boca. E praguejou. - Que Deus nos valha! - atalhou o Brutal. - Ainda foi uma boa coisa os nossos ouvidos sensveis terem estado algures que 
no aqui. - Desde ento, tem-se limitado a dar um coice de mula, de vez em quando, contra a porta. - O Dean parecia to aliviado por nos ver que quase balbuciava 
incoerentemente. Os culos escorregaram-lhe para a ponta do nariz, que brilhava devido ao suor, e ele empurrou-os para cima. Passmos pela cela do Wharton. Aquele 
jovem sem prstimo algum encontrava-se deitado de costas, a ressonar como uma tuba. Naquela ocasio, no restava a mnima dvida de que os seu
 s olhos estavam fechados.

O Dean reparou em mim a olhar para o interior daquela cela e riu-se. - Esse tipo no arranjou problemas! Desde que se deitou na tarimba que no voltou a mexer-se. 
Tem estado como morto para o mundo. Quanto ao Percy ter dado alguns pontaps  porta de quando em vez, isso nunca chegou a incomodar-me muito. Para vos dizer a verdade, 
at me senti satisfeito com isso. Se ele no fizesse barulho nenhum, teria comeado a perguntar a mim mesmo se ele no teria sufocado com a mordaa. Mas isso no 
foi o melhor. Sabem o que  que foi o melhor? Isto por aqui tem estado to tranquilo como uma manh de Quarta-Feira de Cinzas em Nova Orlees! Durante a noite ningum 
veio c abaixo! - O Dean disse as ltimas pa 364 laves numa voz de triunfo cheia de regozijo. - Conseguimos executar o nosso plano, rapazes! Misso cumprida! Aquilo 
f-lo lembrar-se do motivo por que havamos decidido levar a cabo toda aquela comdia, e perguntou pela Melinda. Est =F
 3ptima - respondi. Entretanto, chegramos  cela do John. Aquilo que o Dean dissera tinha comeado a penetrar nos nossos pensamentos: Conseguimos executar o nosso 
plano, rapazes". Misso cumprida. - Foi como... Vocs sabem o que quero dizer... Como com o rato? - inquiriu o Dean. Lanou um "rpido olhar para a cela vazia onde 
o Delacroix vivera com o Mister Jingles e em seguida olhou para a cela do isolamento, a qual parecera ter sido o ponto de provenincia do rato. Baixou a voz, da 
mesma maneira que as pessoas costumam fazer ao entrar numa igreja espaosa, onde at mesmo o silncio d a impresso de sussurrar. - Foi um... - O Dean interrompeu-se, 
engolindo em seco. - Uma coisa repentina. Vocs percebem o que quero dizer... assim como um milagre? Ns os trs, os que haviam estado presentes, entreolhmo-nos 
por breves instantes. - O que ele fez foi arranc-la ao raio da sepultura - disse o Harry. - Sim, podes ter a certeza de que se tratou
 de um autntico milagre. O Brutal abriu a fechadura dupla da porta da cela e deu ao John um empurro suave para que este avanasse. - Vamos l a entrar, matulo. 
Descansa um pouco. Ns s vamos tratar do Percy... - Ele  um homem mau - atalhou o John em voz baixa com uma entoao monocrdica. - Isso  uma grande verdade, 
sem dvida,  mau como ~ bruxo - concordou o Brutal no seu tom de voz mais tranquilizador - mas no tens de te preocupar com ele, pois no permitiremos sequer que 
ele se aproxime de ti. S tens de te deitar confortavelmente na tua tarimba, e eu vou preparar num instante aquela caneca com caf que te prometi. Bem quente e forte. 
Vais sentir-te um novo homem. O John sentou-se pesadamente sobre a tarimba. Pensei que ele se estenderia ao comprido e se voltaria para a parede, como era hbito; 
contudo, limitou-se a ficar sentado, com os dedos entrelaados de forma lassa entre os joelhos, de cabea baixa e a respirar pela b
 oca com dificuldade. A medalha do 365 So Cristvo, que a Melinda lhe oferecera, sara da abertura do pescoo da camisa e oscilava, suspensa no ar, de um lado 
para o outro. "Manter-te- em segurana", dissera-lhe ela mas o certo  que o John Coffey no parecia estar nada em segurana. Pelo contrrio, dava a impresso de 
ter tomado o lugar da Melinda  beira da sepultura de que o Harry falara, Todavia, naquela altura, eu no podia dedicar a minha ateno ao John Coffey. Virei-me 
para os outros. - Dean, vai buscar a pistola e o basto do Percy. - De acordo. - Dirigiu-se para a secretria e abriu a gaveta fechada  chave onde aqueles objectos 
haviam sido guardados, trazendo-os para onde nos encontrvamos. - Esto prontos? - perguntei. Os meus homens... bons homens, e eu nunca me tinha sentido to orgulhoso 
deles como naquela noite... acenaram afirmativamente. O Harry e o Dean mostravam um certo nervosismo; o Brutal mantinha-se firme
 como sempre. Muito bem, serei eu a conduzir a conversa. Quanto menos vocs abrirem a boca

melhor, e muito mais depressa daremos este assunto por encerrado... para o melhor ou para o pior. De acordo? Voltaram a acenar afirmativamente. Respirei fundo e 
encaminhei-me para o fundo da Milha, em direco  cela do isolamento. Quando abria porta, o Percy soergueu o olhar, piscando os olhos quando a luz incidiu sobre 
ele. Encontrava-se sentado no cho a lamber a fita-cola com que eu lhe tapara a boca. A parte que eu tinha enrolado na regio posterior do pescoo j se deslocara 
(provavelmente a transpirao e a brilhantina que ele aplicara tinham contribudo para que isso acontecesse), estando ele prestes a conseguir descolar tambm o resto 
que ainda faltava. Mais uma hora e teria comeado a berrar por socorro com toda a fora dos seus pulmes. Quando entrmos, ele serviu-se dos ps para se impulsionar 
um pouco s arrecuas, mas deteve-se, sem dvida ao dar-se conta de que no podia ir para lado nenhum, a no ser para o canto sudeste
 daquele espao. Retirei das mos do Dean o seu revlver e o basto, apontando-os na direco do Percy. - Queres voltar a ficar com isto? - perguntei. Ele olhou 
para mim com uma expresso desconfiada e assentiu com a cabea. - Brutal - chamei. - Harry. Ponham-no de p. - Ambos se debruaram agarrando-o pela lona do colete-de-foras 
abaixo do sovacos e levantando-o do cho. Aproximei-me dele at termos ficado quase nariz contra nariz. s minhas narinas chegou o cheiro acre do suor que o encharcava. 
Este devia ter tido origem nos esforos que ele fizera para se libertar do colete-de-foras e nos ocasionais pontaps  porta que o Dean tinha ouvido; no entanto, 
conclu que a maior parte da sua transpirao se devia pura e simplesmente ao medo; medo daquilo que poderamos fazer-lhe quando regressssemos. "No me acontecer 
nada, eles no so assassinos", teria pensado o Percy... mas talvez se tivesse lembrado da Velha Fasca
 e que sim, de certa forma, ramos assassinos. Eu prprio tinha tratado da execuo de setenta e sete, mais do que qualquer dos homens cujo peito tinha prendido 
com a correia, mais do que os que foram creditados ao prprio sargento York durante a Primeira Guerra Mundial. Matar o Percy no teria tido qualquer lgica, mas 
o certo  que j nos comportramos de maneira ilgica, teria ele pensado enquanto estivera sentado ali, com os braos presos nas costas, a trabalhar activamente 
com a lngua a fim de conseguir libertar a boca da fita-cola. Alm do mais, o mais provvel seria a lgica no ter qualquer poder sobre os pensamentos de uma pessoa, 
quando esta se encontra quase imobilizada no cho de uma sala com paredes almofadadas, to bem embrulhada como uma aranha imobilizava qualquer mosca. O que significava 
que, se eu no conseguisse fazer com ele o que quisesse naquele momento, jamais o conseguiria. - Agora vou tirar a fita da boca se me
  prometeres que no comeas a berrar - disse-lhe eu. - Quero ter uma conversa contigo e no um concurso de gritos. O que  que tens a dizer a isto? Prometes ficar 
calado? Vi o alvio no seu olhar quando ele compreendeu que, se eu desejava realmente conversar, ainda lhe restavam algumas hipteses de sair daquela situao com 
o coiro intacto. Acenou que sim com a cabea. - Se comeares a fazer barulho, a fita regressa  tua boca - adverti-o eu. Ests a compreender? Um outro acenar de 
cabea, desta feita bastante impaciente. Estendia mo agarrei no extremo da fita que ele j tinha soltado e dei-lhe um vigoroso puxo, o que provocou um som estrdente. 
O Brutal retraiu-se todo. O Percy ganiu de dor e 367 366 comeou a esfregar os lbios. Tentou falar, mas apercebeu-se, de que era impossvel faz-lo com a mo a 
cobrir a boca _ afastou-a. - Tira-me deste casaco de doidos, imbecil - disse ele desabridamente. - Num minuto - afirmei. - Agora
 ! Agora! J... Dei-lhe uma bofetada em cheio na face antes mesmo de me aperceber que estava prestes a faz-lo... mas  claro que me encontrava bem ciente de que 
as coisas poderiam chegar quilo. At mesmo durante a primeira conversa que eu tivera com

o director Moores acerca do Percy, aquela em que ele me aconselhara a delegar a responsabilidade da execuo do Delacroix no Percy eu soubera que a situao poderia 
chegar quele ponto. A mo de um homem  como um animal que s est meio domesticado; a maior parte das vezes  boa, mas por vezes descontrola-se e morde a primeira 
coisa que lhe surge  frente. O som foi o de um estrpito agudo, como o estalar de um galho ressequido. O Dean arquejou. O Percy ficou a olhar para mim profundamente 
chocado, com os olhos arregalados quase a saltarem-lhe das rbitas. A sua boca abriu-se e fechou-se como a de um peixe a nadar dentro de um aqurio. - Cala a boca 
e ouve o que tenho para te dizer - ordenei eu. - Merecias ser castigado pelo que fizeste ao Del, e demos-te o que merecias. Esta foi a nica forma. Todos concordmos, 
com excepo do Dean, mas ele est pronto a alinhar connosco, caso contrrio vir a arrepender-se. No  verdade, Dean
 ? - Sim - respondeu este num murmrio. Estava plido como a cal. - Acho que sim. - E faremos com que te arrependas de ter nascido - acrescentei. - Iremos conseguir 
que as pessoas tenham conhecimento da maneira como sabotaste a execuo do Delacroix... - Sabotei!... - ... e de como quase fizeste com que o Dean morresse. Daremos 
tanto  lngua que te impediremos de conseguir manter qualquer emprego que o teu tio te arranje. Entretanto, o Percy comeara a sacudir violentamente a cabea. Ele 
no acreditava naquilo, talvez no fosse capaz de acreditar naquilo. A marca da minha mo ficara na sua face empalidecida. 13, independentemente do que possa vir 
a acontecer, assegurar-me-ei de que sejas espancado quase at  morte. No  necessrio sermos ns a faz-lo. Tambm temos alguns conhecimentos, Percy, ou sers 
to idiota que ainda no tenhas compreendido isso. Eles no se encontram sediados na capital do estado, mas isso no impede e
 ssas pessoas de saberem como legislar a respeito de determinados assuntos. So pessoas que tm amigos aqui dentro, pessoas que tm irmos aqui, que tm pais c 
dentro. Teriam todo o gosto em amputar o nariz ou o pnis de um monte de merda como tu. Estavam dispostos a faz-lo apenas para que algum por quem se interessam 
pudesse ter mais trs horas por semana no ptio. O Percy deixara de abanar a cabea. Naquele momento, limitava-se a olhar com fixidez. Tinha os olhos marejados de 
lgrimas, apesar de estas no carem. Na minha opinio eram lgrimas de raiva e de frustrao. Ou talvez eu esperasse que assim fosse. - Muito bem... Agora olha 
para o lado bom das coisas; Percy. Os teus lbios ardem-te um pouco por eu ter arrancado a fita adesiva, calculo eu, mas alm disso no tens mais nada lesionado, 
se excluirmos o teu orgulho... e mais ningum tem necessidade de saber aquilo que se passou, excepto os que se encontram presentes nest
 a sala neste momento. E ns nunca falaremos disto, no  verdade, rapazes? Todos eles anuram. - Claro que no - asseverou o Brutal. - Os assuntos da Milha Verde 
permanecem na Milha Verde. Sempre assim aconteceu. - Tu vais ser transferido para o Briar Ridge e ns deixar-te-emos em paz e sossego at que isso acontea - acrescentei. 
- Tencionas deixar as coisas como esto, Percy, ou pretendes armar-te em duro connosco? Fez-se um longo silncio, muito longo, enquanto ele ponderava a questo... 
Eu quase conseguia ver as cremalheiras a engrenarem na sua cabea, enquanto ele considerava e rejeitava possveis contra-ofensivas. Por fim, deve ter havido uma 
verdade mais bsica que se sobreps ao resto: a fita adesiva fora retirada da sua boca, mas ele continuava imobilizado no interior do colete-de-foras, e o mais 
certo seria ter muita vontade de mijar. - Muito bem - anuiu ele finalmente. - Vamos considerar o assunto encerrado. Agora tirem-me de dentr
 o desta cela. Nem sinto os ombros... 369 368

O Brutal deu alguns passos em frente, afastando-me ao passar por mim e agarrando no rosto do Percy com as suas mos enormes - os dedos fizeram presso sobre a bochecha 
direita do homem e o polegar deixou uma marca profunda na esquerda. - Daqui a pouco - disse ele. - Primeiro tens de ouvir o que quero dizer-te. Aqui o Paul  o grande 
chefe, o que por vezes; o fora a exprimir-se com uma certa elegncia, Tentei recordar-me de qualquer coisa elegante que pudesse ter dito ao Percy, mas no me recordei 
de nada. Ainda assim, conclu que talvez fosse prefervel manter a boca fechada. O Percy parecia adequadamente aterrorizado e eu no queria estragar isso. - As pessoas 
nem sempre compreendem que ser-se elegante no  o mesmo que ser-se frouxo, e  a que eu costumo entrar em aco - continuou o Brutus. - No me preocupo em agir 
de forma elegante, limito-me a dizer directamente o que tem de ser dito. Portanto aqui vai: caso decidas faltar  tua prome
 ssa, ns vamos ser lixados. Mas depois havemos de te encontrar... nem que tenhamos de ir  Rssia, havemos de te encontrar... e seremos ns quem vai lixar-te. Vamos 
lixar-te at que desejes estar morto e, em seguida, esfregaremos vinagre nas partes que estiverem a sangrar. Ests a compreender? O Percy acenou que sim. Com os 
dedos do Brutal a enterrarem-se-lhe nas faces macias, o Percy assemelhava-se estranhamente ao velho Pouca Terra. Ento, o Brutal largou-o e recuou. Acenei para o 
Harry, ele aproximou-se do Percy por trs e comeou a desapertar fivelas e a desabotoar. - No te esqueas daquilo que acabmos de dizer, Percy - disse o Harry. 
- No te esqueas e deixa que guas passadas sejam guas passadas. Tudo aquilo era adequadamente assustador, trs papes de uniformes azuis... Todavia, eu senti-me 
invadido por um grande desespero. Ele podia ficar calado por um dia ou uma semana, considerando as vrias hipteses, mas no fim haveria
 dois factores que se conjugariam: a crena nos seus conhecimentos e a incapacidade que tinha de se afastar de uma situao de onde sairia a perder. Quando isso 
se concretizasse deitaria tudo da boca para fora. Talvez tivssemos ajudado a salvar a vida da Melly Moores ao levarmos o John Coffey at junto dela; e eu no teria 
voltado atrs ("nem por todo o ch da China", como se costumava dizer nesses tempos), mas no fim haveriamos de ir parar ao banco dos suplentes e o rbitro iria expulsar-nos 
do jogo. A menos que o assassinssemos, no existia maneira nenhuma de podermos obrigar o Percy a manter a sua parte da combinao, sobretudo depois de estar longe 
de ns e de comear a rememorar aquilo por que tinha passado. Olhei de esguelha para o Brutal e verifiquei que ele estava a pensar na mesma coisa que eu. Isso no 
me surpreendeu. A estupidez era coisa que no caracterizava o filho de Mrs. Howell, Brutus. Encolheu ligeiramente os ombros, mas f
 oi o suficiente para eu compreender. E ento?, dizia aquele encolher de ombros. O que mais podemos fazer, Paul? Fizemos o que tnhamos a fazer, e fizemo-lo da melhor 
maneira possvel. Sim. E os resultados tambm no tinham sido to maus como isso. O Harry desapertou a ltima fivela do colete-de-foras. Com uma expresso de desdm 
e raiva, o Percy deixou-o cair pelos braos indo tombar aos seus ps. No olhava para nenhum de ns, pelo menos de frente. - Devolvam-me a minha arma e o meu basto 
- pediu ele. Entreguei-lhos. Meteu o revlver dentro do coldre, e o basto no suporte habitual. - Percy, se pensares sobre o assunto... - Oh, mas isso  o que tenciono 
fazer - interrompeu ele, passando de raspo por mim. - Tenciono pensar muito no assunto. E vou j comear. A caminho de casa. Um de vocs poder picar o meu carto 
de ponto  hora a que o turno terminar. Alcanou a porta da cela do isolamento e voltou-se para nos observar
  com uma expresso desdenhosa, onde se adivinhava constrangimento e clera... uma combinao letal para o segredo que ainda tnhamos esperanas de conseguir manter. 
- A menos que, como  evidente, queiram explicar por que motivo larguei o servio mais cedo.

Abandonou a cela e comeou a percorrer a Milha Verde num passo largo, esquecendo-se, no meio de toda a agitao que o invadia, qual a razo por que o corredor central 
de linleo verde era to largo. J cometera o mesmo erro numa ocasio anterior e safara-se sem problemas de maior. Mas, desta feita, no ia ser capaz de se desenvencilhar 
com tanta facilidade. 370 371 Segui-o at  porta, tentando pensar em algo que o acalmasse - no queria que ele sasse do Bloco E daquela maneira todo suado e desalinhado, 
com a marca avermelhada da minha mo na sua bochecha. Os outros trs seguiram os meus passos. O que aconteceu em seguida, aconteceu com muita rapidez - e no durou 
mais de um minuto, talvez at menos. No' entanto, recordo-me vividamente de tudo at hoje em grande parte porque, acho eu, contei o que sucedeu  Janice' quando 
cheguei a casa. Aquilo que aconteceu em seguida _ a reunio com o Curtis Anderson ao alvorecer, o inqurito, o en
 contro com a imprensa que o Hal Moores organizou para . ns (como  bvio, nessa altura j ele havia reassumido as suas funes), e a comisso de inqurito que 
foi instituda temporariamente na capital do estado - essas coisas foram-se apagando da minha memria com a passagem dos anos,  semelhana de tantas das minhas 
recordaes. Mas no que diz respeito ao que realmente aconteceu logo em seguida na Milha Verde, sim, disso recordo-me perfeitamente. O Percy caminhava pelo lado 
direito da Milha com a cabea baixa, e sou forado a dizer isto: nenhum prisioneiro vulgar lhe poderia ter chegado. No entanto, o John Coffey no era um prisioneiro 
vulgar. O John Coffey era um homem gigantesco, pelo que o seu brao tinha um alcance de gigante. Vi os seus longos braos de pele castanha sarem disparados por 
entre as grades. -Ateno, Percy ateno! - gritei-lhe. O Percy comeou a voltar-se, levando a mo esquerda ao punho do basto.
  Mas foi puxado com violncia contra a frente da cela do John Coffey, com o lado direito do rosto a esmagar-se contra as barras de ferro. Soltou um grunhido e voltou-se 
na direco do Coffey, erguendo o basto de nogueira. Sem dvida que a posio do John era vulnervel em relao ao basto o seu prprio rosto encontrava-se to 
fortemente pressionado entre o espao existente nas duas barras centrais que dava a impresso de pretender fazer passar toda a sua cabea por aquela abertura. Claro 
que isso teria sido impossvel, mas de facto era o que parecia estar a acontecer. A sua mo direita sondou e encontrou a nu~ ca do Percy, fechou-se  volta do pescoo 
deste e puxou a cabea violentamente para a frente. O Percy desferiu um golpe com o basto na fronte do John. O sangue comeou a jorrar 372 Apesar de o Coffey no 
ter prestado a mnima ateno a isso. A sua boca pressionou-se contra a do Percy. Comecei a ouvir um som sussu
 rrante - o rudo de algo a ser libertado, como o exalar de respirao h muito contida. O corpo do Percy deu um solavanco como o de um peixe preso no anzol tentando 
libertarse,.mas nunca chegou a ter a mnima hiptese de fuga; a mo direita do John mantinha-se firmemente agarrada  regio posterior do pescoo do Percy. Os rostos 
dos dois pareciam querer fundir-se como as faces de duas pessoas enamoradas que j tive a oportunidade de ver, enquanto se beijavam apaixonadamente por entre barras. 
O Percy gritou, um som abafado como se houvesse sido solto atravs de uma mordaa, e fez outro esforo para conseguir recuar. Durante breves instantes, os lbios 
dos dois apartaram-se um pouco, o que me permitiu avistar o turbilho negro que saa da boca do John Coffey e entrava na do Percy Wetmore. O que no entrava na deste 
atravs de lbios frementes, entrava pelas suas narinas. Pouco depois, a mo que apertava a nuca do Percy soltou-se um pou
 co, e o rosto deste foi de novo puxado na direco da boca do John; era como se houvesse sido trespassado pelos lbios dele.

Os dedos da mo esquerda do Percy abriram-se. O seu precioso basto de nogueira tombou sobre o linleo verde. Ele no voltou a ter oportunidade de o apanhar do cho. 
Tentei lanar-me para a frente, imagino que me lancei para a frente, mas senti os movimentos tolhidos, como teria acontecido a uma pessoa idosa. Levei a mo  arma, 
mas a correia continuava atravessada na posio de segurana, e inicialmente no fui capaz de a sacar do coldre. Abaixo de mim, tive a sensao de que o solo estremecia, 
 semelhana do que tinha acontecido no quarto da casa dos Moores. No tenho bem a certeza mas parece-me que uma das lmpadas do tecto se estilhaou. Os fragmentos 
de vidro comearam a tombar para o cho. O Harry soltou um grito de surpresa. Por fim, consegui soltar com o polegar a correia de segurana que atravessava a coronha 
da minha pistola de calibre trinta e oito, mas, antes de poder retir-la do coldre, o John j tinha empurrado o
  Percy, afastando-o de si e recuando para o interior da sua cela. O John exibia um arreganho sorridente, esfregando os lbios, como se houvesse provado algo de 
desagradvel. O que  que ele fez? - perguntou o Brutal aos gritos. O que  que ele fez, Paul? - Aquilo que ele extraiu do corpo da Melly encontra-se neste momento 
dentro do Percy - respondi. O Percy fora arremessado contra as barras da antiga cela do Delacroix. Os seus olhos estavam arregalados e sem qualquer expresso. Aproximei-me 
dele com cautela, esperando que ele comeasse a tossir a qualquer momento e a sufocar tal como o John fizera depois de largar a Melinda, mas isso no aconteceu. 
Limitou-se a ficar de p no mesmo lugar. Fiz estalar os meus dedos em frente dos seus olhos - Percy! Eh, Percy! Acorda! Nada. O Brutal juntou-se a mim e aproximou 
as mos do rosto aptico do Percy. - Isso no vai resultar - disse eu. Ignorando as minhas palavras, o Brutal bateu palmas com todo o vigor, duas v
 ezes, exactamente em frente do nariz do Percy. E de facto resultou, ou pelo menos pareceu resultar. As plpebras do Percy estremeceram e ele olhou em volta, atordoado, 
como algum que houvesse sido atingido na cabea e que se esforasse por recuperar a conscincia. Olhou para o Brutal, e depois olhou para mim. Decorridos todos 
estes anos, tenho a certeza de que ele no viu nenhum de ns, mas nessa altura achei que sim; convenci-me de que ele estava prestes a despertar daquela espcie de 
transe. Afastou-se das barras da cela e cambaleou um pouco. O Brutal ajudou-o a recuperar o equilbrio. - Calma, rapaz; ests bem? - O Percy no respondeu, passou 
pelo Brutal e virouse para a secretria no corredor, o posto do guarda de servio. Na altura no cambaleava, no se poderia dizer que o fizesse; contudo, adernava 
um pouco para bombordo. O Brutal estendeu a mo para o equilibrar. Afastei-lhe o brao. - Deixa-o sozinho. - Teria eu dito a mesma coisa
 se soubesse o que iria acontecer a seguir? Tenho feito essa pergunta a mim mesmo num milhar de ocasies desde o Outono de 1932. Nunca consegui obter a resposta. 
O Percy deu doze ou catorze passos e voltou a parar, sempre de cabea baixa. Nesta altura encontrava-se do lado de fora da cela do Bill "Selvagem" Wharton. Este 
continuava a emitir aqueles rudos que pareciam sados de uma tuba de bocal largo. Tinha estado adormecido durante todos estes acontecimentos. Agora que penso no 
assunto, tenho de conclui 374 que ele esteve a dormir ao longo de toda a sua morte, o que o fez ter muito mais sorte do que a maioria dos homens que acabava os seus 
dias ali. Certamente que foi mais afortunado do que aquilo que merecia. Antes de compreendermos o que estava a suceder, o Percy sacou da arma, deteve-se junto das 
barras da cela do Wharton e disparou os seis tiros para o corpo do homem adormecido. Os disparos foram consecutivos,  velocidade a que o gatilho da arma o permitia. 
O
  som que se ouviu naquele espao confinado foi ensurdecedor; quando narrei o ocorrido  Janice na manh seguinte continuava a

mal conseguir ouvir o som da minha prpria voz, devido ao zumbido que sentia nos ouvidos. Corremos para ele, os quatro em simultneo. O Dean foi o primeiro a chegar 
- no percebo bem como, uma vez que ele se encontrava atrs do Brutal e de mim na altura em que o Coffey agarrara no Percy - mas o certo  que foi. Agarrou no pulso 
do Percy, preparado para retirar a arma da mo deste, mas no foi necessrio faz-lo. O Percy soltou o revlver, que foi cair no cho. Os seus olhos percorreram-nos 
como se fossem patins e ns fssemos o gelo. Ouviu-se um som sibilado acompanhado de um cheiro acentuado a amonaco quando a bexiga do Percy no se conteve, seguido 
de outro rudo e de um fedor ainda mais desagradvel quando ele encheu tambm o outro lado das calas. Os seus olhos haviam-se prendido a um canto afastado do corredor. 
Eram uns olhos que, tanto quanto sei, nunca mais voltaram a ver nada neste mundo verdadeiro onde vivemos. Logo no incio
 desta narrativa, eu escrevi que o Percy se encontrava no Briar Ridge, na altura em que o Brutal descobriu as lascas coloridas do carretel do Mister Jingles, o que 
aconteceu dois meses mais tarde, e no menti quanto a isso. No entanto, nunca chegou a tomar posse do gabinete com a ventoinha ao canto; to-pouco teve ao seu dispor 
um grupo de doentes loucos, com quem pudesse fazer o que muito bem lhe apetecesse. Mas imagino que, no mnimo dos mnimos conseguiu ter um quarto s para si. Ao 
fim e ao cabo o homem sempre tinha alguns conhecimentos. O Wharton encontrava-se deitado de lado com as costas contra a parede da cela. Eu no conseguia avistar 
muita coisa nesse momento, para alm de uma grande quantidade de sangue a empapar o lenol e a espalhar-se pelo cho de cimento; 375 todavia, o mdico legista afirmou 
que o Percy tinha disparado como a Annie Oakleyi. Ao recordar-me da histria do Dean sobre a maneira como o Percy lanara o basto de nogueira co
 ntra o rato, no lhe acertando por um triz, no me senti muito surpreendido. Desta vez a distncia a que o alvo se encontrava tinha sido muito menor, e ele estava 
imvel. Um tiro nas virilhas, um nas entranhas, um no peito e trs na cabea. O Brutal tossia e agitava as mos, tentando dissipar a nuvem de fumo provocada pelos 
disparos. Eu prprio tambm tossia, apesar de s ento me aperceber disso. - Fim da linha - disse o Brutal. A sua voz era calma, embora fosse impossvel ignorar 
a expresso de pnico que se espelhava no seu olhar. Olhei para o corredor e vi o John Coffey sentado na beira da sua tarimba. Uma vez mais, entrelaara os dedos 
entre os joelhos, mas tinha a cabea erguida e j no apresentava quaisquer vestgios do aspecto doentio que tivera antes. Acenou ligeiramente na minha direco, 
tendo-me eu surpreendido a mim mesmo - tal como acontecera no dia em que lhe estendera a mo - ao retribuir-lhe aquela espcie de sa
 udao. - O que  que vamos fazer? - perguntou o Harry numa voz titubeaste. - Oh, meu Deus, o que  que ns vamos fazer? - No podemos fazer nada - retorquiu o 
Brutal no mesmo timbre de voz muito calmo. - Estamos fritos. No  verdade, Paul? Entretanto, a minha mente comeara a raciocinar a toda a velocidade. Olhei para 
o Harry e o Dean, que me fitavam como midos assustados. Em seguida, olhei para o Percy, que continuava de p com os braos flcidos e o queixo descado. Por ltimo, 
olhei para o meu velho amigo, o Brutus Howell. - No vamos ter muitos problemas - disse eu. Finalmente, o Percy comeou a tossir. Dobrou-se sobre si mesmo com as 
mos apoiadas nos joelhos, quase sem respirao. O seu rosto comeou a adquirir uma tonalidade avermelhada. Abria boca, com a inteno de dizer aos outros que se 
mantivessem afastados, mas no cheguei a ter oportunidade de falar. O Percy emitiu um som que era um cruzamento en ~ Phoebe Anne
 Oakley Mozer, 1860-1926; conhecida atiradora norte-americana (N. da T.) 376 tre o coaxar de uma r-gigante e um vmito seco, abriu a boca e cuspiu uma nuvem negra 
formada por coisas rodopiastes. Era to densa que durante alguns instantes no conseguimos destrinar a sua cabea.

- Que Deus nos salve - disse o Harry numa voz lacriinosa e enfraquecida. Em seguida, aquela coisa transformou-se num branco to radiante que se assemelhava ao sol 
de Janeiro a incidir sobre neve acabada de cair. Um momento mais tarde, a nuvem tinha-se dissipado. O Percy endireitou-se em movimentos lentos e voltou a exibir 
aquele olhar aptico. " - Ns no vimos aquilo - disse o Brutal. - Pois no, Paul? - No. Eu no vi e tu tambm no. E tu, Harry, viste alguma coisa? - No - respondeu 
ele. - Dean? - Vi o qu? - O Dean tirou os culos do nariz e comeou a limpar as lentes. Pensei que ele iria deix-los cair das mos, que no paravam de tremer, 
mas conseguiu impedir que isso acontecesse. - "Vi o qu?", essa  boa.  o mximo. Agora prestem ateno ao vosso chefe dos escuteiros, rapazes, e vejam l se compreendem 
tudo  primeira, dado que o tempo  escasso. Trata-se de uma histria deveras simples. Portanto, no compliquemo
 s as coisas. 3 Contei tudo isto  Jan por volta das onze horas dessa manh - a manh seguinte, estive eu prestes a escrever, mas  claro que se tratava do mesmo 
dia. O mais longo de toda a aninha vida sem dvida alguma. Contei-lhe os acontecimentos nos mesmos moldes em que os descrevi aqui, terminando na maneira como o William 
Wharton tinha acabado os seus dias, estendido em cima da sua tarimba, com o corpo perfurado pelo chumbo do revlver do Percy Wetmore. No, isso no corresponde exactamente 
 verdade. Onde eu realmente terminei foi na substncia que saiu da boca do Percy, os insectos ou o que quer que tenha sido. Era uma coisa difcil de descrever, 
at mesmo  nossa mulher, mas, apesar disso, l consegui. 377 Enquanto eu falava, ela trouxe-me uma caneca meio cheia de caf - inicialmente, as minhas mos tremiam 
tanto que teria sido difcil agarrar numa caneca cheia, sem a entornar logo em seguida. Quando terminei, os tremores tinham_se a
 calmado um pouco, o que me levou a pensar que talvez fosse capaz de ingerir alguma comida - um ovo, talvez, ou mesmo um pouco de sopa. - O que nos salvou foi o 
facto de no sermos obrigados a mentir, nenhum de ns. - Tiveram apenas de omitir algumas coisas - comentou ela com um acenar de cabea. - Na maior parte, coisas 
de somenos importncia, tal como de que maneira fizeram sair da priso um assassino e como ele curou uma mulher  beira da morte, e como enlouqueceu o Percy Wetmore 
s por ter... o qu? Cuspido um pur de tumor cerebral pela garganta dele abaixo? - No sei, Jan - disse eu. - S sei que se continuares a falar assim, das duas 
uma: ou acabars por ser tu a comer esta sopa ou ters de a dar ao co. - Desculpa. Mas tenho razo, no  verdade? - Sim - admiti. - S que conseguimos safar-nos 
com... - Com o qu? No se lhe poderia chamar fuga. - Com a viagem ao campo. Nem sequer o Percy pode dizerlhes... no teve conhecimento
 disso... se alguma vez conseguir recuperar. - Se conseguir recuperar - ecoou a Janice. - Que hipteses h de isso vir a acontecer? Sacudi a cabea, indicando que 
no fazia a mais pequena ideia. Mas isso no correspondia exactamente  verdade. No me parecia que ele conseguisse vir a recuperar, pelo menos em 1932, nem em 1942, 
nem to-pouco em 1952. Nisso eu estava absolutamente certo. O Percy Wetmore esteve internado no Briar Ridge at o hospcio ter sido arrasado por um incndio em 1944. 
Haviam perecido no fogo dezassete dos doentes internados, embora o Percy no se encontrasse entre eles. Em silncio e aptico - a palavra que aprendi para descrever 
o seu estado  catatnico - foi levado para fora por um dos gu~das antes de o fogo ter comeado a lavrar na ala onde se encontrava internado. Foi transferido para 
outro estabelecimento hospitalar no me recordo do nome e calculo que, seja como for, isso no tenha interesse tendo vindo a morr
 er em 1965. Tanto quanto me  dado saber, a ltima vez que falou

378 foi quando nos disse que poderamos marcar o seu carto de ponto  hora em que o turno terminaria... A menos que pertendssemos explicar por que motivo  que 
ele teria largado o servio mais cedo. A ironia daquela situao foi nunca termos sido obrigados a dar grandes explicaes. O Percy tinha enlouquecido e alvejara 
o William Wharton at  morte. Foi a verso que contmos, e cada palavra correspondeu  verdade. Quando o Anderson perguntou ao Brutal qual havia sido o comportamento 
do Percy antes do tiroteio e o Brutus respondeu com uma palavra - "Tranquilo" -, passei por um momento agonizante ao pensar que poderia desatar s gargalhadas. Porque 
na realidade isso era a verdade, o Percy tinha estado muito sossegado, uma vez que durante a maior parte do seu turno de trabalho tivera a boca tapada com fita adesiva, 
e apenas pudera articular um "huummm, huummm, huummm". O Curtis manteve o Percy no bloco at s oito horas, e o Percy esteve ca
 lado que nem uma mmia, embora a sua atitude metesse medo. Por essa altura j o Hal Moores tinha chegado  priso, mostrando uma expresso soturna mas competente, 
pronto para voltar a assumir as rdeas da situao. O Curtis Anderson no levantou qualquer objeco, soltando um suspiro de alvio que ns, presentes na altura, 
quase conseguimos ouvir. O homem envelhecido e assustado, completamente desnorteado, desaparecera; foi o director da penitenciria quem se aproximou do Percy, quem 
o agarrou pelos ombros com as suas mos enormes e o sacudiu com todo o vigor. - Rapaz! - gritou ele para a expresso vazia do rosto do Percy.., um rosto que j tinha 
comeado a desfazer-se como se fosse de cera, pensei eu na altura. Rapaz! Ests a ouvir-me? Se ouves o que te digo, fala comigo! Quero saber o que aconteceu! Da 
parte do Percy no houve qualquer reaco, como  evidente. O Anderson pretendia falar com o director a ss, a fim de discuti
 r a melhor maneira de tratar aquele assunto - ~ assunto deveras sensvel em termos polticos - mas o Moores afastou-o pelo menos de momento, e puxou-me para a Milha. 
O John Coffey encontrava-se deitado sobre a tarimba, com o rosto voltado para a parede, as pernas chocantemente suspensas tal como era seu hbito. Dava a impresso 
de estar a dormir, o que provavelmente era verdade... mas o 379 certo  que ele nem sempre era o que aparentava ser, tal como j havamos descoberto. - Aquilo que 
aconteceu em minha casa teve alguma coisa a ver com o que se passou aqui, depois de vocs terem re_ gressado? - perguntou o Moores em voz baixa. Estou disposto a 
dar-vos toda a cobertura que me for possvel, ainda que isso signifique perder o meu emprego, mas tenho de saber o que aconteceu. Abanei a cabea. Quando comecei 
a falar, tambm mantive a voz baixa. Nesta altura j por ali andavam cerca de uma dzia de guardas bastante atarefados no extremo do corredor. Um
 fotografava o Wharton na sua cela. O Curtis Anderson observava-o, pelo que, momentaneamente, o Brutal era o nico cuja ateno se concentrava em ns dois. - No. 
Levmos o John de volta para a sua cela, tal como podes ver, e tirmos o Percy da cela do isolamento, onde o fechmos para maior segurana. Pensei que ele devia 
estar furioso por o termos encerrado ali, mas no, limitou-se a pedir a arma e o basto. No acrescentou mais nada, encaminhou-se apenas para o corredor. Ento, 
quando se aproximou da cela do Wharton, sacou da arma e comeou a disparar. - Parece-te que o facto de ter estado fechado na cela do isolamento... teve algum efeito 
na sua mente? - No. - Vocs colocaram-no dentro do colete-de-foras? No. No havia necessidade disso. - Ele esteve tranquilo? No se debateu? No, no se debateu. 
- Mesmo quando verificou que a vossa inteno era fech-lo na cela do isolamento, ele no se debateu e ficou sossegado.

- Foi exactamente isso que aconteceu. - Senti uma sbita vontade de dizer mais qualquer coisa... meter na boca do Percy uma ou duas frases, mas decidi ficar calado. 
Quanto mais simples melhor, sabia eu. - No houve nenhuma complicao: ele limitou-se a ir para um dos cantos e sentou-se. - Nessa altura no trocou qualquer palavra 
com o Wharton? - No. - Tambm no falou no Coffey? - Confirmei com ~ abanar de cabea. - Teria o Percy planeado qualquer coisa contra o Wharton? Achas que teria 
qualquer agravo contra o homem? 380 _  possvel - respondi, baixando ainda mais o tom de voz. _ O Percy era muito descuidado em relao aos stios por onde caminhava, 
Hal. Houve uma ocasio em que o ~,arton estendeu as mos e o agarrou contra as barras da cela, tendo-o maltratado um pouco. - Fiz uma pausa. - Pode-se mesmo dizer 
que no o tratou com muita suavidade. - E nada mais? Apenas... "no o tratou com muita suavidade"?Sim, mas mesmo assim a situa E3o no foi muito agradvel para 
o Percy. O Wharton disse qualquer coisa em como preferiria comer o Percy em vez da irm deste. - Hum... - fez o Moores, olhando de esguelha para o John Coffey, como 
se sentisse necessidade de se certificar constantemente de que este era uma pessoa, e no fruto da sua imaginao. - Isso no explica o que lhe aconteceu, mas at 
certo ponto justifica, porque foi contra o Wharton que ele se voltou, e no contra o Coffey ou um dos teus homens. E, falando dos teus homens, Paul, ser que eles 
contaro a mesma histria? - Sim - asseverei. - E vo contar - disse eu  Jan, comeando a comer a sopa que ela trouxera para a mesa. - Certificar-me-ei de que assim 
seja. - Mas  inegvel que mentiste - retorquiu ela. - Mentiste ao Hal. Ora bem, o que  que se esperaria da nossa mulher, no  verdade? Sempre  procura das nossas 
facetas mais fracas e encontrando sempre uma. - Calculo que sim, se virmos o assunto por es
 sa perspectiva. No entanto, no lhe contei nada com que ambos no possamos viver. Est tudo s claras, acho eu. Ao fim e ao cabo, ele nem sequer se encontrava presente. 
Estava em casa a tratar da mulher at que o Curtis lhe telefonou. - Ele disse alguma coisa quanto ao estado de sade da Melinda? - Nessa altura, no. No havia tempo, 
mas voltmos a falar quando o Brutal e eu nos preparvamos para sair. A Melinda no se recorda de grande coisa, mas sentese ptima. J no est na cama e anda por 
todo o lado. J fala das flores que vai plantar nos canteiros no ano que vem. A minha mulher ficou a olhar para mim durante algum tempo. - O Hal sabe que se tratou 
de um milagre, Paul? - perbuntou. - Ele compreende isso? - 381 - Sim. Todos ns compreendemos. Todos os que estivemos presentes. - Parte de mim deseja poder ter 
estado l - acrescentou a Janice. - No entanto, a outra parte sente-se satisfeita por no ter assistido. Se eu tivesse visto aq
 uelas escamas a sarem dos olhos de Saul, na estrada para Damasco, provavelmente teria morrido de um ataque cardaco. - No - contradisse eu, inclinando a tigela 
para meter na colher o que ainda restava da sopa -, o mais certo teria sido preparares-lhe uma sopa. Esta est ptima, minha querida, - Ainda bem. - Mas na realidade 
no era na sopa que ela pensava, nem em cozinhar nem to-pouco na converso de Saul na estrada para Damasco. A Janice olhava pela janela na direco das cumeeiras, 
com o queixo apoiado na palma da mo e os olhos to toldados como aqueles cumes costumavam estar nas manhs de Vero, nos dias em que fazia calor. Nas manhs de 
Vero como aquela em que as garotas dos Detterick haviam sido encontradas, pensei eu sem qualquer razo aparente. Perguntei a mim mesmo por que motivo  que elas 
no teriam gritado.

O assassino tinha-as magoado; havia sangue nos degraus e no cho do alpendre. Por conseguinte, porque  que elas no teriam comeado a gritar? - Pensas que foi o 
John Coffey quem matou esse homem, o Wharton, no  verdade? - perguntou a Janice, desviando finalmente o olhar da janela. - No ests convencido de que foi um acidente 
ou algo semelhante; acreditas que ele se serviu do Percy Wetmore para aniquilar o Wharton. - Sim - concordei. Porqu? - No sei. - Conta-me outra vez o que sucedeu 
quando tiraste o John Coffey da Milha, de acordo? S essa parte. Acedi ao seu pedido. Descrevi-lhe como  que o brao magro que saiu disparado por entre as barras 
de ferro, para pousar no bcepe do John, me dera a impresso de ser uma serpente - daquelas de gua de que todos tnhamos medo quando ramos midos e amos nadar 
para o rio - e a forma como o Coffey dissera que o Wharton era um homem mau. Falei quase num murmrio. - E o Wharton disse o qu EA? - A minha mulher voltara a 382 
olhar atravs da janela, embora estivesse a prestar-me ateno: O Wharton disse: " verdade, negro, to mau quanto possas imaginar." E foi tudo? - Sim. Tive a sensao 
de que estava prestes a acontecer qualquer coisa, mas tal no sucedeu. O Brutal tirou a mo do Wharton do brao do John, e mandou-o deitar-se. Ele tinha-se levantado 
da tarimba. Acrescentou qualquer coisa acerca de como os negros deveriam ter a sua prpria cadeira elctrica, e mais nada. E ns continumos o que estvamos a fazer. 
- O John Coffey chamou-lhe um homem mau. - Sim. Tambm j tinha dito o mesmo numa ocasio, referindo-se ao Percy. Talvez o tenha dito mais de uma vez. No consigo 
recordar-me com exactido quando  que isso foi, mas sei que o disse. !, - No entanto, o Wharton nunca fizera nada ao John Coffey, pois no? Quero dizer, tal como 
fez ao Percy. - No. A localizao das celas dos dois... A do Wharton ficava p
 rximo da secretria do corredor, de um lado, enquanto a do John se situava bastante mais abaixo, no lado oposto. Mal conseguiam ver-se. - Descreve-me outra vez 
o aspecto do John Coffey quando o Wharton lhe agarrou no brao. - Janice, esta conversa no est a levar-nos a lado nenhum - disse eu  minha mulher. - Talvez no, 
mas por outro lado  possvel que sim. Descreve-me outra vez qual era o aspecto dele. - Acho que posso dizer que ficou chocado - repliquei depois de suspirar. - 
Ficou ofegante. Tal como aconteceria se tu estivesses estendida na praia ao sol, e eu me aproximasse sorrateiramente e deitasse gua fria nas tuas costas. Ou como 
se tivesse sido esbofeteado. - Bem com certeza - retorquiu a Janice. - O facto de ter sido agarrado dessa maneira, sem estar a contar com isso, sobressaltou-o, despertou-o 
por alguns segundos. - Sim - concordei, para logo depois me contradizer. - No. - Em que  que ficamos? Sim ou no? -No. No se pode dize
 r que tenha ficado sobressaltado foi mais como quando ele quis que eu fosse  sua cela, ~ poder curar a minha infeco. Ou como quando me pediu 383 para lhe entregar 
o rato. Ele sentiu-se surpreendido, mas no por algum lhe ter tocado inesperadamente... no foi isso exactamente o que sucedeu... oh, bolas. Jan, no sei. - De 
acordo, ponhamos o assunto de parte - disse ela. _ Mas no sou capaz de imaginar o que  que teria levado o John a fazer isso. No se pode dizer que ele

seja, por natureza, um homem violento. O que nos leva a outra questo. paul: como  que poders execut-lo se tiveres razo quanto  morte das garotas? Como  que 
ters coragem de o sentar na cadeira elctrica se foi outra pessoa que... Agitei-me na cadeira, sentindo um certo mal-estar. O meu cotovelo bateu na tigela e esta 
tombou para o cho, onde se estilhaou. Tivera uma ideia. Naquela fase, era mais uma in tuio do que um pensamento lgico e no deixava de ter uma certa elegncia 
sombria. - Paul? - perguntou a Janice, alarmada. - O que  que se passa? - Ainda no sei - respondi. - No tenho a certeza de nada, mas, se possvel, tenciono vir 
a ter. 4 O rescaldo do tiroteio transformou-se num circo de trs arenas, com o governador numa delas, a penitenciria na outra, e o pobre Percy Wetmore, com o juzo 
avariado, na terceira. E quem era o apresentador do circo? Pois bem, os diversos cavalheiros da imprensa ocuparam-se dessa fun
o,  vez. No eram to maus como os seus colegas de hoje - no se permitiam comportar-se de forma to m - mas at mesmo nessa poca, antes do advento dos grandes 
apresentadores da televiso, eram capazes de galopar bastante bem, sempre que sentiam realmente o freio nos dentes. Foi isso que aconteceu naquela ocasio e, enquanto 
durou, o espectculo foi bastante bom. No entanto, at mesmo o circo mais animado, aquele com as aberraes mais aterradoras, com os palhaos mais divertidos ou 
os animais mais selvagens,  forado a abandonar a cidade. Este desmontou a tenda depois da comisso de inqurito, que parece muito especial e assustadora, mas que 
na realidade veio a provar ser bastante inofensiva e negligente. Sem dvida que noutras circunstncias o governador teria exigido 384 a cabea de algum numa bandeja, 
mas no daquela vez. O seu sobrinho por afinidade - do mesmo sangue da mulher - ficara desarranjado do juzo e
 decidira matar um homem. Havia pois um assassino - do mal o menos, podia-se dar graas a Deus por isso - mas tal no invalidava o facto de o Percy ter abatido um 
homem quando este se encontrava a dormir na cela, o que no era um gesto muito bonito. Quando se acrescentava o facto de o jovem em questo ter continuado to demente 
como uma cadela com cio, poderia compreender-se a razo por que o governador desejava pr uma pedra sobre aquele assunto, o mais rapidamente possvel. A nossa jornada 
at casa do director Moores, na pequena camioneta do Harry Terwilliger, nunca chegou a vir  baila. O facto de o Percy ter sido metido no colete-de-foras e encarcerado 
na cela do isolamento, durante o perodo de tempo em que estivemos ausentes, tambm nunca veio a lume. O pormenor de o William Wharton estar drogado at  inconscincia, 
na altura em que o Percy o abateu, tambm nunca chegou a ser mencionado. E porque haveria de ser? As autoridades no t
 inham a mais pequena suspeita da existncia de qualquer coisa no organismo do Wharton, para alm de meia dzia de balzios. O mdico legista procedeu  extraco 
destas, o cangalheiro instalou-o dentro de um caixo de pinho, e aquele foi o fim de um homem que tinha uma tatuagem num antebrao onde se lia "Billy the Kid". Poder-se-ia 
dizer: "Que bons ventos o levem!" No cmputo geral, aquela confuso durou cerca de duas semanas. Durante esse perodo, eu nem me atrevi a dar um peido quanto mais 
tirar um dia de licena para poder investigar a ideia que me ocorrera  mesa da minha cozinha, na manh seguinte a toda aquela confuso. Tinha a certeza de que o 
circo j havia abandonado a cidade quando fui trabalhar um dia antes da segunda quinzena de Novembro - parece-me que foi a doze mas no estou muito seguro quanto 
a essa data. Foi nesse dia que encontrei a folha de papel, que tanto receava, sobre a minha secretria: a ordem de execuo
 do John Coffey. Fora o Curtis Anderson quem a tinha assinado, e no o Hal Moores, mas, como  evidente, isso no a tornava menos oficial, e devia ter passado pelas 
mos do Hal antes de me ser entregue. Eu imaginava-o sentado  sua secretria nos servios administrativos, com aquela folha de papel na mo, a pensar na mulher, 
a qual se transformara na ltima das sete 385

maravilhas para os mdicos do Hospital Geral de Indianola, A Melinda j tinha recebido os documentos relativos  sua prpria execuo das mos desses mesmos mdicos; 
todavia, o John Coffey tinha-os rasgado. Mas agora, ironicamente chegara a vez do prprio John Coffey percorrer a Milha Verde, e quem de entre ns poderia impedir 
que isso viesse a acontecer? A data inscrita na sentena de morte era o dia 20 de Novembro. Trs dias depois de eu a ter recebido - estou em crer que foi no dia 
15 - pedi  Janice que telefonasse a informar que eu me encontrava doente. Uma caneca de caf mais tarde, rolava .eu pela estrada que seguia para norte, ao volante 
do meu Ford com a suspenso em mau estado, mas que nos outros pormenores era de toda a confiana. A Janice despedira-se de mim com um beijo, desejando-me boa sorte; 
eu tinha-lhe agradecido, embora j no formasse uma ideia clara daquilo que poderia ser considerado boa sorte - descobrir ou no o qu
 e me propusera encontrar. Tudo o que eu sabia era que no me apetecia muito cantar enquanto conduzia. Sobretudo naquele dia. Por volta das trs dessa mesma tarde, 
j eu me encontrava em terras montanhosas. Cheguei ao tribunal de Purdom exactamente antes do encerramento das suas portas, examinei alguns registos, e depois recebia 
visita do xerife, que entretanto fora informado pelo funcionrio do tribunal de que havia um estranho a bisbilhotar os segredos locais. O xerife Catlet pretendia 
saber o que  que eu pensava que estava a fazer. Eu expliquei-lhe. O Catlet pensou no assunto por alguns momentos e ento disse-me uma coisa interessante. Disse 
que negaria ter dito uma s palavra se eu repetisse alguma coisa a algum. No foi uma informao conclusiva, mas sem dvida era alguma coisa. Durante todo o caminho 
at casa fui a pensar naquilo; naquela noite tive muito em que pensar, e as preciosas horas de sono no meu lado da cama foram bastante escassas.
  Na manh seguinte, levantei-me ainda o Sol no passava de uma ameaa a oriente, e fui de carro at ao municpio de Trapingus. Passei ao largo do Homer Cribus, 
aquela enorme saca de entranhas e fluidos preferindo falar com o assistente do xerife, o Rob McGee. O McGee no quis ouvir o que eu lhe dizia. Com toda a veemncia, 
o homem deu-me a entender que no queria ouvir o que eu tinha para lhe dizer. A certa 386 altura fiquei quase com a certeza de que ele me esmurraria em cheio na 
boca, para que pudesse parar de me ouvir, mas no fim acabou por concordar em ir at casa do Klaus Detterick a fim de lhe fazer umas perguntas. Na minha opinio, 
flo para ter a certeza de que no seria eu a tomar aquela iniciativa. - Ele s tem trinta e nove anos, mas parece um velho - comentou o McGee -, e no precisa que 
um guarda de priso armado em checo esperto e em detective o venha arreliar, agora que algum do desgosto que sofreu j comeou a abrandar. Voc=E
 A vai deixar-se ficar aqui, na cidade. No o quero ver  distncia de um grito da quinta dos Detterick, mas quero ter a certeza de que poderei encontr-lo quando 
acabar de conversar com o Klaus. Se por acaso comear a sentir-se desassossegado, v at ao restaurante e coma uma fatia de parte de ma. Isso h-de acalm-lo. 
- Acabei por comer duas fatias e o resultado foi sentir o estmago bastante pesado. Quando o McGee chegou ao restaurante e se sentou ao balco junto de mim, tentei 
ler alguma coisa na sua expresso, mas no consegui. - Ento?... - perguntei. - Venha comigo at minha casa.  melhor falarmos l - replicou ele. - Este lugar  
demasiado pblico para o meu gosto. Encetmos a nossa conversa no alpendre da casa do Rob McGee. Ambos estvamos bem agasalhados, embora sentssemos frio, mas acontece 
que Mrs. McGee no permitia que se fumasse em parte alguma no interior da casa. Era uma mulher muito progressiva para a sua
poca. O McGee falou durante algum tempo com a atitude de um homem a quem no agradava nada o que ouvia da sua prpria boca. - Voc compreende que isto no vem provar 
absolutamente nada no  verdade? perguntou ele quando j me dissera quase tudo o que tivera a dizer. Na sua voz adivinhava-se uma certa beligerncia, e enquanto 
falava espetou o cigarro enrolado  mo na minha direco com agressividade, apesar de o seu rosto deixar transparecer nusea. Nem todas as provas apresentadas num 
tribunal so aquilo

que se ouve e v, ambos sabamos isso. Fiquei com a sensao de que aquela fora a nica vez em toda a sua vida que o assistente de xerife, McGee, desejara ser to 
imbecil quanto o seu prprio chefe. - 387 - Eu sei - repliquei. - E se est a pensar em conseguir arranjar-lhe um novo julgamento, s com base nesta nica coisa, 
 melhor reconsiderar, senor. O John Coffey  um negro e no municpio de Trapingus ns somos muito esquisitos quanto a concedermos novos julgamentos  gente de raa 
negra. - Tambm estou a par desse aspecto. - Por conseguinte, o que  que tenciona fazer? Lancei o meu cigarro para a rua por cima do corrimo do alpendre. Em seguida, 
levantei-me da cadeira. Era um longo percurso de regresso a casa, e quanto mais cedo eu partisse, mais cedo chegaria ao fim da minha viagem. - Quem me dera saber, 
assistente McGee - retorqui -, mas o certo  que no sei. A nica coisa de que tenho a certeza esta noite  que a segunda f
 atia de tarde foi um erro. - Deixe-me dizer-lhe uma coisa, seu vivao... - Continuava a expressar-se num tom de beligerncia. - No me parece que, em primeiro lugar, 
voc devesse ter aberto a caixa de Pandora. - No fui eu quem a abriu - redargui, e iniciei a viagem de regresso a casa. Quando cheguei j era tarde - passava da 
meia-noite. Contudo, a minha mulher esperava por mim a p. Tinha desconfiado de que ela o faria, mas mesmo assim o facto de a ver a p fez-me bem ao corao, assim 
como os seus braos  volta do meu pescoo, o corpo suave e firme contra o meu. - Ol, forasteiro - saudou ela, tocando-me nas partes baixas. - No h nada de errado 
com este fulano, pois no? Est to saudvel quanto possvel. - Sim, minha senhora - respondi-lhe, erguendo-a nos meus braos. Levei-a para o quarto e fizemos amor, 
to doce como o acar, e quando eu estava prestes a atingir o meu clmax, esse sentimento delicioso de lgo que
  me abandonava e que eu deixava ir, pensei nos olhos infinitamente lacrimejantes do John Coffey. E na Melinda Moores a dizer: Sonhei que andavas perdido na escurido, 
tal como eu. Continuando estendido em cima da minha mulher, com os braos dela em redor do meu pescoo e com as nossas coxas entrelaadas, comecei a chorar. - Paul! 
- exclamou ela, chocada e assustada. No me parece que tenha visto lgrimas nos meus olhos em mais do que meia dzia de ocasies ao longo de todo o nosso casa 388 
mento. Nunca fui, em circunstncias normais, um homem dado a grandes choros. Paul, o que  que se passa? . J sei tudo o que havia a saber - repliquei por entre 
as lgrimas. - Se queres saber a verdade, sei de mais. Devo electrocutar o John Coffey em menos de uma semana, embora tenha sido o William Wharton quem assassinou 
as garotas dos Detterick. Foi o Bill Selvagem. 5 No dia seguinte, o mesmo grupo de guardas prisionais que havia almoado na minha cozinha, depoi
 s da execuo do Delacroix que to mal tinha corrido, voltou a almoar em minha casa. Desta vez encontrava-se presente um quinto no nosso conselho de guerra: a 
minha mulher. Foi ela quem me convenceu a contar aos outros; o meu primeiro impulso tinha sido no lhes dizer nada. No era j suficientemente mau, perguntei  Janice, 
ns sabermos? - No ests a pensar com clareza - respondera-me ela. - Provavelmente, porque continuas bastante perturbado. Eles j tm conhecimento do aspecto mais 
grave: que o John Coffey foi acusado de um crime que no cometeu. Pelo menos, este esclarecimento servir para melhorar um pouco a situao. Eu no estava bem seguro 
disso; no entanto, cedi. Esperava uma grande agitao quando contasse ao Brutal, ao Harry e ao Dean aquilo que descobrira (no podia prov-lo, mas tinha a certeza); 
porm, inicialmente fez-se apenas um silncio, durante o qual todos estiveram pensativos. Pouco depois, servindo-se de
  um dos

pezinhos feitos pela Janice, e comeando a barr-lo com uma ultrajante quantidade de manteiga, o Dean tomou a palavra. - Achas que o John o viu a cometer o crime? 
Que viu o Wharton a deixar cair as garotas, se calhar at a viol-las? - Calculo que, se ele tivesse presenciado isso, teria tentado impedi-lo - respondi. - Quanto 
a ter visto o Wharton, suponho que isso seja possvel, talvez quando ele comeou a fugir.., Mas se foi esse o caso, mais tarde acabou por se esquecer. - Claro - 
aquiesceu o Dean. - Ele  um homem muito especial, mas esse factor no o torna particularmente inteligen~. S veio a descobrir que tinha sido o Wharton, quando este 
estendeu o brao por entre as barras da sua cela para lhe tocar. - 389 O Brutal concordou com um acenar de cabea. - Foi por isso que o John se mostrou to surpreendido", 
to chocado. Recordam-se da forma como os seus olhos se arregalaram? - Ele serviu-se do Percy para abater o Wharton - intervim com um ace
 nar de cabea -, como se este fosse uma arma, como disse a Janice, e foi isso que no lhe saiu da cabea. Por que motivo  que o John Coffey havia de querer matar 
o Bill Selvagem? O Percy, sim... foi ele quem espezinhou o rato do Delacroix mesmo  nossa frente, foi o Percy quem queimou o Delacroix ainda em vida, como o John 
sabia, mas o Wharton? Este causou problemas a todos ns, de uma maneira ou de outra, mas nunca se meteu pessoalmente com o John. Tanto quanto sei, disse-lhe uma 
dezena de palavras durante o tempo em que estiveram na Milha, e metade delas foram ditas nessa ltima noite. Porque  que ele haveria de querer fazer uma coisa dessas? 
Era oriundo do municpio de Purdom e nessa regio os brancos no do pela presena de um negro, a menos que este, por mero acaso, aparea na rua deles. Portanto, 
o que  que o levou a fazer aquilo? O que  que ele poderia ter sentido ou visto de to grave quando o Wharton lhe tocou que guardou em si
  o veneno que extraiu do corpo da Melinda? - E quase se matou devido a essa atitude - atalhou o Brutal. -  verdade. As gmeas Detterick foram a nica justificao 
que me ocorreu para explicar o seu acto. Disse a mim mesmo que essa ideia era um autntico disparate, uma coinci dncia demasiado grande, que era impossvel. Mas 
foi ento que me recordei de algo que o Curtis Anderson tinha escrito no primeiro memorando que recebi sobre o Wharton... Que este era completamente louco, e que 
tinha vagueado por todo o estado antes do assalto em que matou toda aquela gente. "Tinha vagueado por todo o estado." Isso ficou-me gravado na mente. Alm do mais, 
havia ainda a maneira como ele tentara sufocar o Dean quando chegou ao bloco. Foi isso que me levou a pensar no... - No co - completou o Dean. Esfregava o pescoo 
na regio onde o Wharton tinha enrolado a corrente. No me parece que ele tivesse conscincia do que estava a fazer. A forma como o pescoo d
 o co foi fracturado. - Seja como for, decidi ir at ao municpio de Purdom examinar os registos do tribunal referentes ao Wharton... Tudo o que tnhamos aqui eram 
os relatrios sobre os assassnios que o trouxeram para a Milha Verde. Por outras palavras, fim da sua carreira criminal. O que eu desejava era o princpio de muitos 
problemas? - perguntou o Brutal. - Efectivamente. Vandalismo e pequenos furtos; lanou fogo a montes de feno e at o furto de um explosivo... Ele e um amigo roubaram 
uma barra de dinamite e fizeram-na explodir na margem de um riacho. No h dvida de que ele comeou cedo, apenas com dez anos de idade; contudo, o que eu queria 
saber no se encontrava nessa documentao. Foi ento que apareceu o xerife, para saber o que  que eu estava a fazer ali, e isso foi uma sorte. Contei-lhe uma aldrabice, 
dizendo-lhe que uma busca revelara uma grande quantidade de fotografias escondidas debaixo do colcho do Wharton... fotogr
 afias de garotinhas nuas. Acrescentei que pretendia saber se o Wharton tinha algum historial como pederasta, porque ouvira falar de uns dois casos por resolver 
no Tennessee. Tive

o cuidado de no mencionar as gmeas Detterick. Tenho a impresso de que esse assunto tambm nunca lhe ocorreu. -  claro que no - corroborou o Harry. - Porque 
 que ele se haveria de ter lembrado desse caso? Ao fim e ao cabo, acabou por ser resolvido. - Eu disse-lhe que calculava que no faria qualquer sentido ir atrs 
dessa ideia, uma vez que no existia nada a esse respeito no cadastro do Wharton. Quero dizer, havia muita coisa nos registos, mas nada que se relacionasse com esse 
gnero de coisa. Ento o xerife... Catlet,  como ele se chama... riu-se e disse que nem toda a gente era to m rs como o "Bill" Wharton e que tudo o que ele fizera 
estava registado na documentao do tribunal. Perguntou-me que interesse  que isso poderia ter agora? Ele estava morto, no era? "Justifiquei-me, dizendo-lhe que 
procedia quelas investigaes apenas com o propsito -de satisfazer a minha curiosidade e nada mais, e isso descontraiu-o u
 m pouco. Levou-me para o seu gabinete, convidou-me a sentar, ofereceu-me uma caneca de caf e um donut, e contou-me que havia dezasseis meses, quando o Wharton 
acabara de fazer os dezoito anos, fora apanhado por um homem a oeste do condado no celeiro com a filha. No se tratou exactamente de um caso de violao; o tipo 
descreveu o acontecimento ao Catlet como 390 391 "no muito mais do que um dedo enfiado na coisa". Descul pa a vulgaridade, querida. - No tem importncia - disse 
Janice. No entanto, tinhas faces empalidecidas. - Que idade tinha a rapariga? - inquiriu o Brutal. - Nove anos - respondi. Ele retraiu-se. - O prprio homem poderia 
ter-se encarregado do Whar_ ton, se tivesse irmos mais velhos ou primos que lhe dessem uma ajuda, mas no era esse o caso. Por isso, decidiu ir falar com o Catlet 
e deixou bem claro que s pretendia que o Wharton fosse advertido. Ningum deseja que um assunto de uma natureza to desagradvel como aquela viesse
  a ser do domnio pblico. Seja como for, h muito que o xerife Catlet tratava das travessuras do Wharton... Mandara-o para uma instituio correccional durante 
mais ou menos oito meses quando tinha quinze anos... e decidira que aquilo j estava a passar das marcas. Reuniu trs assistentes, foram at casa do Wharton, afastaram 
Mrs. Wharton quando esta comeou a choramingar e a lamentar-se, e disseram ao William Billy "the Kid" Wharton o que costumava acontecer aos matules desastrados, 
com borbulhas na cara, que tinham por hbito subir at ao sto com feno dos celeiros com rapariguinhas que ainda no tinham idade suficiente para terem ouvido falar 
das suas regras mensais, quanto mais terem idade para ser menstruadas. "Demos um bom aviso a esse pequeno arruaceiro", disse-me o Catlet. "Advertimo-lo at ele ter 
comeado a sangrar da cabea, deslocado uma omoplata e ficado com o traseiro quase em carne viva." Embora houvesse tentado conter-se
 , o Brutal desatou s gargalhadas. - Isso  mesmo tpico do municpio de Purdom - disse ele. - Sem tirar nem pr. - Foi mais ou menos trs meses depois disso que 
 Wharton deu incio s suas escapadelas violentas que culminaram no assalto - acrescentei. - Nisso e nos assassnios que o trouxeram at ns. - Portanto, isso significa 
que ele j se tinha metido com uma menor, pelo menos numa ocasio - interveio o Harry. Tirou os culos do nariz, lanou bafo para as lentes e come' ou a limp-las. 
- De muito menor idade. Mas uma vez no pode ser considerado um padro de comportamento, no  verdade? 392 Um homem no se limita a fazer uma coisa dessas apenas 
numa ocasio - atalhou a minha mulher, cerrando os lbios com tanta fora que dava a impresso que estes lhe tinham desaparecido do rosto. Em seguida, descrevi-lhes 
a minha visita ao municpio de Trapingus. Eu fora bastante mais franco com o Rob McGee... Com efeito,. no
  me restara alternativa. At hoje no fao a mnima ideia da espcie de histria que ele magicou para contar a Mister Detterick, mas a realidade  que o McGee que 
se sentou ao meu lado ao balco do restaurante parecia ter envelhecido uns sete anos.

Em meados de Maio, aproximadamente um ms antes do assalto e dos homicdios que puseram cobro  curta carreira criminal do Wharton, o Klaus Detterick pintou o celeiro 
(e, diga-se a ttulo de curiosidade, tambm a casota do Bowser, que lhe ficava adjacente). No quisera que o filho trepasse para os andaimes e, em qualquer dos casos, 
o rapaz frequentava a escola nessa altura, pelo que decidiu contratar um sujeito que lhe fizesse esse trabalho. Um fulano simptico. Muito sossegado. A tarefa levara 
trs dias a completar. No, o sujeito no pernoitara na casa, o Detterick no era irresponsvel ao ponto de acreditar que um sujeito simptico e sossegado significasse 
ser de confiana, especialmente nesses tempos em que havia tanta escumalha desempregada a vaguear por todas as estradas do estado. Um homem que tivesse famlia deveria 
ter todos os cuidados. Em qualquer dos casos, o homem no necessitara de alojamento; disse ao Detterick que alugara um qua
 rto na cidade, no estabelecimento da Eva Price. De facto, havia uma senhora de nome Eva Price em Tefton, e efectivamente ela alugava quartos; contudo, nesse ms 
de Maio no teve um hspede que se ajustasse  descrio que o Detterick fez do homem que contratara; em sua casa encontravam-se alojados apenas os indivduos habituais 
de chapus moles e fatos aos quadrados, acompanhados das suas malas de amostras... por outras palavras, os caixeirosviajantes. O McGee pde contar-me isso porque 
fora at casa de Mrs. Price ao voltar da quinta do Detterick, a fim de confirmar o que~este lhe dissera, o que mostra at que ponto  que ficara perturbado. - Ainda 
assim - acrescentou ele -, no existe qualquer lei que impea um homem de dormir ao relento no bosque, Mister Edgecombe. Eu prprio j fiz isso numa ou duas ocasies. 
- 393 O homem contratado no tinha pernoitado em casa dos Detterick, embora houvesse jantado duas vezes com a famlia. Teria ti
 do oportunidade de conhecer o Howie e as duas garotas, a Cora e a Kathe. Teria tido ocasio de ouvir as suas tagarelices, o quanto ambas se sentiam ansiosas pela 
chegada do Vero, porque caso se portassem bem e as noites estivessem quentes, a me por vezes deixava-as dormir no alpendre onde poderiam fingir que eram mulheres 
dos colonizadores a atravessar as grandes plancies em carroas Conestoga, - Eu estou a imagin-lo sentado  mesa, a comer galinha assada com o po de centeio feito 
por Mistress Detterick, ouvindo atentamente com os seus olhos de lobo bem velados, acenando com a cabea e sorrindo um pouco, enquanto ia armazenando todas aquelas 
informaes. - Essa descrio no se ajusta nada ao homem selvtico de que me falaste, quando ele chegou  Milha, Paul - interveio a Janice com uma expresso de 
dvida. - Nem um pouco. - Est a dizer isso porque no teve oportunidade de o ver no hospital de Indianola, minha senhora - atalhou o
  Harry. - Ali de p com a boca aberta e o traseiro a ver-se pela abertura da bata do hospital. Permitindo que o vestssemos. Pensmos que ou ele estava drogrado 
ou era apatetado. No verdade, Dean? Este acenou afirmativamente. - No dia em que acabou de pintar o celeiro e deixou a quinta, um homem com o rosto coberto por 
um leno assaltou os escritrios dos Transportes Hampey, situados em Jarvis - continuei. - Conseguiu fugir com setenta dlares. Tambm se apoderou de um dlar de 
prata de mil oitocentos e noventa e dois, que a empresa de transportes guardava como uma espcie de amuleto da sorte. Esse dlar de prata foi encontrado na posse 
do Wharton quando ele foi capturado, e Jarvis fica apenas a quarenta e oito quilmetros de Teflon. - Por conseguinte, este assaltante... este homem selvtico... 
achas que ele esteve trs dias na quinta do Klaus Deste rick para o ajudar a pintar o celeiro - disse a minha mulher. Jantou na companhia da faml
 ia e disse "por favor, passem-me as ervilhas", como qualquer pessoa normal. - O mais assustador nos homens da laia dele  a maneira de ser absolutamente imprevisvel 
- comentou o Brutal.

 possvel que ele tivesse planeado atacar a casa dos Detterick para os chacinar, e depois mudar de ideias, porque uma nuvem ocultou o Sol na altura inoportuna, 
ou algo de semelhante. Talvez pretendesse apenas manter-se um pouco fora das vistas. Contudo, o mais plausvel seria ele j ter as duas garotas debaixo de olho e 
tencionar regressar  quinta. No te parece que tenha sido assim, Paul? Acenei que sim. Claro que era essa a minha opinio. - E temos ainda o nome com que ele se 
identificou perante o Detterick. - De que nome  que ests a falar? - pergumtou a Janice. ,_.-- Willy Bonney. Bonney?... No estou a... Era o nome verdadeiro do 
Billy the Kid. - Oh! - Os olhos dela arregalaram-se ao ouvir aquilo. - Oh! Portanto, isso quer dizer que poders salvar o John Coffey! Graas a Deus! S precisas 
de mostrar a Mister Detterick uma fotografia do William Wharton... Isso deve ser o suficiente... O Brutal e eu trocmos um olhar constrangido. O Dean most
 rava uma expresso um tanto esperanosa, mas o Harry no despregava o olhar das mos que tinha no colo, como se, de repente, tivesse desenvolvido um enormssimo 
fascnio pelas suas prprias unhas. - O que  que se passa? - perguntou a Janice. - Porque  que esto a olhar uns para os outros dessa maneira? Com certeza que 
esse homem, o McGee ter de... - O Rob McGee pareceu-me ser um homem de bem, e estou em crer que  um excelente polcia - disse eu. - No entanto, no tem qualquer 
peso no municpio de Trapingus. Quem detm o poder por aquelas paragens  o xerife Cribus, e o dia em que ele decidir reabrir o caso do Detterick com base naquilo 
que eu descobri ser o dia em que comear a nevar no inferno. - Mas... se o Wharton esteve l... se o Detterick tem possibilidades de o identificar por uma fotografia, 
e se eles souberem que ele esteve presente... - O facto de ele poder l ter estado em Maio no significa, necessariamente, que
  tenha regressado em Junho para matar as duas garotinhas - argumentou o Brutal. Falava num timbre de voz baixo e suave, tal como quando se costuma anunciar a morte 
de um familiar. - Por um lado, temos esse 395 394 fulano que ajudou o Klaus Detterick a pintar o celeiro e que depois se foi embora. Veio a descobrir-se que andava 
a cometer crimes por tudo quanto era lugar. Todavia, no existe nada contra o homem que durante os trs dias, em Maio, andou pelos arrabaldes de Tefton. Por outro 
lado, temos esse negro enorme, de facto, esse negro gigantesco que foi encontrado na margem do rio, tendo nos braos duas meninas mortas completamente nuas. Brutus 
abanou a cabea. - O Paul tem toda a razo, Jan. O McGee poder ter as suas dvidas, mas o que ele pensa no  importante. O Cribus  o nico com poderes para reabrir 
o caso, mas no deseja interferir com aquilo que est convencido ter sido um fim feliz... "Foi um negro", pensar ele, "e no, seja como
 for, um dos nossos. Esplndido. Irei at Cold Mountain, como um bom bife acompanhado de uma bela cerveja  presso num restaurante qualquer, depois vejo-o ser frito 
e ser o fim de todo este assunto." A Janice ouviu tudo aquilo com uma expresso de horror crescente espelhada no rosto, e voltou-se para mim. - Mas o McGee acredita 
no que tu descobriste, no  verdade, Paul? Eu vi isso no teu rosto. O assistente do xerife, o McGee, sabe que prendeu o homem errado. No estar ele disposto a 
fazer frente ao xerife? - O que ele pode conseguir ao enfrentar o xerife  perder o emprego - redargui. - Sim, acredito que bem no fundo do seu corao ele sabe 
que os crimes foram cometidos pelo William Wharton. Mas aquilo que diz a si prprio  que se mantiver a boca fechada e alinhar no jogo at o Cribus se aposentar, 
ou este se empanturrar at  morte,  que ser ele quem vir a ocupar o seu lugar. E nessa altura as coisas sero diferentes. 
 isto o que ele repete a si mesmo todas as noites antes de

conciliar o sono, imagino eu. E muito provavelmente, nisso no difere muito do Homer. Dir a si mesmo: "Ao fim e ao cabo, o homem no passa de um negro. No se pode 
dizer que vo electrocutar um branco por um crime que ele no cometeu." - Nesse caso, tens de ir falar com eles - insistiu a Janice de uma forma que me fez gelar 
o corao, devido  profunda determinao que adivinhei na sua voz. Vais ter de os pr ao corrente daquilo que descobriste. - E vamos dizer-lhes que descobrimos 
como, Jan? 396 - perguntouu o Brutal no mesmo timbre de voz. - Achas que devemos descrever a maneira como o Wharton agarrou o John quando amos a tir-lo da priso 
para ele poder efectuar um milagre na mulher do director? - No... claro que no, mas... - Ela compreendeu at que ponto o gelo estava fino naquela direco, e comeou 
a patinar numa outra. - Nesse caso, sero obrigados a mentir - continuou ela. Lanou um olhar de desafio ao Brutal, depois f
 itou-me. O olhar dela era to quente, que quase seria capaz de queimar um buraco num jornal. _ - Mentir - repeti. - Mentir acerca de qu? - Sobre o motivo que te 
levou a tomar a iniciativa de ires at ao municpio de Purdom e depois ao de Trapingus. Vai at l falar com esse xerife gordo, o Cribus, e diz-lhe que o Wharton 
te contou que tinha assassinado as gmeas Detterick. Diz-lhe que ele confessou. - Por breves momentos, a Janice concentrou o seu olhar acalorado no Brutal. - Tu 
podes confirmar o que ele disser, Brutus. Podes dizer que estavas presente quanto ele confessou e que ouviste tudo. Pois bem, provavelmente tambm o Percy testemunhou 
tudo, e talvez tenha sido precisamente isso que o fez perder as estribeiras. Alvejou o Wharton porque no foi capaz de suportar a ideia daquilo que este fizera quelas 
crianas. Afectoulhe a mente. Aconteceu que... O qu? O que foi agora, em nome de Deus? No era s eu e o Brutal; o Harry e o Dean tambm a
  fitavam com uma espcie de horror. Nunca dissemos nada desse gnero, minha senhora - declarou o Harry. Expressavase como se falasse a uma criana. - A primeira 
pergunta que as pessoas fariam seria por que motivo no o tnhamos feito j.  nosso dever participar tudo o que os nossos bebs de cela dizem a respeito dos seus 
crimes anteriores. Dos seus e dos de outros prisioneiros. - No que tivssemos acreditado nele - atalhou o Brutal. - Um homem como o Bill "Selvagem" Wharton  capaz 
de mentir sobre tudo e mais alguma coisa, Jan. Sobre os crimes por ele cometidos, gente importante que conheceu, mulheres com quem foi para a cama, os jogos em que 
participou na escola secundria, at mesmo sobre o raio do tempo. - Mas... mas... - O semblante da Janice era de grande agonia. Aproximei-me dela, colocando o meu 
brao  volta dos seus ombros mas ela afastou-o violentamente. Mas - 397 ele esteve l! Foi ele quem pintou o maldito do celeiro da quinta! E
 LE JANTOU NA COMPANHIA DELES! - Mais uma razo para chamar a si todo o crdito pelo crime - interps o Brutal. - Ao fim e ao cabo, que mal  que poderia advir da? 
Por que razo  que ele no se vangloriou? Afinal de contas, no se pode fritar um homem duas vezes. - Deixem-me ver se estou a compreender correctamente esta situao. 
Ns sabemos que o John Coffey no s no matou essas garotas, como tambm tentou salvar as suas vi das. O assistente do xerife, o McGee, no se encontra ao corrente 
de tudo isto, como  evidente; no entanto, no deixa de calcular que o homem condenado  morte por causa desses crimes no  aquele que os cometeu. E ainda assim... 
mesmo assim... vocs no conseguem fazer com que ele seja julgado de novo. Nem sequer so capazes de reabrir o caso. -  isso mesmo - afirmou o Dean, que limpava 
furiosamente as lentes dos culos. - Isso resume mais ou menos a situao.

A Janice ficou sentada de cabea baixa, embrenhada nos seus pensamentos. O Brutal comeou a dizer qualquer coisa, mas eu ergui a mo para o calar. No acreditava 
que a Janice fosse capaz de engendrar uma maneira de safar o John Coffey da cadeira elctrica, da qual ele j se encontrava bastante prximo, apesar de, ao mesmo 
tempo, estar em crer que isso no seria completamente impossvel. A minha mulher era uma senhora inteligente e destemida. E muito determinada. Essa combinao tinha 
por vezes o poder de transformar montanhas em vales. - Muito bem - disse ela ao fim de algum tempo. - Nesse caso, tero de ser vocs a faz-lo sair da priso. - 
Minha senhora?! - exclamou o Dean, absolutamente atordoado. E assustado, tambm. - Vocs podem faz-lo. J o fizeram uma vez, no  verdade? Podem muito bem voltar 
a faz-lo. S que desta vez no o levam de regresso  penitenciria. - Gostaria a senhora de explicar aos meus filhos a raz E3o por que o pai deles foi para a priso, 
Mistress Edgecombe? - perguntou o Dean. - Acusado de ter ajudado um assassino a fugir da penitenciria? - As coisas no se passaro assim Deam havemos de estabelecer 
um plano. Fazer com que parea ter sido uma verdadeira fuga. 398 Nesse caso, convm que se trate de um plano que possa ter sido concebido por um sujeito que nem 
sequer se recorda como  que se atam os atacadores - observou o Harry. Ter de ser suficientemente verosmil para as pessoas poderem acreditar nele. A Janice olhou 
para ele, insegura. - Isso no serviria de nada - interps o Brutal. - Ainda que consegussemos pensar numa maneira, no serviria para nada. - E porque no? Ela 
parecia prestes a desatar a chorar. - Por que raio  que no? - Porque ele mede mais de dois metros,  careca, preto e o seu crebro mal lhe permite alimentar-se 
pela sua prpria mo - repliquei. - Quanto tempo pensas que ele demorar a ser capturado?
 Duas horas? Talvez seis? - Ele conseguiu sobreviver anteriormente sem despertar grandes atenes argumentou ela. Por uma das faces correu-lhe uma lgrima. Com a 
palma da mo limpou-a num gesto de fria. At certo ponto aquilo era verdade. Eu escrevera umas cartas a alguns amigos e familiares que tinha no Sul, perguntando-lhes 
se haviam lido alguma coisa nos jornais sobre um homem que se ajustasse  descrio do Coffey. Qualquer coisa. A Janice tambm fizera o mesmo. At  data, s tivramos 
conhecimento de uma ocasio em que ele, possivelmente, interviera com os seus poderes na localidade de Muscle Shoals, no Alabama. Um tornado atingira a igreja local 
enquanto o coro ensaiava - o que sucedera em 1929 - e um homem negro, de grande corpulncia, conseguira retirar dois homens dos escombros. Inicialmente, ambos pareciam 
estar mortos, de acordo com a opinio dos presentes, tendo no entanto vindo a verificar-se que nenhum deles sofrera leses g
 raves. Foi como se se tratasse de um milagre, dissera uma das testemunhas. O homem de raa negra, um vagabundo, o qual fora contratado pelo pastor da igreja para 
executar algumas tarefas por um dia desaparecera no meio de toda a excitao que se seguiu. - Tens razo, ele conseguiu safar-se - admitiu o Brutal. - Mas convm 
no esquecer que ele foi capaz de passar despercebido antes de ter sido julgado e condenado pelo homiccio de duas garotinhas. A Janice permaneceu sentada sem dar 
qualquer resposta. Deixou-se ficar assim durante quase um minuto, e depois fez algo que me chocou tanto como o meu sbito ataque de lgri 399 mas a deveria ter chocado. 
Estendeu o brao para a frente e com um gesto amplo, atirou para o cho tudo o que se encontrava em cima da mesa - os pratos, os copos, as canecas, os talheres, 
a terrina com a salada de couve, a tigela com a polpa de abbora, a travessa com a perna de porco trinchada, o leite e o jarro que continha ch fr
 io. Tudo aquilo acabou por tombar da mesa, tendo-se espalhado no meio do cho.

- Ora esta! ! ! - exclamou o Dean, fazendo recuar a cadeira com tanta fora que quase caiu de costas. A Janice no lhe prestou a mnima ateno. Olhava ora para 
o Brutal ora para mim, mais acentuadamente para mim. - Esto a dizer-me que tencionam mat-lo, grandes cobardes? - perguntou ela com desdm. - Esto dispostos a 
matar o homem que salvou a vida da Melinda Moores e que tentou salvar a vida dessas duas garotinhas! Ora bem, pelo menos haver um negro a menos neste mundo, no 
 verdade? Vocs podem consolar-se com essa justificao. Um negro a menos! Com aquelas palavras, a Janice levantou-se da mesa, olhou para a cadeira onde estivera 
sentada e deu-lhe um pontap, arremessando-a contra a parede. A cadeira fez ricochete, tendo ido cair em cima da polpa de abbora derramada no cho. Agarrei-a pelo 
pulso, mas ela libertou-se com um violento puxo. - No te atrevas a tocar-me - ripostou ela. - Por esta altura na prxima semana ter-te-
s transformado num assassino; no sers melhor do que esse homem, o Wharton. Portanto, no quero que me toques. Dirigiu-se para o alpendre das traseiras, ergueu 
o avental, cobrindo o rosto e comeou a chorar convulsivamente. Ns os quatro ficmos a olhar uns para os outros. Ao fim de algum tempo, levantei-me da mesa e comecei 
a limpar toda aquela porcaria. O Brutal foi o primeiro a ajudar-me, seguido do Harry e do Dean. Quando a cozinha voltou a ter de novo um aspecto mais ou menos arrumado 
foram-se embora. Nenhum de ns trocou uma nica palavra. Na realidade, no havia mais nada a dizer. 6 Era a minha noite de folga. Sentei-me na sala de estar da nossa 
casa pequena, a fumar cigarro aps cigarro, ouvindo o rdio e observando a escurido a emergir do solo para tragar 400 o cu. A televiso  um bom entretenimento, 
no tenho nada contra ela, mas no me agrada a maneira como nos afasta do resto do mundo, fazendo com que nos concentremos apen
 as no seu prprio ecr de vidro. Pelo menos nesse aspecto, o rdio era muito melhor. A Janice regressou ao interior de casa, ajoelhou-se ao lado do brao da minha 
poltrona e agarrou-me na mo. Durante algum tempo, nenhum de ns disse nada, ficmos assim a ouvir no rdio o Kay Kyser's Kollege of Musical Knowledge e observmos 
as estrelas que comeavam a .pontilhar o firmamento. Por mim estava muito bem assim. - Desculpa ter-te chamado cobarde - disse ela ao fim de algum tempo. - Sinto-me 
pior por ter afirmado isso do que por qualquer outra coisa que possa ter dito ao longo de todos os anos do nosso casamento. - Isso tambm inclui a ocasio em que 
fomos acampar e me chamaste Velho Sam Fedorento? - perguntei eu. Desatmos a rir e trocmos um beijo ou dois, o que fez com que a situao se desanuviasse um pouco 
entre ns. Ela era to bonita, a minha Janice, e eu continuo a sonhar com ela. Sentindo-me velho e cansado de viver da maneira como viv
 o, sonho com ela a entrar no meu quarto neste lugar solitrio e esquecido por todos, onde os corredores tm um fedor a mijo e a couve cozida retardada, e sonho 
que ela  maravilhosa e jovem, com os seus olhos azuis, seios firmes e direitos, dos quais eu mal conseguia manter as mos afastadas, e ela dir: Bem vs, querido, 
eu no estava naquele acidente de autocarro. Enganaste-te, mais nada. At mesmo agora costumo sonhar com isso e, por vezes, quando desperto e compreendo que no 
passou de um sonho, comeo a chorar. Eu que quando era novo s muito raramente  que chorava. - O Hal j sabe? - perguntou ela por fim. - Que o John est inocente? 
No vejo como possa saber. - Achas que ele pode fazer alguma coisa? Tem alguma influncia junto do Cribus? - Nem um bocadinho, minha querida. A Janice fez um acenar 
de cabea como se j esperasse aquela resposta. - Sendo assim no lhe digas nada. Se ele no puder auxiliar em nada, por amor de Deus n
 o lhe contes. - No - respondi.  que ele

401 Olhou para mim com olhos de expresso firme. - E nessa noite no vais dar parte de doente. Nenhum de vs o far. No podem fazer uma coisa dessas. - No, no 
podemos. Se estivermos presentes, pelo menos poderemos acelerar o processo, facilitando-lhe as coisas. Isso estar ao nosso alcance. No vai acontecer o que aconte 
ceu ao Delacroix. - Por uns momentos, misericordiosamente breves, vi a mscara de seda negra a queimar-se sobre o rosto do Del, revelando as pequenas massas de gelatina 
cozinhada que haviam sido os seus olhos. - No tens maneira nenhuma de te livrares, pois no? . A Janice agarrou-me na mo e levou-a  pele aveludada da sua face. 
- Pobre Paul. Pobre homem. Eu no lhe disse nada. Nunca antes, nem to-pouco em qualquer outra altura da minha vida, me apeteceu tanto fugir de qualquer coisa. Levar 
apenas a Jan comigo, os dois sozi nhos com um saco de tecido grosseiro contendo os nossos haveres, fugindo para qualquer lugar. - Meu
 pobre homem - repetiu ela, acrescentando logo em seguida: - Fala com ele. - Com quem? Com o John? - Sim. Fala com ele. Descobre o que  que ele quer. Pensei no 
assunto, e acenei com a cabea. Ela tinha razo. Costumava ter. 7 Dois dias mais tarde, a 18, o Bill Dodge, o Hank Bitterman e mais algum - no me recordo de quem, 
um temporrio qualquer - levaram o John Coffey at ao Bloco D para tomar um duche, o que nos permitiu ensaiar a sua execuo. No deixmos que o Pouca Terra ocupasse 
o lugar do John; todos nos dvamos conta de que, ainda que no houvssemos mencionado o assunto, isso teria sido uma obscenidade. Fui eu quem ocupou o seu lugar. 
- John Coffey - comeou o Brutal a dizer numa voz que no primava pela firmeza, enquanto eu me sentava desajeitadamente em cima da Velha Fasca -, o senhor foi condenado 
a morrer na cadeira elctrica, tendo a sentena sido lavrada por um jri formado por seus pares:.. Pares do John Coffey? Mas q
 ue grande piada. Tanto quanto me era dado saber, no existia em todo o planeta outra pessoa como ele. Ento pensei no que o John dissera naquela ocasio em que 
ficara a olhar para a Velha Fasca, imobilizado ao fundo das escadas que saam do meu gabinete: Eles continuam ali. Consigo ouvi-los gritar. - Deixem-me sair daqui 
- disse eu numa voz enrouquecida. - Desapertem estas braadeiras e deixem-me levantar. Eles assim fizeram, mas durante uns instantes senti-me imobilizado na cadeira, 
como se a Velha Fasca no desejasse que eu me levantasse. Enquanto regressvamos ao bloco, o Brutal comeou a falar comigo em voz baixa, de forma a que tanto o 
Dean como o Harry, os quais colocavam as ltimas cadeiras atrs de ns, no pudessem ouvir-nos. - J fiz algumas coisas ao longo da minha vida das quais no me sinto 
muito orgulhoso, mas esta  efectivamente a primeira vez que sinto que estou a correr o risco de ir parar ao inferno. Olhei para ele a fim
  de me certificar de que no estava a brincar. No me pareceu que estivesse. - O que  que pretendes dizer com isso? - perguntei. - Estamos a preparar-nos para 
matar uma bno de Deus - continuou ele. - Uma bno que nunca nos fez o mnimo mal nem a qualquer outra pessoa. O que  que eu vou dizer no caso de me ver em 
frente de Deus, o Pai Todo-Poderoso, e Ele me pedir para Lhe explicar por que motivo fiz isto? Que fazia parte do meu trabalho? Do meu trabalho? 8 Quando o John 
regressou do seu duche e os temporrios nos deixaram a ss, abri a fechadura da sua cela e entrei, sentando-me na tarimba ao seu lado. O Brutal encontrava-se sentado 
 secretria do guarda de servio. Ergueu o olhar, viu que eu estava sentado na cela sem qualquer colega, mas no fez comentrios. Voltou a concentrar a sua ateno 
na papelada em que trabalhava, enquanto lambia constantemente a ponta do lpis.

O John fitou-me com os seus olhos estranhos - raiados de sangue, distantes,  beira das lgrimas... e contudo, com uma expresso serena, como se o choro no fosse 
uma forma 403 402 de vida assim to m, sobretudo depois de nos termos acostumado. Conseguiu mesmo esboar um pequeno sorriso. Cheirava a sabonete, recordo-me bem, 
to limpo e com tanta frescura como um beb depois do seu banho ao fim do dia. - Ol, chefe - saudou-me ele, estendendo o brao e tomando as minhas mos nas suas. 
Aquilo foi feito com uma naturalidade perfeita, sem nada de premeditado. - Ol, John. - Eu sentia um pequeno embargo na garganta e tentei afast-lo ao engolir em 
seco. - Suponho que j saibas que a data est a aproximar-se. S faltam dois dias. Ele no me deu rplica, limitando-se a continuar sentado com as minhas mos nas 
suas. Estou convencido de que, agora que penso nisso, j comeara a acontecer-me algo, mas eu encontrava-me demasiado concentrado -
  quer psicolgica quer emocionalmente - em cumprir as minhas obrigaes para poder ter reparado nisso. - H alguma coisa em especial que queiras para o jantar dessa 
noite, John? Podemos arranjar-te quase qualquer coisa que queiras. At podemos trazer-te uma cerveja. S temos de a despejar para dentro de uma caneca de caf, mais 
nada. - Nunca gostei do sabor - disse ele. - Ento qualquer coisa especial para comer? - sugeri. A sua testa enrugou-se abaixo daquela grande extenso de pele castanha 
sem cabelos. Pouco depois, as rugas suavizaram-se e ele sorriu. - Rolo de carne seria bom. - Nesse caso, ser mesmo rolo de carne. Com molho e pur de batata. - 
Senti um entorpecimento no brao, como quando adormecemos sobre ele, s que esta sensao percorria-me o corpo todo. O interior do meu corpo. - Que mais queres como 
acompanhamento? - No sei, chefe. O que houver. Talvez um pouco de quiabo. - De acordo - anu, pensando que ele tambm haveria de
  comer  sobremesa a torta de pssego de Mrs. Janice Edgecombe. - E agora a respeito de um padre? Algum com quem possas rezar uma pequena orao, na noite de depois 
de amanh? Serve para confortar um homem; j vi isso muitas vezes. Eu poderia entrar em contacto com o Reverendo Schuster, ele  o homem que veio ao bloco quando 
o Del..~ - No quero nenhum pregador - disse o John. - O senhor tem sido bom para mim, chefe. Se quiser, pode rezar uma orao. Isso h-de chegar. Acho que podia 
ajoelhar-me um pouco consigo. - Eu! John, eu no seria capaz de... Fez um pouco de presso sobre as minhas mos e aquela sensao tornou-se mais forte. - Seria, 
sim - continuou o John. - No acha, chefe? - Suponho que sim - ouvi-me a mim prprio dizer. Tinha a impresso de que a minha voz adquirira um eco. Acho que seria, 
caso fosse necessrio. Naquela altura, a sensao dentro de mim era ainda mais forte; era a mesma que eu sentira anteriormente, q
 uando ele tratara a minha canalizao, mas tambm era diferente. No apenas porque desta feita no havia nada de mal comigo. Era diferente porque desta vez ele 
no tinha conscincia do que estava a fazer. Subitamente, senti-me aterrorizado, prestes a sufocar, tanta era a necessidade que me invadia de sair dali. Havia luzes 
acesas dentro de mim onde nunca tinham existido luzes anteriormente. No s no meu crebro, mas tambm por todo o meu corpo. - O senhor e Mister Howell e os outros 
chefes tm sido bons para comigo - disse o John Coffey. - Eu sei que tem andado preocupado, mas agora deve parar com isso. Porque eu quero ir, chefe. Tentei falar 
mas no consegui. Mas ele conseguia. O que o John disse a seguir foi a frase mais comprida que alguma vez ouvi da sua boca.

- Estou farto do sofrimento que vejo e ouo, chefe. Estou farto de andar pelas estradas, sozinho como um tordo  chuva, sem nunca ter um amigo para me acompanhar, 
ou para me dizer de onde  que viemos e para onde  que vamos, ou mesmo porqu. Estou farto que as pessoas sejam ms umas para com as outras.  o mesmo que sentir 
bocados de vidro dentro da minha cabea. Estou farto de todas as vezes em que quis evitar o mal e no fui capaz. Estou farto de estar sempre na escurido. Por causa 
da dor. Existe muita no mundo. Se eu pudesse acabar com ela, acabava. Mas no posso. "Pra com isso", tentei dizer-lhe. "Pra com isso, larga as minhas mos eu afogo-me, 
se o no fizeres. Afogo-me ou expludo." - No vai explodir - disse ele, esboando um pequeno ~rriso perante aquela ideia... Contudo, largou-me as mos. Com a respirao 
arquejante, inclinei-me para a frente. 405 404 Atravs do espao entre os joelhos podia ver todas as fissuras existe
 ntes no cho de cimento, todos os sulcos, todas as partculas de mica. Ergui o olhar at  parede e vi os nomes que ali haviam sido inscritos em 1924, 1926 e em 
1931. Aqueles nomes comeavam a dissipar-se, tal como, para usar a mesma expresso, se haviam dissipado os homens que os tinham inscrito, mas imagino que nunca se 
consegue apagar por completo qualquer coisa, sobretudo deste mundo de vidro escurecido; naquele momento, via-os de novo, um emaranhado de nomes, uns por cima dos 
outros, e olhar para eles era o mesmo que ouvir os mortos a falar, a cantar e a implorar misericrdia. Senti os globos oculares a pulsarem dentro das rbitas, ouvi 
o bater do meu prprio corao, senti o fluxo do sangue a fluir atravs das artrias do meu corpo, quais cartas a serem remetidas para todos os lugares. Ouvi o apito 
de um comboio  distncia - o comboio das trs e cinquenta com destino a Priceford, calculei, mas no estava inteiramente seguro de que fos
 se, porque nunca tinha dado por ele antes. Pelo menos, tal nunca acontecera estando eu dentro de Cold Mountain, uma vez que a distncia mais prxima a que passava 
da penitenciria estadual era a dezasseis quilmetros a oriente. Eu no poderia t-lo ouvido do interior da priso, poder-se-ia dizer, e at Novembro de 1932 era 
o que eu teria julgado, mas o certo  que o ouvi nesse dia. Algures no bloco, uma lmpada estilhaou-se com um estrpito semelhante ao de uma bomba. - O que  que 
me fizeste? - perguntei ao Coffey num sussurro. - Oh, John, o que  que me fizeste? - Lamento muito, chefe - replicou ele na sua maneira calma. - Eu no estava a 
pensar. Mas acho que no foi muito. Dentro de pouco tempo voltar a sentir-se ptimo. Levantei-me da tarimba e encaminhei-me para a porta da cela. Sentia-me como 
se caminhasse num sonho. Quando cheguei ao fundo, ele retomou a palavra. - O senhor continua a perguntar a si mesmo porque  que elas no
  gritaram.  a nica coisa para que ainda no descobriu a resposta, no  verdade? Por que razo  que es sas duas meninas no comearam a gritar, quando ainda 
se encontravam no alpendre. Dei meia volta e fiquei a olhar para ele. Conseguia distinguir todas as linhas vermelhas nos seus olhos, via todos os poros nas suas 
faces... e tambm sentia o seu sofrimento, ~ dores que extraa s outras pessoas, como uma esponja que absorvesse gua. Tambm era capaz de ver as trevas de que 
ele falara. Abatiam-se sobre todos os espaos do mundo tal como ele o avistava e, naquele momento, senti por ele um misto de piedade e de grande alvio. Sim, seria 
uma coisa terrvel o que nos propnhamos fazer, nada conseguiria alguma vez alterar esse facto... e, contudo, estaramos a prestar-lhe um favor. - Eu compreendi 
quando aquele tipo mau me agarrou - continuou o John. - Foi nessa altura que fiquei a saber que fora ele. Eu tinha-o visto nesse dia, estava no
 meio das rvores e vi-o quando as deixou cair e comeou a fugir, mas... Esqueceste-te - adiantei.

-- Foi isso mesmo, chefe. At ele me tocar, esqueci-me. - Porque  que elas no gritaram, John? Ele feriu-as o suficiente para terem sangrado, os pais encontravam-se 
mesmo no andar de cima, portanto, por que motivo  que elas no gritaram? John fitou-me atravs dos seus olhos assombrados. - Ele disse a uma delas: "Se fizeres 
barulho, mato a tua irm e no a ti", e depois disse a mesma coisa  outra. Est a compreender? - Sim - respondi num murmrio, enquanto visionava a cena. O alpendre 
da casa dos Detterick mergulhado na escurido. O Wharton debruado sobre as duas crianas como se fosse um ser malfico. Provavelmente uma delas teria comeado a 
gritar, pelo que o Wharton a agredira, fazendo-a sangrar do nariz. Fora da que se derramara a maior parte do sangue. - Ele matou-as com o amor delas - acrescentou 
o John. - O amor que sentiam uma pela outra. Est a ver como  que aconteceu? Acenei que sim, incapaz de proferir uma nica palavra.
  Ele sorriu-me. As lgrimas escorriam-lhe de novo pelas faces abaixo, mas ele continuava a sorrir. -  assim que as coisas se passam todos os dias - prosseguiu 
o John - por todo o mundo. - Em seguida, estendeu-se sobre a tarimba e voltou o rosto para a parede. Sa para a Milha, fechei a cela  chave e dirigi-me para a mesa 
no corredor. Continuava a sentir-me como um homem no meio de um sonho. Apercebi-me de que era capaz de ouvir os pensamentos do Brutal - um sussurro muito vago, a 
406 407 forma como soletrava uma palavra, tenho a impresso que era "receber". Ele perguntava a si mesmo se seria com dois ss ou com um c. Mas ento soergueu o olhar 
e sorriu, mas o sorriso desapareceu quando olhou bem para mim. - Paul? - perguntou. - Ests bem? - Sim. Comecei a contar-lhe o que o John me dissera, omitindo alguns 
aspectos e sem mencionar a sensao que o seu toque me tinha provocado (nunca contei essa parte a ningum, nem sequer  Janice; a Elaine Connelly se
 r a primeira pessoa a inteirar-se disso isto , se desejar ler estas ltimas pginas, depois de ter lido todas as outras); todavia, repeti o que o John dissera 
acerca de desejar partir. Aquela informao deu a impresso de ter provocado alvio no Brutal - pelo menos, um pouco - mas pressenti (teria ouvido?) que se interrogava 
se eu no teria inventado tudo aquilo para lhe tranquilizar a conscincia. Pouco depois, senti que ele optara por acreditar, simplesmente porque isso tornaria a 
situao um tudo-nada mais fcil quando chegasse a altura. - Paul, essa tua infeco est a comear a afligir-te de novo? - perguntou ele. - Ests com um aspecto 
muito congestionado. - No. Acho que estou bem - repliquei. As minhas palavras no correspondiam  verdade, mas naquele momento fiquei com a certeza de que o John 
tinha razo, e que dentro em pouco me voltaria a sentir bem. A sensao de entorpecimento j comeara a dissipar-se. - Sej
 a como for, no me parece que te fizesse mal ires para o teu gabinete deitar-te um bocado. Deitar-me era a ltima coisa que me apetecia fazer naquele momento - 
a ideia parecia-me to ridcula que quase me fez rir. Aquilo que me apetecia era talvez construir uma pequena casa para mim, pr as telhas no telhado, lavrar a terra 
para, num jardim nas traseiras, plantar as flores. Tudo isto antes da hora de jantar.  assim que as coisas so, pensei, todos os dias. Por todo o mundo. Essa escurido. 
Por todo o mundo. - Em vez de ir para o meu gabinete, vou at  administrao. Tenho alguns assuntos a tratar. - Se assim o dizes - replicou o Brutal. Dirigi-me 
para a porta, abri-a e depois olhei para trs. - Escreveste bem a palavra - disse eu - r-e-c-e-b-e-r 408 com c e no com dois ss, tal como diz a regra; mas imagino 
que haja excepes a todas as regras.

Continuei o meu caminho sem necessitar de olhar para ele para saber que me fitava com fixidez e de boca aberta. Durante o resto daquele turno, levei a cabo uma srie 
de outras tarefas, incapaz de me sentar por mais de cinco minutos seguidos, antes de ser forado a levantar-me de novo. Fui  administrao e depois comecei a andar 
desassossegadamente pelo ptio de recreio, na altura sem ningum, num passo alargado, de um lado para o outro, at que os guardas de vigia nas torres devem ter pensado 
que eu estava louco. Quando chegou a hora de o meu turno acabar, j me sentia mais calmo, e a torrente de pensamentos que me havia invadido a mente - como se fosse 
uma fiada de contas que se entrechocavam - j se tinha acalmado bastante. Todavia, nessa mesma madrugada, a meio caminho de casa, voltou a acontecer a mesma coisa 
e com bastante intensidade,  semelhana do que sucedera com a minha infeco urinria. Fui obrigado a estacionar o Ford na berma da e
 strada, a sair do carro e andar durante quase oitocentos metros, de cabea baixa, braos em movimentos rtmicos acompanhando o corpo, com a respirao arquejante 
to quente como algo que se tivesse transportado debaixo do sovaco. Ento, finalmente, comecei a sentir-me realmente normal. Num passo apressado, dirigi-me para 
o local onde estacionara o Ford, tendo percorrido metade desse caminho num passo mais regular, com a respirao a condensar-se no ar frio. Quando cheguei a casa, 
contei  Janice que o John Coffey me dissera que se encontrava preparado, que desejava ser executado. Ela acenou com a cabea, mostrando uma expresso de alvio. 
Corresponderia a sua atitude  verdade? No consegui dizer. Nas seis horas precedentes, at mesmo trs, eu teria sabido com segurana, mas naquela altura era incapaz 
de ter a certeza. O que era uma coisa boa. O John dissera vezes sem conta que se sentia cansado, e agora eu era capaz de compreender porqu=E
 A. Aquilo que ele possua teria deixado qualquer pessoa exaurida. Seria o suficiente para que algum ansiasse por descanso e tranquilidade. Quando a Janice me perguntou 
por que motivo  que eu tinha um aspecto to congestionado, cheirando tanto a transpirao, disse-lhe que tinha parado o carro a caminho de casa e que correra durante 
algum tempo. Contei-lhe essa parte 409 como talvez eu j tenha dito aqui (neste momento j acumulei demasiadas pginas para que me apetea voltar atrs, a fim de 
me certificar se fiz ou no essa afirmao), a mentira no era um elemento preponderante no nosso casamento embora no lhe tivesse dito porque o fizera. E ela no 
me perguntou. 9 Na noite em que chegou a vez de o John Coffey percorrer a Milha Verde, no houve tempestades. Fazia o frio adequado para a poca, diria eu, e havia 
um milho de estrelas que pon tilhavam o firmamento acima dos campos lavrados e cultivados, onde a geada que cara sobre a
 s vedaes e sobre a palha seca do milho de Julho cintilava como diamantes. O responsvel destacado para aquela execuo fora o Brutus Howell - seria ele quem ajustaria 
o capacete e diria ao Van Hay que accionasse a alavanca, quando chegasse a altura apropriada. O Bill Dodge encontrava-se junto deste ltimo. E por volta das onze 
e vinte do dia 20 de Novembro, o Dean, o Harry e eu dirigimonos para a nica cela ocupada, onde o John Coffey se encontrava sentado no extremo da tarimba, com os 
dedos entrelaados entre os joelhos. Via-se uma pequena ndoa de molho de rolo de carne no colarinho da sua camisa azul. Fitounos atravs das barras da cela, dando 
a impresso de se sentir bastante mais calmo do que ns prprios. As minhas mos estavam frias e as tmporas pulsavam. Saber que ele desejava que aquilo acontecesse 
era uma coisa - pelo menos tornava possvel que levssemos a nossa tarefa a bom termo - mas outra era saber que nos encontrvamos p
 restes a electrocut-lo pelo crime cometido por outrem. A ltima vez que eu tinha visto o Hal Moores fora s sete horas dessa tarde. Na altura, ele encontrava-se 
no gabinete, a abotoar o seu sobretudo. Tinha as faces empalidecidas e as mos tremiam-lhe tanto que abotoar aqueles botes era uma tarefa deveras difcil. Eu quase 
senti vontade de lhe afastar as mos, para ser eu prprio a

abotoar-lhe o sobretudo, como faria a uma criana. A ironia daquela situao era que a Melimda estava com melhor aspecto quando a Jan e eu framos visit-la no fim-de-semana 
anterior do que o Hal no fim do dia em que o John Coffey seria executado. 410 - No vou assistir a esta - dissera ele. - O Curtis estar presente, e sei que o Coffey 
vai estar em boas mos, contigo e com o Brutus. . Sim, faremos o nosso melhor - repliquei. - H alguma novidade em relao ao Percy? - Como  evidente, o que eu 
perguntava era se ele teria dado algum sinal de estar a recuperar o juzo. Encontrar-se-ia ele naquele momento sentado num quarto algures, narrando a algum, algum 
mdico, muito provavelmente, a forma como ns o havamos manietado no colete dos malucos e atirado para dentro da cela do isolamento, como qualquer outra criana 
problemtica... qualquer outro mentecapto, utilizando a linguagem do Percy? E caso fosse isso o que estivesse a acontecer, os
  que o ouvissem acreditariam no que ele dizia? Todavia, de acordo com o que o Hal dissera, o Percy continuava na mesma. No falava e, tanto quanto qualquer pessoa 
pudesse saber, to-pouco se encontrava neste mundo. Continuava internado em Indianola - "para ser submetido a avaliao", acrescentou o Hal, exibindo uma expresso 
mistificada perante aquela expresso - contudo, caso no se verificassem quaisquer melhorias, dentro em pouco seria transferido. - Como  que o Coffey est a aguentar-se? 
- perguntara o Hal nessa altura. Finalmente, e ao cabo de porfiados esforos, conseguira abotoar o ltimo boto do sobretudo. - Tudo correr da melhor maneira - 
respondi com um acenar de cabea. Ele retribuiu-me com outro aceno e dirigiu-se para a porta, parecendo envelhecido e adoentado. - Como  que no interior do mesmo 
homem podero coabitar tanto bem e tanto mal? Como  que o homem que curou a minha mulher pode ser o mesmo homem que matou essas duas
  garotas? Consegues compreender uma coisa dessas? Disse-lhe que no conseguia compreender, que os caminhos de Deus eram misteriosos, acrescentando que havia bom 
e mau em todos ns, que no nos cabia tentar descobrir a razo daquilo, e mais algumas patranhas do mesmo teor. A maior parte daquilo que lhe disse na ocasio aprendera 
na Igreja de Jesus Seja Louvado, O Senhor  Todo-Poderoso; o Hal acenara com a cabea durante todo o tempo, exibindo uma expresso parecida com enlevo. Ele podia 
dar-se ao luxo de acenar com a cabea, no  verdade? Sim. E tambm de mostrar-se enlevado. No seu semblante, adivinhava-se uma profunda tristeza - sem dvida que 
ele se sentia abalado, nunca duvidei disso - mas desta vez no lhe assomaram lgrimas aos olhos, porque ele tinha uma mulher em casa  sua espera, a sua companheira 
que o aguardava, e ela estava bem de sade. Graas ao John Coffey, ela encontrava-se completamente curada e o homem que tinha assinad
 o a sentena de morte do John poderia ir-se embora para junto dela. No era obrigado a presenciar aquilo que aconteceria a seguir. Teria possibilidades de dormir 
nessa noite no calor do corpo da mulher, enquanto o John Coffey estaria estendido sobre um bloco de mrmore na cave do hospital do municpio, com o corpo a arrefecer 
 medida que as horas silenciosas e desprovidas de calor humano se aproximavam da alvorada. Odiei o Hal por todos aqueles motivos. S um pouco, e claro que eu acabaria 
por ultrapassar esse sentimento, mas o que era inegvel  que se tratava de dio. Do mais genuno que pudesse existir. Pouco depois entrei na cela, seguido pelo 
Dean Harry; ambos estavam cabisbaixos e plidos. - Ests preparado, John? - perguntei. - Sim, chefe. Acho que sim - respondeu-me ele. - Muito bem, ento. Tenho uma 
coisa a dizer antes de sairmos da cela. - Diga tudo o que tem a dizer, chefe. - John Coffey, na minha qualidade de funcionrio autorizado pe
 lo tribunal... Fiz o discurso da praxe at ao fim e, quando terminei, o Harry Terwilliger aproximou-se e estendeu a mo. Por escassos momentos, o John mostrou-se 
surpreendido, mas depois

sorriu e apertou-a. Em seguida, foi a vez do Dean, mais plido do que nunca, fazer o mesmo. - Tu merecias melhor sorte do que esta, Johnny - afirmou ele numa voz 
enrouquecida. - Lamento muito. - Eu ficarei bem - replicou o John. - Esta  a parte mais difcil; daqui a pouco estou bem. - Com aquelas palavras, levantou-se da 
tarimba; a medalha de So Cristvo que a Melly lhe oferecera soltou-se de dentro da camisa. - John, tens de me entregar isso - disse eu. - Eu posso voltar a pr-ta 
ao pescoo depois de... depois, se o desejares, mas agora no podes us-la. - Era de prata e, se estivesse junto  pele quando o Jack Van Hay accionasse a corrente 
412 elctrica, poderia fundir-se com a pele. Ainda que isso no viesse a suceder, talvez lhe deixasse a imagem carbonizada do santo na pele do peito. Eu j presenciara 
isso. Durante os anos que passara na Milha j tinha visto quase tudo. Mais do que aquilo que era bom para mim prprio. Agora compreendo i
 sso. O John tirou o fio pela cabea e pousou-o na minha mo. Coloquei o medalho na algibeira e disse-lhe para sair da cela. No havia necessidade de verificar 
a cabea para me certificar de que o contacto se faria de forma" adequada, permitindo uma boa passagem de corrente; eu sabia que estava to macia como a palma da 
minha mo. - Sabe, chefe, esta tarde adormeci e tive um sonho - ?disse ele. - Sonhei com o rato do Del. - A srio, John? - Coloquei-me  sua esquerda e o Harry  
sua direita. O Dean fechava a retaguarda; comemos a percorrer a Milha Verde. Foi a ltima vez que a atravessei na companhia de um prisioneiro. - Sim - continuou 
o John. - Sonhei que ele tinha conseguido ir para aquele lugar de que o chefe Howell falou, aquela Vila dos Ratos. Sonhei que havia midos e que eles se riam ao 
ver as habilidades! Extraordinrio! - Comeou a rir-se ao pensar naquilo, mas pouco depois o seu rosto adquiriu uma expresso de maior seriedade. -
  Sonhei que aquelas duas meninas louras tambm l estavam. Elas tambm se riam. Coloquei os braos  volta delas e o sangue parou de sair dos seus cabelos, e elas 
ficaram curadas. Todos ns ficmos a ver o Mister Jingles a rolar o carretel e fartmo-nos de rir. Quase explodimos de tanto rir. - De verdade? - perguntei, embora 
pensasse que no seria capaz de prosseguir com aquilo, era absolutamente impossvel. Ia comear a chorar ou a gritar, ou ento o meu corao rebentaria de tanto 
desgosto, pondo fim a tudo. Dirigimo-nos para o meu gabinete. O John olhou em redor por um momento ou dois, e deixou-se cair de joelhos, sem que houvesse necessidade 
de se lhe dizer que o fizesse. Por detrs dele, o Harry olhava para mim com uma expresso acossada. O Dean estava branco que nem uma folha de papel. Ajoelhei-me 
ao lado do John, pensando que estava a verificar-se uma estranha inverso de circunstncias: depois de todos os condenados que eu tivera d
 e ajudar a terminar aquela jornada, desta feita o mais provvel era que eu prprio viesse a precisar de ajuda. Pelo menos, foi isso que senti. 413 - O que  que 
devemos pedir, chefe? - perguntou-me John. - Foras - repliquei sem sequer pensar. Cerrei os olhos e acrescentei: - Senhor, por favor ajudai-nos a concluir o que 
comemos, e, por favor, abri os braos a este homem, John Coffey... como o nome da bebida, mas escrito de maneira diferente, dandolhe as boas-vindas ao paraso 
e concedendo-lhe paz. Por favor, ajudai-nos a envi-lo da maneira que ele merece e no permitais que alguma coisa corra mal. men. - Abri os olhos e olhei para o 
Dean e o Harry. Estavam com melhor aspecto, o que provavelmente se devia ao facto de poderem ter recuperado o flego. Duvido que tenha sido a minha orao. Comecei 
a erguer-me do cho, mas o John agarrou-me pelo brao. Lanou-me um olhar que era uma mescla de esperana e timidez. - Lembrei-me de uma ora
o que me ensinaram quando eu era pequeno - disse ele. Pelo menos, acho que me lembrei. Posso rez-la?

- No hesites, diz a tua orao - retorquiu o Dean. - Ainda temos muito tempo, John. O Coffey fechou os olhos e franziu o sobrolho, tanta era a sua concentrao. 
Eu estava  espera de uma orao que as crianas costumassem rezar antes de adormecerem, ou uma verso atabalhoada do padre-nosso, mas no obtive nem uma nem outra; 
nunca tinha ouvido o que lhe saiu da boca e nunca voltei a ouvir, apesar de as expresses e os sentimentos nas suas palavras no terem nada de particularmente invulgar. 
De mos unidas em frente dos olhos fechados, o John Coffey comeou a rezar. - Menino Jesus, humilde e bom, reza por mim que so uma criana rf. S a minha fora, 
s meu amigo, fica comigo at ao fim. men. - Abriu os olhos e comeou a erguer-se, olhando atentamente para mim. Passei o brao pelos olhos humedecidos. Enquanto 
ouvia as suas palavras, tinha pensado no Del; no fim, ele tambm desejara rezar mais uma orao. Santa Maria,
  Me de Deus, rezai por ns, pecadores, agora e na hora da nossa morte. - Lamento muito, John. - No lamente - redarguiu ele, apertando-me o brao e esboando um 
sorriso. E ento tal como eu pensei que viria a suceder, ele ajudou-me a levantar do cho. 414 10 No estavam presentes muitas testemunhas - ao todo, talvez fossem 
umas catorze, metade do nmero que tinha estado na arrecadao aquando da execuo do Delacroix. O Homer Cribus viera assistir, com as carnes gordas a transbordar 
da cadeira como era costume; contudo, no vi o seu ajudante, o McGee.  semelhana do director Moores, aparentemente, ele decidira manter-se ausente daquela. Na 
fila da frente encontrava-se um casal de idade, que inicialmente no reconheci, embora houvesse visto as suas fotografias numa grande quantidade de artigos de jornal 
at quele dia, na terceira semana de Novembro. Ento,  medida que nos aproximvamos do estrado onde a Velha Fasca aguardava,
  a mulher deu largas  sua fria. - Morre devagar, grande filho da puta! - Foi ento que compreendi que eles eram os Detterick, Klaus e Marjorie. Eu no os reconhecera, 
uma vez que no  normal ver-se velhos com pouco mais de trinta anos. O John curvou os ombros ao ouvir a voz da mulher e o xerife Cribus grunhiu de aprovao. O 
Hank Bitterman, que se encontrava de guarda na frente daquele escasso grupo de espectadores, nunca desprendeu os olhos do Klaus Detterick. Estava a cumprir as minhas 
ordens; no entanto, nessa noite, o Detterick no fez o mais pequeno gesto na direco do John. O homem dava a impresso de se encontrar noutro planeta. O Brutal, 
que estava junto da Velha Fasca, fez-me um pequeno gesto com um dedo quando subimos ao estrado. Meteu a arma no coldre e agarrou no John pelo pulso, escoltando-o 
com tanta suavidade em direco  cadeira elctrica como se fosse um rapaz a conduzir a namorada para a pista de dana no primeiro b
 aile a que iam juntos. - Est tudo bem, John? - perguntou ele em voz baixa. - Sim, chefe, mas... - Os seus olhos deslocavam-se de um lado para o outro dentro das 
rbitas e, pela primeira vez, mostrava-se assustado; a sua voz tambm deixando adivinhar isso. Mas est aqui muita gente que me odeia. Muita. Eu sinto isso. Faz-me 
mal. Sinto picadas como se fossem o ferro de abelhas, e di. - Nesse caso, deves pensar apenas no que ns sentimos - disse-lhe o Brutal no mesmo tom de voz baixa. 
- Ns no te odiamos..: Consegues sentir isso? 415 - Sim, chefe. - Mas a sua voz agora tremia ainda mais, enquanto dos olhos haviam comeado a correr de novo, lentamente, 
lgrimas. - Matem-no duas vezes, rapazes! - vociferou de sbito a Marjorie Detterick. A sua voz, spera e estridente, era como uma bofetada. O John encolheu-se todo 
junto de mim, a ge_ mer. - Y l, matem duas vezes esse violador, assassino de crianas, matem-no! O Klaus, que continuava com a me
 sma expresso de quem sonhava acordado, puxou a mulher para junto do seu ombro. Ela comeou a chorar convulsivamente.

Foi com grande estupefaco que reparei que o Harry Terwilliger tambm chorava. At ao momento, ainda nenhum dos espectadores tinha dado conta das suas lgrimas 
- ele estava de costas voltadas para a assistncia - mas o inegvel  que ele chorava. O que  que qualquer de ns poderia fazer, para alm de dar seguimento ao 
assunto? O Brutal e eu formos o Coffey a dar meia volta. O Brutal fez presso sobre um dos ombros do homem gigantesco, e este sentou-se. Agarrou-se com fora aos 
amplos braos de carvalho da Velha Fasca, com os olhos a rolarem dentro das rbitas e deitando a lngua de fora, primeiro para humedecer um dos cantos da boca e 
depois o outro. O Harry e eu ajoelhmo-nos. No dia anterior, tnhamos dado instrues a um dos presos de confiana que trabalhava na oficina para que este soldasse 
umas extenses flexveis, mas temporrias, s braadeiras das pernas da cadeira, uma vez que as canelas do John Coffey n
o eram do tamanho das de um tipo normal. Mesmo assim, atravessei uns momentos de pesadelo quando pensei que ainda seriam pequenas e que teramos de lev-lo de regresso 
 cela, enquanto o Sam Broderick, o encarregado da oficina nessa poca, procederia s alteraes necessrias. Com a palma da mo, dei uma pancada especialmente forte 
contra a braadeira do meu lado, que se fechou. A perna do John retraiu-se e ele ofegou. Eu tinha-lhe beliscado a pele. - Desculpa, John - murmurei, olhando para 
o Harry. Ele conseguira ajustar a sua braadeira com maior facilidade (ou a extenso do seu lado era um pouco maior, ou a canela da perna direita do John era um 
tudo-nada menos espessa); no entanto, olhava para o resultado com uma expresso de dvida. Acho que compreendi por que motivo; as braadeiras que haviam sido alteradas 
tinham um aspecto esfomeado, parecendo maxilas a abrirem-se como a boca de crocodilos. 416 - Vai correr tudo bem - disse eu, espera
 ndo que a minha voz fosse convincente... e que estivesse a dizer a verdade. - Limpa as faces, Harry. Ele passou o brao pelo rosto, limpando as lgrimas das bochechas 
e as gotas de suor que lhe perlavam a testa. Demos meia volta. O Homer Cribus, que entretanto tinha estado a conversar em voz alta com o homem sentado ao seu lado 
(o promotor de justia, a julgar pela gravata fina e fato negro com lustro), ficou em silncio. Estava quase na hora. O Brutal j prendera um dos pulsos do John 
e o Dean fizera o mesmo ao outro. Por cima do ombro do Dean, avistei o mdico que, como sempre, tentava passar despercebido, de p encostado  parede, com a sua 
maleta negra entre os ps. Nos dias que correm, imagino que eles tratem deste gnero de assunto com mais facilidade, principalmente com solues intravenosas, mas 
naquela poca era quase necessrio arrastar os mdicos, isto , caso se desejasse a sua presena. Talvez nesses tempos eles tivessem uma no E7o mais precisa daquilo 
que era correcto no comportamento de um mdico, e daquilo que era uma perverso do juramento que haviam feito, aquele em que juram acima de tudo no provocar mal. 
O Dean acenou na direco do Brutal. Este girou a cabea, parecendo olhar para o telefone, cuja campainha jamais tocaria para os da igualha do John Coffey. - Prosseguir 
com a fase um! - gritou ele, dirigindo-se ao Jack Van Hay. Ouviu-se o zunido da corrente elctrica, como se fosse o barulho do motor de um velho frigorfico a arrancar, 
enquanto a luminosidade das luzes se intensificava um pouco mais. As nossas sombras projectaram-se um tudo-nada mais acentuadamente, sombras negras que se recortavam 
na parede e que pareciam pairar em redor da sombra da cadeira, quais abutres a rondar a presa. O John respirou fundo. Tinha os ns dos dedos brancos. - J comeou 
a doer? - guinchou Mrs. Detterick numa voz entrecortada com a boca contra o ombro do marido. - Espero que sim
 ! Espero que te faa doer como o inferno! - O marido apertou-a mais contra si. De uma das suas narinas escorria sangue, reparei eu, um fio vermelho estreito que 
corria at ao bigode. Quando abri o jornal em Maro seguinte e li que ele morrera de uma trombose, senti-me o homem menos surpreendido do mundo. - 417

Entretanto, o Brutal colocou-se no campo de visp do John. Enquanto falava, manteve a mo sobre o seu ombro. Aquilo ia contra os regulamentos, mas de todos os presentes 
s o Curtis Anderson  que tinha conhecimento disso, e ele no pareceu ter dado por nada. Pensei que o seu aspecto era o de um homem que desejava terminar, o mais 
depressa possvel, com a tarefa que tinha em mos. Queria desesperadamente ver tudo aquilo terminado. Veio a alistar-se no exrcito depois do ataque a Pearl Harbor, 
mas nunca chegou a ser enviado para o estrangeiro; morreu em Fort Bragg num acidente com um camio. Entretanto, o John tinha-se descontrado um pouco sob os dedos 
do Brutal. No me parece que ele compreendesse ~nuito daquilo que o Brutal lhe dizia, mas isso no o impediu de se sentir confortado pela mo dele sobre o seu ombro. 
O Brutal, que veio a falecer de um ataque do corao vinte e cinco anos mais tarde (na altura comia ele uma sanduche de peixe e ass
 istia a um combate de luta livre na televiso de acordo com o que a irm relatou), era um homem bom: Meu amigo. Talvez o melhor de todos ns. No sentia a mnima 
dificuldade em compreender como  que um homem poderia desejar, simultaneamente, partir e sentir-se aterrorizado perante a perspectiva da viagem. - John Coffey, 
o senhor foi condenado a morrer na cadeira elctrica, tendo a sentena sido lavrada por um jri formado pelos seus pares, e imposta por um juiz deste estado, Deus 
abenoe as pessoas deste estado. Tem alguma coisa a dizer antes de se dar cumprimento  sentena? O John humedeceu os lbios uma vez mais, aps o que falou com toda 
a clareza. Cinco palavras. - Lamento muito aquilo que sou. -Deves lamentar! - gritou a me das duas garotas assassinadas. - Oh, grande monstro, deves lamentar! TENS 
OBRIGAO DE LAMENTAR E MUITO! Os olhos do John voltaram-se para mim. Na sua expresso no vi qualquer sinal de resignao, nem esp
 erana do paraso, nem to-pouco o nascer de um sentimento de Paz. Como eu gostaria de poder dizer que ele via essas coisas. Como eu gostaria de o poder dizer a 
mim prprio. Aquilo que vi foi medo, infelicidade e incomprenso. Eram os olhos de um animal encurralado que se sentia aterrorizado. Pensei no que ele dissera sobre 
a forma como o Wharton conseguira 418 fazer com que a Cora e a Kathe tivessem sado do alpendre sem levantar as suspeitas de ningum no interior da casa: Ele matou-as 
com o amor que elas sentiam.  o que acontece todos os dias. Em todas as partes do mundo. O Brutal retirou a nova mscara do seu gancho de bronze nas costas da cadeira, 
mas assim que o John a avistou e compreendeu do que se tratava, os seus olhos arregalaram-se de horror. Olhou para mim e naquele momento eu via grossas gotas de 
suor sobre a curva do seu crnio desnudado. Pareciam to grandes como ovos de tordos. - Por favor, chefe, no ponha essa coisa em cima da m
 inha cara - pediu ele num gemido sussurrante. - Por favor, no me faa ficar s escuras, no me obrigue a ficar s escuras, eu tenho medo do escuro. O Brutal olhava 
para mim com os sobrolhos soerguidos, sem fazer o mais pequeno movimento, mantendo a mscara nas mos. A expresso dos seus olhos dizia-me que a deciso era minha, 
fosse ela qual fosse, o destino do John j estava traado. Pensei com toda a rapidez que me era possvel e to acertadamente quanto estava ao meu alcance - o que 
foi difcil, com a cabea a latejar. A mscara era da tradio e no da lei. Na realidade, era uma medida que se destinava mais a poupar as testemunhas. Mas, subitamente, 
decidi que elas no precisavam de ser poupadas, sobretudo daquela vez. Ao fim e ao cabo, o John no tinha cometido crime nenhum em toda a sua vida que o fizesse 
ser merecedor de morrer com uma mscara a cobrir-lhe o rosto. Os presentes no estavam a par dessa circunstncia, mas
 ns encontrvamo-nos cientes disso, o que me levou a decidir que lhe concederia aquele ltimo pedido. Quanto  Marjorie Detterick, o mais provvel seria ela enviar-me 
uma carta de agradecimento. - De acordo, John - murmurei eu.

O Brutal voltou a colocar a mscara no seu lugar. Atrs de ns, o Homer Cribus gritou a sua indignao numa voz de cana rachada. - Vamos l a ver, rapaz! Pe essa 
mscara na cara dele! Pensas que queremos ver os seus olhos a saltarem das rbitas? - Faa o favor de se manter calado - disse eu sem me voltar para o homem. - Isto 
 uma execuo e o senhor no  o responsvel por ela. * Nem foste o responsvel pela sua captura, meu grande * 419 monte de tripas - sussurrou o Harry. O Harry 
morreu em 1982, muito prximo dos oitenta anos de idade. Um homem j bastante idoso. No fazia parte da minha liga, como  evidente, mas poucos fazem. Veio a falecer 
de uma espcie qualquer de cancro intestinal. O Brutal inclinou-se para baixo e retirou o crculo de esponja do interior do balde. Com um dedo fez presso sobre 
a superfcie e lambeu a ponta deste, embora no houvesse ne cessidade de o ter feito. Eu conseguia ver o lquido de um h
 orrvel tom acastanhado a pingar da esponja. Ajustou-a no interior do capacete e colocou este sobre a cabea do John. Pela primeira vez reparei que o Brutal tambm 
estava branco - de um branco pastoso, parecendo prestes a perder a conscincia. Ocorreu-me o facto de ele ter dito que sentia, pela primeira vez em toda a sua vida, 
estar  beira do inferno, porque estvamos a preparar-nos para matar uma bno de Deus. De sbito, senti uma vontade irresistvel de vomitar. Consegui control-la, 
mas s com muito esforo. A gua gotejava da esponja por ambos os lados do rosto de John. O Dean Stanton estendeu a correia - que deixou o mais larga que lhe foi 
possvel - a toda a largura do peito do John, e entregou-ma. Tivramos tanto cuidado a tentar proteger o Dean na noite em que fizemos a nossa viagem, por causa dos 
seus filhos, desconhecendo que lhe restavam menos de quatro meses de vida. Depois da morte do John Coffey, pediu transferncia para o
  Bloco C, afastando-se da Velha Fasca, e foi l que um prisioneiro o apunhalou na garganta com o cabo de uma colher, acabando o Dean por deixar o sangue da sua 
vida derramado sobre o soalho conspurcado. Nunca cheguei a saber por que motivo. No me parece que algum tenha vindo a descobrir a razo daquele acto. A Velha Fasca 
 uma coisa de onde emana uma grande perversidade, concluo eu sempre que me recordo desses dias. Todos ns somos frgeis que nem vidro a ser soprado, at mesmo sob 
as melhores condies imaginveis. Matarmo-nos uns aos outros com gs e electricidade, a sangue-frio? Que loucura. Que horror. O Brutal verificou a correia e retrocedeu. 
Esperei que ele comeasse a falar, mas no o fez. Enquanto cruzava as mos atrs das costas, mantendo-se numa posio de -vontade em formao militar, eu soube 
que ele no diria nada. Talvez no fosse capaz. No me pareceu que eu prprio estivesse capaz de proferir uma =F
 Anica palavra, mas ento olhei para os olhos 420 lacrimosos e atemorizados do John e conclu que no poderia evitar. Ainda que fosse amaldioado para todo o sempre, 
no me restava outra alternativa. - Prosseguir com a fase dois - ordenei numa voz pouco firme e enrouquecida, que mal reconheci como sendo a minha. O capacete comeou 
a zunir. Dez grandes dedos ergueram-se das extremidades dos amplos braos de carvalho da cadeira, abrindo-se tensamente em dez direces diversas, com as pontas 
a tremerem espasmdicamente. Os joelhos enormes agitavam-se como pistes cujos mbolos no tinham espao suficiente; contudo, as braadeiras que lhe prendiam os 
artelhos mantiveram-se firmes. No tecto, trs das lmpadas suspensas estilhaaram-se - com o rudo caracterstico do vidro a desfazer-se em fragmentos. A Marjorie 
Detterick soltou um grito ao ouvir aquele som, desmaiando nos braos do marido. Decorridos dezoito anos, ela veio a morrer em Memp
 his. Foi o Harry quem me enviou a notcia do bito. Faleceu num acidente com um elctrico. O corpo do John sofreu um violento impulso contra a correia do peito. 
Por breves momentos, os seus olhos cruzaram-se com os meus. Estavam bem alerta; eu fui a ltima imagem que ele viu enquanto o empurrvamos pelo precipcio do mundo. 
Em seguida, descaiu contra as costas da cadeira, com o capacete ligeiramente

inclinado em cima da cabea, o fumo - uma espcie de nuvem enegrecida - a evolar-se de debaixo dele. Mas sabem, de uma maneira geral, tudo aquilo se processou com 
rapidez. Duvido que ele no tenha sofrido dores, tal como os defensores da cadeira elctrica afirmam ( uma noo que nem sequer os mais acrrimos de entre eles 
mostrou alguma vez vontade de investigar), mas foi clere. As mos voltaram a ficar inertes, com as meias-luas na base das unhas anteriormente branco-azuladas agora 
de uma tonalidade carregada de beringela, enquanto se evolava um anel de fumo das faces ainda molhadas com a soluo salina da esponja... e das lgrimas. As derradeiras 
lgrimas do John Coffey. Eu estava bem at chegar a casa. Por essa altura j era de madrugada e os pssaros j tinham comeado a fazer ouvir os seus trinados. Estacionei 
o calhambeque, sa, dirigi-me para 421 os degraus das traseiras, e foi ento que me senti invadido pelo segundo maior de
 sgosto de toda a minha vida. Foi o facto de ter pensado no quanto ele receava a escurido que fez com que aquela sensao me assolasse. Recordei-me da primeira 
vez em que nos vramos, como ele me tinha perguntado se costumvamos deixar as luzes ligadas durante a noite, e senti as pernas enfraquecidas. Sentei-me nos degraus, 
verguei a cabea para cima dos joelhos e comecei a chorar. No me pareceu que chorasse apenas pelo John, mas sim por todos ns. Entretanto, a Janice saiu de casa 
e sentou-se ao meu lado. Colocou um brao em redor dos meus ombros. - No o magoaste mais do que o indispensvel, no  verdade? - Abanei a cabea num gesto de negao. 
- E ele desejava ir. - Acenei que sim. - Vem para dentro disse ela, ajudando-me a levantar. Fez-me recordar a forma como o John me tinha ajudado a levantar quando 
ambos estivramos a rezar. - Vem para dentro e bebe uma caneca de caf. Fiz o que ela aconselhou. Decorreu a primeira manh, e depo
 is a primeira tarde; em seguida, veio o primeiro turno de regresso ao trabalho. O tempo encarrega-se de tudo, quer isso nos agrade ou no. O tempo apaga tudo, a 
passagem do tempo dilui as recordaes na nossa memria, e no fim s nos resta a escurido. Por vezes, encontramos outros nessa escurido e noutras ocasies perdemo-los 
nesse mesmo espao do tempo. E isso  tudo o que sei, excepto que isto teve lugar em 1932, quando a penitenciria estatal ainda era em Cold Mountain. Assim como 
a cadeira elctrica, claro. 12 Por volta das duas e um quarto, a minha amiga Elaine Connelly veio at junto de mim, quando eu ainda me encontrava sentado no solrio 
com as ltimas pginas da narrativa bem organizadas  minha frente. As suas faces mostravam-se bastante empalidecidas e na pele abaixo dos olhos havia um certo brilho. 
Fiquei 'com a impresso de que tinha estado a chorar. Por mim, limitara-me a olhar. Precisamente isso. A olhar 422 pela janela em
  direco s colinas situadas a oriente, sentindo a mo direita a latejar no extremo do seu pulso. Mas de certa forma, aquele latejar era tranquilizante. Sentia-me 
vazio, como se houvesse sido despojado da minha pele. Um sentimento que era, simultaneamente, maravilhoso e aterrorizador. Foi-me difcil enfrentar o olhar da Elaine 
- receava o dio e o desprezo que talvez pudesse vislumbrar nos seus olhos - mas tal no aconteceu. A sua expresso era triste e interrogadora, mas no me causava 
qualquer intranquilidade. Nela no lia dio nem to-pouco desdm, apenas descrena. - Queres ler o resto da histria? - perguntei. Com a minha mo dorida, dei uma 
pancadinha sobre a pequena pilha de folhas manuscritas  minha frente. - Est aqui, mas compreendo se preferires no...

- No se trata de uma questo daquilo que quero - atalhou ela. - Tenho de saber como  que tudo veio a desenrolar-se, embora calcule que no possa haver a mais pequena 
dvida quanto ao facto de o teres executado. A interveno da Providncia, com um "p" maisculo,  exageradamente sobrestimada na vida do comum dos mortais, penso 
eu. Mas antes de agarrar nessas pginas... Paul... A Elaine deteve-se, como que insegura quanto  forma como deveria prosseguir. Esperei. Por vezes, -nos impossvel 
ajudar as pessoas. Por vezes,  prefervel nem sequer tentar. - Paul, a julgar pela maneira como escreves, d a impresso de que em mil novecentos e trinta e dois 
j tinhas dois filhos crescidos... no s um, mas sim dois. Ora, se no te casaste com a tua Janice quando tinhas apenas doze anos e ela onze, qualquer coisa mais 
ou menos assim... - ramos muito jovens quando casmos... - comecei a dizer, esboando um sorriso. - Muitas das pe
 ssoas das regies montanhosas casam cedo, a minha me tambm... bom, mas tambm no era assim to jovem. - Sendo assim, quantos anos tens? Sempre parti do princpio 
que andarias pelos oitenta e pouco, que talvez fosses da minha idade, possivelmente at mesmo um pouco mais novo, mas a fazer f nos teus escritos... - No ano em 
que o John percorreu pela ltima vez a Milha Verde, eu tinha quarenta anos - continuei. - Nasci em mil oitocentos e noventa e dois. O que significa que tenho cento 
e quatro anos, se os meus clculos no me enganam. A Elaine ficou a olhar para mim incapaz de falar. - 423 Agarrei nas ltimas folhas do manuscrito, recordando-me 
uma vez mais de como o John me tinha tocado no interior da sua cela. No vai explodir, dissera ele, esboando um pequeno sorriso perante aquela ideia, e realmente 
eu no explodira... embora algo me tivesse acontecido. Algo duradouro. - L o resto da histria - aconselhei. - Todas as respostas que e
 u possa ter encontram-se a. - De acordo - respondeu a Elaine numa voz que no era mais do que um murmrio. Devo confessar que me sinto um tudo-nada receosa, no 
posso negar, mas... muito bem. Para onde  que tencionas ir quando sares daqui? Levantei-me da cadeira, espreguicei-me e ouvi os estalos da minha espinha. Uma coisa 
que eu sabia era que estava mais que farto do solrio. - Vou para o campo de jogos. Ainda h uma coisa que gostaria de te mostrar e que fica nessa mesma direco. 
-  alguma coisa... assustadora? - perguntou a Elaine a medo, e na sua expresso tmida adivinhei a rapariguinha que ela outrora fora, quando os homens costumavam 
usar chapus de palhinha no Vero e casacos de pele de guaxinim no Inverno. - No - repliquei com um sorriso. - No  assustador. - De acordo. - Agarrou nas folhas 
que eu lhe estendia. - Vou levar isto para o meu quarto. Encontramo-nos mais tarde no campo de jogos, por volta das... - Folheou o manu
 scrito, calculando o tempo de que necessitaria para o ler. - Quatro? Essa hora est bem para ti? - Perfeitamente - respondi, pensando no curioso Brad Dolan. A essa 
hora j ele teria largado o servio. A Elaine estendeu a mo e deu-me um pequeno aperto no brao num gesto caloroso, afastando-se em direco ao seu quarto. Deixei-me 
ficar no mesmo lugar por breves momentos, baixando o olhar at  mesa, como se s ento compreendesse que se encontrava de novo vazia, com excepo do tabuleiro 
com o pequeno-almoo que a Elaine me trouxera nessa manh. No sei porqu, mas era-me difcil acreditar que j estivesse despachado.., e uma vez que tudo o que eu 
escrevera tinha sido depois de ter registado a execuo do John Coffey e entregue o ltimo conjunto de pginas  Elaine,  claro que ainda no estava despachado. 
E at mesmo ento, parte de mim sabia por que razo. Alabama. 424 Agarrei no ltimo pedao de torrada j fri
 a que se encontrava no tabuleiro e desci as escadas, dirigindo-me ao campo de jogos. Ali chegado, sentei-me ao sol, vi meia dzia de casais e depois um quarteto 
que caminhava num passo lento mas animado, acenando com os maos de croquet, e embrenhei-me nos meus pensamentos

de homem idoso, deixando que os raios solares aquecessem os meus ossos j velhos. Por volta das duas e quarenta e cinco, as pessoas que trabalhariam no turno das 
trs s onze comearam a chegar, vindas do parque de estacionamento; s trs da tarde, os que trabalhavam no turno da manh comearam a sair. A maioria saa em grupos; 
todavia, o Brad Dolan, reparei eu, caminhava sozinho. Para mim, aquela foi uma viso que me deixou satisfeito; ao fim e ao cabo, talvez o mundo ainda no se encontrasse 
completamente  beira do inferno. Um dos seus livros de piadas saa-lhe pela parte de cima do bolso de trs das calas. O caminho que leva ao parque de estacionamento 
atravessa o campo de Jogos, pelo que ele me viu ali, mas no me mimoseou nem com uma expresso de repreenso nem com um acenar da mo, o que no me incomodou minimamente. 
Entrou no seu velho Chevrolet, com o autocolante no pra-choques que dizia: "Eu vi DEUS E O SEU NOME  NEWT."
  Pouco depois j ele tinha partido para onde quer que costumava ir quando no estava a trabalhar ali, deixando atrs de si um rasto fino de leo. Por volta das 
quatro horas, a Elaine veio ter comigo, tal e qual como havia prometido. A julgar pela expresso do seu olhar, havia chorado um pouco mais. Colocou os braos  minha 
volta e deu-me um abrao apertado. - Pobre John Coffey - disse ela. - E, tambm, pobre Paul Edgecombe. Pobre Paul, ouvi a voz de Jan a dizer. Pobre homem. A Elaine 
recomeou a chorar uma vez mais. Tomei-a nos meus braos, ali, no campo de jogos banhado pelos ltimos raios de sol daquele fim de tarde. As nossas sombras pareciam 
danar. Talvez no Salo de Baile das Iluses, o programa que costumvamos ouvir no rdio nesses tempos de outrora. Ao fim de algum tempo, ela conseguiu recompor-se,. 
afastando-se de mim. Encontrou um leno de papel na algibeira da blusa com que limpou os olhos marejados de lgrimas. - O que 
 que aconteceu  mulher do director da priso, Paul? O que  que sucedeu  Melly? - 425 - Foi considerada a maravilha da sua era, pelo menos no que dizia respeito 
aos mdicos do hospital de Indianola . respondi. Dei-lhe o brao e comemos a andar na direco da vereda que saa do parque de estacionamento, entrando no bosque. 
A caminho do barraco prximo do muro existente entre Georgia Pines e o mundo da gente mais jovem. - Ela morreu... de um ataque cardaco e no de um tumor no crebro, 
dez ou onze anos mais tarde. Parece-me que foi em quarenta e trs. O Hal faleceu de uma trombose por alturas do ataque a Pearl Harbor...  possvel que tenha sido 
mesmo no dia de Pearl Harbor, tanto quanto me  dado recordar, o que significa que ela lhe sobremveu por dois anos. O que at certo ponto  uma ironia. - E quanto 
 Janice? - Hoje no estou muito preparado para abordar esse assunto - disse eu. - Falarte-ei disso noutra ocasio. - P
 rometes? - perguntou a Elaine. - Prometo. - Mas foi uma promessa que eu nunca cheguei a cumprir. Trs meses depois do dia em que caminhmos juntos at ao arvoredo 
(eu ter-lhe-ia dado a mo, no fora o receio que sentia em lhe magoar os dedos enodados e inchados), a Elaine Connelly morreu tranquilamente na sua cama. Tal como 
acontecera  Melinda Moores, a sua morte foi provocada por um ataque cardaco. O auxiliar de enfermagem que a encontrou morta disse que ela tinha uma expresso serena, 
como se a morte houvesse chegado inesperadamente, sem lhe ter causado grande sofrimento. Espero que ele tenha tido razo quanto a isso. Eu amava a Elaine. Sinto 
muito a falta dela. Dela, da Janice e do Brutal, assim como de quase todos eles. Chegmos ao segundo barraco  beira do caminho, o que se encontrava mais prximo 
do muro. Situava-se por detrs de uma espcie de abrigo formado por uns pinheiros enfezados; o tecto, que tinha cedido, e as janelas entaipad
 as estavam mosqueados de sombras. Dirigi-me para o barraco. A Elaine ficou para trs por um momento, mostrando-se receosa. - No tenhas medo - disse-lhe eu. - 
A srio. Podes vir  vontade.

A porta no tinha trinco - este existira em tempos, mas entretanto fora arrancado - pelo que eu usava um bocado de carto dobrado para poder mant-la fechada. Abri-a 
e entrei no barraco. Deixei a porta toda aberta para trs, uma vez que no interior fazia escuro. 426 - Paul, o que  que?... Oh! Oh! - Aquele segundo "oh" tinha 
sido quase um grito. Uma mesa fora afastada para um dos lados. Sobre o seu tampo estava uma lanterna e um saco de papel castanho. No cho de terra batida encontrava-se 
uma caixa de charutos Hav-A-Tampa, que eu obtivera do empregado da empresa que tem a concesso das mquinas de refrigerantes e de doces do lar. Tinha-lhe pedido 
aquela caixa muito em especial, uma vez que a empresa em que ele trabalhava tambm comercializava produtos tabaqueiros, pelo que ele no teve qualquer dificuldade 
em satisfazer o meu pedido. fereci-me para lha pagar - na altura em que eu trabalhara em Cold Mountain aquele gnero de artigo tinha muito valo
 r, tal como possivelmente j vos disse - mas ele limitou-se a rir perante a minha oferta. A espreitar pela berma da caixa, viam-se dois olhinhos vivos, negros como 
contas. -Mister Jingles - chamei~em voz baixa. - Vem at aqui. Vem c, meu velho, vem ver esta senhora. Agachei-me - as articulaes doeram-me, mas com algum esforo 
consegui baixar-me - e estendi a mo. De incio no pensei que desta vez ele fosse capaz de sair do bordo da caixa, mas, com um impulso final, foi bem sucedido. 
Tombou no cho de lado, e l se ps de p, aproximando-se. Corria com um ligeiro coxear numa das patas traseiras; a leso que o Percy lhe infligira tinha-se acentuado 
nos anos de velhice do Mister Jingles. Os seus anos de velhice, velhice. Com a excepo da regio superior da cabea e a ponta da cauda, todos os seus plos haviam 
ficado completamente grisalhos. Deu um salto para a palma da minha mo. Ergui-o e ele comeou a esticar o pescoo, a fareja
 r o meu bafo com as orelhas inclinadas para trs, mostrando uma expresso vida nos seus pequenssimos olhos negros e cintilantes. Estendi a mo na direco da 
Elaine, que olhava, estupefacta, para o rato, e os lbios entreabertos. - No pode ser! - exclamou ela, erguendo os olhos para mim. - Oh, Paul, no ... no pode 
ser! - Observa - disse-lhe eu -, e depois diz-me isso. Do saco que se encontrava sobre a mesa retirei um carretel que eu prprio havia colorido - no com lpis de 
cera, mas sim com canetas de feltro, uma inveno com que nem - 427 sequer se sonhava em 1932. No entanto, o resultado final era rigorosamente o mesmo. As cores 
eram to garridas como tinham sido as do Del, talvez mesmo mais vivas. Messieurs et mesdames, pensei. Bienvenue au cirque du mousie! Agachei-me de novo e o Mister 
Jingles correu para fora da palma da minha mo. Estava velho, apesar de se mostrar to obcecadamente empenhado como sempre. Desde o mo mento
  em que eu tirara o carretel do interior do saco, deixara de ter olhos para mais o que quer que fosse. Fi-lo rolar pelo cho irregular do barraco e, de imediato, 
ele correu atrs do carretel. A sua corrida no tinha a mesma velocidade de antigamente, e o seu coxear era, at certo ponto, doloroso de observar, mas por que motivo 
 que naquela altura ele deveria ter sido veloz ou firme na sua corrida? Tal como eu j disse, ele era velho, um verdadeiro Matusalm dos ratos. Tinha, no mnimo 
dos mnimos, sessenta e quatro anos de idade. Alcanou o carretel que batera contra a parede mais afastada, fazendo ricochete. Contornou-o e ficou deitado sobre 
um dos flancos. A Elaine fez meno de avanar, mas eu con tive-lhe o movimento. Momentos depois, o Mister Jingles conseguiu pr-se de p uma vez mais. Devagar, 
muito devagar comeou a empurrar o carretel na minha direco, servindo-se do focinho. Quando ele tinha chegado - eu encontrara-o cado
  nos degraus que do para a cozinha exctamente dessa mesma maneira, como se houvesse viajado durante uma longa distncia e se sentisse exausto - ainda era capaz 
de conduzir o carretel com as patas,  semelhana do que fizera havia

tantos anos pela Milha Verde. No entanto, agora isso encontrava-se para l das suas foras; as suas patas posteriores j no conseguiam suport-lo. No entanto, o 
seu focinho continuava to experiente e capaz como sempre o fora. Tinha apenas de ir de um extremo ao outro do carretel, a fim de o manter em movimento pela rota 
certa. Quando chegou junto de mim, peguei-lhe com uma mo - o seu peso no era maior do que o de uma pena - e com a outra peguei no carretel. Os seus olhos negros 
e cintilantes nunca o largaram. - No faas isso outra vez, Paul - pediu-me a Elaine numa voz embargada. - No consigo suportar v-lo a correr. Compreendi o que 
ela sentia, mas pensei que estava enganada ao pedir-me aquilo. O rato adorava correr para ir buscar o carretel; decorridos tantos anos, continuava a gostar tanto 
de fazer aquilo como sempre. Todos ns deveramos ser to afortunados em relao s nossas paixes. 428 No saco tambm h rebuados de h
 ortel-pimenta - acrescentei. - Imagino que ele continue a gostar deles... no pra de farejar se eu lhe chegar um deles ao focinho, mas o seu aparelho digestivo 
deteriorou-se demasiado para conseguir com-los. Em vez disso, costumo trazer-lhe pedaos de torrada. Agachei-me de novo, parti um bocado pequeno da que trouxera 
comigo do solrio, colocando-o no cho. O Mister Jingles farejou o po e em seguida agarrou-o com as patas, comeando a comer a torrada. Tinha a cauda em espiral 
enrolada  volta do corpo. Acabou de comer e soergueu o olhar numa expresso de expectativa. - Por vezes, ns os velhos podemos surpreender os outros com o nosso 
apetite disse eu  Elaine, entregando-lhe o que restava da torrada. - Experimenta tu. Ela partiu outro bocadinho, deixando-o cair no cho. O Mister Jingles aproximouse 
e comeou a farej-lo, olhou para a Elaine... em seguida agarrou no po e comeou a com-lo. - Ests a ver? - perguntei. - Ele sabe q
 ue tu no s uma temporria. - De onde  que ele veio, Paul? - No fao a mais pequena ideia. Um dia, quando sa para dar o meu passeio matinal, dei com ele estendido 
nos degraus da cozinha. No tive a mnima dvida de quem ele era, mas para ter a certeza absoluta fui buscar um carretel  caixa de costura da lavandaria. Em seguida, 
arranjei a caixa de charutos. Forrei-a com o material mais macio que consegui encontrar. Estou convencido de que ele  exactamente como ns, Ellie... tem dias em 
que  um completo sofrimento. Ainda assim, no perdeu a vontade de viver. Continua a gostar do carretel e de receber a visita do seu velho companheiro de bloco. 
Ao longo de sessenta anos guardei a histria do John Coffey dentro de mim, mais de sessenta, e agora finalmente passei-a a papel. Fiquei com a ideia de que foi por 
isso que ele regressou. Para que eu soubesse que deveria apressar-me a cont-la enquanto ainda me restava tempo para o fazer. Porque e
 u sou como ele... estou cada vez mais a chegar l. Achegar onde? - perguntou a Elaine. - Oh, sabes bem o que quero dizer - repliquei, ficando a olhar em silncio 
para o Mister Jingles por alguns momentos. Em seguida, por qualquer razo que no sei definir, voltei - 429 a lanar o carretel pelo cho, embora a Elaine me houvesse 
pedido que no voltasse a faz-lo. Talvez somente porque, de certa forma, o facto de ele continuar a ir atrs do carretel era como as pessoas de idade levarem a 
cabo a sua verso lenta e cautelosa da actividade sexual -  possvel que voc no queira observar, voc que  jovem e est convencido de que, quando chegar a velho, 
ser aberta uma excepo no seu caso, mas o certo  que elas continuam a querer ter essa actividade. O Mister Jingles foi de novo a correr atrs do carretel em movimento, 
e era evidente que sofria, mas tambm era evidente (pelo menos, na minha opinio) que sentia a mesma satisfa
 o obsessiva de outros tempos. - Janelas de folha de mica - murmurou a Elaine, observando o rato na sua corrida. - Janelas de folha de mica - concordei, esboando 
um sorriso.

- O John Coffey tocou no rato da mesma maneira que te tocou a ti. No se limitou a fazer com que ficasses melhor da doena que te afligia ento, ele tornou-te... 
o qu, ser resistente? - Essa  uma palavra to boa como qualquer outra, acho eu. - Resistente aos factores que acabam por derrubar o resto de ns, abatendo-nos 
como rvores infiltradas por trmitas. Tu... e ele. O Mister Jingles. Quando agarrou nele com as suas mos. - Foi isso exactamente. O poder que se manifestava atravs 
do John teve esse efeito, pelo menos,  essa a minha opinio, e agora, ele est finalmente a dissipar-se. As trmitas abriram caminho atravs da casca do nosso tronco. 
Foi necessrio um pouco mais de tempo do que o habitual, mas ainda assim chegaram l.  possvel que ainda me restem mais alguns anos, os homens ainda vivem mais 
tempo do que os ratos, calculo eu, mas o tempo do Mister Jingles est rapidamente a aprximar-se do fim. Entretanto, o rato
  chegou junto do carretel, coxeou  volta dele, caiu de lado com a respirao acelerada (conseguamos ver o ritmo da sua respirao atravs dos plos acinzentados, 
em movimentos que se assemelhavam a uma ondulao suave) e em seguida levantouse e comeou a empurr-lo corajosamente com o focinho. Os seus plos estavam quase 
todos grisalhos e a sua postura era pouco firme, mas as contas ne 430 gras e cintilantes que eram os~seus olhos continuavam to brilhantes como sempre. - Achas que 
ele desejava que tu escrevesses o que escreveste - disse a Elaine. No  verdade, Paul? - No o Mister Jingles - retorqui. - No foi ele, mas sim a fora que... 
- Mas o que  isto, Paulie! E a Elaine Connelly tambm!!! - gritou uma voz vinda da porta aberta. Estava trespassada de uma espcie de horror satrico. - Mal posso 
acreditar no que os meus olhos esto a ver! Em nome de Deus, o que  que vocs dois podero estar a fazer num lugar deste
 s? Voltei-me, sem me sentir minimamente surpreendido por deparar com o Brad Dolan  entrada do barraco. Exibia um esgar sorridente, daqueles que s  exibido por 
algum que sabe que nos enganou muito bem enganados. Que distncia  que ele teria percorrido no automvel, depois de o turno ter terminado? Possivelmente, s at 
ao The Wrangler, onde tomou uma ou duas cervejas antes de regressar ao lar. - Ponha-se na rua - disse-lhe a Elaine com grande frieza. - Ponha-se na rua imediatamente. 
- No me diga para me pr na rua, sua velha cabra engelhada - redarguiu ele, continuando a sorrir. - Talvez possa dizer-me isso l em cima, na colina, mas acontece 
que agora no  l que se encontra. Tambm no  aqui que devia estar. Isto fica fora dos limites do lar. Um pequeno ninho de amor, Paulie?  para isso que vens 
at aqui? Uma espcie de antro da Playboy para os da terceira idade... - Os seus olhos arregalaram-se quando finalmente viram o
  ocupante do barraco. Mas que merda vem a ser esta? No me voltei para ver. Por um lado, sabia o que estava ali; por outro, o passado havia-se subitamente sobreposto 
ao presente, produzindo uma imagem terrvel que, em toda a sua realidade, adquirira propores tridimensionais. No era o Brad Dolan quem se encontrava ali na ombreira 
da porta, mas sim o Percy Wetmore. Dali a um momento, entraria no barraco num passo apressado para espezinhar o Mister Jingles (que j no tinha a mnima esperana 
de conseguir fugir-lhe) sob o seu sapato de sola dura. E desta feita no havia nenhum John Coffey que o fizesse reviver, arrancando-o das vascas da morte. Da mesma 
maneira que no houvera nenhum John Coffey quando eu precisei dele naquele dia chuvoso em Alabama. 431 Pus-me de p e desta vez no senti qualquer dor nas articulaes 
nem to-pouco nos msculos; apressadamente, dirigi-me para o Dolan. - Deixa-o em paz e sossego! - gritei-lhe. - Vais de
 ix-lo em paz, Percy, ou eu...

- A quem  que ests a chamar Percy? - perguntou ele empurrando-me para trs com tamanha violncia que estive prestes a cair. A Elaine agarrou-me, embora lhe devesse 
ter dodo fazer isso, conseguindo evitar que eu perdesse o equilbrio. - E tambm no  a primeira vez que me chamas esse nome. E pra de mijar nas calas. No tenciono 
tocar-lhe. No h necessidade. Esse roedor j est morto. Virei-me para trs, convencido de que o Mister Jingles s estava deitado de lado para recuperar o flego, 
tal como costumava fazer. No havia dvida de que estava realmente dei tado de lado; todavia, aquela ondulao que se vira sob a pelagem deixara de se ver. Tentei 
convencer-me de que ainda conseguia detect-la, mas foi ento que a Elaine desatou a chorar num pranto desabalado. Baixou-se, sendo evidente que o movimento a fazia 
sofrer, e pegou no rato que eu tinha visto pela primeira vez na Milha Verde a dirigir-se para a mesa do guarda de
  servio todo destemido, como um homem que se aproximasse dos seus pares... ou dos seus amigos. O rato estava inerte na sua mo. Os seus olhos eram opacos e sem 
expresso. Tinha morrido. O Dolan fez uma careta desagradvel, revelando uns dentes que nunca haviam sido observados por um dentista. - Cruzes, canhoto! O que  
que temos aqui? perguntou ele. - Ser que acabmos de perder o animal de estimao da famlia? Devemos organizar um pequeno funeral, com flores de papel e... - CALE 
A BOCA! - vociferou a Elaine, numa voz to elevada e vigorosa que ele retrocedeu um passo, com o esgar sorridente a abandonar-lhe os lbios. - PONHASE DAQUI PARA 
FORA! SAIA IMEDIATAMENTE OU GARANTO-LHE QUE NUNCA MAIS TRABALHAR UM S DIA AQUI! NEM SEQUER UMA HORA! JURO-LHE QUE ISSO ACONTECER! - Nem sequer te daro uma fatia 
de po na fila para a sopa dos pobres - disse eu, mas numa voz to baixa que nenhum dos dois me ouviu. No conseguia desviar os olhos do
 corpo do Mister Jingles, deitado em cima da palma da mo da Elaine, como se fosse o mais nfimo tapete do mundo feito de pele de animal. 432

O Brad pensou em responder-lhe na mesma moeda, pondo a descoberto o seu bluff ele tinha razo, no se podia dizer que o barraco fosse territrio aprovado para os 
residen tes de Georgia Pines, at eu mesmo estava a par disso - mas optou por no o fazer. Bem l no fundo, o homem no passava de um cobarde, tal como o Percy. 
E o mais provvel era ele j ter investigado se o neto da Elaine era ou no uma Pessoa Importante. Mas, possivelmente, mais do que tudo, a sua curiosidade fora satisfeita, 
o que mitigara a sua sede de descobrir algo que desconhecia. E depois de tantas interrogaes da sua parte, verificara que o mistrio no tinha nada de especial. 
Aparentemente, era apenas o animal de estimao de um homem idoso, que estivera a viver no barraco. Agora havia ido desta para melhor, sofrera um ataque de corao 
ou qualquer coisa do gnero enquanto empurrava um carretel colorido. - No compreendo por que razo  que est to
 triste - disse o Brad Dolan. - Nem tu, Paulie. Esto a reagir como se fosse um co ou qualquer animal assim. - V-se embora - ripostou a Elaine com desdm. - Ponha-se 
na rua, seu ignorante. O pouco crebro com que foi dotado  sinistro e tortuoso. O Dolan, com uma expresso obtusa, corou; as marcas das suas borbulhas dos tempos 
de liceu encheram-se de um avermelhado mais acentuado. Pela aparncia da sua pele, tinha havido uma grande quantidade de borbulhas... - Eu vou - disse ele -, mas 
quando amanh c vieres... Paulie... encontrars um cadeado nesta porta. Este lugar encontra-se fora da zona permitida aos residentes, independentemente daquilo 
que a senhora "A Minha Merda no Fede" tenha a dizer a meu respeito. Olhem para o cho! As tbuas esto todas podres e soltas! Se enfiar a sua velha perna escanzelada 
num desses buracos, ela quebrarse- como um galho ressequido. Portanto, agarrem no vosso rato morto, isto

, se desejarem lev-lo convosco, e ponham-se a andar daqui para fora. A partir deste momento, o Barraco do Amor vai ficar encerrado. Depois daquelas palavras, 
deu meia volta e saiu porta fora com a expresso de um homem que acredita ter ganho, pelo menos, uma vaza. Esperei que ele tivesse desaparecido e de pois, com toda 
a suavidade, agarrei no Mister Jingles que continuava na mo da Elaine. O meu olhar foi por acaso para o saco com os rebuados de hortelpimenta, e isso bastou - 
senti os olhos alagados de lgrimas. No sei porqu, mas nos dias que correm choro com muito mais facilidade. 433 - Ests disposta a ajudar-me a enterrar um velho 
amigo? - perguntei  Elaine, quando os passos pesados do Brad Dolan j s se ouviam muito vagamente  distncia. - Sim, Paul. - Passou um brao em redor da minha 
cintura e encostou a cabea ao meu ombro. Com um dedo envelhecido e contorcido acariciou o flanco inerte do Mister Jingles. - Com todo o gosto
 . E assim fomos buscar um ancinho ao barraco onde guardavam os utenslios de jardinagem e enterrmos o animal de estimao do Del, enquanto as sombras se projectavam 
alon gadas por entre as rvores. Depois de terminarmos aquela tarefa, regressmos para jantar e dar seguimento ao que restava das nossas vidas. E foi no Delacroix 
que dei comigo a pensar, no Del ajoelhado sobre a carpete esverdeada do meu gabinete, com as mos unidas e a parte de cima da cabea calva a brilhar sob a luz do 
candeeiro de tecto, no Del que nos pedira que olhssemos pelo Mister Jingles, para que nos assegurssemos de que o "homem mau no lhe fazia mais mal". S que o homem 
mau acaba sempre por nos fazer mal, no  verdade? - Paul? - chamou a Elaine. A sua voz tinha tanto de ternura como de cansao. Imagino que at mesmo cavar uma sepultura 
com um ancinho, e colocar um rato no seu interior,  muita excitao para um par de velhotes como ns. - Ests bem? E
 u colocara o meu brao em redor da sua cintura. Apertei. - Estou ptimo repliquei. - Olha - disse ela. - Vai ser um pr do Sol maravilhoso. Queres ficar c fora 
para podermos v-lo? - De acordo - anu, e ali ficmos no relvado durante algum tempo, com os braos  volta da cintura um do outro, a observar as cores vivas a 
surgirem no cu, para depois as vermos esbaterem-se em matizes de cinzento. Sainte Marie, Mre de Dieu, priez pour nous, pauvres pcheurs, maintenant et  1'heure 
de notre mort. men. 13 1956. Alabama sob a chuva. O nosso terceiro neto, uma menina maravilhosa de nome Tessa, estava prestes a licenciar-se na Universidade da 
Flori 434 da. Fizemos a viagem numa das camionetas da Greyhound.  Nessa altura eu tinha sessenta e quatro anos, era um mero rapazinho. A Jan tinha cinquenta e nove 
e era to bela como sempre fora. Pelo menos aos meus olhos. Seguamos sentados no ltimo banco, e ela no se calava porque eu no lhe tinh
 a comprado uma mquina fotogrfica nova para registar aquele acontecimento de to grande importncia. Eu ia abrir a boca para lhe dizer que teramos um dia inteiro 
para ir s compras e que ela poderia comprar a mquina nova se lhe apetecesse, uma vez que a despesa no iria afectar o nosso oramento. Estava convencido de que 
ela continuava a implicar porque j se sentia aborrecida com a viagem e no gostava do livro que trouxera. Era um Perry Mason. Foi nessa altura que tudo na minha 
mente ficou em branco por algum tempo, como a pelcula de um filme que fica exposta ao Sol.

Recordam-se desse acidente? Imagino que alguns de vs que esto a ler isto talvez se lembrem, embora a maior parte no tenha qualquer recordao. E, contudo, foi 
publicado em grandes parangonas na primeira pgina de todos os jornais de costa a costa, na altura em que ocorreu. Encontrvamo-nos nas redondezas de Birmingham, 
o dia estava chuvoso, e a Janice reclamava da mquina fotogrfica antiga, quando rebentou um pneu. A camioneta comeou a ziguezaguear de lado sobre o pavimento escorregadio 
e foi colidir lateralmente contra um camio carregado de fertilizante. O camio atirou com a camioneta contra um dos pilares de uma ponte a mais de noventa e cinco 
quilmetros por hora, tendo-se esta esmagado contra o cimento e partido ao meio. Duas partes de metal que brilhava sob a chuva derraparam em direces opostas, a 
que tinha o depsito de gasleo projectando uma bola de fogo preta e vermelha para o firmamento pardacento e chuvoso. Num determinado
  momento, a Janice queixava-se da sua velha Kodak e logo no seguinte dei comigo esparramado,  chuva a olhar para um par de cuecas de nylon azul que sara da mala 
de viagem de algum. Tinham um bordado em linha preta que dizia QUARTA-FEIRA. Por toda a parte viam-se malas abertas devido ao choque. E corpos. E membros. Dentro 
daquela camioneta seguiam setenta e trs pessoas e s quatro conseguiram sobreviver  coliso. Eu fui uma delas, e a nica que no ficou gravemente ferida. Levantei-me 
do solo e cambaleei por entre as malas aber 435 tas e os corpos destroados das pessoas enquanto gritava pelo nome da minha mulher. Dei um pontap num despertador, 
recordo-me bem de ter feito isso, tal como me recordo de ter visto o cadver de um rapazinho de treze anos estendido sobre um monte de vidros estilhaados e com 
metade do rosto completamente desfeita. Sentia a chuva a aoitar-me as faces; passei por baixo da ponte e durante algum tempo deixei de a sent
 ir. Quando sa pelo outro lado, l estava ela outra vez a bater-me contra a testa e faces. Vi a Jan estendida junto da cabina capotada e em destroos do camio 
que transportara fertilizantes. Reconheci-a pelo vestido vermelho - era o segundo melhor que possua. O melhor, como  evidente, ficara reservado para o dia da licenciatura. 
Ela ainda no estava completamente morta. Tenho pensado com bastante frequncia que teria sido prefervel - se no para ela, pelo menos para mim - que ela tivesse 
morrido imediatamente. Assim, teria sado da minha vida um pouco mais cedo, mas de uma maneira um pouco mais natural. Ou talvez eu esteja a enganar-me a mim prprio 
ao pensar assim. Tudo o que sei de certeza absoluta  que nunca a deixei partir realmente. Todo o seu corpo era percorrido por estremecimentos. Um dos sapatos descalarase, 
o que me permitia ver o p em convulso. Os seus olhos mantinham-se abertos mas sem expresso, com o esquerdo alagado de
  sangue. Quando me ajoelhei junto dela sob aquela chuva que atravessava o ar que cheirava a fumo, a nica coisa que conseguia pensar era que aquelas convulses 
no p significavam que ela estava a ser electrocutada; a Janice estava a ser electrocutada e eu tinha de mandar parar o accionamento da alavanca, antes que fosse 
demasiado tarde. - Ajudem-me! - gritei eu. - Algum que me ajude! Socorro! Ningum correu em meu auxlio, ningum se aproximou. A chuva continuava a cair cada vez 
mais forte - em btegas, uma chuva que encharcava tudo e todos e que me colava os cabelos ainda negros ao crnio - enquanto eu a mantinha nos meus braos, esperando 
em vo por algum que nunca chegou. Os seus olhos sem expresso pareciam erguer-se para mim com uma espcie de aturdimento cheio de intensidade, ao mesmo tempo que 
o sangue jorrava em torrente da regio posterior da cabea esmagada. Ao lado de uma mo tremente, 436 percorrida por espasmos, encontrava-se
 um bocado de ao cromado onde se via inscrita a palavra cnEY. Junto disso havia mais ou menos um quarto daquilo que em tempos fora um homem de negcios com um fato 
castanho de l. - Socorro! - gritei de novo, voltando-me na direco da ponte, e vi o John Coffey no meio das sombras, ele prprio uma mera sombra, um homem corpulento 
e calvo. -

John! - gritei, - Oh, John, por favor ajuda-me! Por favor, ajuda a Janice! A chuva continuava a cair-me sobre os olhos. Pestanejei para a afastar e ele desapareceu. 
Via as sombras que tinha confundido com a imagem do John... mas eu sabia que no haviam sido somente sombras. Tenho a certeza disso. Ele estivera ali. Talvez apenas 
sob a forma de fantasma, mas o certo  que tinha estado ali, com a chuva a bater-lhe nas faces e misturando-se com as suas lgrimas infindveis. Ela morreu nos meus 
braos, ali,  chuva, prximo daquele camio de fertilizante, com o cheiro de gasleo queimado a entrar-me pelas narinas. No houve um nico momento de conscincia 
- de olhos que mostrassem qualquer expresso de percepo, de lbios a moverem-se para murmurar uma derradeira declarao de amor. Senti uma espcie de estremecimento 
a apoderar-se da carne sob as minhas mos, e ento ela apagou-se. Pela primeira vez em muitos anos, ocorreu-me a imagem da
  Melinda Moores, a Melinda sentada na cama onde todos os mdicos do Hospital Geral de Indianola tinham acreditado que ela se encontrava prestes a morrer; a Melinda 
Moores com um aspecto cheio de frescura e descansado, olhando para o John Coffey com uns olhos vivos e interrogadores. A Melinda a dizer: Sonhei que andavas perdido 
na escurido, tal como eu. Encontrmo-nos. Pousei a cabea destroada da minha pobre mulher no pavimento molhado da autoestrada interestadual, levantei-me (o que 
no exigiu grande esforo; tinha apenas um pequeno lanho na mo esquerda, no tendo sofrido mais ferimento nenhum), e comecei a gritar pelo nome dele, dirigindo-me 
s trevas existentes debaixo do viaduto. -JOhn! JOHN COFFEY! ONDE  QUE ESTS, MATULO Caminhei para as sombras, dando um pontap a um urso de peluche ensanguentado 
para o afastar do meu caminho, fazendo o mesmo a uns culos com armao de metal com uma das lentes estilhaada, a uma mo decepada
  que tinha um anel com uma granada no dedo mindinho. 437 - Salvaste a vida da mulher do Hal, porque no fazes o mesmo  minha mulher? Porque no a Janice? PORQUE 
NO  MINHA JANICE? No obtive qualquer resposta; apenas o cheiro a gasleo queimado e a corpos que ardiam, apenas o rudo da chuva que caa incessantemente vinda 
de um cu pardacento, tam borilando no asfalto enquanto a minha mulher se encontrava morta, estendida ao meu lado na estrada. No houve resposta ento, tal como 
no h agora. Mas  claro que no foi apenas a Melly Moores que o John Coffey salvou em 1932, nem o rato do Del, aquele que sabia fazer aquela habilidade to engraada 
com o carretel, e que parecera ter andado  procura do Del muito antes de este ter aparecido... de facto, muito antes de o John Coffey tambm ter aparecido. O John 
tambm me salvou e, anos mais tarde, de p sob a chuva que caa em btegas sobre Alabama, enquanto procurava um homem que n
o se encontrava presente entre as som bras debaixo da ponte, no meio da bagagem espalhada por todo o lado e dos corpos sem vida, fiquei ciente de uma coisa terrvel: 
por vezes no existe diferena absolutamente nenhuma entre a salvao e a danao. Em simultneo, sentira uma e outra a invadirem-me quando estivramos sentados 
lado a lado na sua tarimba - a 18 de Novembro de 1932. A jorrar do corpo dele para penetrar no meu, fosse qual fosse a estranha fora que ele possua, a passar atravs 
das nossas mos unidas, de uma maneira que o amor e a esperana que albergamos, assim como as boas intenes, nunca conseguem; uma sensao que comeou por um formigueiro 
e que depois veio a transformar-se em algo imenso, com as propores de uma mar, uma fora muito alm de qualquer outra coisa que eu tenha sentido anteriormente 
ou de ento para c. Desde esse dia, nunca mais sofri de pneumonias ou gripes, ou mesmo de qualquer infec E7o na garganta. Nunca mais voltei a ter uma infeco 
urinria e nem sequer um corte que tenha infectado. Tive algumas constipaes, apesar de estas terem sido muito pouco frequentes intercaladas por perodos de seis 
ou sete anos - e, embora as pessoas que no sofrem de constipaes sejam frequentemente consideradas atreitas a outros males

maiores, esse nunca foi o meu caso. Numa ocasio, no incio daquele ano horroroso de 1956, expulsei um clculo biliar. Embora possa parecer estranho a alguns dos 
que esto a ler esta narrativa 438 apesar de tudo o que eu j disse, parte de mim regozijou-se com a dor que acompanhou a passagem do clculo biliar. Foi a nica 
dor sria que senti desde o problema com a minha canalizao, que a antecedeu vinte e quatro anos. Os males que tm ceifado a vida dos meus amigos, assim como as 
dos entes queridos da mesma gerao, at no me restar ningum - as tromboses, os cancros, os ataques cardacos, as doenas do fgado, as doenas do sangue - todos 
esses males nunca me afectaram, desviaram-se, evitando-me, da mesma maneira que um homem que conduz um automvel se desvia para evitar colidir com um veado ou um 
guaxinim que se atravessem na estrada. O nico acidente grave em que estive envolvido deixou-me inclume, exceptuando um corte numa
 das mos. Em 1932, o John Coffey inoculou-me com a vida. Electrocutou-me com a vida, poder-se-ia dizer. Em ltima anlise, acabarei por vir a falecer - como  evidente, 
tal ser inevitvel; quaisquer iluses que eu possa ter acalentado sobre a imortalidade morreram com o Mister Jingles - mas o certo  que j terei desejado a morte 
muitas vezes antes de ela se decidir a vir buscar-me. Verdade seja dita que tenho vindo a desej-la desde o falecimento da Elaine Connelly. Era necessrio dizer-vos 
isto? Passo em revista estas pginas, folheando-as com as minhas mos trementes de pele manchada pela velhice, perguntando a mim mesmo se estas palavras tero algum 
significado,  semelhana daquilo que se passa com esses livros que, supostamente, servem para nos enobrecer e levantar o moral. Recuo no tempo e penso nos sermes 
da minha infncia, afirmaes troantes na Igreja do Jesus Seja Louvado, o Senhor  Todo-Poderoso, e recordo-me de como o
 s pregadores costumavam dizer que ao olho de Deus no escapa nada, que Ele v e assinala at a mais nfima das Suas criaes. Sempre que penso no Mister Jingles, 
e nas pequenas lascas de madeira que encontrmos no orifcio da trave, conveno-me de que de facto as coisas so assim mesmo. E todavia, este mesmo Deus sacrificou 
a vida do John Coffey, o qual s tentou fazer o bem, conquanto o fizesse  sua maneira um tanto ignorante, com a mesma ferocidade com que qualquer profeta do Antigo 
Testamento alguma vez sacrificou um cordeiro indefeso... Tal como Abrao teria sacrificado o seu prprio filho, se realmente tal lhe tivesse sido exigido. Penso 
no John a dizer que o Wharton matou as gmeas Detterick com o amor que estas 439 nutriam uma pela outra, e que isso acontecia todos os dias, em todas as partes do 
mundo. Se tal acontece de facto,  Deus que permite que isso suceda, e quando ns dizemos: "No compreendo", Deus responde: "No Me inte
 ressa." Penso no Mister Jingles a morrer, numa altura em que eu estava de costas voltadas para ele, concentrado num homem de mau carcter, cuja emoo mais exaltada 
parecia traduzir -se numa espcie de curiosidade vingativa. Penso na Janice, com o corpo percorrido por espasmos durante os seus ltimos segundos de vida, enquanto 
eu me ajoelhava ao seu lado sob a chuva que caa. Pra com isso, tentei eu dizer ao John nesse dia na sua cela. Larga as minhas mos, eu afogo-me se o no fizeres. 
Afogo-me ou expludo. - No vai explodir - respondera-me ele, ouvindo o meu pensamento e sorrindo perante aquela ideia. E a coisa mais terrvel  que isso no aconteceu. 
No explodi. Pelo menos sofro de um mal caracterstico da velhice: tenho insnias. J noite adentro costumo ficar deitado na minha cama, escutando os sons mortios 
e desesperados dos homens e mulheres enfermos que, sentindo-se acossados, vo penetrando cada vez mais nas suas velhices. Por
  vezes ouo o som de uma campainha a chamar, ou o ranger de um sapato no corredor, ou ainda o pequeno televisor de Mrs. Javits sintonizado nas ltimas notcias. 
Permaneo deitado e, se a Lua puder ser vista da minha janela, fico a observ-la. Ali fico a pensar no Brutal e no Dean, por vezes at mesmo no William Wharton a 
dizer:  isso mesmo, negro, to mau quanto possas imaginar. Penso no Delacroix a dizer: Veja isto, chefe Edgecombe, ensinei ao Mister

Jingles uma nova habilidade. Penso na Elaine  porta do solrio, dizendo ao Brad Dalon que me deixe em paz e sossego. Por vezes passo pelas brasas e vejo a ponte 
sob a chuva, onde o John Coffey se encontra envolto em sombras. Nunca se trata apenas de uma partida que a viso me prega nestes pequenos sonhos; sem dvida que 
ele est sempre presente, o matulo, que est ali a observar. Fico deitado e aguardo. Penso na Janice, na forma como a perdi, de como ela fugiu ensanguentada atravs 
dos meus dedos, ali,  chuva... e espero. Todos ns temos uma morte, no existem excepes, eu sei que assim , mas, por vezes, meu Deus, a Milha Verde  to longa. 
440 POSFCIO DO AUTOR No me parece que deseje escrever outro livro em fascculos (se no houvesse mais razo nenhuma, apenas porque assim os crticos tm oportunidade 
de nos desancar seis vezes, em vez de uma s); no entanto, no teria deixado passar esta experincia por nada deste
 mundo. Enquanto escrevo este posfcio no dia anterior  publicao da Parte Dois de  espera de Um Milagre - The Green Mile, a experincia da edio sob a forma 
de fascculos d a impresso de ser um xito, pelo menos em termos de vendas. Por esse motivo, Leitor Constante, desejo agradecer-lhe. E uma coisa um tudo-nada diferente 
consegue talvez despertar-nos um pouco - permite-nos ter uma nova perspectiva em relao  velha actividade que  a narrao de histrias. Seja como for, foi isso 
o que se passou comigo. Escrevi apressadamente porque o formato da publicao assim o exigia. Isso fez parte do sentimento de exaltao, mas, por outro lado, tambm 
 possvel que tenha dado origem a um certo nmero de anacronismos. Os guardas e os prisioneiros ouvem o programa Allen's Alley no rdio existente no Bloco E, embora 
eu duvide muito que o Fred Allen tivesse esse programa no ar em 1932. O mesmo poder ser dito em rela=E
 3o ao Kollege of Musical Knowledge de Kay Kyser. Isto no serve para me livrar das inconsistncias, mas por vezes tenho a impresso de que a histria, que ainda 
to recentemente se limitava a pairar no horizonte,  mais difcil de pesquisar do que a Idade Mdia ou a poca das cruzadas. Fui capaz de concluir que o Brutal 
pode efctivamente ter dado ao rato que apareceu na Milha o nome de Steamboat Wlly - o desenho animado da Disney j existia h quase quatro anos por essa altura 
- mas tenho uma certa desconfiana de 441 que o pequeno livro pornogrfico aos quadradinhos com o Popeye e a Olvia Palito  um produto posterior.  possvel que 
eu lime algumas destas arestas quando me decidir a corrigir  espera de Um Milagre - The Green Mil num s volume... mas talvez acabe por deixar ficar os disparates. 
Ao fim e ao cabo, no  verdade que o prprio Shakespeare incluiu em Jlio Csar o anacronismo de um relgio a bater as h
 oras, muito antes de os relgios mecnicos terem sido inventados? Compilar  espera de Um Milagre - The Green Mile num s volume apresentaria os seus desafios muito 
singulares, e j cheguei a essa concluso em parte porque o livro no poderia ser publicado da mesma forma como foi editado em fascculos. Como me servi do Charles 
Dickens como modelo, perguntei a vrias pessoas como  que o Dickens teria resolvido o problema de refrescar a memria dos seus leitores, no incio de cada um dos 
novos episdios. Tinha esperado algo dentro dos moldes da sinopse que precedera cada um dos suplementos das sries do meu to querido Saturday Evening Post, tendo 
vindo a descobrir que o Dickens no havia sido to frontal: ele inseria a sinopse no contexto da prpria narrativa. Enquanto eu decidia como  que haveria de abordar 
este aspecto, a minha mulher comeou a dizer-me (ela no  exactamente uma rezingona, mas por vezes  capaz de advogar de
 forma bastante implacvel) que eu nunca tinha chegado a terminar a histria do Mister Jingles, o rato do circo. Conclu que ela tinha razo e comecei por compreender 
que, ao fazer do Mister Jingles um segredo do Paul Edgecombe ao longo da sua velhice, poderia criar uma "histria principal" bastante interessante. (O resultado 
 um pouco como a forma que foi assumida na verso do filme As Mulheres do Sul.) De facto, tudo o que existe na histria principal do Paul - a histria da sua vida 
no lar de Georgia Pines - veio a deixar-me

satisfeito. Muito em particular, agradou-me a maneira como o Dolan, o auxiliar do lar, e o Percy Wetmore assumiram quase a mesma identidade na mente do Paul. E isso 
no foi algo que eu tivesse planeado ou que houvesse feito de propsito;  semelhana dos trabalhos de fico mais bem conseguidos, a pouco e pouco os elementos 
foram-se enquadrando nos seus devidos lugares. Quero agradecer ao Ralph Vicinanza por me ter dado em primeiro lugar a ideia da narrativa em fascculos, assim como 
a todos os meus amigos na Viking Penguin e Signet por me 442 terem dado todo o seu apoio, embora de incio se sentissem assustados de morte (todos os escritores 
so loucos e, como  evidente, eles tinham conhecimento disso). Tambm quero estender os meus agradecimentos  Marsha DeFilippo, a qual transcreveu todo um bloco 
de apontamentos cheio da minha arrevesada escrita  mo, sem nunca se ter queixado. Bem... s muito raramente  que se queixou. Mas, acima de tudo
 , desejo agradecer  minha mulher, Tabitha, que leu esta histria e disse que lhe agradava. Quase sempre, todos os escritores tm um qualquer leitor ideal em mente 
quando escrevem, penso eu, e a minha mulher  o meu. Nem sempre estamos inteiramente de acordo quando o assunto  o que cada um de ns escreve (que diabo, raramente 
estamos de acordo quando fazemos as nossas compras "em conjunto no supermercado), mas, quando ela diz que  bom, geralmente tem razo. Porque ela  uma pessoa inflexvel 
sempre que eu tento fazer batota ou encurtar caminhos; isso nunca lhe escapa. E o senhor, Leitor Constante. Tambm quero agradecer-lhe e, se tiver alguma ideia a 
respeito de  espera de Um Milagre - The Green Mile, na sua forma de volume nico, por favor no hesite em informar-me. STEPHEN KING 28 de Abril de 1996 Nova Iorque

Carla Maria Ferreira dos Mrtires 2001-11-19
